A FAMLIA FORSYTE


JOHN GALSWORTHY


Segundo Volume - No Tribunal


Coleco Dois Mundos


Livros do Brasil


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


1 - O Proprietrio
2 - No Tribunal
3 - A Nova Gerao (Fim)


Publicado em Portugal com um sucesso sem precedentes - a primeira edio esgotada em 15 dias -, adaptado  televiso num filme que obteve o mais largo xito, este 
romance de John Galsworthy conhece, em todo o mundo, a consagrao mais alta que um escritor pode ambicionar. A distino que lhe foi concedida- o Prmio Nobel da 
Literatura- e o nmero elevado de edies que o romance tem alcanado ao longo do tempo - best-seller invisvel embora sem parangonas - fizeram de Galsworthy um 
nome de primeiro plano na literatura mundial. Acerca dele escreveu Rachel de Queiroz estas palavras de extrema lucidez: "A meu ver, a base do talento de Mr. John 
Galsworthy est no seu poder de introspeco irnica, combinada com um olhar extremamente penetrante e fiel para todos os fenmenos da vida externa dos seus personagens. 
Esses so os poderes da sua imaginao, cujo servo  um estilo claro, directo, so, iluminado por uma sinceridade inteiramente despida de afectao.  o estilo de 
um homem cuja simpatia pelo gnero humano  por de mais genuna para lhe permitir qualquer complacncia com a prpria vaidade,  custa dos seus semelhantes... e 
suficientemente aguado para levar bem fundo a sua ironia impiedosa, e grave bastante para representar o digno veculo da sua profunda compaixo."


A FAMLIA FORSYTE

II - No Tribunal


John Galsworthy



Ttulo da edio original: THE FORSYTE SAGA


Traduo de: Rachel de Queiroz


Livros do Brasil


Para Jessie and Joseph Conrad


Two households both a like in dignity...
From ancient grudge break to new mutiny

(Romeu e Julieta)


Nota: Neste livro a paginao  inferior


ndice


PRIMEIRA PARTE

I - Em casa de Timothy ....... 9
II - A partida de um homem do mundo ......... 20
III - Soames prepara-se para agir ................. 33
IV - Soho ..................................... 40
V - James tem vises ........................... 48
VI - Visitas em casa de Jolyon filho ............ 55
VII - O potro e a potra ......................... 67
VIII - Jolyon procura desempenhar a sua misso ... 74
IX - Val  informado das novidades ......... 83
X - Soames pensa no futuro ................... 93
XI - E vai rever o passado ....................... 98
XII - A Bolsa dos Forsyte ........................ 104
XIII - Jolyon v claro dentro de si mesmo .......... 117
XIV - Soames descobre o que quer ................. 124

SEGUNDA PARTE

I - A terceira gerao... ...................... 129
II - Soames faz uma experincia ................ 140
III -Visita a Irene .............................. 150
IV - Onde os Forsyte receiam pr o p ............ 157
V - Jolly delibera .............................. 160
VI - Jolyon indeciso ............................... 175
VII - Dartie versus Dartie ....................... 181
VIII - O desafio .................................... 195
IX - Jantar em casa de James ..................... 199
X - A morte do co balthasar .................. 206
XI - Timothy combate a decomposio ............ 211
XII - Progresso da investigao .................. 219
XIII - "C estamos outra vez!" ...................... 226
XIV - Uma noite de orgia ....................... 237


TERCEIRA PARTE

I - Soames em Paris ........................... 247
II - Preso  teia ................................. 248
III - Richmond Park ............................... 252
IV - Por sobre o rio.............................. 260
V - Soames age ................................. 262
VI - Um dia de Vero ........................... 266
VII - Uma noite de Vero ........................ 274
VIII - James  espera .............................. 278
IX - Fora da teia .............................. 282
X - A passagem de uma era ..................... 292
XI - Animao suspensa ......................... 303
XII - Nascimento de um Forsyte .................. 311
XIII - James  informado ........................ 318
XIV - Sua ....................................... 323
O despertar ....................................... 329


PRIMEIRA PARTE


CAPTULO I



EM CASA DE TIMOTHY

O instinto de propriedade nunca permanece inactivo. Atravs de florescncias e rixas, de geadas e incndios, ele acompanha as leis do progresso, mesmo na famlia 
Forsyte, que supe hav-lo fixado para sempre.  que ele no pode desassociar-se do meio ambiente, tal como a batata no pode deixar de depender da qualidade do 
solo onde cresce.
O historiador do povo ingls, na dcada de 1890, deve descrever a evoluo algo rpida da sua auto-satisfao e contido provincianismo para um grau muito maior de 
auto-satisfao e menos contido imperialismo - por outras palavras, o desenvolvimento do instinto possessivo da nao. E assim, em conformidade com essa evoluo, 
decorreu a evoluo da famlia Forsyte. Eles desdobraram-se no s na superfcie, mas internamente.
Quando, em 1895, Susan Hayman, a nica Forsyte casada, foi incinerada, depois de ter ido reunir-se ao marido na idade ridiculamente curta de setenta e quatro anos, 
o facto abalou muito pouco os seis Forsyte da velha gerao que ainda restavam. Duas razes determinavam essa apatia. Primeiro, o quase sub-reptcio enterro do velho 
Jolyon, em Robin Hill, no ano de 1892. Esse enterro, realizando-se um ano depois dos correctssimos funerais de Swithin, provocara inmeras conversas na Bolsa dos 
Forsyte - a casa de Timothy Forsyte em Bayswarter Road, em Londres,

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que continuava a reunir e a disseminar todos os mexericos da famlia. Desde as lamentaes da tia Juley at esta opinio, francamente emitida por Francie, que "era 
justssimo a gente no querer fazer troa em Highgate", todas as espcies de comentrios foram feitos a tal respeito. Naqueles ltimos anos, depois da estranha e 
lamentvel histria sucedida entre o jovem Bosinney, noivo de sua neta June, e Irene, a mulher do seu sobrinho Soames Forsyte, o tio Jolyon tinha realmente irritado 
os nervos da famlia inteira, e todos comearam a considerar a sua habitual originalidade um pouquinho perversa. A veia filosfica que ele tinha em si mostrara sempre 
uma tendncia acentuada para arranhar a superfcie dos sedimentos do forsytismo puro, de forma que a parentela no se chocara muito com aquela inumao em local 
estranho. Mas todo o assunto era singular e quando o testamento do velho teve livre curso na Bolsa dos Forsyte um arrepio percorreu o cl inteiro. Da sua fortuna, 
que montava em bruto a cento e quarenta e cinco mil trezentas e quatro libras, com um passivo de trinta e cinco libras, sete shillings e quatro pence, ele legara 
quinze mil libras a quem, minha cara? A Irene! -  esposa fugitiva de Soames, a Irene, a mulher que quase desonrara a famlia e que - coisa ainda mais espantosa 
- no lhe estava ligada por nenhum lao de sangue.  verdade que no legara o dinheiro em propriedade plena, mas o rendimento da fortuna em renda vitalcia. Porm, 
de qualquer modo, a herana l estava, e o velho Jolyon foi destitudo inteiramente das suas pretenses a tipo-padro de Forsyte.
Era essa a primeira das razes a impedir que os funerais de Susan Hayman, realizados em Woking, produzissem muita agitao.
A segunda razo era ainda mais expansiva e imperial. Ao lado da casa de Campden Hill, Susan tinha um terreno (que lhe fora deixado por morte de Hayman) justamente 
no extremo da propriedade de Haims, terreno onde os rapazes Hayman haviam aprendido a ser to bons atiradores e cavaleiros (segundo era crena geral), o que era 
naturalmente excelente para eles, e honroso para todos, e o facto de possuir a finada uma coisa que se parecia tanto com uma propriedade campestre podia de qualquer 
forma justificar a disperso dos seus restos mortais - embora ningum conseguisse descobrir quem lhe metera na cabea a ideia da cremao.

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Os convites habituais foram entretanto distribudos, e Soames comparecera, junto com o jovem Nicholas, o testamento fora satisfatoriamente aberto no momento oportuno, 
e tudo se distribura equitativamente e em silncio entre os filhos.
A terceira razo que impediu que os funerais de Susan Hayman provocassem grande agitao foi resumida, no sem audcia, pela plida Euphemia:
- A minha opinio - disse ela -  que toda a gente  senhora do seu corpo, mesmo depois de morto.
Partindo de uma filha de Nicholas, liberal  velha moda e extremamente tirnica, tal comentrio era surpreendente, e mostrava, num relmpago, quanta gua j correra 
sob as pontes depois da morte da tia Ann. em 1886, exactamente quando a propriedade de Soames sobre o corpo de sua mulher chegara  incerteza que culminou no desastre, 
Euphemia, naturalmente, falava como uma criana inexperiente, porque, embora j houvesse passado h muito dos trinta,, ainda usava o nome de Forsyte. Porm, feitos 
todos os descontos, a sua observao demonstrava a expanso dos princpios de liberdade, a descentralizao do centro de gravidade da propriedade dos outros para 
si prpria. Quando Nicholas ouviu, da boca da tia Hester, essa observao da filha, soltou uma praga: "Mulheres e filhas! Hoje j no h limite para a liberdade 
delas. Sei bem at onde esse caso Jackson ir levar as coisas - chegando at ao habeas corpus!"
Na verdade, ele nunca perdoara o Married Woman's Property Act, que teria interferido terrivelmente com a sua vida, se por felicidade o seu casamento no datasse 
de muito antes da promulgao da lei. Mas, na verdade, no era possvel negar que um vento de revolta agitava a nova gerao dos Forsyte contra a ideia de pertencer 
a outrem, isto , as disposies coloniais de autodeterminao, que so a paradoxal contrapartida do imperialismo, estavam a progredir entre eles. J estavam todos 
casados, excepto George, solidamente fixado no Turf e no Iseeum Club. Francie, que prosseguia na sua carreira musical num estdio em King's Road, Chelsea, e continuava 
a levar "namorados" aos bailes, Euphemia, vivendo em casa, queixando-se sempre do pai, Nicholas, e, enfim, os Dois Siameses, Giles e Jesse Hayman.

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A terceira gerao no era muito numerosa: Jolyon filho tinha trs filhos, Winifred Dartie tinha quatro, Nicholas filho j seis, Roger filho, um, Marian Tweetyman, 
um, Saint John Haymain, dois. Mas os dez restantes, entre os dezasseis casados, isto , Soames e Cecily, da famlia de James: Eustace e Thomas, da de Roger, Ernest, 
Archibald e Florence, da de Nicholas, Augustus e Annabel Spendea-, da de Hayman, viam passar os anos sem progenitura.
De modo que, dos dez velhos Forsyte, vinte e um jovens Forsyte haviam nascido, porm, desses vinte e um da segunda gerao, apenas dezassete descendentes havia, 
e j parecia improvvel novo acrscimo, a no ser muito insignificante. Um curioso de estatsticas notaria decerto que a taxa de nascimentos tinha variado de acordo 
com a taxa de juros sobre o capital. O av, o "Superior Dosset" Forsyte, nos comeos do sculo xix, recebia dez por cento, e teve portanto dez filhos. Esses dez, 
deixando de parte os quatro que no se haviam casado, e Juley, cujo marido, Septimus Small, morrera quase imediatamente aps o casamento, recebiam uma mdia de quatro 
ou cinco por cento, e produziram de acordo com isso. Os vinte e um que eles deram ao mundo estavam a receber agora uns escassos trs por cento nos consolidados a 
que os pais vincularam quase todos os seus capitais, a fim de evitar os impostos de transmisso, e os seis deles que deram prole ao mundo tinham dezassete filhos, 
ou exactamente a mesma taxa de dois e cinco sextos por cento.
Havia outras razes tambm para essa moderada reproduo. Uma desconfiana da sua capacidade de ganhar dinheiro (natural onde a suficincia  garantida), junto com 
o conhecimento de que os pais no morreriam to cedo, tornava-os cautelosos. Se um deles tinha filhos e um pequeno rendimento, o seu padro de luxo e conforto tinha 
necessariamente que decair, pois o que chegava para dois j no chegava para quatro, e ento era melhor esperar e ver o que o velho faria. Alm disso, era muito 
agradvel no ter crianas para atrapalhar passeios e frias. Em vez de se concentrarem nos filhos, preferiam concentrar-se na propriedade de si mesmos, conforme 
a crescente tendncia fin de sicle, como diziam. Nesse processo era pequeno o risco que se corria e facultava at meios para adquirir um automvel.  verdade que 
Eustace comprara um,

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e aquilo sacudira-o horrivelmente e causara-lhe a quebra de um dos dentes, era melhor esperar que tais mquinas apresentassem mais garantias de segurana. Enquanto 
esperavam, nada de filhos!. At Nicholas filho no fazia nenhuma adio aos seus seis j havia mais de trs anos.
Entretanto, essa degradao em massa dos Forsyte, ou antes, essa disperso, de que todos estes factos eram sintomas, ainda no estava to avanada que os impedisse 
de se reunirem quando Roger morreu em 1899. O Vero fora magnfico, e eles todos j tinham voltado a Londres depois das frias no estrangeiro ou  beira-mar, quando, 
comum trao da sua velha originalidade, Roger faleceu repentinamente, na sua residncia de Princes Gardens. Em casa de Timothy, murmurou-se com tristeza que o pobre 
Roger sempre exibira uma certa esquisitice no que se referia s suas digestes - no preferia ele, por exemplo, o carneiro da Alemanha a qualquer outro?
Mas, fosse como fosse, os seus funerais, em Highgaite, desenrolaram-se com toda a perfeio, depois de assistir a eles, Soames Forsyte dirigiu-se quase automaticamente 
a casa do tio Timothy. em Bayswater Road. As "velhas", as tias Hester e Juley, ficariam satisfeitas em saber como se tinham passado as coisas. Alegando os seus oitenta 
e oito, James, pai de Soames, no se sentira com foras para arrostar as fadigas da cerimnia, o prprio Timothy tambm l no fora:, naturalmente, de modo que os 
irmos haviam sido representados apenas por Nicholas. Apesar disso, aparecera muita gente, e as tias Juley e Hester ficariam consoladas ao saberem disso. Esse pensamento 
gentil no ocorria a Soames, desacompanhado do desejo inevitvel de tirar proveito do seu acto - o que  a principal caracterstica de todo o Forsyte, e, na verdade, 
dos elementos sadios da nao inteira:. E, dirigindo-se a casa de Timothy, para l discutir os negcios da famlia, Soames no fazia seno cobrir as pegadas do pai, 
que tinha o hbito de visitar as tias, em Bayswater Road, pelo menos uma vez por semana. James s renunciara a essas visitas na idade de oitenta e seis anos, quando 
as foras lhe declinavam e j no podia sair sem a assistncia de Emily. E era intil ir l em companhia de Emily: como poderia ter uma conversa de verdade na presena 
da mulher?

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Como James
o fazia outrora, Soames sempre arranjara tempo para ir at l aos domingos, para passar alguns instantes na sala das tias. Era uma sala na qual, com o seu indiscutvel 
bom gosto, ele introduzira numerosas modificaes, como presentes de Natal, para l levara alguns bibelots que no satisfaziam as suas luxuosas exigncias e umas 
duas telas da escola de Barbizon cuja autenticidade era duvidosa. Pessoalmente, depois de se ter dado extremamente bem com os Barbizons, ele passara-se aos Marises, 
aos Israels, aos Mauves, e esperava coisa melhor ainda. Na casa onde morava agora, junto ao rio, perito de Mapledurham, tinha uma coleco de quadros, magnificamente 
dispostos e iluminados, desconhecidos de muito poucos dos vendedores de Londres. A galeria constitua tambm uma atraco durante as recepes que ele dava s vezes, 
aos domingos  tarde, ajudado pelas irms, Winifred e Rachel. Apesar de no se mostrar seno como um cicerone taciturno, a sua calma e a singela preciso impressionavam 
sempre os convidados, porque todos sabiam que a reputao de Soames no estava baseada apenas no simples capricho esttico, mas na sua capacidade de prever a valorizao 
da mercadoria artstica. Quando ia a casa de Timothy, sempre tinha para contar um pequeno triunfo sobre um vendedor de quadros, e sentia um raro prazer em saborear 
a rosnadela de orgulho com que as tias invariavelmente recebiam o caso. Naquela tarde, entretanto,  volta do funeral de Roger, vestido num fato irrepreensvel de 
cor escura - no de preto, porque, afinal de contas, um tio no passa de um tio e a sua alma detestava a exibio excessiva de sentimentos-, Soames sentia-se numa 
disposio de esprito completamente diversa. Reclinado numa cadeira de marquetere e contemplando, no prolongamento do nariz erguido, as paredes azuladas semeadas 
de molduras cor de ouro, mantinha-se num silncio desacostumado. Talvez porque viesse ou no de um funeral, o feitio peculiar dos Forsyte era visto, naquela tarde, 
no rosto de Soames, sob um ngulo especiallmente favorvel: rosto cncavo e comprido, cuja maxila pareceria extravagante sem os msculos que a recobriam - uma cara 
toda queixo, mas a que entretanto no se poderia chamar feia. Ele sentia, mais fortemente que nunca, que a casa de Timothy era desesperadamente antiquada e que a 
allma das tias era uma lamentvel revivescncia dos meados

da era vitoriana. A nica questo de que ele desejaria falar - a sua situao de no divorciado-no poderia abord-la ali. E no entanto ela ocupava-lhe o esprito, 
com excluso de qualquer outra, desde a Primavera, fora ento que despertara nele um sentimento que o impelia a fazer algo que, praticado por um Forsyte de quarenta 
e cinco anos, seria forosamente uma tolice.
Havia allgum tempo que tinha cada dia mais conscincia de que "ia bem". J quando mandara construir a casa de Robin Hill - responsvel pelo desastre do seu casamento 
com Irene - a sua fortuna era considervel, e crescera sempre, com surpreendente vigor, naqueles doze anos de solido, durante os quais dedicara ao dinheiro todos 
os seus cuidados. Agora ultrapassava amplamente a quantia de cem mil libras, e ele no tinha ningum a quem a deixar, nem nenhuma razo verdadeira para continuar 
a servir o que era a sua religio. Mesmo que agora afrouxasse os esforos, a riqueza engendra a riqueza, e ele pressentia que se veria um belo dia, sem saber como, 
na posse de cento e cinquenta mil libras. Sempre houvera,, na natureza de Soames, um elemento fortemente domstico e procriador, decepcionado, frustrado, esse elemento 
escondera-se, mas agora, na idade madura, voltava a transparecer. E cristalizado em torno de um objectivo preciso, realizado na indubitvel beleza de uma rapariga, 
tornara-se uma verdadeira obsesso.
E aquela rapariga, uma moa francesa, no parecia mulher capaz de perder a cabea nem de aceitar uma situao ilegtima. Alis, um pensamento desses tambm desagradaria 
a Soames. Ele provara dos aspectos srdidos da vida sexual durante todos aqueles longos anos de celibato forado, mas sempre s escondidas, sempre com nojo, porque 
era um esprito delicado, que sempre tivera um senso inato da lei e da ordem. No desejava uma ligao furtiva e dissimulada. Com um casamento na Embaixada de Paris, 
uma viagem de alguns meses, ele poderia trazer de volta  Inglaterra uma Annette completamente separada de um passado que, a falar verdade, nada tinha de distinto 
- pois ela no passava de caixa no restaurante da me, no bairro do Soho, poderia trazer de volta uma Annette muito nova e muito elegante, com as suas qualidades 
de francesa, cheia de bom gosto e de presena de esprito,

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para faz-la rainha de sua casa, The Shelter (1), perto de Mapledurham. Na Bolsa dos Forsyte, e entre os seus amigos da margem do rio, ele contaria que durante as 
suas viagens se encontrara com uma francesinha encantadora e casara com ela. Haveria um certo perfume de romance, um certo cachet em ter por mulher uma francesa. 
No, isso absolutamente no o assustava, o que temia era aquele maldito divrcio que nunca pleiteara, e depois - e depois a questo de saber se Annette o aceitaria, 
pergunta que ele no ousava fazer antes de poder oferecer-lhe um futuro brilhante, deslumbrante
mesmo.
Na sala de visitas das tias, ouvia pela metade as perguntas habituais: "Como passava o pai? Naturalmente no saa, com este tempo que piorava a toda a hora? Soames 
teria a bondade de lhe dizer que Hester melhorara muito da dor de lado tomando uma decoco de folhas de azevinho? Punha-se uma cataplasma de trs em trs horas, 
e enrolava-se o lado dorido numa baeta. Seria que Soames quereria provar um pouquinho de conserva de ameixas - elas estavam deliciosas, naquele ano, e operavam to 
maravilhosamente... Ah, a respeito dos Darte - ele no ouvira dizer que Winifred estava a viver muito mal com Montague? Timothy dizia que, na verdade, era preciso 
proteg-la um pouco. Dizia-se - porm Soames no devia considerar a coisa como certa - que ele dera de presente algumas das jias de Winifred a uma incrvel danarina. 
Era um pssimo exemplo para o pobrezinho do Val, justamente quando o pequeno ia entrar para a Universidade. Soames no ouvira contar nada? Oh, ento devia ir visitar 
a irm e tratar disso. E acreditava Soames que aqueles Boers iriam realmente resistir? Timothy ficara muito abalado. O valor dos consolidados estava to elevado, 
e ele tinha uma quantia to grande empregada neles! Soames acreditava que baixariam,, se houvesse guerra? Soames fez sinal que sim. Mas a guerra no duraria muito. 
Seria to triste para Timothy. E naturalmente o querido pai de Soames tambm sofreria um abalo, na sua idade. "Felizmente aquela terrvel ansiedade fora poupada 
ao pobre Roger." E a tia Juley, com um lencinho, enxugou a grossa lgrima que procurava transpor as pregas permanentes que lhe rodeavam os olhos,

*1. The Shelter -o abrigo. (N. da T.)

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pois o seu rosto j era um mapa de rugas, comeara a recordar o pobre Roger, a sua originalidade e a mania que ele tinha de a espetar com alfinetes quando eram meninos. 
Com o instinto que a levava a evitar os assuntos tristes, a tia Hester perguntou nesse ponto da conversa se Soames acreditava que Mr. Chamberlain seria nomeado primeiro-ministro 
imediatamente. Ele consertaria tudo em poucos dias. Ela, tia Hester, gostaria bem de ver o velho Kruger mandado para Santa Helena. Lembrava-se muito bem da notcia 
da morte de Napoleo e do alvio que representara para o seu av. Naturalmente, ela e Juley ("Ns usvamos nesse tempo umas calas compridas, de rendinhas, minha 
querida...") no tinham dado ento grande importncia ao caso.
Soames segurou a xcara de ch que ela lhe estendia, esvaziou-a rapidamente e comeu trs daqueles bolinhos de amndoas que eram a glria da casa de Timothy. O seu 
sorriso, fraco, plido e desdenhoso, acentuara-se um pouco mais. Na verdade, a famlia continuava irremediavelmente provinciana, apesar de os seus membros possurem 
entre si uma boa parte de Londres. E naqueles dias de tenso o provincianismo da sua gente ressaltava ainda mais que de costume. Pois o velho Nicholas ainda era 
free trader e membro daquele antro antediluviano do antigo liberalismo, o clube Remove, embora, na verdade, os seus membros j fossem todos conservadores actualmente, 
de contrrio, Nick no teria aderido a eles. E Timothy, diziam, ainda usava barrete de dormir.
A tia Juley falou de novo. O querido Soames devia gozar to boa sade! Parecia pouco mais velho do que o era quando a querida Ann morrera, e haviam-se reunido todos: 
o querido Jolyon, o querido Swithin, o querido Roger. Seria que - seria que ele ouvira algumas vezes falar de Irene ultimamente? Foi visvel o movimento da tia Hester 
enfiando o ombro entre os dois. Na verdade, Juley vivia sempre a dizer inconvenincias! Soames deixou de sorrir, deps a xcara, e, apesar de todo o desejo que tinha 
de discutir esse assunto, no pde aproveitar a ocasio.
A tia Juley prosseguiu com certa pressa:
- Dizem que o querido Jolyon lhe deixara, a princpio, as quinze mil libras em plena propriedade, mas depois verificou que isso no ficava bem,

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e deixou-lhe apenas uma renda vitalcia. Soames ouvira falar nisso? Soames fez sinal que sim.
- O seu primo Jolyon est vivo agora.  ele quem administra os rendimentos dela, voc sabia disso, decerto.
Soames abanou a cabea. Ele sabia, mas no queria parecer interessado em tais coisas. Jolyon filho e ele no se tinham avistado desde o dia da morte de Bosinney.
- Deve estar agora um homem maduro -prosseguiu a tia Juley com ar cismador. - Quer ver, ele nasceu quando o seu querido tio morava ainda em Mount Street. Muito antes 
da mudana para Stanhope Gate, em Dezembro... exactamente antes daquela pavorosa comuna. J tem mais de cinquenta anos, imagine! Era um garotinho lindo, ns todos 
orgulhvamos-nos dele: era o primeiro entre vocs todos. - A tia Juley suspirou, e uma madeixa do que no poderia chamar-se propriamente o seu cabelo, destacou-se 
e ficou a flutuar, provocando um ligeiro arrepio na tia Hester.
Soames ergueu-se, estava a fazer uma curiosa descoberta dentro de si mesmo. A velha ferida no seu orgulho, no seu amor- prprio, no cicatrizara ainda. Supusera, 
ao chegar a casa das tias, que poderia falar - desejara mesmo falar dos entraves que lhe restringiam a liberdade -, e, para sua surpresa, fugia, como de uma coisa 
dolorosa, dessas reminiscncias do passado traadas pela tia Juley, sempre pronta a dar gaffes.
Oh, Soames j ia to cedo!
Soames teve um risinho vingativo e disse:
- Sim, at logo. Dem lembranas ao tio Timothy!
E, depondo um beijo frio na fronte das velhas, cujas rugas pareciam procurar colar-se-lhe aos lbios, como se desejassem desaparecer sob carcias, deixou as tias, 
que o viam partir com o olhar luzente de prazer: o querido Soames fora to gentil em aparecer hoje. exactamente quando elas no estavam a sentir-se muito...
Descendo a escada, onde flutuara aquele cheiro quase agradvel de cnfora, de vinho do Porto e de casa sem correntes de ar, ele sentia no peito a leve mordidela 
de um incio de arrependimento. Pobres velhas - no queria entristec-las! Na rua, esqueceu-as logo, retomado pela imagem de Annette, pelo maldito liame
que o prendia. Porque no fora at ao fim, no requerera o divrcio quando aquele miservel Bosinney fora esmagado e no lhe seria preciso seno baixar-se para colher 
as provas no cho? E dirigiu-se para a residncia da irm, Winifred Dartie, em Green Street, Mayfair.

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CAPTULO II

A PARTIDA DE UM HOMEM DO MUNDO


Seria realmente estranho que um homem do mundo, com a fortuna cheia de vicissitudes, como a de Montague Dartie, habitasse a mesma casa durante vinte anos, se as 
dcimas, taxas, consertos, no fossem todos pagos pelo sogro. Graas a esse expediente custoso, mas simples, James Forsyte assegurava uma relativa estabilidade  
vida da filha e dos netos. Afinal de contas, havia algo de inaprecivel na posse de um tecto seguro por sobre a cabea de um sportsman to brilhante como Dartie. 
At aos acontecimentos dos ltimos dias, o procedimento de Monty correra numa regularidade quase sobrenatural. O facto  que ele tornara-se co-proprietrio de uma 
potra de George Forsyte, que se dedicara irremediavelmente ao turf, para horror de Roger, horror agora abafado pelo tmulo. Sleeve-Links, filha de Martyr e de Shirt-on-Fire, 
neta de Suspender, era uma gua baia de trs anos, que por diversas razes no mostrara ainda as suas reais possibilidades. Depois que se tornara possuidor de uma 
metade daquele animal, carregado de esperanas, todo o idealismo latente no carcter de Dartie - como o  de qualquer homem - tinha erguido a cabea e mantivera-o, 
durante meses, num estado de sereno fervor. Quando a vida de um homem tem uma finalidade digna dela,  espantoso ver como esse homem se torna sisudo, e Dartie possua 
realmentte essa finalidade - uma cotao de vinte e cinco contra um num handicap de Outono
por um animal que valia apenas trs. O velho cu arcaico nada  em comparao com isso, e ele empenhara todos os seus haveres, at a camisa que vestia, na filha 
de Shirt-on-Fire. Mas quanto mais do que a sua camisa dependia da neta de Suspender?. Aos quarenta e cinco anos, idade nevrlgica para os Forsyte - e para os prprios 
Dartie -, Montague detivera numa danarina as suas afeies vagabundas. No se tratava de uma paixo medocre, mas era-lhe preciso dinheiro, e muito, para que esse 
amor pudesse passar de um estado to areo como os saiotes da sua causadora, e Dartie nunca tinha dinheiro, apenas ia subsistindo miseravelmente das migalhas que 
conseguia extorquir ou tomar de emprstimo a Winifred - mulher de carcter, que o conservava porque ele era o pai dos seus filhos e por uma admirao obstinada por 
aqueles ares senhoris de Wardour Street com que ele a fascinara na mocidade. Ela, e mais alguma outra pessoa que consentia em fazer-lhe um emprstimo, e as suas 
perdas nas cartas e no turf (era extraordinrio como alguns homens conseguem ganhar dinheiro com perdas) eram os seus nicos meios de subsistncia, porque agora 
James estava velho de mais, nervoso de mais para lhe ser possvel aproximar-se, e Soames era formidavelmente virtuoso. No  muito dizer que, durante meses, Dartie 
vinha a viver de esperanas. Ele nunca fora adorador do dinheiro em si, sempre desprezara os Forsyte pelos seus hbitos de economia,, embora cuidasse de se utilizar 
de tais economias todas as vezes que podia. O que ele gostava, no dinheiro, era daquilo que ele podia pagar - sensaes pessoais. "um verdadeiro sportsman no se 
preocupa com dinheiro", gostava ele de dizer quando pedia um emprstimo para um pony (1). j que no pudera tentar um monkey (2). Havia algo de delicioso em Montague 
Dartie. Ele era, segundo o dizia George Forsyte, um daisy (3).
A manh do handicap ergueu-se clara e brilhante.

*1. Pony  empregado aqui no sentido de pequena aposta.
2. Monkey, soma para apostas equivalente a quinhentas libras.
3. Daisy, elegante, encantador. Em gria de turf, significa tambm "cavalo de passo lento", o que poderia ser uma aluso de George s limitadas possibilidades financeiras 
de Dartie. (N. da T.)

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Era o ltimo dia de Setembro, e Dartie, que chegara a Newmarket na noite precedente, vestiu um imaculado fato de xadrez e encaminhou-se para uma colina a fim de 
assistir ao ltimo galope de ensaio da metade da sua potra. Se ela ganhasse, ele meteria no bolso trs mil libras de bom dinheiro - magra recompensa  seriedade 
e  pacincia daquelas semanas de esperana, durante as quais a gua fora treinada para a corrida. Porm ele no tivera meios de fazer mais dinheiro. Deveria cobrir-se 
e dar  gua a cotao de oito contra um que ela acabara por atingir? Era o seu nico pensamento, enquanto as cotovias lhe cantavam por sobre a cabea, as colinas 
raivosas exalavam suaves perfumes e a linda potra passava, brilhante como cetim, erguendo altivamente o focinho contra o cu. Em caso de perda, afinal de contas, 
ele no teria nada a pagar, mas isso diminuir-lhe-ia o lucro a cerca de mil e quinhentas libras, isto , uma quantia que mal daria para transformar uma danarina 
em sua propriedade absoluta. Mas a sede de sentir uma verdadeira emoo, que est no sangue de todos os Dartie, forneceu-lhe o argumento mais persuasivo. E, voltando-se 
para George, disse:
-  um relmpago. Vai ganhar com uma perna s costas. Eu irei at onde puder. - George tinha-se coberto at ao ltimo penny, e, mais que isso, estava certo de ganhar 
em qualquer eventualidade. Do alto da sua corpulncia deixou cair um sorriso sobre o outro e disse:
- Oh, oh, voc  atirado!
Porque, depois de uma aprendizagem em aventuras diversas, atravessadas sem acidentes graas ao dinheiro que Rogers lhe fornecia no sem lamentos, o temperamento 
de Forsyte comeava a servir-lhe como recurso na profisso de proprietrio.
H na vida dos homens horas de desiluso sobre as quais um cronista sensvel receia deter-se. Limitemo-nos pois a dizer que a linda esperana naufragou. Sleeve-Links 
terminou desclassificada. Dartie perdera a camisa.
Entre esses acontecimentos e o dia em que Soames tomara o caminho de Green Street, quanta coisa acontecera!
Quando um homem do temperamento de Montague Dartie consegue controlar-se durante meses, por motivos religiosos,

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sem se ver recompensado depois, ele no amaldioa Deus antes de morrer: amaldioa Deus e continua a viver, para desgraa da famlia.
Winifred era uma mulher corajosa, embora sacrificasse por de mais  moda, j suportava o marido h exactamente vinte e um anos, mas realmente no o imaginara capaz 
de fazer o que ele fez. Como muitas esposas, supunha j conhecer o marido sob os piores aspectos, mas no o conhecia ainda aos quarenta e cinco anos de idade, quando, 
como todos os outros homens, ele tinha o sentimento de que seria hoje ou nunca.
Fazendo, no dia 2 de Outubro, uma revista no seu cofre de jias, descobriu com horror que j no estava l a aurola da sua feminilidade, as prolas que Montague 
lhe oferecera em 1886, por ocasio do nascimento de Benedict, e que James tivera de pagar na Primavera de 87 para evitar um escndalo. Indagou do marido imediatamente. 
Ele respondeu-lhe que "no havia de ser nada", que as prolas haveriam de voltar! E ela teve de dizer secamente: "Muito bem, Monty, irei pessoalmente  Scotlamd 
Yard, para que ela se encarregue do assunto." Ai dele! Por que motivo o destino exige que a slida e resoluta continuidade dos desgnios de um homem, necessria 
 realizao de vastas operaes, seja sujeita s interrupes da bebida? E Dartie, naquela noite, ao voltar para casa, no se importava com coisa alguma no mundo, 
nem mantinha uma partcula de discrio. Em tempos normais, Winifred fechar-se-ia no quarto enquanto ele curtisse a bebedeira, mas, na inquietao em que estava 
a respeito das prolas, ela ficara desperta, esperando a volta do marido. Tirando do bolso um pequeno revlver e arrimando-se  mesa de jantar, Dartie disse  mulher 
que lhe era indiferente que ela continuasse a viver, Sob a condio de se manter quieta, mas que, por sua parte, ele estava fatigado da vida. Segurando-se ao outro 
bordo da mesa. Winifred respondeu-lhe:
- No seja palhao, Monty. Voc foi  Scotland Yard? Encostando o cano do revlver ao peito, Dartie apertou o
gatilho vrias vezes. Mas a arma no estava carregada. E, deixando-a cair, com uma praga, ele murmurara:
- Por amor dos meus filhos! - E atirou-se numa cadeira. Winifred, depois de apanhar o revlver, deu ao marido um pouco
de gua-soda.

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A bebida teve um efeito mgico. A vida sempre o maltratara. Winifred nunca o compreendera. Se ele no tinha direito de levar aquelas prolas, que ele prprio lhe 
dera, quem o teria? Aquela potra espanhola apanhara-o. Se Winifred tinha objeces a fazer, ele cortar-lhe-ia o pescoo - a ela.
Winifred, que aprendera a dominar-se numa dura escola, ergueu os olhos para o marido e disse:
- Potra espanhola? Quer referir-se quela mulher que ns vimos a danar no Pandemonium Ballet? Voc  mesmo um ladro e um patife!
Aqueles eptetos acabaram de esmagar uma conscincia j sobrecarregada de um doloroso peso. Da cadeira onde estava sentado, Dartie agarrou o brao da mulher, e, 
lembrando-se das faanhas de infncia, comeou a torc-lo. Winifred suportou a dor com lgrimas nos olhos, mas sem um grito. Descobrindo nele um momento de fraqueza, 
libertou-se, depois, pondo a mesa entre ambos, disse de dentes cerrados:
- Voc no presta para nada, Monty.
Subiu ao quarto, e, deixando na sala de jantar o marido, que tinha manchas brancas de espuma sobre o bigode, aferrolhou a porta, banhou o brao em gua quente e 
ficou toda a noite acordada, a pensar nas suas prolas, que estavam a enfeitar o colo de outra, e nas coisas que, indubitavelmente, o marido recebera em troca.
O homem do mundo despertou com a vaga sensao de estar perdido para este vale de lgrimas e a vaga lembrana de terem proclamado que ele "no prestava para nada". 
Durante meia hora ficou sentado  meia luz da madrugada, na mesma poltrona onde dormira - e aquela meia hora foi talvez a mais miservel de todas as que vivera, 
porque, mesmo para os Dartie, os fins tm qualquer coisa de trgico. E ele sabia que chegara a um fim. Nunca mais dormiria naquela sala de jantar, para despertar 
quando a luz se filtrasse atravs das cortinas que Winifred comprara em Nickens e Jarveys, com o dinheiro de James. Nunca mais almoaria uma costeleta tostada naquela 
mesa de pau-rosa, depois de ter mudado a roupa e tomado um banho morno. Tirou a carteira do bolso da casaca. Quatrocentas libras - em notas de cinco e de dez -
eis o que lhe restava do preo da sua metade de Sleeve-Links. Comprara-a na noite passada George Forsyte, que no concebera pelo animal - pois ele lucrara com a 
corrida - a mesma sbita averso que ele, Dartie, sentia agora. O ballet embarcaria no dia seguinte com destino a Buenos Aires, e ele acompanh-lo-ia. Ainda no 
fora pago de todo o valor das prolas. Subiu a escada na ponta dos ps, sem ousar tomar banho nem fazer a barba (alis a gua deveria estar fria), mudou de roupa 
e arrumou furtivamente tudo o que pde. Fazia d abandonar tantos sapatos de verniz, mas era mister sacrificar qualquer coisa. Depois, com uma maleta em cada uma 
das mos, encaminhou-se para a entrada. A casa estava inteiramente calma - a casa onde engendrara os seus quatro filhos. E era um momento curioso aquele - a porta 
do quarto da mulher, que ele outrora admirara, que amara talvez, e que lhe dissera que ele "no prestava para nada". Consolidou-se na sua resoluo pensando nessas 
palavras e prosseguiu o caminho, sempre na ponta dos ps. Porm a porta seguinte foi mais difcil de passar. Era a do quarto das filhas. Maud estava no colgio, 
mas Imogen devia provavelmente estar a dormir, e os olhos de Dartie, ainda mal abertos quela hora matinal, humedeceram-se. Dos quatro, era a que mais se parecia 
com o pai, com os cabelos pretos e o olhar escuro e aveludado. Em pleno desenvolvimento, era uma linda criatura. Deps as maletas. Aquela abdicao, por assim dizer 
formal, da sua paternidade, era-lhe dolorosa. A luz da manh clareou um rosto agitado por uma emoo verdadeira. No era o arrependimento, esse sentimento falso, 
o que ele sentia, mas um verdadeiro amor de pai, e a melancolia do "nunca mais". Passou a lngua nos lbios e durante um momento de irresoluo absoluta as pernas 
ficaram-lhe paralisadas, dentro das calas de xadrez que as cobriam. Era duro, duro, ser obrigado assim a abandonar a sua prpria casa. "Diabos o levem!", murmurou 
ele. "Nunca pensei que isto acabasse assim!" Alguns rumores, l em cima, preveniram-no de que as criadas j estavam a levantar-se. E, agarrando bruscamente as maletas, 
desceu as escadas na ponta dos ps. Chorava, e a sensao das lgrimas que lhe corriam sobre a face confortava-o, como se elas fossem uma garantia da realidade do 
seu sacrifcio. Demorou-se um pouco nas salas do rs-do-cho,

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para arrumar todos os charutos que possua, alguns papis, o chapu claque, uma cigarreira de prata e um guia Ruffs. Depois preparou uma dose forte de whisky e soda, 
acendeu um cigarro e hesitou um momento diante de uma fotografia das duas filhas, numa moldura de prata. Pertencia a Winifred. "No faz mal", pensou ele. "Ela pode 
mandar tirar outro retrato, eu  que no posso!" E meteu a fotografia na maleta. Depois ps o chapu e vestiu o sobretudo, apanhou dois outros, a sua melhor bengala 
de junco e um guarda-chuva, e abriu a porta de entrada. Fechando-a suavemente atrs de si, saiu, carregado como nunca se vira, e atingiu a esquina para esperar l 
a passagem de algum cab madrugador.
E foi assim que Montague Dartie, aos quarenta e cinco anos de idade, abandonou a casa a que chamara sua.
Quando Winifred desceu e compreendeu que o marido partira, o seu primeiro sentimento foi de clera surda  ideia de que ele se furtara s recriminaes que ela cuidadosamente 
preparara durante as longas horas de insnia, naquela noite. Fora a New Market ou a Brigthon, e provavelmente com a tal mulher! Dava nojo! Obrigada a um silncio 
absoluto diante de Imogen e dos criados e sabendo muito bem que os nervos de seu pai no suportariam a revelao do que se passara, no pudera conter-se mais: fora 
naquela mesma tarde a casa de Timothy, e contara s tias Hester e Juley, em toda a confiana, a histria das prolas. S no dia seguinte ela se apercebeu do desaparecimento 
da fotografia. Que significaria aquilo? Fez um exame minucioso nos objectos deixados pelo marido, e concluiu que ele deveria ter partido definitivamente. Quando 
se compenetrou disso, parou um momento no meio do quarto de vestir, com todas as gavetas abertas, procurando compreender o que estava a sentir. Realmente no era 
fcil! Embora ele "no prestasse para nada", era propriedade sua, e para todo o resto da vida ela sentir-se-ia ainda mais pobre, seria viva, e ao mesmo tempo no 
o seria, aos quarenta e dois anos, e, com quatro filhos, tornar-se objecto de escndalo e comiserao! E ele partira com uma danarina espanhola! Lembranas, sentimentos 
que j supunha esquecidos, reviveram dentro dela. dolorosos, profundos, tenazes. Mecanicamente, foi fechando as gavetas, dirigiu-se  cama, deitou-se, escondeu o 
rosto entre os travesseiros.

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No chorou. Que lhe adiantaria? Quando se levantou do leito e desceu para o almoo, sentiu que uma nica coisa lhe faria bem: a volta de Val para casa. Val, o seu 
filho mais velho, que deveria ir para Oxford no ms seguinte, a expensas de James, estava naquela ocasio em Littlehampton, ele dizia, imitando as expresses do 
pai, que estava l a receber do seu treinador os ltimos toques para a corrida de admisso. E a me mandou-lhe um telegrama.
- Preciso ver como est a roupa dele - explicou ela a Imogen. - Val no pode ir para Oxford com as coisas  toa. Os rapazes so muito exigentes.
- Val tem muita roupa - respondeu Imogen.
- Eu sei. Mas precisa de uma revista. Espero que ele venha.
- Ele h-de vir ligeiro como uma bala, mam. Mas ser reprovado no exame.
- No posso evitar isso - disse Winifred. - Preciso dele.
Erguendo para a me um olhar inocente e penetrante, Imogen no respondeu. Era por causa do pai, naturalmente! Val chegou, "como uma bala", s seis horas. Imagine-se 
um cruzamento entre um pickle e um Forsyte, e teremos o jovem Publius Valerius Dartie. Alis, com tais nomes, ser-lhe-ia difcil dar coisa melhor. Quando ele nascera, 
Winifred, na sua alegria exaltada e na sua sede de distino, decidira que os seus filhos todos haveriam de ter nomes como os no possua ningum. (Hoje rendia graas 
por no ter chamado Thisbe a Imogen, como pretendera ento.) Mas era a George Forsyte, o eterno trocista, que Val devia os seus complicados prenomes. Aconteceu que 
Dartie jantou em companhia de George oito dias depois do nascimento do seu herdeiro e mencionou essa aspirao de Winifred.
- Chame-lhe Cato - disse George. - Ficar picante como o diabo!
George acabava de ganhar dez libras num cavalo com esse nome.
- Cato! - respondeu Dartie. Eles eram bastante "modernos" entretanto. - Mas isso no  nome para um cristo!
- Venha c! - chamou George pelo criado de cales curtos. - V buscar-me  biblioteca a Enciclopdia Britnica, letra C.

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O criado trouxe o volume.
- C est! -disse George, apontando com o charuto. - "Cato, Publius Valerius: Virglio e Ldia." Est aqui o que vocs querem! Publius Valerius  bastante cristo.
Dartie, ao chegar a casa, falara a Winifred. Ela ficou encantada. Era to chique! E Publius Valerius foi o nome do beb. embora eles houvessem descoberto depois 
que haviam escolhido justamente o menor dos dois Cates. Em 1890, entretanto, quando o pequenino Publius estava quase a fazer dez anos, a palavra "chique" passou 
da moda, e iniciou-se uma era de sobriedade. Winifred comeou a ter dvidas. Dvidas confirmadas pelo prprio Publius. que, quando chegou de frias, depois dos seus 
trs primeiros meses de colgio, queixou-se desse nome que o tornava o divertimento dos colegas, que lhe chamavam "Pubbi". Winifred, mulher decidida, prontamente 
o mudou de colgio e trocou-lhe o nome para Val, sendo o Publius reduzido a apenas uma inicial.
Aos dezanove anos, ele era um rapaz esbelto, com sardas no rosto, boca ampla, olhos claros, clios longos, um sorriso realmente agradvel, considerveis conhecimentos 
sobre o que no devia saber e uma ignorncia maior sobre o que deveria entender. Poucos rapazes estiveram to prximos de uma expulso do colgio - era um malandro 
encantador! Depois de beijar a me e beliscar Imogen, subiu os degraus da escada a trs e trs, e logo os desceu quatro a quatro, em trajo de cerimnia. Sentia muito, 
mas o seu "treinador", que tambm viera a Londres, convidara-o a jantar no Oxford and Cambridge, no podia faltar, o velhote ficaria ofendido.
Winifred deixou-o partir com um orgulho triste. Gostaria de t-lo em casa, mas era agradvel saber que o seu "preceptor" o estimava tanto. No momento de sair, ele 
piscou o olho para Imogen e disse:
- Oh, mam, ser que poderiam preparar-me dois ovos cozidos para quando eu voltar? Ser esplndido. E escute, a mam tem dinheiro? Tive de pedir cinco libras emprestadas 
ao velho Snobby.
Winifred lanou-lhe um olhar carregado de penetrante afeio e respondeu:

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- Meu filho, voc  muito desmiolado em matria de dinheiro. Mas no lhe pague hoje: voc  convidado dele.
Como Val estava bonito, to delgado, com o seu colete branco e os espessos clios pretos!
- Oh! Mas ns depois vamos ao teatro, mam. E acho que eu  que devo pagar os bilhetes, ele anda sempre com pouco dinheiro.
Winifred estendeu-lhe uma nota de cinco libras, dizendo:
- Afinal, talvez seja melhor que voc pague, mas, depois, no precisa de pagar o teatro.
Val meteu o dinheiro no bolso.
- Nesse caso, no o pagarei-disse ele. - Boa noite, mam! Saiu de cabea levantada, com o chapu derreado para trs.
aspirando o ar de Piccadilly, como um jovem co de caa solto numa coelheira. Bom negcio! Depois da pasmaceira daquele lugarejo onde estava!
Reuniu-se ao "preceptor", no no Oxford and Cambridge. mas no Goafs Club. Aquele "preceptor" tinha menos de um ano mais que ele. Bonito adolescente, com lindos olhos 
castanhos, cabelos escuros e lustrosos, boca pequena, rosto oval, um certo ar lnguido, trajo impecvel, placidez extrema, era um desses rapazes que, sem esforo, 
tomam ascendncia sobre os condiscpulos. Quase fora expulso do colgio um ano antes de Val, passara aquele ano em Oxford, e faltava pouco para que Val lhe descobrisse 
uma aurola em redor da cabea. Chamava-se Crum, e no havia ningum que soubesse melhor que ele fazer desaparecer o dinheiro. Parecia ser aquele o seu nico fito 
na vida, e isso deslumbrava o jovem Val, em quem, entretanto, de vez em quando, transparecia o Forsyte, e indagava onde arranjaria ele tanto dinheiro.
Jantaram tranquilamente, com distino e bom gosto, deixaram o clube a fumar charutos, depois de terem bebido exactamente duas garrafas, e deixaram-se cair nas poltronas 
do Liberty. Para Val, o som das cantigas humorsticas e o espectculo das lindas pernas eram obscurecidos e amortecidos pelo receio de nunca poder atingir o tranquilo 
dandismo de Crum. O seu idealismo era simulado, e nesses casos uma pessoa nunca se sente  vontade. Com certeza ele tinha a boca grande de mais, o colete no era 
de bom corte,

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a cala no tinha galo de retrs e as luvas cor de alfazema no eram bordadas a soutache preto no dorso. E, alm disso, ria de mais - Crum nunca ria, limitava-se 
a sorrir, erguendo ligeiramente as sobrancelhas negras e regulares por sobre as plpebras levemente descidas. No! Nunca seria igual a Crum! Apesar disso, o espectculo 
era excelente, e Cynthia Dark era simplesmente assombrosa. Durante os entreactos, Crum transmitia-lhe deliciosos pormenores sobre a vida ntima de Cynthia, e Val 
informou-se desta coisa formidvel: se quisesse, Crum poderia ir aos bastidores. Teve uma vontade furiosa de lhe dizer: "Pois leve-me com voc!", mas no ousou, 
e aquilo tornou-o quase desgraado durante os dois ltimos actos, ou um pouco menos. Quando saram, Crum disse:
- Ainda falta meia hora para o Pandemonium fechar. Vamos at l!
Apanharam um cab para transpor os cem metros que os separavam de l e compraram cadeiras de sete shillings e seis pence, porque iam ficar de p, deambulando pela 
promenade. Era nessas pequenas coisas, nesse desprezo absoluto pelo dinheiro, que Crum mostrava um verniz to cheio de encanto. Era o fim do espectculo e a ltima 
exibio do ballet, pelo que a circulao na promenade sofria as consequncias disso. Homens e mulheres acumulavam-se em trs filas contra a balaustrada. O turbilho 
das formas, o claro deslumbrante das cores e das luzes da cena, a semiobscuridade, a mistura do cheiro dos cigarros e dos perfumes femininos, essa estranha atmosfera 
de convite  promiscuidade, caracterstica de todas as promenades, comearam a libertar o jovem Val do seu idealismo. Lanou um olhar de admirao para o rosto de 
uma moa, viu depois que ela no era moa, realmente, e afastou rapidamente os olhos. Sombras de Cynthia Dark! O brao da mulher tocou o dele, inconscientemente, 
chegou-lhe ao nariz um cheiro de musgo e reseda. Val olhou-a de lado, por baixo dos clios. Afinal talvez ela fosse moa. O p da mulher tocou o seu e ela pediu 
perdo. Ele disse:
- Oh, no foi nada. Bonito o ballet, no acha?
- Oh! J estou cansada! E voc?
O jovem Val sorriu, com o seu sorriso atraente. No ousou
aventurar-se mais longe, porque a sua convico no estava ainda completa. No palco, o ballet fazia girar numa ronda endiabrada o seu calidoscpio de branco nevoso, 
rosa-salmo, verde-esmeralda e violeta, e pareceu de sbito imobilizar-se numa pirmide cintilante. Rebentaram aplausos, e aquilo foi o fim! Cortinas cor de vinho 
roubaram a cena da vista da sala. O semicrculo de homens e mulheres que se formara em torno da balaustrada rompeu-se, o brao da rapariga apertou o de Val. A alguma 
distncia, um grupo agitado parecia ter por centro um homem em cuja botoeira floria um cravo cor-de-rosa. Val lanou outro olhar furtivo para a rapariga que espiava 
para o lado do barulho. Com passo incerto, trs homens saram da aglomerao, de braos dados. No meio estava o homem do cravo cor-de-rosa, com um colete branco, 
bigode preto, titubeava ligeiramente. Crum disse lenta e nitidamente: "Olhe aquele gigolot velhote, bbado!" Val voltou a cabea. O "velhote" libertara o brao e 
apontava-os com o dedo. Mais ntida do que nunca, a voz de Crum disse:
- Ele parece conhec-lo! O "velhote" falou:
- Ol! Olhem todos! L est o malandro do meu filho!
Val olhou e viu. Era o seu pai. Ah, se pudesse desaparecer dentro daquele tapete escarlate! No era o encontro naquele lugar, nem mesmo o facto de o pai estar bbado, 
era aquele nome depreciativo de gigolot e cuja justeza lhe aparecia agora como por efeito de uma revelao divina. Sim, o pai tinha realmente ares de um gigolot, 
com os seus olhos escuros e lnguidos, o cravo no peito, a silhueta macia e vistosa. E, sem uma palavra, mergulhou por trs da mulher e eclipsou-se na galeria. 
Ouviu algum gritar "Val!" por trs dele e, sempre correndo, desceu as escadarias cobertas de um tapete espesso, passou pelas bilheteiras e fugiu para a praa.
Talvez a pior prova por que um rapaz possa passar seja a de envergonhar-se do seu prprio pai. E parecia a Val, enquanto se afastava em passos rpidos, que a sua 
carreira terminara antes de comear. Como poderia ele agora ir para Oxford, conviver com todos aqueles camaradas, aqueles amigos esplndidos de Crum, que saberiam 
que o seu pai era um gigolot! E de sbito detestou Crum.

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Quem era Crum para ousar dizer tal coisa? Se Crum estivesse ao lado de Val naquele instante, um empurro t-lo-ia lanado do passeio abaixo. Seu pai - seu prprio 
pai. Um soluo subiu-lhe  garganta, e, num gesto furioso, o rapaz enterrou as mos no bolso do sobretudo. Para os diabos, Crum! E ocorreu-lhe a ideia louca de voltar 
ao Pandemonium, procurar o pai, dar-lhe o brao e tornar a passar diante de Crum assim acompanhado. Mas abandonou logo a ideia, e prosseguiu o seu caminho ao longo 
de Piccadilly. Uma rapariga abordou-o:
- Porque est com tanta raiva, queridinho?
Ele assustou-se, desviou-se da mulher e sentiu que recuperava inteiramente a calma, se alguma vez Crum abrisse a boca, ele dar-lhe-ia uma tareia e tudo estaria sanado. 
Caminhou mais cem metros, tranquilizado por esse pensamento, depois perdeu toda a consolao que ele lhe dava. No era assim to simples. Ele sabia que nos colgios, 
com um pai vergonhoso, o filho ficava marcado. Porque teria sua me casado com ele, se sabia que casava com um gigolot? Era por de mais injusto-realmente uma maldade, 
dar-lhe um pai que no passava de um gigolot. O pior era que, depois de Crum ter dito aquilo, ele apercebia-se de que j h muito tempo notara subconscientemente 
que o pai no era "uma grande figura". Era o mais srdido caso que lhe havia acontecido - o mais srdido caso que jamais acontecera a algum. E, mais desanimado 
do que nunca se sentira na sua vida, atingiu Green Street e entrou em casa com uma chave que contrabandeara. Na sala de jantar os ovos esperavam-no, preparados de 
modo atraente, com torradas de po com manteiga e um pouco de whisky no fundo de uma garrafa - s o bastante, pensara Winifred, para ele se considerar um homem, 
porm ele sentiu nuseas ao olhar para aquilo e subiu a escada.
Winifred ouviu-o passar e disse consigo: "O meu filhinho j voltou, graas a Deus! Se ele imitar o pai, no sei o que ser de mim. Mas no - o meu filho parece-se 
comigo."

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CAPTULO III

SOAMES PREPARA-SE PARA AGIR


Quando entrou na sala da irm, mobilada  Lus XV, com uma pequena sacada sempre florida de gernios no Vero, e agora ornada de vasos de Lilium Auratum, Soames 
sentia-se abalado pela imutabilidade dos problemas humanos. A sala parecia a mesma da sua primeira visita aos Dartie recm-casados, vinte e um anos atrs. Ele prprio 
escolhera a moblia, e fizera-o de modo to completo que nenhuma tentativa posterior conseguira modificar a atmosfera da sala. Sim, ele instalara bem a irm, como 
ela o queria, e realmente fora uma grande coisa para Winifred, durante a sua vida com Dartie, ter contado com uma boa instalao. Desde o comeo Soames farejara 
a natureza de Dartie, sob as aparncias de gentileza, savoir faire e elegncia com que ele deslumbrara Winifred e a me deles, e at mesmo James, que chegara a permitir 
que aquele sujeito casasse com sua filha sem nada trazer alm de algumas aces sem valor.
Winifred estava sentada  sua secretria embutida e tinha uma carta na mo. Ergueu-se e veio ao encontro de Soames. Da mesma altura que o irmo, com as mas do 
rosto fortes e um vestido de bom corte, tinha algo na expresso da face que inquietou Soames. Amarrotou a carta entre os dedos, mas depois mudou de ideia e estendeu-a 
ao outro. Soames era seu advogado, alm de seu irmo.

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Soames leu o seguinte, escrito em papel com cabealho do Iseeum Club:

Agora j voc no poder mais insultar-me em minha prpria casa. Partirei amanh da Inglaterra. Acabou a comdia. Estou cansado dos seus insultos. Foi voc que o 
quis assim. Nenhum homem que se respeite pode suportar isso. Nunca mais lhe pedirei nada. Adeus. Trouxe a fotografia das meninas. D saudades minhas a elas. Touco 
me importo com o que dir a sua famlia. Eles  que tm a culpa disto tudo.
Vou iniciar uma vida nova.

M. D.

No bilhete, rabiscado depois do jantar, uma grande mancha incolor no secara ainda. Soames olhou para Winifred. Fora ela, evidentemente, que fizera a mancha, e ele 
conteve-se para no exclamar: "Que alvio!" E compreendeu ento que, graas quela carta, a irm entrava na situao que ele to ardentemente desejava abandonar: 
a situao de um Forsyte que no se divorciou.
Winifred afastara-se e voltava-lhe as costas, estava a aspirar longamente o contedo de um frasco de gargalo dourado. Uma obscura comiserao, vagamente mesclada 
ao sentimento de que fora lesado, insinuou-se no corao de Soames. Ele viera at ali para falar da sua prpria situao, para se queixar, para sentir a solidariedade 
dela, e eis que encontrava a irm em posio idntica, querendo naturalmente falar naquilo e receber os protestos de solidariedade dele. Era sempre assim. Nunca 
ningum desconfiava de que ele tivesse as suas complicaes e os seus interesses. Dobrou a carta manchada e perguntou:
- Que foi que houve?
Winifred contou calmamente a histria das prolas.
- Voc pensa que ele se tenha realmente ido embora, Soames? V-se bem o estado em que ele estava quando escreveu isto.
Quando Soames desejava uma coisa, propiciava a Providncia fingindo que no acreditava nela. E respondeu:
- Creio que sim, posso indagar qualquer coisa no clube dele.

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- Se George estiver l - disse Winifred -, certamente que sabe.
- George? - perguntou Soames. - Vi-o no enterro do pai.
- Ento est, na certa.
Soames, cujo bom senso aplaudia a deduo da irm, disse-lhe sem entusiasmo:
- Bem, vou l. Voc contou qualquer coisa em Park Lane?
- Falei a Emily - respondeu Winifred. Ela chamava a me pelo nome, pois considerava isso muito chique. - O pai, se soubesse, tinha um ataque.
Na verdade, todos tinham agora muito cuidado em manter James na ignorncia das coisas desagradveis. E com outro olhar  moblia, como para apreciar a posio da 
irm, Soames partiu para Piccadilly. A noite caa, com uma ponta de frio na bruma de Outubro. Ele caminhava em passo rpido, com o jeito fechado e concentrado que 
lhe era habitual. Precisava andar depressa, pois desejava jantar no Soho. Quando o porteiro do Iseum Club lhe disse que Mr. Dartie no viera, ele lanou um olhar 
ao homem e perguntou se Mr. George Forsyte tambm no estava. Estava. Soames sempre se sentia pouco  vontade na presena do primo, que gostava de pilheriar  sua 
custa, seguiu entretanto o criado, levemente tranquilizado ao pensar que George acabava de enterrar o pai. Deveria ter herdado umas trinta mil libras, sem falar 
da doao que Roger lhe havia feito em vida, e que escapara aos direitos de sucesso. Encontrou George junto ao vo de uma janela, sentado defronte de um prato de 
mulins (1). Grande, corpulento, vestido de negro, o vulto dele assumia propores quase ameaadoras, ao mesmo tempo que conservava a correco meio sobrenatural 
do turfman. Careteou um sorriso dbil na face carnuda e disse:
- Ol, Soames! Quer um mulfin?
- No, obrigado - murmurou Soames. - Depois, voltando o chapu entre os dedos, com o desejo de dizer qualquer coisa que se ajustasse  situao e testemunhasse simpatia, 
perguntou: - Como est a sua me?

*1. Bolo semelhante aos nossos sonhos. (N. da T.)

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- Vai mais ou menos, obrigado. Faz um sculo que no o vejo. Voc nunca vai s corridas. Que h de novo na City?
Sentindo a aproximao das piadas, Soames disse logo o que pretendia.
- Queria perguntar-lhe uma coisa a respeito de Dartie. Dizem que...
- Abandonou o lar e fugiu para Buenos Aires com a linda Lola. Bom negcio para Winifred e os pequenos. Aquele sujeito  um azar.
Soames aprovou com um aceno de cabea. A despeito da hostilidade natural que havia entre ambos, Dartie aproximava os primos.
- Agora o tio James vai poder dormir descansado - prosseguiu George. - Na certa ele tambm lhe tirou bastante dinheiro.
Soames sorriu.
- Ah, cada um tem o seu dia - disse George amigavelmente. -  um camarada incrvel. Aquele menino, Val, h-de carecer que o vigiem. Eu sempre tive d de Winifred. 
 uma mulher corajosa.
Novamente Soames aprovou com um aceno de cabea.
- Preciso procur-la - disse ele. - Ela queria ter uma certeza. Talvez ns tenhamos de tomar uma atitude qualquer. Quero crer que no h engano possvel?
-  inteiramente okay - disse George, com a sua gria tranquila. - Ele ontem estava bbado como um lorde, porm partiu realmente hoje de manh. O navio  o Tuscarora. 
- E tirando do bolso um carto, leu num tom chocarreiro: - "Mr. Montague Dartie, Posta-Restante, Buenos Aires." Se eu fosse vocs, agiria depressa. Esta noite ele 
chegou a enojar-me.
- Sim - disse Soames -, mas essas coisas nem sempre so fceis. - Depois, compreendendo pelo olhar de George que despertara no primo a lembrana do seu prprio caso, 
ergueu-se e estendeu-lhe a mo. George tambm se levantou.
- Lembranas a Winifred. Se voc me ouvir, inscreva-a imediatamente no Preo do Divrcio.
Da porta, Soames lanou ao outro um olhar de vis. George sentara-se novamente e olhava fixamente em frente de si, tinha
um ar enorme e solitrio, no seu trajo preto. Soames nunca o vira to pacfico. "Quero crer que, de uma certa forma, isto impressionou-o", pensou ele. "Somando tudo, 
eles devem receber cerca de cinquenta mil libras cada um. Devem guardar as propriedades em comum, se houver guerra, o preo dos imveis baixar. Apesar de tudo, 
o tio Roger era perito nessas coisas." E na rua, que as trevas comeavam a invadir, Soames viu aparecer-lhe o rosto de Annette, os seus cabelos castanhos, os olhos 
azuis, cujos clios eram negros, a frescura da boca e das faces, que conservavam, apesar da atmosfera de Londres, a humidade do orvalho e um brilho de flor: o corpo 
perfeito de francesa. "Agir", pensava ele. Ao chegar a casa de Winifred, encontrou  porta Val, e entraram juntos. Uma ideia ocorreu a Soames: o seu primo Jolyon 
era o administrador da herana de Irene, e a primeira coisa a fazer seria ir v-lo a Robin Hill. Robin Hill! Que estranhssimo sentimento despertava nele esse nome. 
A casa que Bosinney construra para Irene e ele, a casa em que eles nunca haviam morado - a casa fatal! E Jolyon morava l, hoje! Hum! E de sbito pensou: "Dizem 
que ele tem um filho em Oxford. E se eu levasse Val l, para que os dois fizessem amizade? Porque no?  um pretexto. Assim, a coisa teria um ar muito mais natural, 
muito mais!" De forma que disse a Val, enquanto subiam a escada:
- Voc tem um primo em Oxford, a quem no conhece. Gostarei muito de o levar l amanh, e apresent-lo a si. Talvez possa ser-lhe til.
Porm, como Val recebia a proposta com um medocre entusiasmo, Soames deu o caso como resolvido:
- Passarei amanh aqui depois do almoo para o levar.  no campo, mas no  longe. A viagem vai agradar-lhe.
Ao entrar na sala, lembrou-se com esforo de que era a Winifred, e no a ele prprio, que interessavam as medidas que encarava naquele instante.
Winifred estava ainda sentada  sua secretria.
-  realmente verdade. Ele embarcou para Buenos Aires hoje de manh. E devemos mand-lo seguir logo que pisar terra. Vou telegrafar imediatamente. Se no for assim, 
teremos de fazer despesas enormes. Quanto mais depressa se fazem estas coisas, melhor.

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Eu hei-de lamentar sempre no ter feito... - Interrompeu-se e olhou de lado para Winifred silenciosa. - A propsito - continuou ele -, ser que voc pode fornecer 
provas de maus tratos? Winifred respondeu-lhe num tom lnguido:
- No sei. Que entende voc por maus tratos?
- Ora, no lhe bateu, nem fez qualquer coisa de anlogo? Winifred pareceu mais abatida, e o seu queixo tornou-se
quadrado.
- Torceu-me o brao. Ser que vale a pena contar que ele me apontou o revlver? Ou que entrou bbado a ponto de no poder mudar de roupa? Ou... No posso arrastar 
os meninos num caso desses.
- No - disse Soames -, no. Fico a pensar... Bem entendido, h a separao legal de corpos e bens, pode-se arranjar isso Apenas separao. Hum!
- Que significa isso? - perguntou Winifred, desolada.
- Significa que ele no ter mais poder nenhum sobre voc, nem voc sobre ele, ao mesmo tempo sero e no sero casados.
- E Soames soltou novo gemido. Afinal no seria mais que a sua prpria maldita situao legalizada! No, no poria a irm numa posio assim! -  preciso que se 
obtenha um divrcio
- disse ele com deciso. - Na falta de maus tratos, pode-se alegar abandono do lar. J existe agora um mtodo de abreviar os dois anos. Obteremos do tribunal uma 
intimao para que ele reintegre o domiclio conjugal. E, se ele no o fizer, poderemos requerer o divrcio dentro de seis meses. Sei bem que voc no deseja v-lo 
de volta. Mas ningum precisa saber disso.  verdade que fica a haver o risco de que ele regresse. Ser talvez melhor tentar os maus tratos.
Winifred abanou a cabea.
-  to repugnante!
- Afinal - murmurou Soames -, talvez no haja tanto risco enquanto ele estiver apaixonado pela bailarina e possuir algum dinheiro. No diga nada a ningum e no 
lhe pague nenhuma das
dvidas.
Winifred suspirou. Apesar de tudo o que suportara, sentia muito aquela perda. E a ideia de no pagar mais as dvidas do
marido punha-a em contacto com a realidade, como nada a pusera antes. Parecia que uma riqueza lhe fugira da vida. Tinha agora de afrontar o mundo sem o marido, sem 
as suas prolas e sem o sentimento ntimo de que fazia boa figura abafando a desorganizao domstica. Sentia-se realmente de luto.
E no beijo frio que deps na testa da irm Soames ps mais calor que de costume.
- Devo ir a Robin Hill amanh - disse ele. - Tenho de ver Jolyon filho a respeito de alguns negcios. Ele tem um filho em Oxford. Creio que vale a pena levar comigo 
Val e apresent-lo l. Porque no vai passar o fim-de-semana com os meninos, l no Shelter? Ah, no, amanh no pode ser, tenho outros convidados.
E, dizendo isto, saiu e tomou o caminho do Soho.

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CAPTULO IV

 SOHO


De todos os bairros que compem o extico e extravagante amlgama chamado Londres, o Soho  talvez o menos compatvel com o esprito dos Forsyte. "Vai ao Soho, seu 
malandro!", teria dito George, se visse o primo tomar essa direco. Sujo, cheio de gregos, de levantinos, de gatos, de italianos, de tomates, de restaurantes, de 
realejos, de fazendas coloridas de nomes exticos, de gente espiando nas janelas altas, o Soho mantm-se afastado do Corpo Poltico Britnico. Contudo, tem instintos 
de propriedade que lhe so peculiares e que lhe elevam os alugueres mesmo quando os dos outros bairros esto em crise. Durante longos anos, os conhecimentos de Soames 
com o Soho tinham-se reduzido ao seu bastio ocidental, ou seja Wardour Street. Muitos negcios fizera ele ali. Mesmo nestes sete anos que se tinham passado aps 
a morte de Bosinney e a fuga de Irene, muitas vezes adquirira tesouros por l, embora j no tivesse mais stio vago onde os pendurar, pois, quando se consolidara 
nele a convico de que a mulher partira para sempre, mandara apor este cartaz na sua casa de Montpellier Square:

 VENDA ESTA EXCELENTE RESIDNCIA
Tratar com Messrs. Lesson & Tukes Court Street, Belgravia

Vendera-a dentro de uma semana - aquela excelente residncia,  sombra de cuja perfeio um homem e uma mulher haviam devorado o corao um do outro.
Numa nevoenta tarde de Janeiro, pouco antes de o cartaz ser retirado, Soames fora l uma vez mais, e ficara encostado s grades da praa, olhando para aquelas janelas 
apagadas, ruminando lembranas de posse que hoje lhe amargavam tanto na boca. Porque nunca o amara Irene? Porqu? Ela recebera tudo que ambicionava, e em troca dera-lhe, 
a ele, durante trs longos anos, tudo o que ele desejava - excepto, na verdade, o corao. Soames engoliu um pequeno soluo involuntrio e um polcia que passava 
olhou-o, suspeitoso - olhou para ele, que em breve j no possuiria o direito de transpor aquela porta pintada de verde, cuja aldrava esculpida se via sob o cartaz 
" VENDA". Uma sensao penosa constrangeu-lhe a garganta, e ele fugiu por entre a neblina. Naquela noite, ento, encaminhou-se para Brighton,  procura de vida...
Caminhando para Malta Street, no Soho, em direco ao Restaurant Bretagne, onde encontraria Annette inclinando sobre as costas os lindos ombros, Soames pensava com 
espanto naqueles sete anos que passara em Brighton. Porque decidira ficar por tanto tempo naquela cidade desprovida do perfume das ervilhas-de-cheiro, onde no tinha 
sequer espao para pendurar os seus tesouros? Na verdade, no tinham sido anos em que lhe sobrasse tempo para os olhar - anos de quase apaixonada corrida atrs do 
dinheiro, durante os quais Forsyte, Bustard & Forsyte haviam cuidado dos interesses de muito mais empresas comerciais do que podiam realmente dar conta. Ia para 
a City, pela manh, num carro Pullman, e voltava  tarde num carro Pullman. Papis legais para estudar ainda  noite, depois o pesado sono da fadiga, e novamente 
a viagem pela manh. Do sbado  segunda, passava esses dias no seu clube na cidade - numa curiosa inverso dos hbitos de toda a gente, baseado no seu profundo 
e cuidadoso instinto de que, enquanto trabalhava, precisava aspirar o ar do mar duas vezes por dia, no percurso de ida e volta da estao, e, por outro lado, nos 
dias de repouso, devia satisfazer as suas afeies domsticas.
Ao domingo visitava a famlia, em Park Lane e em Green
Street: e as outras visitas ocasionais, aqui e ali, tambm lhe pareciam to necessrias  sade como o ar do mar nos dias de semana. Mesmo depois da sua migrao 
para Mapledurham, Soames mantivera esses hbitos - at que conhecera Annette. Se fora Annette que causara essa revoluo nos seus hbitos, ou se fora a revoluo 
que provocara o aparecimento de Annette, ele sabia-o tanto quanto se pode saber onde comea um crculo. E a isso somava-se o seu crescente sentimento de que propriedade 
sem um herdeiro para a recolher  a negao do verdadeiro forsytismo. Possuir um herdeiro, que fosse como a continuao de si prprio, que comeasse quando ele acabasse 
- garantia, de facto, de que ele nunca acabaria -, era a sua obsesso de havia mais de um ano para c.
Depois de negociar um Wedgwood, numa certa tarde de Abril, encaminhara-se para Malta Street a fim de ver uma casa, pertencente a seu pai, que haviam transformado 
em restaurante - o que representava uma operao arriscada e em desacordo com as condies do contrato de locao. Demorara-se alguns instantes a considerar a fachada, 
revestida de uma pintura creme, de bom aspecto, a porta ostentava dois pequenos loureiros, em grandes caixas pintadas de azul-rei, e era encimada pelo letreiro dourado: 
Restaurant Bretagne - e o conjunto impressionara-o favoravelmente. Depois entrara, notando que j vrios fregueses estavam instalados em torno das mesinhas redondas, 
pintadas de verde, sobre as quais havia flores frescas e pratos de loua da Bretanha, perguntou pelo proprietrio a uma criada vestida com bom gosto. Levaram-no 
a uma sala de fundo, onde estava sentada uma moa junto a uma secretria singela, coberta de papis, numa pequena mesa redonda, na mesma sala, estavam postos dois 
talheres. Tudo aquilo dera-lhe uma impresso de asseio, de ordem e de bom gosto, impresso que se confirmou quando a moa se ergueu e lhe disse, num ingls hesitante:
- Deseja ver a mam, monsieur?
- Sim - disse Soames. - Sou o representante do seu senhorio, filho dele, na verdade.
- Quer fazer o favor de se sentar? - E acrescentou, dirigindo-se  criada: - Diga  mam que venha falar com este cavalheiro.
Ele gostara de ver o interesse da moa, sinal de que tinha o instinto dos negcios. E de sbito observou que a rapariga era notavelmente bonita - to bonita que 
os olhos resistiam a deixar-lhe o rosto. Quando ela deu alguns passos para lhe estender uma cadeira, notou que o seu andar tinha uma ondulao subtil e curiosa, 
como se houvesse sido feita pelas mos de um fabricante possuidor de algum segredo especial, e o rosto e o colo - ligeiramente descoberto - pareciam to frescos 
como se houvessem sido salpicados de orvalho. Desde esse instante, provavelmente, Soames decidiu que o contrato de locao no havia sido violado, para si mesmo 
e para o pai, entretanto, fundou essa deciso na excelncia das transformaes ilcitas sofridas pelo imvel, o ar de prosperidade da casa e as evidentes aptides 
comerciais de Madame Lamotte. No entanto, teve o cuidado de deixar para mais tarde a ratificao de certos tpicos importantes, e esses tpicos exigiram novas visitas 
- de tal modo que a pequena sala dos fundos j se habituara a ver-lhe o corpo seco, macio sem excesso, e o rosto plido, todo queixo, com o bigode curto e os cabelos 
pretos que j comeavam a encanecer nas tmporas.
"Un monsieur trs distingu", era assim que o julgava Madame Lamotte, e acrescentou em breve, vendo os olhos que ele lanava  filha: "Trs amical, trs gentil."
Madame Lamotte era uma dessas francesas generosas, de traos finos, cabelo escuro, que, por todos os seus actos, pelo tom de voz, inspiram uma confiana absoluta 
na solidez das suas virtudes domsticas, nos seus conhecimentos culinrios e no aumento zelosamente vigiado da sua conta de banco.
Depois que comearam essas visitas ao Restaurant Bretagne cessaram outras visitas - sem que houvesse nisso, a falar verdade, nada de absolutamente intencional, porque, 
igual a todos os For syte e a todos os seus compatriotas, Soames era um emprico de nascena. Mas fora essa modificao no seu modo de vida que pouco a pouco lhe 
fizera sentir claramente o desejo de passar da situao de homem casado-celibatrio  situao de homem casado-casado.
Virando a esquina de Malta Street, naquela tarde de comeos de Outubro de 1899, comprou um jornal para ver o que havia de
novo a respeito do caso Dreyfus - assunto que j lhe servira para estreitar as relaes com Madame Lamotte e a filha, que eram catlicas e anti-Dreyfus.
Percorrendo as colunas do jornal, Soames no encontrou nada a respeito da Frana, porm notou uma queda geral na Bolsa e um vergonhoso artigo de fundo a respeito 
do Transval. Comeou a pensar: "A guerra  certa, devo vender as minhas aces." No que ele pessoalmente possusse muitas aces, pois a taxa dos juros era vil, 
porm deveria prevenir as suas companhias de que as aces de consolidados iam por gua abaixo.
Quando transps as portas do restaurante, bastou-lhe um olhar para ver que o negcio continuava a ir bem, e essa verificao, que em Abril lhe fora agradvel, causava-lhe 
agora um certo aborrecimento. Se os passos que pretendia dar terminassem pelo casamento com Annette, preferiria que a sogra voltasse definitivamente para a Frana 
- e isso era um projecto a que a prosperidade do Restaurant Bretagne poderia servir de obstculo. Teria de comprar a parte dela, naturalmente, porque os franceses 
no vm para a Inglaterra seno para ganhar dinheiro: e aquilo significava que o preo seria elevado. Mas a curiosa impresso que sentia sempre  porta da salinha 
dos fundos - uma doura no peito e um ligeiro palpitar do corao - impediu-o de perguntar a si mesmo em quanto importaria esse preo.
Ao entrar, adivinhou uma vasta saia preta que desaparecia no restaurante e encontrou-se na presena de Annette, de p, com as mos nos cabelos. Era, entre todas, 
a atitude em que ele mais a admirava - to maravilhosamente esbelta, modelada e leve. E disse:
- Vim apenas para falar com sua me acerca dessa diviso que ela quer derrubar. No, no a chame.
- Monsieur quer jantar connosco? Estar pronto dentro de dez minutos.
Soames, que conservara nas suas a mo de Annette, foi vencido por um impulso que o surpreendeu.
- Voc est to linda hoje, Annette, to linda! Sabe quanto  bonita, Annette?
Annette retirou a mo e corou.

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- O senhor  muito amvel.
- Amvel! Absolutamente! - E sentou-se, melanclico.
As mos de Annette fizeram um gesto expressivo e um sorriso encrespou-lhe os lbios vermelhos, virgens de pintura. Olhando-lhe os lbios, Soames perguntou:
- Sente-se feliz aqui, ou desejaria voltar para a Frana?
- Oh, gosto muito de Londres. De Paris tambm,  claro. Mas Londres  muito melhor que Orlans. E o campo ingls  to bonito! No domingo passado fui a Richmond.
Durante um instante, Soames debateu-se entre uma veleidade e uma hesitao. Mapledurham? Ousaria? Finalmente, ousaria lev-la at l e mostrar-lhe que futuro lhe 
oferecia? L poderia falar-lhe. Naquela sala, era impossvel.
- Gostaria que voc e sua me - disse ele de sbito - viessem passar comigo a tarde do prximo domingo. A minha casa   beira do rio, e ainda no estamos avanados 
na estao. Alm disso, posso mostrar-lhes lindos quadros. Que diz a isso?
Annette juntou as mos.
- Ser adorvel. O rio  to bonito!
- Ento est entendido. Vou falar a madame.
No devia dizer-lhe mais nada, naquela noite, sob o risco de se trair. No teria talvez j dito de mais? Quem  que convida para a sua casa de campo, a menos que 
no tenha determinadas intenes, a proprietria de um restaurante e a sua bonita filha? Madame Lamotte compreenderia bem o seu jogo, se Annette no o compreendesse. 
Ora! Havia poucas coisas que Madame Lamotte no via. Alm disso, era aquela a segunda vez que ele jantava com elas  mesa, e devia-lhes hospitalidade.
Quando tomou o caminho de Park Lane - porque estava em casa do pai, naquela semana - guardava a sensao da doce mo de Annette posta na sua e tinha pensamentos 
agradveis, levemente sensuais, ou talvez perplexos. Tomar providncias! Que providncias? Lavar a roupa suja em pblico? Que nojo! Com a sua reputao de homem 
sagaz, hbil em prever de longe e em tirar os outros de complicaes, ele, o representante das classes proprietrias, tornar-se o joguete dessa mesma justia da 
qual era um dos baluartes! Havia nessa ideia algo de revoltante. O caso de Winifred tambm j era bastante desagradvel. E gozar assim de uma dose dupla de publicidade 
na famlia! No seria melhor uma ligao - uma ligao e um filho que ele pudesse adoptar? Mas, sombria, macia, vigilante, Madame Lamotte interceptava a entrada 
dessa viso. No, no podia ser. Seria outra hiptese, se lhe fosse possvel inspirar a Annette uma paixo de verdade, mas na sua idade no podia esperar tal coisa. 
Se a me desejasse, se as vantagens materiais fossem evidentemente grandes - talvez. Seno, era certa uma recusa. "Alis", pensou ele, "no sou um canalha. No quero 
fazer-lhe mal e no desejo obt-la graas a manobras subterrneas. Mas quero-a, e quero um filho! No h outro recurso seno um divrcio - um divrcio!" Sob os pltanos, 
sob a iluminao da rua, seguiu lentamente ao longo das grades de Green Park. Via-se uma bruma suspensa entre os vultos azulados das rvores, fora do alcance das 
luzes da rua. Quantas vezes no caminhara junto quelas rvores, ao sair da casa do pai, durante a juventude, ou ao sair da sua prpria casa de Mont-pellier Square, 
durante os quatro anos de vida conjugal! E naquela noite em que tinha decidido romper, se possvel, o lao h tanto tempo intil daquele casamento, veio-lhe a fantasia 
de continuar o caminho, de entrar em Hide Park Corner e sair por Knightsbridge Gate, como tinha o costume de fazer outrora, nos tempos em que saa de casa para encontrar 
Irene. Como estaria ela agora? Como teria passado aqueles anos, desde que a vira pela ltima vez? Doze anos ao todo, pois j fazia sete anos que o tio Jolyon lhe 
deixara a herana. "Eu quase no mudei", pensou Soames. "Espero que ela tenha mudado. Fez-me sofrer muito." E de sbito lembrou-se de uma noite - a primeira noite 
em que sara s para jantar, um jantar de antigos colegas, no primeiro ano do seu casamento. Com que pressa impaciente voltara! Entrando silencioso como um gato, 
ouvira-a a tocar piano. Abrira silenciosamente a porta da sala, parara para observar a expresso do rosto de Irene, diferente de todas as expresses que lhe conhecia 
- aberta, ntima, como se ela houvesse dado  msica um corao que ele nunca conhecera. E lembrava-se do modo com que ela parara de tocar e voltara a cabea, como 
o rosto de Irene retomara a expresso que lhe conhecia, que arrepio gelado o percorrera, embora momentos depois estivesse junto dela,

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a acariciar-lhe os ombros. Sim, ela fizera-o sofrer! Divorciar-se! Parecia-lhe ridculo, depois de todos aqueles anos de separao. Mas era preciso. No tinha outra 
alternativa. "A questo", pensou ele com repentino realismo, " saber qual de ns dois. Ela ou eu? Ela que me deixou. Ela que pague por isso. Alis, ela deve ter 
algum, naturalmente." Soltou um pequeno gemido involuntrio e, dando meia volta, retomou o caminho de Park Lane.

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CAPTULO V

JAMES TEM VISES


Foi o prprio mordomo que abriu a porta e, fechando-a silenciosamente, reteve Soames no capacho de dentro. - O patro no Vai bem, sir - murmurou ele. - No quis 
deitar-se antes da sua volta. Ainda est na sala de jantar. Tinha-se agora, em casa, o hbito de falar baixo. E foi em voz baixa que Soames respondeu:
- Que sucedeu, Warmson?
- Nervoso, creio eu, Mr. Soames. Talvez por causa do enterro, ou talvez por causa de Mrs. Dartie, que esteve aqui hoje  tarde. Creio que ele percebeu qualquer coisa 
da conversa. Levei-lhe um copo de vinho quente. A patroa acaba de subir.
Soames pendurou o chapu numa cabea de veado de mogno.
- Est bem, Warmson, pode ir deitar-se. Eu prprio o levarei ao quarto.
E entrou na sala de jantar.
James estava sentado junto ao fogo, numa grande poltrona. Sobre o casaco, um xaile de plo de camelo, muito leve e muito quente, envolvia-lhe os ombros, sobre os 
quais desciam as longas suas alvas. Os cabelos brancos, que ainda se mantinham muito espessos, brilhavam sob a lmpada, os olhos cinzento-claros tinham uma luz 
fixa, manchando-lhe as faces, que tinham entretanto guardado a sua bela cor, uma pequena exsudao chorava-lhe dos olhos,

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correndo ao longo das fundas rugas que iam at aos cantos da boca, os lbios agitavam-se num movimento incessante, como se o velho murmurasse o que pensava. Magras 
como as patas de um corvo, sob as calas de l escocesa, as pernas estendiam-se quase em vertical, e sobre um dos joelhos uma mo fusiforme, cujos dedos afastados 
terminavam por unhas despontadas e brilhantes, nunca estava em repouso. Ao seu lado, numa banqueta baixa, tinha um copo de vinho quente, meio cheio, coberto de um 
orvalho de espuma feito pelo calor. Durante todo o dia, salvo nas horas de refeio, mantinha-se sentado ali, naquela poltrona. Na idade de oitenta e oito anos, 
continuava so de corpo, mas sofria terrivelmente graas  mania que o atormentava: nunca lhe contavam nada. Ningum sabia ao certo como descobrira ele que tinham 
sepultado Roger naquela manh, pois Emily escondera-lhe a notcia. Ela escondia-lhe tudo o que se passava. Emily tinha apenas setenta anos! James tinha rancor  
mulher pela sua juventude. Dizia s vezes de si para si que nunca a haveria desposado se imaginasse que ela teria um dia tantos anos diante de si, enquanto ele os 
teria to poucos. No era natural. Ela sobreviver-lhe-ia durante quinze ou vinte anos, e faria talvez enormes despesas, sempre tivera gostos extravagantes. Quem 
sabe? Era at capaz de comprar uma dessas mquinas novas, um automvel. Cecily, Rachel, Imogen e todos os jovens j andavam agora de bicicleta, e iam Deus sabe para 
onde. E agora Roger morrera. Ele no sabia - no poderia dizer! A famlia desagregava-se. Soames poderia revelar-lhe o montante da fortuna do tio. Curioso: quando 
ele pensava em Roger, era como o tio de Soames, e no o seu prprio irmo. Soames! Era, cada dia mais, o nico ponto slido num mundo prestes a desaparecer. Soames 
era cuidadoso. Era um homem avisado. Mas tambm no tinha a quem deixar o seu dinheiro. Era isso! E ele no sabia mesmo! E ainda por cima havia esse Chamberlain. 
Os princpios polticos de James tinham-se fixado entre os anos 70 e 85, quando "aquele radical malandro" se propusera atentar contra a propriedade, nunca tivera 
confiana na converso do "malandro", se o sujeito houvesse feito o que intentara, o dinheiro iria por gua abaixo e o pas ficaria de pernas para o ar. Aquele homem 
era um terramoto!

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Onde estaria Soames? Naturalmente fora ao funeral que lhe tinham querido ocultar,Sabia disso perfeitamente bem, soubera-o ao ver as calas do filho. Roger! Roger 
no caixo. Lembrava-se de quando eles vinham da escola, do Oeste, em 1824, e Roger adormecera na carriola do velho Slowflyer.
James emitiu uma espcie de cacarejo. Sujeito engraado, Roger - um original! No compreendia aquilo: mais moo que ele, James, e j guardado no caixo! A famlia 
estava a destruir-se. L ia Val para a Universidade, nunca mais tinha vindo visitar o av. E iria custar-lhe um bom dinheiro nos estudos. Era um tempo de extravagncias. 
E todo o bom dinheiro que os quatro netos lhe vinham custando danou diante dos olhos de James. No lamentava ter de lhes dar o que dava, mas lamentava terrivelmente 
o risco que o dispndio daquele dinheiro poderia trazer a todos: lamentava a diminuio da segurana. E agora, que Cecily casara, comearia tambm a ter filhos. 
Ele no sabia, no poderia dizer! Ningum pensava noutra coisa, actualmente, seno em gastar dinheiro, e correr atrs disso, e fazer o que eles chamam "gozar a vida". 
Um automvel passou sob a janela. Horrenda e ruidosa coisa, provocando todo aquele escarcu! Porm era isso mesmo, o pas ia  deriva! O povo vivia numa tal pressa 
que no tinha tempo de pensar em compostura - uma boa equipagem antiga, como o seu barouche (1) com os baios, valia muito mais que todos esses veculos modernos.
E os consolidados a cento e dezasseis! Devia haver muito dinheiro no pas. E ainda por cima esse velho Kruger! Tinham procurado esconder-lhe a existncia do velho 
Kruger. Porm ele descobrira-o muito bem. N difcil de desatar, esse Transval! James bem compreendera o que iria suceder quando o tal Gladstone (agora morto, graas 
a Deus!) fizera um barulho com aquele pavoroso negcio de Majuba. James no se admiraria se o Imprio escorregasse e quebrasse o cntaro. E essa viso do Imprio 
caindo com o cntaro cheio trouxe-lhe, durante um quarto de hora, um desfalecimento do mais srio carcter. Almoara mal por causa daquilo.

*1. Barouche - carruagem de quatro rodas com capota mvel.
(N. da T.)

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Mas foi depois do almoo que ocorreu o desastre real para os seus nervos. Ele estava a dormitar, quando escutou umas vozes - vozes falando em segredo. Ah! Aquela 
gente nunca lhe contava nada! Eram Winifred e a me. "Monty! Aquele canalha - Dartie -, sempre aquele canalha! As vozes tinham-se afastado, e James ficara s, aguando 
as orelhas como uma lebre, enquanto um sentimento de terror se insinuava nele at s entranhas. Porque o deixavam s? Porque no vinham contar-lhe o que acontecera? 
E um pensamento horrvel, que o apavorara durante anos, , cristalizou-se rapidamente no esprito do velho. Dartie tinha cado em bancarrota fraudulenta - e, para 
salvar Winifred e as crianas, ele, James, era obrigado a pagar! Seria - seria que Soames poderia arranjar a coisa numa sociedade de responsabilidade limitada? No, 
no poderia! A estava. De minuto a minuto, esperando a volta de Emily, o espectro tornava-se mais cruel. E quem sabe se no era uma falsificao? Com os olhos fixos 
sobre o Turner de autenticidade duvidosa que ocupava o centro da parede, James sentia-se em torturas. Via Dartie no banco dos rus, os netos na sarjeta, e ele prprio 
na cama. Via o seu Turner duvidoso vendido em leilo, no Jobson, e todo o majestoso edifcio da sua propriedade reduzido a migalhas. Via, em imaginao, Winifred 
trajada em roupas sem elegncia e ouvia, em imaginao, a voz de Emily a dizer-lhe: "Vamos, no se aborrea, James!" Ela estava sempre a dizer: "No se aborrea!" 
Era uma mulher sem nervos. Ele nunca deveria ter casado com uma mulher dezoito anos mais nova! E ouviu a voz real de Emily que lhe perguntava:
- Dormiu um pouco, James?
Dormir! Ele estava na tortura, e eis o que ela lhe perguntava!
- Que  que h a respeito de Dartie? - perguntou, encarando-a.
Emily nunca perdia o domnio sobre si mesma.
- De que  que voc anda  escuta? - perguntou ela inocentemente.
- Que  que h a respeito de Dartie? - repetiu James. - Bancarrota?
- Ora, que disparate!

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James fez um grande esforo e ergueu em toda a altura o seu corpo de cegonha.
- Voc nunca me conta nada. Garanto que ele faliu. Pareceu a Emily que a destruio daquela ideia fixa era tudo
o que tinha importncia no momento.
- Absolutamente. Partiu para Buenos Aires.
Se ela houvesse dito "Partiu para o planeta Marte", no poderia ter aturdido James com um golpe mais certeiro. A imaginao dele, concentrada nas operaes da Bolsa 
britnica, era to incapaz de figurar um dos lugares como o outro.
- Que foi Dartie l fazer? - perguntou o velho. - Ele no tem vintm. Com quem foi?
Agitada interiormente pelas notcias que Winifred lhe trouxera, enervada pela constante repetio daquela jeremiada, Emily respondeu com o seu tom mais calmo:
- Foi-se embora com as prolas de Winifred e uma danarina.
- O qu! - exclamou James. E tornou a sentar-se.
O seu sbito colapso alarmou Emily, e ela acariciou-lhe a testa, dizendo:
- Vamos, no se aborrea, James!
Uma vermelhido crepuscular espalhara-se pelas faces e pela
fronte do velho.
- Fui eu que as paguei - disse ele em voz trmula. -- Aquilo  um ladro! Eu... eu sabia bem o que ia acontecer. Aquele homem h-de matar-me. Ele...-As palavras 
faltaram-lhe e ele ficou completamente imvel. Emily, que supunha conhecer to bem o marido, estava alarmada e foi buscar ao aparador um frasco de sais. Ela no 
podia ver o tenaz esprito do Forsyte que lutava, naquele corpo magro e trmulo, contra a extravagncia da emoo provocada por aquele insulto a todos os princpios 
da sua raa - o esprito dos Forsyte, que, no fundo de si mesmo, lhe dizia: "Voc no deve agitar-se, no deve!" E, sem que Emily o percebesse, agia mais eficazmente 
que os sais.
- Beba isso - disse ela. James afastou o copo.
- Como foi que Winifred deixou que ele levasse as prolas? Emily viu que a crise passara.
- Eu dou-lhe as minhas - disse, num tom de consolao. - No as uso. O que Winifred devia fazer era divorciar-se.
- J est voc com as suas! Divorciar-se! Nunca houve divrcio nenhum na famlia. Onde est Soames?
- Deve estar a chegar.
- No  verdade-disse James quase ferozmente. - Ele foi ao enterro. Vocs pensam que eu no sei de nada.
- Ento - disse Emily com calma -, no devia afligir-se assim quando a gente lhe conta alguma coisa.
Depois arranjou-lhe as almofadas, e, pondo-lhe os sais ao alcance da mo, saiu da sala.
Porm, James, na sua poltrona, tinha vises. Winifred na Corte de Divrcios e o nome da famlia nos jornais, a terra caindo sobre o caixo de Roger, Val, herdeiro 
do carcter do pai e imitando-lhe a conduta, as prolas que ele pagara e que nunca mais veria, a taxa de juros rebaixada a quatro por cento e o pas caminhando para 
a runa. E com a vinda da noite, quando passou a hora do ch, e a do jantar depois, as vises tornaram-se mais confusas e ameaadoras: no lhe diziam nada, at ao 
dia em que no restasse mais um centavo de toda a sua fortuna, e mesmo a respeito disso no lhe diriam nada. Onde estava Soames? Porque no voltava para casa? Agarrou 
o copo de vinho quente, levou-o  boca e viu o filho em p, junto  poltrona, olhando-o. Um suspiro de alvio escapou-lhe dos lbios. E deps o copo, dizendo:
- Afinal voc chegou! Dartie fugiu para Buenos Aires! Soames fez um gesto de assentimento.
-  verdade-disse ele. - Foi uma limpeza.
Uma onda de calma passou pelo crebro de James. Soames sabia de tudo, Soames era o nico entre todos que tinha bom senso. Porque no vinha morar com eles? No tinha 
filhos. E disse, numa voz queixosa:
-Na minha idade, ficamos nervosos. Eu gostaria muito que voc estivesse aqui em casa com mais frequncia, meu filho.
Soames fez um novo gesto de assentimento. Nada havia no seu rosto que fizesse crer que ele compreendera, mas aproximou-se mais, e, como por acaso, tocou o ombro 
do pai.
- Mandaram lembranas para o senhor da casa do tio Timothy.

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Tudo se passou muito bem. Fui ver Winifred. Vou tratar do caso. - E acrescentou s para si: "Sim, e o senhor no deve saber do que vou tratar!))
James ergueu os olhos para Soames, as suas longas suas tremiam, e o pescoo magro, entre as pontas do colarinho, tinha um ar lamentoso e nu.
- No passei bem durante o dia todo - disse ele. - Nunca me contam nada.
O corao de Soames apertou-se um pouco.
- Pois tudo est muito bem. No h motivo para o senhor se afligir. Quer subir agora? - E ps a mo no brao do pai.
Obediente, com tremores pelo corpo todo, James ergueu-se, atravessaram juntos a sala, que tinha um ar confortvel e rico  luz do fogo, e chegaram  escada. Subiram 
lentamente.
- Boa noite, meu filho - disse James  porta do quarto.
- Boa noite, meu pai - respondeu Soames. Sob o xaile, a sua mo acariciava a manga do velho, parecia vazia, to magro era o brao. E, afastando-se do rectngulo 
de luz feito pela porta que se abria, subiu mais um andar, at ao seu quarto. "Quero um filho", pensou ele, sentando-se  beira da cama. "Quero um filho."

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CAPTULO VI

VISITAS EM CASA DE JOLYON FILHO


As rvores so quase insensveis ao passar do tempo, e o velho carvalho do relvado superior de Robin Hill no parecia ter envelhecido um nico dia desde a poca 
em que, estirado  sua sombra, Bosinney havia dito a Soames: "Forsyte, encontrei o lugar ideal para a sua casa." Depois disso, Swithin sonhara ao abrigo dos seus 
ramos, e o velho Jolyon l morrera. E agora, perto do balouo, Jolyon filho, que j no era moo, detinha-se l, para manejar os seus pincis. Entre todos os lugares 
do mundo, aquele era-lhe talvez o mais sagrado, porque ele amara realmente o pai.
Contemplando a vasta circunferncia do tronco da rvore rugosa, um pouco musgosa, mas ainda no carcomida, Jolyon cismava na fuga do tempo. Aquela rvore assistira 
talvez a todos os feitos da histria da Inglaterra, no se surpreenderia se ela datasse do tempo da rainha Isabel, os seus prprios cinquenta anos no significavam 
nada diante do carvalho. Quando a casa diante da qual o carvalho se erguia - casa que lhe pertencia agora - tivesse trezentos anos de idade, em vez de doze, talvez 
aquela rvore ainda estivesse de p no mesmo lugar, vasta e sombria. Quem ousaria cometer o sacrilgio de a derrubar? Talvez a casa fosse habitada ainda por algum 
Forsyte que a defendesse com um zelo ciumento. E Jolyon perguntava a si prprio que aspecto teria ela com a patina de uma tal velhice. Ramos de glicnias j lhe 
cobriam as paredes, o ar de construo nova j desaparecera. Conseguiria ela defender-se e preservar a dignidade que Bosinney lhe conferira

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- ou Londres, a cidade gigantesca, envolv-la-ia na sua mar enchente e a casa ficaria como um osis num deserto de estuque? Muitas vezes sentira-se persuadido, 
dentro de casa e fora dela, de que Bosinney fora guiado por uma inspirao quando a construra. Pusera realmente o corao ali. Talvez at a edificao ainda se 
tornasse uma das residncias histricas da Inglaterra - faanha rara para uma casa desta poca em que a arquitectura estava a degenerar. E o seu senso esttico unia-se 
ao amor da transmisso hereditria das riquezas - gosto que herdara dos Forsyte - para o fazer considerar com prazer e orgulho o facto de ser sua aquela casa. Havia 
um sabor de reverncia e culto dos antepassados (fosse embora por um nico antepassado) no seu desejo de legar a casa ao seu filho e ao filho do seu filho. O pai 
amara aquela casa, amara a paisagem que se avistava dela, o parque, o carvalho, os seus ltimos anos passados ali haviam sido felizes, e ningum a habitara antes 
dele. Estes onze anos em que vivera em Robin Hill haviam trazido, para Jolyon, um perodo de xito na sua vida de pintor. Consideravam-no agora um aguarelista de 
primeira ordem, por toda a parte os seus quadros andavam expostos e atingiam preos elevados, especializando-se, com a tenacidade da sua raa, na arte intermdia 
da aguarela, ele "vencera" bastante tarde, mas no tarde de mais para uma famlia que pretendia ser eterna. E, na verdade, a sua arte tornara-se mais profunda e 
mais substancial. De acordo com a sua situao, deixara crescer uma pequena barba loura, que comeava a ficar grisalha e dissimulava o seu queixo de Forsyte, o rosto 
moreno j no tinha o ar atormentado do seu tempo de ostracismo, e mudara, parecia que ficara mais moo. A perda da mulher, em 1894, fora uma dessas tragdias domsticas, 
que, no final de contas, representam um bem para todos. Ele amara-a realmente at ao fim, porque a sua natureza era afectuosa, mas ela cada vez mais se tornava dia 
a dia de mais difcil convivncia: ciumenta da enteada, June, ciumenta da prpria filhinha, Holly, queixando-se incessantemente de que ele no podia am-la, doente 
como estava, "incapaz de ser til a ningum, uma carga to grande para os outros que seria muito melhor que estivesse morta". Chorara-a sinceramente, mas depois 
que ela morrera o seu rosto parecia
mais moo. Se ao menos ela houvesse podido acreditar que o fazia feliz, como teriam sido muito melhores os vinte anos de vida em comum!
June nunca se entendera bem com a mulher que fizera essa coisa repreensvel: tomar o lugar de sua me. E depois da morte do velho Jolyon instalara-se em Londres, 
numa espcie de estdio. Mas voltara a Robin Hill depois da morte da madrasta, e tomara as rdeas da casa na sua mozinha decidida. Nessa poca, Jolly estava em 
Harrow e Holly continuava as suas lies com Mademoiselle Beauce. No havia nada que prendesse Jolyon em casa, e ele transportara para o estrangeiro a sua dor e 
a sua caixa de tintas. Errara ao acaso, a maior parte do tempo na Bretanha, e acabara por se fixar em Paris. Demorara-se l vrios meses, e voltara de Paris com 
o seu ar de juventude recuperada e a sua curta barba loura. Era essencialmente um homem que se acomodava bem a qualquer espcie de instalao, de forma que achara 
excelente o facto de June reinar em Robin Hill, porque isso permitia-lhe sair com o seu cavalete para onde bem entendesse.  verdade que ela tinha uma inclinao 
excessiva a considerar a casa como um asilo para os seus protegidos, mas o seu tempo de proscrio enchera Jolyon de uma slida simpatia pelos proscritos, e os "desvalidos" 
de June no o importunavam.
Ao contrrio, permitia sempre que ela os convidasse e sustentasse tantos quantos ela quisesse, e, embora o seu gnio irnico lhe fizesse ver que eles satisfaziam 
ao mesmo tempo o instinto de domnio e o corao generoso da filha, nunca deixava de a admirar ao ver quo numerosos eles eram. De ano para ano, foi adoptando uma 
atitude cada vez mais desligada e fraternal em relao aos filhos, e aprazia-se em trat-los com uma espcie de caprichosa igualdade. Quando ia a Harrow visitar 
Jolly, nunca sabia exactamente qual dos dois era o mais velho, comia de sociedade com o rapaz as cerejas que tiravam do mesmo saco de papel, enquanto um sorriso 
afectuoso e irnico lhe erguia uma das sobrancelhas e lhe distendia os lbios. Tomava sempre cuidado em trazer dinheiro no bolso e vestir-se pela ltima moda, para 
que o filho no se envergonhasse do pai. Eram amigos perfeitos, porm nunca tinham sentido a necessidade de trocar confidncias,

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porque ambos possuam aquela ciumenta conscincia de si particular aos Forsyte. Sabiam bem que estariam um ao lado do outro nas dificuldades, mas no havia necessidade 
nenhuma de falar nisso. Jolyon tinha um horror impressionante - metade congnito, metade resultante da imoralidade da sua juventude - pela atitude moralista. O mximo 
que ele era capaz de dizer ao filho era o seguinte: "Escute, meu velho, nunca se esquea de que voc  um gentleman."
E ainda assim, depois de dizer isso, era capaz de se entregar a reflexes sem fim, para indagar de si mesmo se no se revelara um snob. O jogo anual de cricket entre 
a escola de Harrow e a escola rival de Eton era a prova mais desagradvel que eles tinham de atravessar juntos, todos os anos. Porque Jolyon era um antigo aluno 
de Eton. Ficavam ambos particularmente atentos durante o jogo e no deixavam de dizer "Bravo! Oh, que falta de sorte, meu velho!" ou "Oh, que azar, pap!" cada vez 
que um desastre, que lhes fazia saltar o corao de alegria, afectava a escola do outro. E, para no chocar o filho, Jolyon usava, em lugar do seu habitual chapu 
mole, uma cartola cinzenta, porque a cartola preta era-lhe insuportvel. Quando Jolly foi para Oxford, Jolyon acompanhou-o, divertido, humilde e cuidadoso em no 
prejudicar o crdito do filho entre aqueles rapazes que pareciam ter muito mais compostura e firmeza do que ele prprio. Dizia para si, frequentemente: "Felizmente 
sou pintor." Porque havia muito tempo abandonara o seu emprego de agente de seguros do Lloyds. " impossvel olhar com atrevimento um pintor, porque ningum o toma 
a srio." Porque Jolly, que tinha uma espcie de fidalguia natural, entrara imediatamente numa roda muito fechada, o que secretamente divertia o pai. Jolly tinha 
os cabelos levemente crespos e os profundos olhos cor de ao do av. Era bem feito, esbelto e lisonjeava o senso esttico de Jolyon, tanto que lhe fazia um pouco 
de medo, como acontece sempre com os artistas em relao a outros homens cujo fsico admiram. Nessa ocasio, no entanto, ele conseguiu reunir coragem bastante para 
dar conselhos ao filho, e eis o que disse:
- Escute, meu velho. Sei que ser fatal que voc faa dvidas: no deixe de me procurar imediatamente.  claro que as pagarei.
Mas voc pode lembrar-se depois de que uma pessoa respeita-se melhor a si mesma quando paga as suas prprias despesas. E, por favor, nunca pea dinheiro emprestado 
a ningum, salvo a mim. Combinado?
E Jolly respondera:
- Muito bem, pap, est combinado. E fizera como o pai lhe pedia.
- E depois ainda h uma coisa, uma nica. No sou muito entendido em assuntos de moral, e em tudo o mais, mas h isto: antes de fazer uma coisa,  bom considerar 
se isso no vai fazer mais mal aos outros do que o absolutamente necessrio.
Jolly tomara um ar pensativo, abanara a cabea e logo depois apertara a mo do pai. E Jolyon disse para si: "Ser que eu tinha o direito de falar disto?" Ele temia 
sempre perder a confiana muda que ambos tinham um no outro. Porque lembrava-se como, durante longos anos, perdera a confiana do pai, a ponto de no chegar mais 
a haver entre um e outro seno amor a longa distncia. Decerto no estimava no seu justo valor a mudana operada nos espritos depois que ele prprio estivera em 
Cambridge, em 1865, e talvez tambm no estimasse no seu justo valor a capacidade que o filho tinha de compreender que ele era tolerante at aos ossos. Era esse 
gnio tolerante, e talvez o seu cepticismo, que davam um aspecto to curioso s suas relaes com June, que era uma criatura extremamente decidida, sabia sempre 
muito bem o que desejava e queria as coisas com uma vontade inexorvel at as obter - frequentemente,  verdade, para as deixar cair da mo como uma batata quente. 
A me tambm fora assim, e disso provinham todas as lgrimas choradas. No que a sua incompatibilidade de gnios com a filha se assemelhasse quela que o separara 
da primeira Mrs. Jolyon filho. No caso de uma filha, aquilo poderia ser uma fonte de divertimento; mas no h divertimento possvel quando se trata de uma esposa. 
Quando ele via June distender o seu desejo e a sua maxila na perseguio de um objecto, e no os relaxar seno depois de obter o que queria, isso no tinha importncia, 
porque o objectivo nunca constitua um incmodo fundamental para a liberdade de Jolyon - a nica coisa que tambm tornava absolutamente rgida a maxila dele, uma 
maxila enorme,

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sob a curta barba grisalha. Mas nunca havia necessidade de se chocarem os dois, frente a frente. Sempre era possvel desviar e buscar refgio na ironia - e, na verdade, 
muitas vezes ele era obrigado a isso. Mas o verdadeiro obstculo  harmonia, no caso de June, era que ela jamais agradara ao seu senso esttico. Entretanto, bem 
o poderia ter conseguido, com os seus cabelos de ouro ruivo, os olhos azuis de viking e a sua intrepidez. J no se dava o mesmo com Holly, meiga e calma, tmida 
e afectuosa, e que tinha dentro de si, s vezes, um pequeno duende galhofeiro. Jolyon observava a adolescncia da filha mais nova com um interesse extraordinrio. 
Quando acabasse de crescer, seria que teria a graa majestosa de um cisne? Com a pele cor de prola, o rosto oval, os olhos cinzentos, pensativos, os longos clios 
negros, talvez isso acontecesse, talvez no. S pudera firmar uma opinio no decorrer do ltimo ano. Sim, Holly pareceria um cisne - um cisne moreno, talvez, sempre 
tmido, mas autntico. Tinha agora dezoito anos, e Mademoiselle Beauce j a deixara. Depois de onze anos cheios de lembranas dos "pequenos Taylor, que eram to 
bem-educados", a boa senhora mudara-se para outra famlia, cujo seio iria agitar com as reminiscncias dos "pequenos Forsyte, to bem-educados". E ensinara Holly 
a falar francs to bem como ela prpria.
O retrato no era o forte de Jolyon, mas ele j fizera trs de Holly, e ocupava-se agora em fazer um quarto, na tarde do dia 4 de Outubro de 1899, quando lhe trouxeram 
um carto que lhe fez erguer as sobrancelhas:

SOAMES FORSYTE
The Shelter - CONNOISSEURS CLUB
Mapledurham - St. James.

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Mas aqui a crnica dos Forsyte deve fazer uma nova digresso. Jolyon nunca esquecera - era por de mais impressionvel e tinha o corao por de mais generoso para 
esquecer o dia em que, voltando de uma longa viagem atravs da Espanha, encontrara a casa sombria, uma garotinha que chorava perdidamente e o pai querido a dormir 
pacificamente o seu ltimo sono. Uma certa atmosfera de mistrio flutuava em torno desse triste dia e sobre o fim de um homem cuja vida fora to ordenada, to equilibrada, 
to isenta de dissimulao. Parecia-lhe incrvel que o pai pudesse partir desse modo, sem, por assim dizer, comunicar a sua inteno, sem dirigir ao filho as suas 
ltimas palavras, sem fazer as despedidas que so de rigor. E as incoerentes aluses feitas por Holly  "moa de cinzento" e por Mademoiselle Beauce a uma "Madame 
Enrant" (pelo menos fora assim que ela compreendera o nome) envolvia tudo isso numa nvoa que se ergueu um pouco quando o testamento do pai foi lido, juntamente 
com o codicilo que lhe fora acrescentado.
Na qualidade de executor testamenteiro, tivera de notificar Irene, esposa do seu primo Soames, de que ela se tornara a herdeira de uma renda vitalcia cujo capital 
era de quinze mil libras. Visitara-a, para lhe explicar que as aces da Bolsa da ndia, expressamente indicadas para alimentar essa renda, produziriam de juros 
a quantia de quatrocentas e trinta e poucas libras, por ano, feita a deduo do imposto sobre a renda e livres de qualquer outro encargo. Fora aquela a terceira 
vez apenas que ele vira a mulher do primo Soames, se ela era ainda sua mulher, coisa um pouco incerta. Lembrava-se de a ter visto sentada no Jardim Botnico, esperando 
por Bosinney, to passiva e to sedutora que o fizera pensar no Amor Divino de Ticiano; vira-a outra vez em Montpellier Square, quando l fora a pedido do pai, na 
tarde em que haviam sabido da morte de Bosinney. E evocava-a ainda, no enquadramento da porta do salo, enquanto no seu belo rosto uma ardente esperana dava lugar 
a um desespero marmreo; lembrava-se da piedade que sentira e do sorriso odiento de Soames e ouvia ainda o outro dizer "No estamos em casa", e a porta de entrada 
fechada com
fragor.
Na terceira vez em que a viu, o corpo e o rosto de Irene

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tinham uma beleza mais pura, que nem uma esperana ardente nem um desespero profundo alteravam mais. E ele disse para si, enquanto a olhava: "Realmente, tal como 
, meu pai no poderia deixar de admir-la." E lentamente compreendeu a estranha histria de seu pai, do seu ltimo Vero. Ela falou-lhe com reverncia a respeito 
do velho Jolyon, com lgrimas nos olhos:
- Ele foi to bom para mim, e no sei mesmo porqu. Estava to bonito, e tinha um ar to descansado, na sua poltrona, sob o carvalho; no sei se sabe que fui a primeira 
pessoa que o viu. Era um dia lindo. No creio que seja possvel ter-se um fim mais feliz. Ns todos deveramos desejar partir tal como ele partiu.
"Exactamente", pensara Jolyon. "Ns todos queramos partir em pleno Vero, enquanto, sobre o relvado, a beleza caminha ao nosso encontro".
Depois, percorrendo com o olhar a salinha quase vazia, perguntara-lhe o que ela pretendia fazer agora.
- Vou recomear a viver um pouco, primo Jolyon.  uma coisa maravilhosa a gente possuir dinheiro. Creio que conservarei o meu apartamento; estou acostumada a ele; 
mas poderei ir  Itlia.
- Exactamente! - murmurara Jolyon, olhando os lbios dela, que sorriam fracamente. E, ao partir, pensara: "Que mulher fascinante! Que desperdcio! Estimo muito que 
meu pai lhe tenha deixado esse dinheiro." Nunca mais voltara a v-la, mas todos os trimestres assinava o cheque e remetia-o ao banco de Irene, prevenindo-a ao mesmo 
tempo por um bilhete endereado ao seu apartamento em Chelsea; e sempre ela acusava a recepo, s vezes do seu apartamento, s vezes da Itlia: de tal modo que 
a personalidade da moa acabara por encarnar-se, aos olhos dele, num quadrado de papel cinzento, ligeiramente perfumado, uma elegante caligrafia esguia e as palavras 
"Meu caro primo Jolyon". O proprietrio em que ele se tornara reflectia s vezes, enquanto assinava o cheque trimestral: "Eh, creio que ela consegue no mximo equilibrar 
as despesas." E ento perguntava vagamente a si mesmo qual poderia ser a sorte dela, num mundo em que os homens no costumam deixar a beleza sem dono. De incio, 
Holly falara nela algumas vezes, mas as "moas de cinzento" desaparecem muito rapidamente

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da memria das crianas; e cada vez que, nas primeiras semanas que se tinham seguido  morte do pai, ele aludira  sua antiga amiga, June guardara um mutismo que 
desanimara qualquer referncia ulterior. Apenas uma vez, com efeito, June falara com clareza:
- Perdoei a Irene. E fico satisfeita ao saber que ela  agora independente.
Ao receber o carto de Soames, Jolyon disse  criada (ele tinha horror a criados de casaca):
- Leve-o ao escritrio e diga-lhe que estarei l dentro de um minuto.
Depois olhou para HoLly e perguntou-lhe:
- Voc lembra-se da "moa de cinzento" que lhe dava lies de piano?
-Oh, sim! Porqu?
Jolyon abanou a cabea, e, enfiando um casaco em lugar da blusa, no respondeu nada. Acabava de descobrir que uma histria daquelas no fora feita para ouvidos to 
jovens. E o seu rosto tornou-se a encarnao da perplexidade, enquanto caminhava para o escritrio.
Junto  sacada, olhando para o carvalho, atravs do terrao, estavam de p duas pessoas: um homem maduro e um rapaz. E Jolyon pensou: ((Quem ser o moo? Eles no 
tiveram filhos, que eu saiba."
O mais velho dos visitantes voltou-se. Encontrando-se na casa que fora construda para um deles, e que pertencia agora ao outro, esses dois Forsyte da segunda gerao, 
muito menos simples que os da primeira, adoptaram uma subtil atitude de defesa, velada pelo esforo que ambos faziam para se mostrarem cordiais. "Ser que ele vem 
falar-me a respeito da mulher?", dizia de si para si Jolyon. "Como  que vou comear?", perguntava Intimamente Soames, enquanto Val, que fora trazido para romper 
o gelo, examinava negligentemente, sob os clios espessos, aquele "leopardo barbudo".
-  o filho de minha irm. Val Dartie - disse Soames. - Est de malas arrumadas para Oxford. Gostaria que ele fizesse amizade com o seu filho.

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- Oh! Tenho pena que Jolly no esteja aqui. Qual  o colgio?
- B. N. C. - respondeu Val.
- Jolly est em Christ Church, mas ter muito prazer em procur-lo.
- Muito obrigado.
- Holly est em casa, e, se a companhia de uma priminha no o aborrece, ela poder mostrar-lhe a casa,. Passe por a, e h-de encontr-la no hall, basta correr as 
cortinas. Eu estava a fazer-lhe o retrato.
Val disse de novo:
- Muito obrigado!
E desapareceu, deixando os dois primos face a face, com o gelo ainda por romper.
- Sei que voc exps uns quadros no Salo dos Aguarelistas - disse Soames.
Jolyon retraiu-se. Havia j vinte e cinco anos que ele no via a maioria dos membros da famlia Forsyte, porm eles continuavam associados, no seu esprito, ao Derby 
Day de Frith e aos aramos reproduzidos nas gravuras de Landseer. Soubera por June que Soames era um connoisseur, e aquilo s fazia agravar as coisas. Comeava a 
ter conscincia, tambm, de uma curiosa sensao de repugnncia.
- J h muito tempo que no o via - disse ele.
- Sim - concordou Soames, sem descerrar os lbios -, desde... Na verdade,  por esse mesmo assunto que vim aqui. Soube que voc  o administrador da herana dela. 
- Jolyon fez sinal que sim. - Doze anos so muito tempo - continuou Soames rapidamente-, e eu... eu estou cansado.
Jolyon no achou nada melhor para dizer do que isto:
- Quer um cigarro?
- No, obrigado.
Jolyon acendeu um cigarro.
- Quero ficar livre - declarou Soames num tom abrupto.
- Eu nunca a vejo-disse Jolyon por trs do fumo do cigarro.
- Mas com certeza voc sabe onde ela mora?
Jolyon assentiu. No pretendia dar o endereo de Irene sem autorizao. Soames adivinhou-lhe o pensamento.
- No peo o endereo dela - disse ele. - Conheo-o.
- Que  que voc deseja exactamente?
- Ela abandonou-me. Quero divorciar-me.
-  um pouco tarde, no acha?
- Sim - articulou Soames, seguindo-se um silncio.
- No entendo muito dessas coisas, ou, pelo menos, esqueci-as - disse Jolyon com um sorriso contrafeito. Pela sua parte, tivera de esperar que a morte lhe concedesse 
o divrcio da primeira Mrs. Jolyon. - Voc quer que eu lhe fale?
Soames ergueu os olhos para o rosto do primo.
- Sem dvida ela tem algum - disse ele. Jolyon ergueu os ombros.
- Nada sei a esse respeito. Creio que vocs dois poderiam viver muito bem, cada um para o seu lado, como se o outro estivesse morto.  o costume, nesses casos.
Soames voltou-se para a janela. As primeiras folhas amarelas do carvalho j juncavam o terrao e turbilhonavam no vento. Jolyon viu Holly e Val Dartie que atravessavam 
o relvado em direco s cocheiras. "Eu no posso ficar com um p em cada um dos campos", pensava ele. "Tenho de defender os interesses dela. Seria esse o desejo 
de meu pai." E, durante um instante, pareceu-lhe ver o pai sentado na sua velha poltrona, imediatamente atrs de Soames, com as pernas cruzadas e o Times na mo. 
A viso esbateu-se.
- Meu pai tinha grande afeio por ela - disse ele placidamente.
- E eu gostaria de saber porqu - respondeu Soames, sem voltar a cabea. - Ela causou desgostos  sua filha, June, causou desgostos a toda a gente. Dei-lhe tudo 
quanto uma mulher poderia desejar. Ter-lhe-ia dado at mesmo... o perdo, porm ela preferiu abandonar-me.
Aquilo era dito num tom to severo que Jolyon no pde sentir a menor compaixo. Que haveria com o primo que tornava to difcil lament-lo?
- Posso procur-la, se voc quiser - disse Jolyon.

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- Talvez ela fique contente por se divorciar, mas no posso afirmar nada. Soames fez um gesto de assentimento.
- Sim, faa-me isso, por favor. Como lhe disse, sei o endereo dela, mas no quero v-la.
Passava e repassava a lngua sobre os lbios, como se eles estivessem ressequidos.
- Quer tomar uma xcara de ch? - perguntou Jolyon. E deteve-se para no acrescentar: "E quer ver a casa?" Depois levou Soames para o hall. Aps tocar a campainha 
e pedir o ch, deu alguns passos at ao cavalete e virou a aguarela para a parede. Sem saber exactamente porqu, no podia suportar a ideia de deixar que o seu trabalho 
fosse visto por Soames, que estava em p, no meio da grande sala, construda expressamente para que nela fossem pendurados os seus prprios quadros. No rosto do 
primo, que tinha, como o seu, um inatingvel ar de famlia no queixo forte, na expresso fechada, concentrada, Jolyon viu certas coisas que o obrigaram a dizer intimamente: 
"Este indivduo nunca ser capaz de esquecer nada - nem de se entregar.  pattico!"

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CAPTULO VII

O POTRO E A POTRA


Ao abandonar a companhia da gerao mais velha, o moo Val pensava: "So muito divertidos os passeios do tio Soames! Vamos ver como ser essa potra!".No esperava 
nenhum prazer na companhia da pequena, e de sbito viu-a, em p diante dele, olhando-o. Mas como era bonita! Que sorte!
- Receio que voc no me conhea - disse ele. - Chamo-me Val Dartie e somos primos em segundo grau, ou coisa parecida. O nome de solteira de minha me era Forsyte.
A delicada mozinha morena de Holly continuava na dele, porque ela era muito tmida para a tirar. E ela disse:
- No conheo nenhum dos meus parentes. Ser que h muitos?
- Toneladas. Mas so abominveis, na maioria. Ou, pelo menos, no sei... alguns deles. Isso de parentes so sempre abominveis, no acha?
- Provavelmente eles tambm nos julgam abominveis - retorquiu Holly.
- No sei porqu. A voc,, em todo o caso, ningum poder achar abominvel.
Holly fitou-o, e, vendo-lhe a pensativa candura dos olhos cinzentos, Vall disse a si mesmo, subitamente, que deveria proteg-la.
- O que eu quis dizer  que h gente de toda a espcie - disse ele com astcia,.

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- Seu pai, por exemplo, tem o ar de ser uma grande figura.
- Oh, sim! - disse Holly com fervor. - E .
Val corou fortemente - aquela cena do Pandemonium, na vspera, e o homem moreno com o cravo na lapela em quem reconhecera o pai!
- Mas voc sabe como so os Forsyte- disse ele com uma espcie de malignidade. - No, esqueci que voc no o sabe!
- Como so eles?
- Oh, espantosamente cuidadosos! No tm nada de desportivo! Olhe para o tio Soames!
- Gostaria de olhar - disse Holly.
Val resistiu ao desejo de passar o brao pelo dela.
- Oh, no - disse ele -,  melhor sairmos, H-de v-lo mais logo. Como  o seu irmo?
Holly precedeu-o at ao terrao e at ao relvado que se estendia ao p do terrao sem responder  pergunta. Como poderia descrever-lhe Jolly, Jolly que, por mais 
longe que fossem as suas recordaes, sempre fora seu senhor, seu dono, seu ideal?
- Ser que ele a trata como uma garotinha? - inquiriu Val, com malcia. - Ns iremos conhecer-nos em Oxford. Vocs tm cavalos?
Holly fez um gesto afirmativo.
- Quer ver a cocheira?
- Muito!
Passaram sob o carvalho, atravessaram um bosquezinho ralo e entraram no ptio das cavalarias. Sob uma torre de relgio estava deitado um co preto e branco, um 
velho co de plo longo, to velho que no se levantou, contentando-se em agitar fracamente a cauda, que se lhe levantou nas costas.
- Este  Balthasar - disse Holly. -  velho, terrivelmente velho, quase to velho como eu. Coitadinho!  muito dedicado ao pap.
- Balthasar!  um nome engraado. Mas no  um co de raa, no?
- No, mas  um amor. - E a pequena baixou-se para acarinhar o co. Estava com a cabea descoberta, e, vendo-a assim,

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to meiga, to esbelta, olhando-lhe os cabelos escuros, a nuca, as mos finas e bronzeadas, Val tinha a impresso de uma criatura cheia de um estranho encanto, de 
uma coisa que se insinuara entre ele e toda a sua experincia anterior. - Quando o av morreu - contou ela -, ele no quis comer nada durante dois dias. Assistiu 
 morte do av, sabe?
- Seu av no era o velho tio Jolyon? Minha me diz sempre que ele era formidvel.
- Era - respondeu Holly singelamente, abrindo a porta da cavalaria.
Solta numa das baias, via-se uma gua ruo-prateada, com cerca de metro e meio de altura, crina e cauda pretas.
- Esta  minha:  Fairy.
- Ah - disse Val -,  uma gua linda. Mas voc deveria cortar-lhe a cauda. Ficava mais elegante. - Vendo porm o olhar admirado da rapariga, disse para si: "No 
sei... como ela queira..." Aspirou fortemente o ar da cavalaria: - Cavallos so uma coisa esplndida, no so? O pap... - E calou-se.
- Sim... - disse Holly.
Ele foi quase dominado pelo desejo de aliviar o corao, mas venceu-o.
- Oh, nem sei o que dizia... sim, tm-no feito comprar muitos sendeiros, por a... Eu tambm sou doido por cavalos. Adoro andar a cavalo e caar raposas. Tambm 
gosto muito de corridas: gostaria muito de ser gentleman-rider. - E, esquecendo que no tinha mais que um dia para passar em Londres e dois compromissos, disse bruscamente: 
- Escute, se eu alugar um cavalicoque amanh, voc quer dar um passeio comigo por Richmond Park?
- Oh, sim! Adoro passear a cavalo, mas ns temos aqui o cavalo de Jolly. Porque no vai nele? Ns poderamos sair depois do ch.
Vall lanou um olhar incerto sobre as suas calas. Em imaginao, vira-se aparecer diante dela com grandes botas castanhas e um colete branco imaculado.
- No sei se deva usar o cavalo dele. Pode desagradar a seu irmo. E, alm disso, creio que o tio Soames h-de querer voltar logo. No  que eu me deixe governar 
por ele, compreende. Voc no tem tios, tem?

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 um animal lindo... - disse depois, examinando o cavalo de Jolly, um baio escuro que deixava ver o branco dos olhos. - Vocs aqui no caam a raposa?
- No, nem creio que eu gostasse de caar. Sei bem que deve ser terrivelmente apaixonante, mas  cruel, no acha? June acha que  cruel.
- Cruel! - exclamou Val. - Oh, que ideia! Quem  June?
- Minha irm. Minha irm por parte do pap... muito mais velha que eu. - Holly segurara o focinho do cavalo de Jolly e esfregava o nariz contra ele, com um ronronar 
muito suave que parecia hipnotizar o animal. Val olhava a face dela apoiada ao focinho do bicho. " uma jia", pensou ele.
Falavam menos quando retomaram o caminho de casa, seguidos agora por Balthasar, mais lento no andar que nenhuma outra criatura terrestre e que manifestamente contava 
que eles no excedessem a sua velocidade mxima.
- Isto aqui  uma maravilha - declarou Val sob o carvalho onde tinham parado, esperando que Balthasar os alcanasse.
- Sim - disse Holly com um suspiro. - Mas naturalmente eu tenho vontade de andar por toda a parte. Gostaria de ser uma cigana.
- Os ciganos so formidveis - respondeu Val com uma sbita convico. - Voc parece-se muito com uma cigana, sabe?
O rosto de Holly tomou um brilho profundo, como o das folhas queimadas que o sol doura.
- Andar por toda a parte onde a gente queira, ver tudo, viver ao ar livre! No seria uma delcia?
- Podemos fazer isso - disse Val.
- Pois , faamos!
- Seria esplndido, s voc e eu.
Ento Holly viu o que havia de estranho no que eles diziam e corou violentamente.
-  preciso que a gente realize isso - continuou Val com obstinao, embora tambm houvesse corado. - Na minha opinio, a gente deve fazer o que tem vontade. Que 
 que fica deste lado?
- A horta, o tanque, o bosquezinho e a granja.
- Vamos l!

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Holly lanou um olhar em direco  casa.
- Deve estar na hora do ch. L est o pap a chamar-nos. Com uma espcie de grunhido, Val acompanhou-a at  casa. Quando entraram na sala grande, o espectculo 
dos dois Forsyte de idade respeitvel ocupados em tomar ch operou o seu efeito mgico, e os dois jovens mantiveram-se em completo silncio. Era, na verdade, uma 
cena impressionante. Os dois homens estavam sentados lado a lado numa espcie de sof de tapearia de um rseo prateado, que dava a ideia de trs cadeiras reunidas, 
e tinham defronte de si uma mesinha baixa de ch. Parecia que, ao tomarem aquela posio, haviam procurado sentar-se to longe um do outro quanto o permitia o assento 
comum, a fim de evitar olharem-se com muita frequncia, e ocupavam-se mais em beber e em comer do que em conversar - Soames sempre com o seu ar de desprezar o bolo 
 medida que o fazia desaparecer, e Jolyon, pelo contrrio, vendo no bolo um grande divertimento. Um observador desatento no os tomaria por bons comedores, mas 
um e outro deram conta de uma boa quantidade de coisas. Os dois jovens serviram-se e a absoro dos alimentos prosseguiu em silncio, at que chegou o momento de 
se acenderem os cigarros. Jolyon perguntou ento a Soames:
- E como vai o tio James?
- Muito alquebrado, obrigado.
- Ns realizamos uma famlia maravilhosa, no acha? No outro dia, tirando os dados da grande Bblia, do meu pai, calculei a mdia da idade dos dez velhos Forsyte. 
J atinge a mdia de oitenta e quatro anos, e ainda esto cinco vivos. Certamente batero o record, - E, lanando a Soames um olhar malicioso, Jolyon acrescentou: 
- Ns  que no somos o que eles foram.
Soames sorriu, parecendo dizer: "Voc acha que vou admitir alguma inferioridade minha em relao a eles ou  necessidade de renunciar ao que quer que seja, e particularmente 
 vida?"
- Talvez ns fiquemos to velhos como eles - prosseguiu Jolyon. - Mas voc sabe que a conscincia de si mesmo  um handicap e  o que estabelece a diferena entre 
eles e ns. Ns no temos a mesma segurana deles. Como e quando essa conscincia de ns mesmos nasceu,

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nunca o consegui descobrir. Meu pai j tinha um pouco, mas no creio que os outros Forsyte da sua gerao possussem uma migalha dela. Nunca nos vemos como os outros 
nos vem-e isso  uma defesa maravilhosa. Toda a histria dos ltimos cem anos reside na diferena que h entre eles e ns. E entre vocs e ns - acrescentou, fixando, 
atravs de uma nuvem de fumo, Val e Holly, contrafeitos sob o seu olhar perscrutador - ainda haver... outra diferena. Pergunto a mim mesmo qual ser. Soames puxou 
o relgio.
- Precisamos de sair -- disse ele -, se quisermos apanhar o nosso comboio.
- O tio Soames nunca perde o comboio - comentou Val com a boca cheia.
- Porque haveria eu de perder o comboio? - respondeu Soames com simplicidade.
- Oh, no sei - gaguejou Val. - H pessoas a quem isso acontece.
Na porta, ele apertou longa e sub-repticiamente a fina mo morena de Holly.
- At amanh - murmurou o rapaz. - s trs horas. Esper-la-ei na estrada. Isso nos far ganhar tempo. Vamos dar um passeio formidvel.
Ao chegar  grade, junto  guarita do porto, voltou-se ainda para a olhar, e, se os princpios do homem mundano no o impedissem, ter-lhe-ia acenado com a mo. 
No estava com humor capaz de suportar a conversa do tio, mas no corria nenhum risco disso. Absorvido nos seus longnquos pensamentos, Soames mantinha-se num silncio 
absoluto.
As folhas amarelladas tombavam em torno deles, enquanto faziam a p os dois quilmetros que Soames tantas vezes percorrera antes, no tempo em que vinha fiscalizar, 
com ntimo orgulho, a construo da casa - a casa que deveria abrigar aquela de quem agora ia procurar libertar-se. Voltou-se uma vez para contemplar a longa perspectiva 
do caminho outonal que se desenrolava entre as leas de rvores amarelas. Como tudo aquilo estava longe! "No desejo voltar a v-la", dissera ele a Jolyon. Seria 
verdade? "Talvez
seja preciso", disse a si mesmo, sendo tomado por um desses estranhos arrepios que, segundo se diz, so passos que se do para o tmulo. Como o mundo estava frio! 
E estranho! Olhando de vis o sobrinho, pensou: "Gostaria de ter a idade dele. Gostaria tambm de saber como ela est actualmente."

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CAPTULO VIII

JOLYON PROCURA DESEMPENHAR A SUA MISSO


Quando as visitas saram, Jolyon no voltou  pintura, porque o dia j estava a declinar. Voltou ao escritrio, onde desejava, inconscientemente, reencontrar a viso 
do pai sentado na sua velha poltrona de couro escuro, as pernas cruzadas e os olhos - aquele seu olhar directo - erguidos sob a curva macia das sobrancelhas. Naquela 
sala, a mais confortvel da casa, sucedia muitas vezes a Jolyon entrar, num rpido instante, em comunho com o pai. No era provavelmente porque ele sentisse uma 
f definitiva na sobrevivncia do esprito humano - o seu sentimento no era assim lgico -, era antes uma espcie de choque atmosfrico, uma espcie de perfume, 
ou ainda, uma coisa idntica a essas fortes impresses animistas produzidas pela forma dos objectos ou pelos efeitos de luz, s quais so particularmente sensveis 
as pessoas que vem o mundo com olhos de artista.
Aquela pequena sala, onde o pai passara a maioria dos dias e  qual no se havia mudado nada, era o nico lugar onde podia recuperar a impresso de no o ter perdido 
completamente, de estar sempre protegido pelos sbios conselhos do velho, pelo calor da sua afeio imperiosa.
Que conselho lhe daria hoje seu pai, naquele brusco reviver de uma tragdia antiga? Que diria ele a respeito da ameaa dirigida contra aquela por quem concebera 
uma afeio to viva nas derradeiras semanas da sua existncia? "Eu preciso tentar servi-la da
melhor maneira", pensou Jolyon. "Ele confiou-ma no seu testamento. Mas que ser o melhor?"
Como se quisesse investir-se da sapincia, do equilbrio e do profundo bom senso daquele velho Forsyte, Jolyon sentou-se na poltrona antiga e cruzou as pernas. Mas 
teve a impresso de no ser mais que uma sombra sentada naquela poltrona, e a inspirao no lhe vinha, enquanto o vento aoitava as vidraas da sacada.
"Devo ir v-la?", cismava ele. "Ou devo pedir-lhe que venha c? Como ter vivido ela, como viver hoje?  uma selvageria revolver todas essas cinzas depois de tanto 
tempo!" E de novo viu surgir diante de si, to ntida como as figuras dos relgios antigos quando soa a hora, a imagem do primo, de p, com a mo no umbral de uma 
porta verde-clara, e, mais distintamente que todos os carrilhes do mundo, ouviu ressoar nos ouvidos as palavras que Soames lhe dissera: "No preciso de ningum 
para resolver os meus negcios. J lhe disse uma vez e repito: no estamos em casa!" Ele sentira ento uma repugnncia por Soames, pelo seu rosto glabro e longo, 
sobre o qual estava escrita a obstinao do buldogue, pelo seu corpo nervoso, quadrado, respirando sade, ligeiramente inclinado como se estivesse curvado sobre 
um osso que no conseguia engolir. E a mesma repugnncia voltava-lhe agora, to viva e at, coisa curiosa, mais viva que nunca. "No o suporto", pensou Jolyon. "No 
o suporto absolutamente. E  uma sorte, pois assim posso cuidar melhor dos interesses da mulher dele." Semiartista e semi-Forsyte, Jolyon era constitucionalmente 
inimigo do que ele chamava "complicaes", e, a menos que estivesse encolerizado, tinha muita coisa em comum com a cadela da histria: preferia correr a lutar.
Um pequeno sorriso aninhou-se-lhe na barba. Era uma ironia que Soames tivesse vindo ali -  casa que fora construda para si prprio! Com que olhos contemplara, 
de boca aberta, aquela runa das suas ambies passadas! Como farejara as paredes e as escadas e calculara o valor de todos os objectos! E Jolyon teve uma intuio 
que lhe fez pensar: "Palavra, ele gostaria de morar aqui, mesmo agora. Nunca aprendeu a arte de deixar de lamentar o que j lhe pertenceu. Enfim,  preciso que eu 
faa qualquer coisa. Mas  uma maada - uma grande maada!"

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 noite,, escreveu uma carta endereada ao apartamento de Chelsea, pedindo a Irene que o recebesse.
O velho sculo, que vira florescer to maravilhosamente a planta do individualismo, caminhava para o declnio, num cu afogueado pela ameaa de tempestades prximas. 
Rumores de guerra aceleravam a actividade de Londres, na turbulncia do fim das frias de Vero. E para Jolyon, que raramente vinha  cidade, os primeiros automveis 
e os primeiros txis, que lhe chocavam o senso esttico, davam s ruas um aspecto febril. Do seu cab, contava-os e calculava que, para vinte carruagens, havia um 
automvel. "Um ano atrs, a proporo era de um para trinta.  um acrscimo ao baralho de rodas e ao mau cheiro geral."
Pois ele era um desses raros liberais que objectam contra tudo o que  novo, quando a novidade toma forma material. E deu ordem ao cocheiro para caminhar pela margem 
do rio, onde a circulao deveria ser menos intensa e lhe seria possvel contemplar as guas do Tamisa atravs da cortina macia das folhas dos pltanos. Num pequeno 
bloco de casas retiradas, a cinquenta metros de distncia do Embankment, mandou o cocheiro esperar e subiu ao primeiro andar.
Sim, Mrs. Heron estava em casa.
Jolyon descobriu imediatamente a mudana introduzida naquele pequeno apartamento por um rendimento fixo, embora modesto, porque se lembrava muito bem da pobreza 
que transparecia sob a elegncia da sala quando l viera, oito anos atrs, comunicar a Irene a sua herana. Hoje tudo ali era fresco, delicado, cheio do perfume 
de flores. A tonalidade geral era prateada. com toques de negro, de hortnsia e ouro. "Ela tem muito gosto", pensou ele. Os anos quase no haviam marcado Jolyon, 
porque ele era um Forsyte. Mas, para Irene, o tempo parecia absolutamente no haver passado, ou pelo menos foi essa a impresso que ela lhe deu. No lhe pareceu 
que ela houvesse envelhecido um nico dia quando a viu em p  sua frente, com os olhos macios e o cabelo de ouro escuro, vestida de veludo claro. Estendeu-lhe a 
mo e sorriu levemente.
- Quer sentar-se?
Provavelmente ele nunca ocupara uma cadeira com to completo senso de embarao.
- Voc no mudou em nada.
- E voc parece mais moo, primo Jolyon.
Jolyon passou os dedos pela cabeleira, cuja abundncia ainda lhe era um consolo.
- Estou velho, mas no o sinto.  uma das vantagens da pintura: conserva-nos jovens. O Ticiano viveu noventa e nove anos, e ainda foi preciso a peste para o matar. 
Sabe que na primeira vez que a vi pensei num dos quadros dele?
- Quando foi que me viu pela primeira vez?
- No Jardim Botnico.
- Como sabia que era eu, se nunca me tinha visto antes?
- Por intermdio de algum que veio ao seu encontro. Olhou-a fixamente, mas nenhum trao das suas feies se
moveu, e ela disse, em tom calmo:
- Sim, h sculos que isso sucedeu.
- Qual  a sua receita para a juventude eterna, Irene?
- As pessoas que no vivem ficam maravilhosamente conservadas.
"As pessoas que no vivem" era uma frase amarga. Porm era tambm uma entrada, e ele aproveitou-a.
- Voc lembra-se do meu primo Soames? - Ele viu-a sorrir ligeiramente da estranheza daquela pergunta, e continuou logo: - Veio procurar-me anteontem. Est com vontade 
de se divorciar. E voc?
- Eu? - A palavra parecia ter-lhe sido arrancada pela surpresa.- Depois de doze anos?  tarde de mais! No ser muito difcil?
Jolyon olhou-a bem de frente.
- A menos que...
- A menos que eu tenha um amante agora? Mas nunca tive nenhum, desde aquele tempo.
Que sentiu ele ante a cndida simplicidade daquelas palavras? Alvio, surpresa, piedade! Vnus, e doze anos sem um amante!
- Entretanto - disse ele - creio que voc tambm gostaria de ser livre!

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- No sei. Que  que adiantaria, agora?
- E se voc amar outra vez?
- Amarei.
Naquela simples resposta, Irene parecia resumir toda a sua filosofia de mulher reprovada pelo mundo.
- Ento, que  que devo dizer a Soames, da sua parte?
- Simplesmente que eu lamento que ele no seja livre. Outrora ter-lhe-ia sido fcil. E no sei mesmo porque no aproveitou a oportunidade.
- Porque ele  um Forsyte, e voc sabe muito bem que ns no desistimos de uma coisa seno quando queremos outra no lugar dela, e nem sempre  assim, mesmo nesse 
caso.
Irene sorriu.
- Voc tambm,-primo Jolyon? Eu no o imaginava assim.
- Realmente, eu sou um pouco mestio, no sou exactamente
um Forsyte puro. Nunca suprimo os meios pence nos meus cheques, arredondo-os - disse Jolyon num ar embaraado.
- E emto, que  que Soames quer pr no meu lugar?
- No sei. Talvez filhos.
- Sim - murmurou ela -,  difcil. Eu gostaria de o auxiliar a recuperar a liberdade, se pudesse.
Jolyon fixava o fundo do chapu. O seu embarao crescia rapidamente, e tambm a sua admirao, o seu espanto e a sua piedade. Ela era to encantadora e to s, e 
aquilo tudo junto representava um tal enleio!
- Bem - disse ele -, preciso de ir ver Soames. Se h alguma coisa que eu possa fazer por si, estarei sempre s suas ordens.  preciso considerar-me como um precrio 
substituto de meu pai. De qualquer modo, mant-la-ei ao corrente do que se passar depois da minha entrevista com Soames. Talvez ele prprio possa fornecer o pretexto 
para o divrcio.
Ela abanou a cabea.
- Voc sabe que ele tem muito a perder, e eu nada. Gostaria que ele ficasse livre, mas no vejo como possa faz-lo.
- Nem eu, at agora - disse Jolyon.
E pouco depois despediu-se, subindo para o cab que o esperava. Trs horas e meia! Soames ainda deveria estar no escritrio.
- Vamos ao Poultry - gritou ele ao cocheiro.
Defronte do Parlamento e em Whitehall os jornaleiros gritavam: "Grave situao no Transval!", mas os seus clamores impressionaram-no ligeiramente, absorto na recordao 
daquela linda mulher, do seu olhar escuro e macio, das palavras que ela lhe dissera: "Mas nunca tive nenhum amante desde aquele tempo." Que poderia uma mulher fazer 
da sua vida, relegada assim do mundo? Solitria, desprotegida, com as mos de todos os homens estendidas para ela,, ou antes, prestes a agarr-la ao primeiro sinal? 
E ano aps ano ela continuara a viver assim!
A palavra "Poultry" nas paredes, acima da cabea dos transeuntes, chamou-o  realidade, e a placa "Forsyte, Bustard & Forsyte" em letras pretas sobre fundo verde 
inspirou-lhe uma espcie de energia. Ento subiu a escada murmurando: "Bolorenta, ranosa propriedade! Mas no poderamos dispens-la!"
- Desejo ver Mr. Soames Forsyte -disse ele ao empregado que lhe abriu a porta.
- Quem devo anunciar?
- Mr. Jolyon Forsyte.
O rapaz examinou-o com curiosidade, porque nunca vira um Forsyte barbado, e desapareceu.
Os escritrios de Forsyte, Bustard & Forsyte haviam lentamente absorvido os escritrios de Tooting & Bowles e ocupavam agora todo o primeiro andar. Actualmente, 
a firma consistia apenas na pessoa de Soames e num grande nmero de escreventes e outros auxiliares. A retirada completa de James, seis anos atrs, acelerara os 
negcios, os quais tinham atingido o grau mais alto com a retirada de Bustard, esgotado, segundo se dizia, pelo processo "Fryer versus Forsyte", que continuava como 
sempre de p e menos do que nunca beneficiava os seus beneficirios. Soames, com a sua sadia compreenso das realidades, nunca se deixara absorver por aquilo, ao 
contrrio, percebera h muito tempo que a Providncia o presenteara, graas quele processo, com um rendimento perptuo e lquido de duzentas libras anuais.
Quando Jolyon entrou, o primo estava ocupado em escrever uma lista dos consolidados em poder das suas companhias e que ele iria aconselh-las a entregar ao mercado, 
devido aos rumores de guerra,

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antes que as outras companhias fizessem o mesmo. Virou a cabea, olhou Jolyon de vis e disse:
- Como vai? Um momento s. Quer sentar-se? - Depois de escrever trs algarismos e colocar uma rgua sobre o papel para marcar onde ia, voltou-se para Jolyon, mordiscando 
a unha achatada do indicador. - Ento? - perguntou.
- Estive com ela.
- E depois?
- Mantm-se fiel  lembrana do morto. - Depois de dizer essas palavras, Jolyon sentiu pudor. O rosto do primo tornara-se subitamente rubro, de um rubro amarelado. 
Porque viera ele torturar aquele pobre animal? - Devo dizer-lhe que ela lamenta que voc no esteja livre. Doze anos  muito tempo. Voc conhece a lei melhor que 
eu, assim como as perspectivas que ela lhe oferece.
Soames fez ouvir um pequeno rosnido, e decorreu bem um minuto antes que um dos primos rompesse o silncio. "Parece de cera!", pensava Jolyon, olhando aquele rosto 
fechado, que retomava rapidamente a sua colorao natural. "Nunca me deixar adivinhar o que pensa, nem o que vai fazer. Parece de cera!" Depois mudou o olhar para 
a planta da florescente cidade "By Street on Set", cuja futura existncia era oferecida com aparato, na parede, aos clientes do escritrio e ao seu instinto de propriedade. 
E uma ideia absurda atravessou-lhe o esprito: "Queria saber se vo mandar-me um memorando a respeito deste negcio, Mr. Jolyon Forsyte, por t-lo recebido para 
negociaes do meu divrcio, por ter aceitado o seu relatrio da sua visita a minha mulher, por lhe ter aconselhado a procur-la novamente, dezasseis shilHngs e 
oito pence."
Soames disse de sbito:
- Isto no pode continuar assim. Afirmo-lhe que  impossvel. O olhar dele ia da direita para a esquerda, como o de um
animal que procura por onde fugir. "Ele sofre realmente", pensava Jolyon. "E o facto de eu no gostar dele no  uma razo para que esquea isso."
- Com toda a certeza - disse suavemente -, isso depende de si. A gente pode sempre conseguir o que quer, nesses assuntos, quando assume a responsabilidade.

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Soames ps-se bem em frente do primo, e, num tom de voz que parecia vir do mais profundo do seu ser,, perguntou:
- Porque tenho eu de sofrer mais do que j sofri? Porqu?
Jolyon pde apenas erguer os ombros. A sua razo aprovava-o, o seu instinto revoltava-se, mas seria incapaz de dizer porqu.
- O seu pai - continuou Soames - interessou-se por ela... porqu, s Deus o sabe. Voc tambm, decerto. - E assestou sobre Jolyon um olhar perscrutador. - Dir-se-ia 
que basta fazer-se mal a algum para recolher todas as simpatias. No sei em que  que eu merecia censuras... nunca o soube. Sempre a tratei bem. Dei-lhe tudo o 
que ela poderia desejar. Eu amava-a.
Novamente a razo de Jolyon disse sim e o seu instinto disse no. "Que foi que me sucedeu?", pensou ele. "Deve haver qualquer coisa errada em mim. E, mesmo que tenha 
sido assim, prefiro estar do lado mau a estar do bom."
- Afinal - disse Soames com uma espcie de sombria violncia -, ela era minha mulher.
Como um relmpago, este pensamento atravessou o interlocutor: "Ah, c estamos! A propriedade! Evidentemente, todos ns possumos coisas. Mas seres humanos! Uff!"
- Voc tem de encarar os factos - disse ele secamente. - Ou a ausncia de factos.
Soames lanou-lhe novo olhar de suspeita.
- A ausncia de factos? Sim, mas no tenho tanto a certeza disso.
- Peo-lhe perdo - replicou Jolyon. - Repeti-lhe o que ela me disse. Parece-me explcito.
- As minhas relaes com ela no foram de natureza a inspirar-me uma confiana cega nas suas palavras. Veremos.
jolyon ergueu-se.
- At  vista - disse.
- At  vista - respondeu Soames.
E Jolyon saiu, procurando compreender a expresso meio de surpresa e meio de ameaa que vira no rosto do primo. Foi at  estao de Waterloo numa grande perturbao 
de esprito, como se houvessem esfolado vivo o seu ser moral,

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e no comboio no deixou de pensar em Irene, no seu apartamento isolado, em Soames, no seu escritrio solitrio, na estranha paralisia que imobilizava a vida de ambos. 
"A espada da justia", pensava ele. "A espada da justia no pescoo de ambos, porm o de Irene  to bonito!"

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CAPTULO IX

VAL  INFORMADO DAS NOVIDADES


O jovem Val Dartie nunca brilhara muito pela pontualidade em encontros, eis porque, naquele dia em que faltara a dois e comparecia ao terceiro, este ltimo facto 
 que tinha importncia, causando-lhe a mais viva surpresa, enquanto voltava de Robin Hill, ao passo lento do cavalo, depois do passeio em companhia de Holly. Ela 
parecera-lhe ainda mais bonita que na vspera, no seu palafrm ruo-claro, de cauda longa, e, sentindo-se severo para consigo, naquela atmosfera brumosa de tarde 
de Outubro, nos subrbios de Londres, parecia-lhe que apenas as suas botas haviam brilhado durante as duas horas passadas em companhia da rapariga. Puxou o relgio 
de ouro - relgio novo, presente de James - e olhou, no a hora, mas a sua imagem, na tampa espelhante do relgio aberto. Tinha uma espinha sobre uma das sobrancelhas, 
e aquilo desagradou-lhe, pois deveria ter desagradado  pequena. Crum nunca tinha espinhas. A lembrana de Crum recordou-lhe os incidentes do Pandemonium. No sentira 
naquele dia o menor desejo de falar do pai a Holly. O pai carecia daquela poesia que ele sentia fremir em si pela primeira vez, desde que viera ao mundo, h dezanove 
anos. O Liberty e Cynthia Dark, essa encarnao quase mstica de todas as delcias, o Pandemonium e a mulher de idade incerta - parecia a Val que tudo isso fora 
abolido ao sair da sua comunho com aquela prima morena e tmida que acabava de descobrir. Ela montava "muitssimo bem",

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o que tornava ainda mais lisonjeiro o facto de ter consentido que fosse ele quem dirigisse o passeio nos grandes galopes atravs de Richmond Park, que ela entretanto 
conhecia muito melhor que ele. A pobreza da sua prpria conversa durante o passeio mortificava Val: poderia muito bem - cismava - dizer a Holly coisas cheias de 
inteligncia, se uma nova ocasio lhe fosse oferecida. E quando pensava que era preciso voltar a Littlehampton no dia seguinte, e ir para Oxford no dia 12, "para 
a droga daquele exame", sem ter a menor probabilidade de voltar a v-la, as trevas invadiam-lhe o esprito mais depressa ainda que o cu no declnio da noite. Haveria 
de lhe escrever entretanto, e ela prometera-lhe responder. Aquela ideia foi para ele como a primeira estrela que se acende no cu, enquanto chegava s cavalarias 
de aluguel Padwick, em Sloane Square. Apeou-se e espreguiou-se voluptuosamente, porque havia andado quarenta bons quilmetros. O Dartie que tinha dentro de si f-lo 
tagarelar, durante uns cinco minutos, com o jovem Padwick, a respeito do favorito do Cambridgeshire Stakes, depois disse ao rapaz que "inscrevesse um cavalo por 
sua conta" e afastou-se, com os joelhos um pouco afastados, batendo nas botas com o chicote de cana da ndia. "No tenho vontade nenhuma de sair", cogitava ele. 
"Ser que a mam me oferecer champanhe na minha ltima noite?"
Quando desceu, imaculado, depois do banho, a me j estava vestida, graas a um escrupuloso respeito dos costumes, com um vestido de noite, e, em companhia dela, 
teve o desprazer de encontrar o tio Soames. Pararam de falar quando Val entrou, depois Soames disse:
-  melhor contar-lhe.
Seria decerto a respeito do pai, e, ao ouvir aquelas palavras, Val pensou em primeiro lugar em Holly. Iriam contar-lhe alguma coisa horrvel? A me comeou a falar.
- O seu pai - disse ela no tom de voz uniforme que a vida social lhe ensinara, enquanto com a ponta dos dedos amarrotava penosamente o brocado verde-mar do vestido 
-, o seu pai, meu filhinho, no est em Newmarket, est em viagem para a Amrica do Sul... Abandonou-nos.
Val deixou de fixar a me para olhar o tio. O pai deixara-os!
Sentiria ele alguma dor? Gostaria realmente do pai? Parecia-lhe que no o sabia. Depois, subitamente, aspirando um perfume de gardnias e o cheiro de charuto que 
ainda flutuava na sala, sentiu no corao um ponto doloroso e compreendeu que sofria. Um pai pertence-nos, no pode ir-se embora assim - isso no se faz. E, alm 
disso, o seu pai no fora sempre o gigolot do Pandemonium! Queridas lembranas prendiam-no s lojas de alfaiates, a cavalos, a dinheiro recebido na escola e, de 
uma maneira geral, a aces de bondade prdiga nas fases de boa sorte.
- Mas porqu? - perguntou ele. Depois, como tambm era um sportsman, sentiu ter feito aquela pergunta. O rosto da me estava perturbado. E Val exclamou: - Est bem, 
mam, no me diga! Apenas, que  que isto significa?
- Receio que signifique um divrcio, Val.
Val fez ouvir um pequeno rosnido, depois, rapidamente, mudou o olhar para o tio - aquele tio que lhe tinham ensinado a considerar como uma garantia contra as consequncias 
decorrentes do facto de ter tal pai, e mesmo contra o sangue de Dartie que lhe corria nas veias. O rosto comprido de Soames parecia tremer, e aquilo perturbou o 
rapaz.
- No haver publicidade, pois no? - Porque se erguera nele, muito ntida,, a lembrana da avidez com que lera nos jornais os srdidos pormenores de vrios processos 
de divrcio. - Ser que no haver meios de realizar isso sem rumor? Ser to desagradvel para a mam... e para toda a gente.
- Tudo ser feito com o menor rumor possvel, pode ficar certo.
- Sim... mas que necessidade h disso? A mam no pensa em tornar a casar.
Ele, as irms, o nome de todos manchado aos olhos dos camaradas de colgio e de Crum, dos estudantes de Oxford e de Holly! Era insuportvel! Que  que se poderia 
ganhar com isso?
- Voc deseja-o, mam? - perguntou com vivacidade. Posta assim, pela criatura a quem ela mais queria no mundo,
em face de sentimentos que eram to idnticos aos seus, Winifred ergueu-se da poltrona Imprio onde estava sentada. Viu que o filho ficaria contra ela se no lhe 
contassem tudo.

84 - 85

E, no entanto, como contar-lhe? De forma que, amarrotando sempre entre os dedos a seda verde do vestido, ela encarava Soames. Val tambm fixava Soames. No seria 
possvel que aquela encarnao da respeitabilidade e do sentimento das convenincias quisesse infligir um tal dano  prpria irm.
Soames fez deslizar lentamente sobre a superfcie lisa de uma mesa embutida Um pequeno corta-papis ornado de incrustaes, depois, sem olhar para o sobrinho, comeou:
- Voc no compreende o que sua me teve de suportar durante vinte anos. Este caso de hoje, Val,  apenas a ltima gota. - E, erguendo os olhos para Winifred, perguntou: 
- Ser preciso contar?
Winifred no respondeu. Se no lhe contassem, ele ficaria contra ela, e entretanto era horrvel ouvir tais coisas a respeito do prprio pai. Com os lbios apertados, 
fez sinal que sim.
Soames falou em voz rpida e uniforme:
- Dartie sempre foi uma pedra amarrada ao pescoo de Winifred. Ela pagou-lhe as dvidas no sei quantas vezes. Vrias noites sucedeu ele entrar em casa bbado, insult-la, 
amea-la, agora, fugiu com uma bailarina. - E, como se no tivesse confiana na eficcia dessas palavras nos ouvidos do rapaz, acrescentou precipitadamente: - Ele 
levou as prolas de sua me para as dar a essa mulher.
Ao chegar a esse ponto, Val ergueu a mo num gesto brusco. Vendo esse sinal de sofrimento, Winifred exclamou:
- Basta, Soames, pare!
No esprito do rapaz, o Dartie e o Forsyte estavam em luta. Ele tinha uma certa simpatia pelas dvidas, a bebida, as bailarinas. Mas as prolas - isso no! Era de 
mais! E de sbito sentiu a mo da me que apertava a sua.
Ouviu Soames dizer:
- Voc v que no poderemos permitir que isso recomece. H um limite para tudo,  preciso que malhemos o ferro enquanto est quente.
Val libertou a mo.
- Mas... mesmo assim... no iro alegar o caso das prolas, no? Eu no poderia suport-lo... no poderia absolutamente!


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- No, no, Val - gritou Winifred. - Oh, no! Foi apenas para lhe fazer compreender como seu pai excedeu todos os limites.
O tio fez um sinal de assentimento. Um pouco mais calmo, Val acendeu um cigarro. Fora o pai que llhe dera aquela cigarreira chata e curva. Oh, era insuportvel - 
no momento de partir para Oxford!
- Ser que no se poderia proteger a mam sem isso? - perguntou.- Eu cuidaria dela.. E ns sempre poderemos chegar l, mais tarde, quando for necessrio.
Um sorriso brincou um momento sobre os lbios de Soames, e logo se tornou amargo.
- Voc no sabe o que est a dizer. Nessa espcie de assuntos, nada  to fatal como adiar a aco.
- Porqu?
- Estou a dizer-lhe, rapaz, que nada pode ser to fatal. Falo por experincia prpria.
A sua voz tinha um tom exasperado. Val considerava-o de olhos arregalados, porque jamais vira o tio manifestar a menor emoo. Oh, sim, lembrava-se agora. Houvera 
uma tia Irene - acontecera qualquer coisa, uma coisa de que no se falava, e uma vez ele ouvira o pai, ao referir-se a essa tia, empregar uma palavra que no se 
pode repetir.
- No quero falar mal do seu pai - prosseguiu Soames resolutamente -, mas conheo-o bastante para ter a certeza de que dentro de um ano ele andar de novo atrs 
da sua me. E voc pode imaginar, pelo que est a suceder agora, o que isso representar para ela e para vocs todos. A nica coisa a fazer  cortar o n de uma 
vez.
A despeito de si prprio, Val estava impressionado, e, mudando os olhos para o rosto da me, teve, pela primeira vez na vida, a intuio de que o que ele prprio 
sentiria no era a coisa mais importante do mundo.
- Muito bem, mam, ns ficaremos a seu lado. Apenas gostaria de saber quando se far isso tudo. Sabe que  o meu primeiro trimestre de universidade, e eu prefiro 
no estar l no momento do processo.

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- Oh, meu filhinho - murmurou Winifred -, ser to desagradvel para si!
O hbito de exprimir por aquela frmula moderada aquilo que, a julgar-se pela expresso do rosto, representava a sua mgoa mais pungente.
- Quando se far a coisa, Soames?
- No poderei diz-lo... no antes de vrios meses.  preciso primeiro que se requeira a reintegrao do lar.
"Que diabo ser isso?", pensou Val. "Que animais so esses advogados! No antes de vrios meses! Mas h uma coisa que sei muito bem: no janto aqui hoje." E disse:
- Sinto muito, mam, mas tenho de sair para jantar.
Se bem que aquela fosse a sua ltima noite, Winifred aprovou-o com uma espcie de gratido. Ambos tinham a impresso de terem ido muito longe na expresso dos seus 
sentimentos.
Deprimido e desolado, Val procurou a liberdade brumosa de Green Street. S depois de chegar a Piccadilly se recordou de que tinha apenas dezoito pence no bolso. 
Era impossvel jantar com dezoito pence, e ele tinha fome. Contemplou com desejo as janelas do Iseeum Club, onde tantas vezes saboreara, em companhia do pai, a cozinha 
mais requintada. Aquelas prolas! No havia meio de as esquecer. Mas quanto mais rolava os pensamentos sombrios, mais caminhava, e mais fome tinha. Se no queria 
voltar tristemente para junto da me, havia apenas dois lugares aonde poderia ir: a casa do av, em Park Lane, ou  casa do tio Timothy, em Bays-water Road. Entre 
essas duas alternativas, qual era a menos deplorvel? Chegando de improviso, decerto jantaria melhor em casa do av. Em casa de Timothy s davam boas refeies quando 
estavam prevenidos. E ele pensou tambm que no deveria ir para Oxford sem oferecer ao av uma oportunidade de lhe dar algum dinheiro - o que no seria justo nem 
para um, nem para o outro. Escolheu, pois, Park Lane. Decerto a me saberia depois que ele fora l, e poderia achar aquilo estranho, mas que lhe restava fazer? E 
tocou a campainha.
- Ol, Warmson! Haver jantar para mim?
- Esto de caminho para a mesa, Master Val. Mr. Forsyte ficar muito contente ao v-lo.

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Hoje, ao almoo, disse que nunca mais o vira.
Val fez uma careta.
- Bem, aqui estou. Mate o vitelo gordo, Warmson, e d-nos champanhe!
Warmson sorriu levemente, aos seus olhos, Val no era mais que uma criana.
- Vou pedir a Mrs. Forsyte, Master Val.
-  bom que voc saiba - disse Val, tirando o sobretudo - que j no estou na escola.
Warmson abriu uma porta, vizinha ao cabide de cabea de veado, e, no sem uma pontinha de ironia, anunciou:
- Mister Valerius, Ma'am!
"O Diabo o leve!", pensou Val enquanto entrava. A av beijou Val carinhosamente, exclamando:
- Val! Que boa surpresa! James disse numa voz trmula:
- Afinal, c est voc!
E aquela acolhida reintegrou-o no sentimento da sua dignidade.
- Porque no nos preveniu? S temos carneiro assado. Traga champanhe, Warmson - disse Emily. E dirigiram-se para a salla de jantar.
A grande mesa, em torno da qual jantara tanta gente elegante, estava agora reduzida ao tamanho mnimo. James sentou-se numa ponta, Emily na outra, e Val no meio 
do intervalo que os separava: sentiu um pouco a solido em que viviam os avs, agora que os seus quatro filhos haviam partido. "Oxal eu rebente antes de chegar 
 idade do av", pensava ele: "Pobre do velho, est magro como um galho seco!" E em voz quase baixa, enquanto o av discutia com Warmson para saber se poderia pr 
acar na sopa, ele disse a Emily:
- L em casa as coisas vo pssimas, av. Com certeza j sabe.
- Sim,, meu filho.
- O tio Soames estava l quando sa. E, a propsito disso, ser que no se pode fazer nada para evitar um divrcio? Porque se obstina ele com tanta fria nisso?
- Psiu, meu filho! Ns no falmos nisso ao seu av.

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A voz de James fez-se ouvir na outra ponta da mesa.
- Que ? Que  que vocs esto a dizer?
-  a propsito dos estudos de Val - respondeu Emily. - O jovem Pariser est no mesmo colgio, voc lembra-se, aquele que quase rebentou a banca em Monte Carlo.
James murmurou que no sabia. Era preciso que Val estivesse atento, l no colgio, seno poderiam suceder-lhe muitas coisas desagradveis. E considerou o neto com 
uma expresso triste, iluminada por uma afeio inquieta.
- A nica coisa que receio - disse Val -  passar apertos por l.
Ele sabia instintivamente que o ponto fraco do velho era o receio de insegurana para os netos.
- Quanto a isso - disse James, deixando escorrer no prato a colherada de sopa -, voc ter uma boa mesada. Mas no deve gastar de mais.
- Decerto, av - murmurou Val -, se a mesada for boa. Quanto terei?
- Trezentas e cinquenta libras.  muito, na sua idade, eu no tinha quase nada.
Val suspirou: esperara uma mesada de quatrocentas libras e temera uma de trezentas.
- No sei quanto do ao seu primo - disse James. - Ele est l, o pai  rico...
- O senhor no o ? - perguntou Val com audcia.
- Eu? - respondeu James, presa de viva agitao. - Tenho muitas despesas... O seu pai... -E calou-se.
- O primo Jolyon tem uma linda propriedade. Fui l com o tio Soames. As cavalarias so formidveis.
- Ah - suspirou profundamente James. - Aquela casa... Eu sabia o que ia acontecer.
E abismou-se numa profunda meditao por sobre as espinihas de peixe no prato. A tragdia do filho, o profundo fosso que ela cavara na famlia Forsyte, tinha ainda 
o poder de o arrastar num turbilho de dvidas e inquietaes. Val, que desejava falar de Robin Hill, porque Robin Hill era Holly, voltou-se para Emily e perguntou:

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- Foi aquela a casa construda para o tio Soames? - E, depois de receber em resposta um sinal afirmativo, continuou: - Queria que me falasse dela, av. Que  feito 
da tia Irene? Ser que ainda existe? Hoje, o tio Soames parecia furiosamente agitado.
Emily ps o dedo nos lbios, mas o nome de Irene ferira o ouvido de James.
- Que ? - perguntou ele com um pedao de carneiro parado diante da boca. - Quem foi v-la? Eu sabia muito bem que no nos havamos livrado de referncias a esse 
assunto.
- Vamos, James - disse Emily -, coma o seu jantar. No se foi visitar ningum.
James deps o garfo.
- L est voc - disse ele. - Eu poderia morrer antes que se resolvesse a contar-me qualquer coisa. Ser que Soames est a tratar de se divorciar?
- Tolices - disse Emily com incomparvel sangue-frio. - Soames no  assim to tolo.
James levara a mo ao pescoo magro e ossudo, sobre o qual apertava as longas suas brancas.
- Ela... ela sempre - disse ele.
E a conversa parou nessas palavras enigmticas, porque Warmson acabava de entrar. Mas depois, quando o assado de carneiro deu lugar  sobremesa e Val recebeu um 
cheque de vinte libras e o beijo do av - um beijo que no se parecia com nenhum outro, dado por lbios velozmente estendidos, com uma rapidez receosa, como se o 
autor houvesse cedido a um momento de fraqueza -, o rapaz voltou  carga, no hall de entrada.
- Fale-me do tio Soames, av. Porque faz ele tanta questo de que a mam se divorcie?
- O seu tio Soames - disse Emily, e a voz dela tinha um tom de segurana forada -, o seu tio  advogado, meu filho. Ele sabe melhor que ningum o que  preciso 
fazer.
- Ah, sim - murmurou Val. - Mas que  feito da tia Irene? Lembro-me de que ela era linda.
- Ela... eh... - disse Emily - ela procedeu muito mal.  uma coisa de que nunca falamos.
- De qualquer modo, no tenho nenhum desejo de que toda a gente em Oxford esteja a par das nossas questes de famlia

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- disse Val com fora. -  uma ideia brutal. Porque no se pode impedir que o pai continue longe sem que o caso se torne pblico? Emily suspirou. Graas aos seus 
gostos mundanos, sempre vivera numa atmosfera de divrcios, e muitas das pessoas que se tinham sentado  sua mesa haviam adquirido uma certa notoriedade. Mas, tratando-se 
da sua prpria famlia, aquilo no lhe agradava mais que aos outros. Era contudo um carcter eminentemente prtico, uma mulher corajosa, que nunca perseguiria uma 
sombra de preferncia  sua substncia.
- A sua me - disse ela - ser mais feliz quando for completamente livre, Val. Boa noite, meu filhiinho, no use coletes vistosos em Oxford. No esto na moda, actualmente. 
Tome um presentinho para si.
Com mais cinco libras no bolso e um pouco de calor no corao, porque gostava da av, Val saiu para Park Lane. O vento dissipara a neblina,, as folhas luziam na 
noite outonal e as estrelas cintilavam. Com tanto dinheiro, sentiu a tentao de ir divertir-se. Mas no tinha percorrido ainda quarenta metros, quando lhe apareceu 
o rosto tmido de Holly, com os seus olhos graves onde danava um claro jovial, e pareceu-lhe sentir ainda a presso quente da mozinha enluvada da moa.
- Ora bolas! Vou para casa.

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CAPTULO X

SOAMES PENSA NO FUTURO


A estao estava muito adiantada para permitir um passeio pela margem do rio, mas fazia um tempo delicioso e o Vero demorava-se nas folhas amareladas. No seu jardim 
 margem do Tamisa,, perto de Mapledurham, Soames muitas vezes interrogou o cu naquela manh de domingo. Com as suas prprias mos enfeitou de flores todas as salas 
da casa e muniu do necessrio o barco em que contava levar as visitas depois do almoo para um passeio no rio. E, arrumando as almofadas de estilo chins, no saberia 
dizer se desejava ou no levar Annette sem a companhia da me. Ela era to bonita... e poderia ele estar certo de que no diria nada de irrevogvel, nada que ultrapassasse 
os limites da discrio? As rosas ainda estavam desabrochadas sob a varanda, as sebes ainda estavam verdes, de tal modo que ainda no havia no ar nada da maturidade 
do Outono para lhe resfriar os mpetos. E no entanto sentia-se inquieto, nervoso, com uma estranha falta de confiana na sua capacidade de fazer exactamente o que 
conviesse. No seu esprito, destinara aquela visita a fazer nascer em Annette e na me o justo sentimento da sua fortuna, de modo a prepar-las a acolherem com respeito 
qualquer proposta que estivese disposto a fazer mais tarde. Vestiu-se com grande cuidado, sem procurar ficar nem jovem de mais, nem velho de mais, alegre por os 
seus cabelos ainda serem bastante espessos e sedosos, virgens de qualquer fio de prata. Trs vezes seguidas subiu  galeria de quadros. Por pouco que elas entendessem 
daquilo, era impossvel

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que no vissem imediatamente que a sua coleco valia mais de trinta mil libras. Inspeccionou minuciosamente tambm o seu lindo quarto de dormir, com janelas para 
o rio, onde elas tirariam os chapus, Seria tambm o quarto de Annette se... se as coisas se arranjassem e ela se tornasse sua mulher. Aproximando-se do toucador, 
passou a mo pela almofadinha lils onde estavam cravados alfinetes de todos os modelos, um vaso cheio de ptalas fanadas espalhava um cheiro que lhe entonteceu 
a cabea. Sua mulher! Se ao menos tudo pudesse ser decidido logo, sem, como preldio, o pesadelo do divrcio... E, com uma ruga de preocupao a sulcar-lhe a testa, 
mudou o olhar para o rio, que brilhava ao sol, para l do relvado e das roseiras em flor. Madame Lamotte no resistiria a uma tal perspectiva para a filha, Annette 
no resistiria  me. Se ao menos ele fosse livre!
Foi esper-las  estao, com o carro. Como tinham bom gosto aquelas francesas! Madame Lamotte trajava lils e negro, e Annette um vestido de linho rseo, com luvas 
creme e um chapu do mesmo tom. Tinha a cor um pouco plida dos habitantes de Londres e os seus olhos azuis estavam cheios de candura. Enquanto esperava que descessem 
para o almoo, Soames mantinha-se de p, junto  janela aberta, gozando aquela alegria dos sentidos que vem do sol, das flores, das rvores, e que apenas se experimenta 
plenamente nos dias em que a beleza e a juventude esto ao nosso lado para as partilhar. Ordenara o almoo com profundo cuidado e mandara trazer da adega um Sauterne 
especialssimo, toda a escolha da refeio era perfeita, e o caf, servido na varanda, excelente. Madame Lamotte aceitou at o creme de hortel: Annette recusou. 
Os seus modos eram encantadores, deixando transparecer uma leve suspeita de que eram modos de rapariga que se sabe bonita. E Soames pensava: "Sim. mas basta mais 
um ano de Londres, nesse gnero de vida, para que este encanto se estrague."
Madame exibia um entusiasmo inteiramente francs: "Adorable! Le soleil est si bon! Como tudo aqui  chique, no acha, Annette? Monsieur  um verdadeiro Monte Cristo!" 
Annette aprovava a meia voz, e ao mesmo tempo erguia para Soames um olhar que ele no conseguia decifrar. Ele props darem um passeio de barco. Mas passear assim 
por sobre a gua com duas pessoas,

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uma das quais ficava to linda estirada sobre as almofadas chinesas, s o faria sofrer, com um sentimento de oportunidade perdida. De modo que fizeram apenas um 
pequeno percurso na direco de Pangbourne, e voltaram lentamente ao sabor da corrente, enquanto, de tempos a tempos, uma folha dourada caa sobre Annette ou sobre 
as negras amplitudes da me. Soames no se sentia feliz, pelo contrrio, atormentava-o este pensamento: "Como... quando... onde falar, que dizer?" Elas ainda no 
sabiam sequer que ele era casado. Se o dissesse, poderia comprometer tudo, e entretanto, se no as fizesse compreender claramente que desejava a mo de Annette, 
um outro poderia tom-la antes que ele pudesse reclam-la como sua. Ao ch, que ambas tomaram com limo, Soames falou do Transvall.
- Vai haver guerra - disse ele. Madame Lamotte lamentou:
- Ces pauvres gens bergers! No seria possvel deix-los em paz?
Soames sorriu - a pergunta parecia-lhe absurda.
Ela compreenderia perfeitamente, j que era mulher de negcios, que os Ingleses no poderiam abandonar os seus legtimos interesses comerciais.
- Ah,  isso!
Contudo, Madame Lamotte achava que os Ingleses eram um pouco hipcritas. Falavam em justia e nos Uitlanders, mas nunca em comrcio. Monsieur era o primeiro que 
apresentava a questo desse modo.
- Os Boers so apenas semicivilizados - comentou Soames. - Perturbam a marcha do progresso. Ns nunca poderemos renunciar  nossa suserania.
- Que quer isso dizer? Suserania! Que palavra estranha! Soames sentiu-se eloquente ante aquela ameaa ao princpio
da propriedade e, estimulado pelos olhos de Annette, que sentia fixos em si, ficou encantado quando a ouviu dizer, depois de um instante:
- Eu creio que monsieur est certo. Eles precisam de uma lio.
Era uma rapariga sensata!

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- Naturalmente - disse Soames-, ns temos de agir com moderao. Eu no tenho nada de jingo (1). Devemos mostrar-nos firmes, mas sem brutalidade. Querem subir para 
ver os meus quadros?
Passando de um para outro dos seus tesouros, ele percebeu logo que elas no entendiam nada de pintura. No compreenderam o seu ltimo Mauve, um notvel estudo sobre 
A Volta de Um Carro de Feno, e passaram diante dele como se fosse uma litografia. Esperava, com uma espcie de terror, para ver como elas Olhariam para a mais linda 
pea da coleco - um Israels, cujo preo subira to alto que j no esperava v-lo subir mais e acerca do qual considerava que seria melhor p-lo  venda. Elas 
no o olharam. A surpresa era desagradvel. E entretanto, se era preciso formar o gosto virgem de Anmette, seria melhor essa indiferena do que ter de combater as 
estpidas predileces dos ingleses da classe mdia. No fundo da galeria havia um Meissonier de que ele quase tinha vergonha - o preo dos Meissonier baixava com 
uma tal regularidade! Madame Lamotte parou diante do quadro.
- Meissonier! Ah, que jia!
Soames aproveitou a vantagem do momento.
- Gosta da minha casa, Annette? - murmurou, tocando-lhe levemente o brao.
Ela no fugiu  aproximao, mas tambm no lhe correspondeu, olhou-o bem de frente, baixou os olhos e murmurou:
- A quem no agradaria?  linda.
- Um dia, talvez... - disse Soames. E calou-se.
To bonita, to senhora de si, ela assustava-o. Os seus olhos cor-de miostis, a linha de marfim do pescoo, as curvas delicadas - ao v-la, um homem sentia-se sempre 
tentado a dizer palavras ousadas. No, no! Era preciso saber em que ponto estavam, sab-lo muito melhor. "Se eu me mantiver na reserva", pensava ele, "isso excitar-lhe- 
o desejo." E foi  procura de Madame Lamotte, que estava ainda defronte do Meissonier.
- Sim, este  um bom exemplo da sua ltima maneira.  preciso voltar, madame,

*1. Jingo - partidrio de uma poltica externa agressiva. (N. da T.)

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para ver todas estas telas  luz artificial. As senhoras deveriam vir passar uma noite aqui.
Madame disse que estava encantada. Realmente, os quadros deveriam ser bonitos, iluminados. E o Tamisa tambm, haveria de ser um encanto, ao luar.
Annette murmurou:
- Mas tu ests sentimental, mam!
Sentimental! Aquela francesa atarracada, vestida de preto, que vivia apenas para as coisas do mundo! E de sbito ele sentiu-se to certo quanto o seria possvel 
de que no havia em nenhuma delas o menor resqucio de sentimentalismo. Melhor! Para que serve o sentimento? Entretanto...
Levou-as de carro  estao e acompanhou-as at  portinhola da carruagem. Pareceu-lhe que os dedos de Anmette correspondiam levemente, muito levemente, ao aperto 
pronunciado que lhes deu: o rosto dela sorria-lhe na sombra.
Regressou ao carro, sonhador.
- Volte sem mim, Jordam - disse ao cocheiro. - Vou fazer o caminho a p.
E meteu-se em grandes passadas pelos trilhos que as trevas invadiam, dividido entre a prudncia e o desejo da posse. Bon soir, monsieur! Com que voz suave ela lhe 
dissera isso! Se lhe pudesse conhecer os pensamentos! As francesas parecem-se com gatos... nunca podemos ter a certeza de nada! Mas como era bonita! Que coisa perfeita 
para um homem apertar nos braos! Que me para o seu herdeiro! E ele pensou, com um sorriso, na gente da sua famlia, na surpresa quando o vissem casado com uma 
francesa,, na curiosidade deles e no modo como ele se divertiria com essa curiosidade e a frustraria - o Diabo que os levasse! Os choupos suspiravam na escurido. 
Uma coruja piou. Na gua, as sombras pareciam mais profundas. "Quero ficar livre e libertar-me-ei", cismava Soames. "No vou mais ficar  toa, dependurado. Procurarei 
Irene. Quando se quer ver as coisas feitas, o melhor  faz-las pessoalmente. Quero recomear a viver, ter liberdade de movimentos, ser eu prprio."
E, como para fazer eco a esse estranho credo, os sinos das igrejas soaram, chamando os fiis  orao da noite.

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CAPTULO XI

E VAI REVER O PASSADO


Numa tera-feira  noite, depois de jantar no seu clube, Soames disps-se a realizar uma tarefa que requeria mais coragem e talvez menos delicadeza que qualquer 
outra que tivera de afrontar durante a vida inteira, salvo talvez o nascimento - e uma outra aco.
Escolheu a noite, com efeito, em parte porque a essa hora Irene com mais probabilidade estaria em casa, mas principalmente porque no conseguira obter de si suficiente 
audcia durante a luz do dia e carecera de um pouco de vinho a mais para se estimular.
Deixou o carro no Enbankment e caminhou a p at Old Ghurch. Sabia que ela morava ali, mas sentia-se incerto em identificar qual das casas de apartamentos seria 
a dela. Encontrou-a depois, escondida junto de um bloco de casas muito maior. Leu o nome: "Mrs. Irene Heron". Heron, com efeito! Ento ela retomara o nome de solteira! 
E voltou  rua, para a calada oposta, a fim de examinar as janelas do primeiro andar. O apartamento estava iluminado. Ouvia-se o som de um piano. Soames nunca gostara 
de msica e acumulara contra essa arte muitos rancores, outrora, quando a mulher procurava tantas vezes o piano como um local de refgio em que ele no podia penetrar. 
Como o repelira! Primeiro repelira-o secretamente, durante longos meses, depois abertamente. O som do piano despertou em Soames recordaes amargas.
Provavelmente era Irene que tocava. E, mais ou menos certo de voltar a v-la agora, sentia-se mais indeciso que nunca. Sentia arrepios de apreenso, a lngua secara-lhe 
na boca, o corao batia em pancadas precipitadas. "No tenho nenhuma razo para ter medo, eu", pensou ele. E ento foi o advogado que se alarmou. No iria cometer 
uma imprudncia, no deveria preparar uma entrevista em boa e devida forma, na presena do administrador da herana dela? Qual! Na presena daquele Jolyon, cujas 
simpatias j estavam todas hipotecadas a ela? Nunca! Voltou  entrada, subiu a escada em passos lentos, para acalmar as pancadas do corao, depois tocou a campainha. 
Quando lhe abriram a porta, as suas sensaes afogaram-se todas naquele perfume - aquele perfume do passado longnquo -, perfume de um salo onde tinha o hbito 
de entrar outrora, de uma casa que fora outrora a sua, perfume de ptalas secas, de rosas e de mel.
- Anuncie Mr. Forsyte - disse ele  criada. - A sua patroa receber-me-, tenho a certeza.
Ele havia preparado aquilo. Irene pensaria que era Jolyon.
A criada saiu e ele ficou s na pequena entrada, iluminada fracamente por uma lmpada cujo quebra-luz tinha uma franja de aljfares e a que o tom prateado das paredes, 
do tapete, de tudo, dava um ar fantasmagrico. Tudo o que ele pde fazer foi perguntar a si mesmo esta coisa ridcula: "Tiro o sobretudo ou fico com ele?" A msica 
parou e a criada disse, abrindo a porta:
- O senhor quer ter a bondade de entrar?
Soames entrou. Notou que tambm na sala tudo era cor de prata e que o piano era de pau-cetim. Irene erguera-se e mantinha-se em p junto do piano, com o busto inclinado 
para trs, como se procurasse s cegas um apoio, tocou com as mos nas teclas e tirou alguns sons discordantes, passaram-se alguns instantes antes que ela erguesse 
aquela mo e que o silncio se refizesse. Trajava um vestido de noite, preto, com uma espcie de mantilha nos ombros. Soames no se lembrava de alguma vez a ter 
visto de preto e um pensamento atravessou-lhe o esprito: "Ela faz toilette de noite mesmo quando est s!"
- Voc - ouviu-a murmurar.
Foram muitas as ocasies em que Soames ensaiara em imaginao aquela cena.

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Mas os ensaios agora no o ajudavam em nada. Sentia-se absolutamente incapaz de falar. Nunca supusera que a presena daquela mulher, to apaixonadamente desejada 
outrora, to completamente possuda e que ele no via j h doze anos, o pudesse afectar a tal ponto. Ele imaginara-se falando e agindo, metade como homem de negcios, 
metade como juiz. E agora era como se estivesse na presena, no de uma mulher e de uma esposa culpada, mas de uma fora subtil e impossvel de deter, como a prpria 
atmosfera, que estava sempre dentro dele e fora dele, sempre inatingvel.
- Sim,  uma visita esquisita! Espero que voc tenha passado bem.
- Obrigada. Quer sentar-se?
Ela afastara-se do piano e deixara-se cair sobre uma cadeira, num vo de janela,, com as mos juntas sobre os joelhos. Estava em plena luz, e Soames podia ver-lhe 
o rosto, os cabelos, os olhos, tudo estranhamente idntico  lembrana que guardara e estranhamente belo.
Ele sentou-se na beira de uma cadeira de pau-cetim, recoberta de um estofo prateado, que estava prxima de si.
- Voc no mudou, Irene.
- No. Porque veio visitar-me?
- Para discutir a nossa situao.
- O seu primo j me comunicou os seus desejos.
- E ento?
- Eu concordo. Sempre o quis, alis.
Ele era auxiliado agora pelo som da voz dela, reservado, fechado, pela viso do seu corpo numa atitude de defesa vigilante. Lembrou-se de mil outras ocasies em 
que a vira pr-se em guarda contra ele e disse-lhe com amargura:
- Talvez voc tenha a bondade de trazer ao meu conhecimento alguns factos sobre os quais eu possa basear-me para agir. Somos obrigados a conformar-nos com a lei.
- No tenho nada a comunicar-lhe que j no seja do seu conhecimento.
- Doze anos! E voc pensa que eu possa acreditar nisso?

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- No penso em que voc acredite em nada do que eu lhe diga. Mas  a verdade.
Soames olhoua duramente. Dissera-lhe, ao entrar, que ela era a mesma. E via entretanto agora que a mulher mudara. No no rosto, que apenas se tornara mais lindo, 
no no corpo, que apenas se tornara um pouco mais cheio, mas ela no era a mesma, moralmente. A sua personalidade, de certo modo, afirmava-se muito melhor, e mostrava 
agora uma certa actividade, uma certa audcia, onde outrora s existira resistncia passiva. "Ah", pensou ele, "a herana deu-lhe independncia! Para os diabos o 
tio Jolyon!"
- Segundo penso, voc agora vive com conforto, no?
- Sim, obrigada.
- Porque nunca consentiu que eu lhe desse tudo o que voc precisasse? Eu t-lo-ia feito, a despeito de tudo. - Um leve sorriso apareceu nos lbios de Irene, que 
no respondeu a nada. - Voc ainda  minha mulher - acrescentou Soames.
Nem quando falou, nem mais tarde, pde explicar a si prprio porque dissera aquilo, nem qual a significao de tal frase. Era de um trusmo quase ridculo, mas produziu 
efeitos notveis. Irene ergueu-se da cadeira e durante um instante ficou perfeitamente erecta e imvel, a olh-lo. Ele podia ver-lhe o seio erguer-se. Depois ela 
caminhou para a janela e escancarou-a.
- Porque faz isso? - perguntou ele num tom seco. - Vai constipar-se, vestida como est. Eu no sou perigoso. - E soltou uma risadinha triste.
Ela riu tambm - um riso fraco e amargo.
- Foi... um hbito.
- Estranho hbito - comentou Soames, com a mesma amargura. - Feche essa janela.
Irene fechou-a e tornou a sentar-se.
- Voc tem tanto interesse como eu em ser livre. Essa velha histria j  antiga de mais.
- Eu j lhe disse tudo.
- Quer dizer-me que nunca houve nada... ningum?
- Ningum. Ser preciso procurar na sua vida. Esporeado por aquela resposta, Soames comeou a percorrer a
sala em largas passadas, entre a parede e a lareira, como o fazia

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outrora no salo deles, todas as vezes em que era presa de uma emoo forte de mais.
- Isso no pode ser - disse ele. - Foi voc que me abandonou. A justia mais elementar exige que seja voc...
Ele viu-a erguer os ombros alvos e ouviu-a murmurar:
- De acordo. Mas porque no requereu o divrcio naquela poca? Que me teria importado ento?
Ele parou e examinou-a com uma espcie de curiosidade. Que poderia ela fazer de si mesma, se realmente vivia de todo s? E porque, com efeito, no requerer ela 
o divrcio? E, tal como outrora, enquanto a olhava, sentia a desagradvel impresso de que a mulher no o compreendera e no lhe fizera justia.
- Porque nunca pde ser uma boa esposa para mim? - perguntou.
- Sim. Foi um crime meu casar consigo. Paguei por isso. Talvez voc descubra qualquer modo de resolver o problema. No se preocupe com a minha reputao; no tenho 
nada a perder. Mas, agora, creio que o melhor que pode fazer  ir-se embora.
O sentimento de uma derrota - de ter sido defraudado da justificao da sua prpria conduta e de uma outra coisa ainda que lhe era impossvel explicar - assaltou 
Soames como o sopro de uma neblina gelada. Maquinalmente, estendeu o brao, apanhou na lareira um vasinho de porcelana, volteou-o entre os dedos e disse:
- Lowestoft. Onde encontrou isto? Comprei o par dele no Jobson.
E, invadido pela lembrana do tempo em que compravam bibelots juntos, demorou-se na contemplao do vaso, como se ele contivesse todo o passado. A voz de Irene tirou-o 
das suas recordaes:
- Leve-o. No gosto dele. Soames recolocou-o sobre a lareira.
- Quer dar-me a mo? - perguntou.
Um ligeiro sorriso distendeu os lbios de Irene. Ela estendeu a mo. Estava fria ao contacto da mo dele, quase febril. "Ela  feita de gelo", pensou Soames. "Sempre 
o foi." Mas, no prprio momento em que esse pensamento lhe atravessou o esprito,

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os seus sentidos foram assaltados pelo perfume que vinha do vestido da mulher, do seu corpo, como se o ardor que estava nela e que nunca se mostrara por ele se esforasse 
por se manifestar.
Soames girou sobre os calcanhares. Saiu e afastou-se como se o perseguissem a chicotadas, sem mesmo procurar um carro, feliz por encontrar o vazio do Embankment, 
o frio da margem, a sombra espessa das folhas dos pltanos - com a cabea cheia de ideias confusas, o corao revolvido, descontente e vagamente inquieto, como se 
houvesse cometido uma falta grave cujas consequncias no pudesse prever. E de sbito foi assaltado por esta ideia fantstica: "O melhor que pode fazer  ir-se embora", 
dissera-lhe ela. E se ela lhe houvesse dito: "O melhor que pode fazer  ficar" - que impresso llhe teria produzido isso? Que teria ele feito? A maldita atraco 
que Irene exercia sobre ele estava sempre presente ali, depois de tantos anos de afastamento e de amargura. Ela estragara-llhe a vida, ferira mortalmente o seu orgulho, 
frustrara-o de um filho. E s de v-la na sua frente, mais fria e hostil que nunca, ele ficara to completamente perturbado! Devia ser allgum magnetismo infernal 
que havia nela. E no era surpreendente que, segundo o afirmava, Irene houvesse vivido intocada durante aqueles doze anos. De modo que Bosinney - maldita fosse a 
sua memria - fizera-lhe companhia durante todo esse tempo. E Soames no podia dizer se aquela solido lhe dava prazer ou no.
Aproximando-se do seu clube, parou para comprar um jornal da noite. "Os Boers repudiaro a suseramia britnica!", dizia um ttulo. "Suserania! Exactamente iguais 
a Irene! Ela sempre fez isso. Ainda tenho direito  suserania. E ela deve sentir-se terrivelmente s naquele miservel apartamentozinho!"

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CAPTULO XII

A BOLSA DOS FORSYTE


Soames pertencia a dois clubes, o Connoisseurs, cujo endereo punha nos seus cartes de visita e onde nunca ia, e o Remove, que nunca indicava nos cartes e que 
frequentava. Entrara para essa sociedade liberal cinco anos atrs, depois de se certificar de que todos os seus membros eram conservadores no corao e na bolsa, 
se no em princpios. Fora o tio Nicholas que o levara para l. A bela sala de leitura era decorada em estilo Adam. Ao entrar no clube, naquela noite, deu uma olhadela 
 fita do telgrafo para verificar se havia notcias do Transval, e notou que os consolidados haviam baixado sete dezasseis avos desde a manh. Preparou-se para 
entrar no salo de leitura,, quando uma voz disse atrs dele:
- Ento, Soames, tudo correu bem, no?
Era o tio Nicholas, de sobrecasaca, com o seu colarinho especial e uma gravata preta enfiada num anel. Senhor! Como tinha um aspecto saudvel e bem disposto, aos 
oitenta e dois anos!
- Penso que Roger gostaria do modo como tudo foi feito - disse o tio. - Esteve muito bem. Esses Boers esto a atormentar-me. E esse sujeito, esse Chamberlain, est 
a arrastar o pas para a guerra. Que pensa voc?
- Espero complicaes - murmurou Soames.
Nicholas passou a mo pela face clara, barbeada de fresco, muito rosada depois da sua estao de guas de Vero.

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Uma ligeira irritao vincava-lhe os lbios; aquele assunto fizera reviver todos os seus princpios liberais.
- No confio naquele sujeito;  um desastrado. As propriedades imobilirias vo baixar muito, se houver guerra. Voc vai ter complicaes com o inventrio de Roger. 
Eu sempre lhe disse que se desfizesse de algumas das suas casas. Mas era um cabeudo de marca maior.
"Fazia par consigo", pensou Soames. Mas nunca discutia com um tio, preservando desse modo a opinio deles a seu respeito como um sujeito de "boa cabea", assim como 
a da clientela que lhe representavam.
- Disseram-me em casa de Timothy - disse Nicholas, baixando a voz - que Dartie acabou mesmo por ir-se embora. Foi um alvio para seu pai. Aquilo era um ovo podre.
Novamente Soames concordou com um gesto de cabea: se havia um assunto a respeito do qual todos os Forsyte estavam realmente de acordo, era sobre o carcter de Montague 
Dartie.
- Vocs precisam de tomar cuidado - insistiu Nicholas-, seno ele reaparece. O melhor que Winifred poder fazer  arrancar esse dente, mal comparando. No se deve 
deixar na boca um dente cariado.
Soames olhou-o pelo canto do olho. Os seus nervos, exacerbados pela entrevista de que acabara de sair, levaram-no a tomar essas palavras como uma aluso pessoal.
- Estive a aconselh-la - disse ele, em tom seco.
- Bem - disse Nicholas -, o brougham (1) est  espera; tenho de ir-me embora. No ando a sentir-me muito bem. Lembranas a seu pai.
E, tendo assim reconsagrado os laos de sangue, Nicholas desceu a escada com o seu passo juvenil e deixou que o ajudante do porteiro o envolvesse na pelica.
"Que famlia!", pensava Soames. "Nunca vi o tio Nicholas sem dizer que no passava bem e sempre com cara de quem vai ficar para semente! A julgar por ele, ainda 
tenho trinta e oito anos de sade  minha frente. Bem. no os quero estragar."

*1. Brougham - carro fechado de um s cavalo. (N. da T.)

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Ps-se diante de um espelho, no qual examinou o rosto. Salvo uma ruga ou duas e trs ou quatro plos brancos no bigode, envelhecera ele mais que Irene? A fora da 
idade - ela e ele estavam na fora da idade! E uma ideia fantstica penetrou-lhe o esprito. Era absurdo! Era idiota! Porm a ideia voltava. E, ferido por uma inquietao 
sria ante a volta daquela ideia - como ficamos inquietos quando sentimos um segundo arrepio que indica uma constipao acompanhada de febre-, sentou-se na balana 
automtica: setenta quilos! O seu peso mantinha-se o mesmo, com diferena de um quilo, desde h vinte anos. Que idade teria ela? Breve faria trinta e sete - ainda 
poderia muito bem ter filhos. Faria trinta e sete anos no dia nove do prximo ms. Lembrava-se bem do aniversrio de Irene - sempre o comemorara religiosamente, 
mesmo o ltimo, to pouco tempo antes de ela o abandonar e quando j tinha quase a certeza da sua infidelidade. Passara quatro aniversrios sob o seu tecto. Sempre 
os vira chegar com interesse, porque os presentes que lhe dava obtinham qualquer coisa parecida com gratido, uma certa mostra de cordialidade.  excepo, na verdade, 
daquele ltimo aniversrio - que lhe dera a impresso de ser religioso de mais! E ele sentiu o seu pensamento empinar-se como um cavallo assustado. A memria acumula 
sobre certos actos, que so como cadveres, montes de folhas mortas, sob as quais apenas vagamente ofuscam os sentidos. Depois Soames pensou de sbito: "Eu poderia 
mandar-lhe um presente de aniversrio. Afinal de contas, somos todos cristos. Ser que eu no poderia - no poderamos unir de novo as nossas existncias?" E, sentado 
ainda na balana, suspirou profundamente. Annette! Ah, mas entre Annette e ele havia a horrorosa necessidade daquele divrcio! E como obt-lo? "A gente pode sempre 
obter essas coisas quando toma as responsabilidades sobre si", dissera-lhe Jolyon.
Mas porque devia ele assumir a responsabilidade do escndalo, pondo em jogo toda a sua carreira de baluarte da lei? No seria justo! Seria quixotesco! Depois de 
doze anos de separao, durante os quais nada fizera para se tornar livre, no poderia invocar, para requerer divrcio, o procedimento de Irene com Bosinney. E mesmo 
admitindo que lhe fosse possvel obter ainda provas - o que era duvidoso -. ele, Soames,

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em vista de no ter procurado obter reparaes, aquiescera na verdade com os factos. Alis, o seu orgulho nunca lhe permitiria reviver essa velha histria: sofrera 
de mais com ela. No! S novos desregramentos da parte de Irene - e ela negara que os houvesse... e ele acreditara. No podia fazer nada. Absolutamente nada!
Ergueu-se do assento macio, forrado de veludo vermelho, com a impresso de que estava com o corao apertado num torno. No poderia dormir com aquela sensao. E, 
apanhando o sobretudo e o chapu, saiu e caminhou para o centro da cidade. Em Trafalgar Square foi tirado das suas cismas por um tumulto excepcional. Eram os jornaleiros, 
que gritavam to alto que ningum poderia compreender o que apregoavam. Soames parou para escutar, e um dos jornaleiros passou perto dele.
"Edio especial! Ultimato de Kruger! Declarao de guerra!" Soames comprou o jornal. L estava o telegrama, nas notcias de ltima hora. O seu primeiro movimento 
foi dizer: "Os Boers esto a suicidar-se." O segundo foi perguntar a si mesmo: "Ainda tenho alguma coisa para vender?" Nesse caso, j perdera a oportunidade, porque 
deveria haver uma grande baixa na Bolsa no dia seguinte. Ele acolheu esse pensamento erguendo a cabea num ar de desafio. O ultimato era uma insolncia. E preferia 
perder dinheiro a aceit-lo. Eles tinham necessidade de uma lio, e receb-la-iam., mas seriam precisos pelo menos trs meses para os castigar. As tropas necessrias 
ainda no estavam l - o Governo atrasava-se sempre! Que o Diabo confundisse aqueles ratos de jornais! Para que alarmar a cidade toda? A notcia recebida de manh, 
ao pequeno-almoo, j seria cedo de mais. E ele pensou no pai com inquietao. Na certa iriam gritar a notcia em Park Lane. Chamou um carro e foi para l.
James e Emily acabavam de subir para o quarto, e, depois de comunicar as notcias a Warmson, Soames preparou-se para os seguir. Mas parou, ante um pensamento sbito, 
e fez esta pergunta:
- Que  que voc pensa disso, Warmson?
O criado suspendeu a escova que passava sobre o chapu de seda de Soames, e, inclinando um pouco o rosto, disse em voz baixa:
- Bem, sir, eles no tm muitas probabilidades, decerto,

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mas eu soube que so muito bons atiradores. E mandei um filho meu para l, nos Innskillings.
- Voc, Warmson? No sabia que era casado.
- No, sir. Nunca falo nisso. Espero que o rapaz volte.
O ligeiro choque que Sames sentira ao descobrir que conhecia to pouco algum que supunha conhecer to bem perdeu-se dentro de outro choque muito maior: a descoberta 
de que a guerra poderia atingir algum pessoalmente. Nascido no ano da guerra da Crimeia, chegara  idade da razo no ano em que terminara o motim da ndia, desde 
ento, as vrias pequenas guerras em que o Imprio Britnico entrara haviam sido inteiramente profissionais - inteiramente  parte da esfera dos Forsyte e de todos 
os que viviam afastados do corpo poltico da nao. Decerto aquela guerra no seria uma excepo. Contudo, o seu esprito preocupou-se logo com a famlia. Dois dos 
Hayman, tinham-lhe dito, estavam num corpo de Yeomanry - e aquele pensamento at ento fora-lhe agradvel, porque h sempre uma certa distino em pertencer aos 
Yeomanry, que usam, ou costumavam usar,, uma farda azul com gales de prata, e montam a cavalo. E Archibald, lembrava-se bem, inscrevera-se certa vez na milcia. 
Fora o pai, Nicholas, que o fizera sair de l com um barulho, alegando que o filho "estava a perder tempo pavoneando-se dentro de uma farda". Recentemente, soubera 
tambm que o filho mais velho de Nicholas filho - Nicholas neto - se inscrevera como voluntrio. "No", pensava Soames subindo lentamente a escada, "no vai haver 
nada disso que estou a recear!"
Parou no umbral da porta do quarto dos pais, indeciso se deveria ou no bater e dizer duas ou trs palavras tranquilizadoras. Abriu a janela do corredor e escutou. 
Ouviu apenas o surdo rumor dos carros em Piccadilly e, pensando que o preo dos imveis baixaria se o nmero dos automveis continuasse a crescer, preparou-se para 
subir ao andar superior, onde o esperava o seu quarto, sempre preparado para o receber. Mas ouviu ento, longnquo ainda, o grito rouco de um jornaleiro. J se aproximava! 
Iria passar diante da casa! Bateu  porta do quarto da me e entrou.
O pai estava sentado na cama, de orelhas em p sob os cabelos brancos, que, graas aos cuidados de Emilly, estavam sempre to bem cortados.

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Parecia muito rseo e extraordinariamente limpo no fundo branco dos lenis e do travesseiro, donde emergiam, vestidas na camisa de dormir, as suas altas e magras 
espduas, semelhantes a montculos pontiagudos. S se moviam nele os olhos: cinzentos e desconfiados sob as plpebras fanadas, iam incessantemente da janela a Emily, 
que, vestida num penteador, passeava atravs do quarto premindo a pra de um vaporizador. Estava cercada por uma nuvenzinha de gua-de-colnia, da qual fracamente 
se impregnava a atmosfera do quarto.
- Tudo vai bem - disse Soames.-No  nenhum incndio. Os Boers declararam a guerra.  s.
Emily parou de vaporizar.
- Oh - disse ela simplesmente, olhando para James. Soames tambm olhou o pai. No recebia a notcia segundo
haviam suposto. Dir-se-ia que se agitava dentro dele um pensamento estranho aos outros dois.
- Hum!-disse o velho em voz surda. - No verei o fim dessa guerra.
- Tolice, James. Antes do Natal j estar tudo acabado.
- Que  que vocs sabem a esse respeito? - tornou James asperamente. - Boa complicao, e chegando a estas horas da noite! - Caiu em silncio, e a mulher e o filho, 
como hipnotizados, esperavam ouvi-lo dizer: "No sei... no posso dizer... Mas sei bem como vai ser isso..." Porm o velho no falou. Os olhos azuis vagueavam pelo 
quarto, e evidentemente no enxergavam nada, depois houve uns movimentos por baixo dos lenis e os joelhos ergueram-se a uma grande altura. - Eles devem mandar 
Roberts para l. Tudo  consequncia dos disparates do Gladstone.
Os outros dois perceberam-lhe qualquer coisa na voz - algo incomum no velho, como uma nota de verdadeira ansiedade. Era como se ele dissesse: "Nunca mais verei o 
pas em paz e segurana. Terei de morrer antes de o saber vitorioso." E, por mais que eles pensassem que era preciso combater o nervosismo de James, sentiam-se tambm 
abalados. Soames aproximou-se da cama e acariciou a mo do pai, que aparecia entre os lenis - mo longa, enrugada, sulcada de grossas veias azuis.
- Lembre-se do que estou a dizer-lhe - insistiu James.

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- Os consolidados vo cair ao par. E, quem sabe, talvez Val se aliste no exrcito.
- Ora, James! Voc fala como se houvesse perigo de verdade.
E, por aquela vez, a voz serena da mulher pareceu confort-lo.
- Bem - murmurou ele -, eu bem disse a vocs todos que isso ia acontecer. No sei,  verdade... ningum me diz nada. Voc dorme aqui, meu filho?
Passara a crise, o velho agora voltaria ao seu grau normal de ansiedade. E, depois de garantir ao pai que dormiria ali, Soames apertou-lhe a mo e subiu ao seu quarto.
Na tarde seguinte, reuniu-se em casa de Timothy o maior grupo que l acorria desde h anos. Em circunstncias nacionais, como aquela, era na verdade quase impossvel 
no ir  Bolsa. No que houvesse perigo, ou antes, porque havia apenas perigo suficiente para sentirem todos a necessidade de trocar, permutar reciprocamente, a 
segurana que no sentiam.
Nicholas chegou bem cedo. Estivera com Soames na noite anterior - e Soames dissera-lhe que a coisa era inevitvel. Aquele Kruger j era um velho caduco - tinha setenta 
e cinco anos incompletos! (Nicholas tinha oitenta e dois.) Que dizia Timothy? Ele tivera um acesso, depois de Majuba. Aqueles Boers eram insaciveis! A morena Francie 
tambm estava l, chegada imediatamente aps ele. Como convinha ao esprito independente de uma filha de Roger, ela era um pouco inclinada  contradio e interveio:
-  palha ao p do fogo, tio Nicholas. Qual  o preo dos Uitlanders?
O preo, com efeito! A expresso era nova e decerto a rapariga aprendera-a com seu irmo George.
A tia Juley considerou que Francie no deveria dizer uma coisa assim. O filho da cara Mrs. Mac Anders, o pequeno Charlie Mac Anders, era um Uitlander, e ningum 
poderia dizer que ele era um mercenrio. A isso Francie respondeu com um dos seus mots, to escandalizantes e to frequentemente repetidos:
- Ora, o pai dele  escocs e a me  uma gata.
A tia Juley cobriu os ouvidos tarde de mais, mas a tia Hester sorriu,

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quanto a Nicholas, mostrou m cara, pois recebia sempre mal as pilhrias de que no era autor.
Marian Tweetyman chegou logo depois, seguida quase imediatamente de Nicholas jnior. E, vendo o filho, Nicholas ergueu-se.
- Tenho de ir - disse ele. - Nick dir-lhes- qual foi o vencedor da corrida.
E retirou-se, depois de fazer esse cumprimento ao filho, que, como um dos luminares da contabilidade e director de uma companhia de seguros, no era mais dedicado 
aos desportos que o pai.
Caro Nicholas! Que corrida seria aquela? Ou seria apenas uma das suas brincadeiras? Era um homem extraordinrio, para a idade que tinha! Quantos doces comeria a 
cara Marian? E onde estavam Giles e Jesse? A tia Juley calculava que o batalho de Yeomanry a que eles pertenciam deveria agora estar ocupado a guardar a costa, 
embora,  claro, os tais Boers no possussem navios. Mas ningum sabe o que os Franceses so capazes de fazer quando apanham uma oportunidade, especialmente depois 
daquele caso de Fachoda, que comovera to terrivelmente Timothy. Basta dizer que durante meses seguidos ele no fez nenhum emprego de capital. O mais terrvel era 
a ingratido dos Boers, depois de tanta coisa que se fizera por amor deles - o Dr. Jameson preso! E Mrs. Mac Anders dizia sempre que ele era um homem encantador. 
E mandarem Sir Alfred Milner falar com eles - um homem to fino! Ela no compreendia o que pretendia essa gente.
Mas nesse instante ocorreu um acontecimento sensacional, um desses acontecimentos to preciosos em casa de Timothy... acontecimentos que nascem s vezes das grandes 
ocasies. A criada anunciou:
- Miss June Forsyte.
A tia Hester e a tia Juley puseram-se imediatamente de p, trmulas, divididas entre o antigo ressentimento, que abafavam, a velha afeio que vinha  tona e o orgulho 
ante a volta do filho prdigo que era June - depois de tantos anos! E como estava bem disposta! No mudara absolutamente! Pouco faltou para que lhe perguntassem: 
"E como vai o seu avozinho?", e esquecessem, naquele momento de vertigem, que fazia j sete anos que o pobre Jolyon estava sepultado.

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June sempre se distinguira, entre os Forsyte, pela sua coragem e pela sua franqueza. Pequena e mida, com o queixo decidido, os olhos ardentes, os cabelos semelhantes 
a lnguas de fogo, sentou-se numa cadeirinha baixa de assento bordado, como se no houvessem passado dez anos depois que ela desaparecera dali, dez anos de viagens, 
de independncia, de devoo aos seus "desvalidos". Esses desvalidos eram ultimamente pintores, gravadores, escultores, de forma que a sua impacincia contra os 
Forsyte, incuravelmente indiferentes a todas as manifestaes de arte, tornara-se vivssima. Na verdade, ela quase deixara de acreditar que a sua famlia existisse, 
e passeou naquele momento um olhar directo em torno de si - carregado de uma impresso de desafio que mergulhou todos numa espcie de mal-estar. Ela no esperara 
encontrar nenhum deles ali, seno "as pobres velhas", e mesmo em relao a estas mal sabia porque viera visit-las - sabia apenas que as recordara, com remorsos, 
como a outros dois "desvalidos" abandonados h muito.
A tia Juley rompeu o silncio.
- Ns estvamos a falar, June, desse terrvel caso dos Boers, Que conduta imprudente tem sido a desse velho Kruger!
- Imprudente! - exclamou June. - Pois eu acho que ele tem toda a razo. Com que direito ns nos envolvemos nos seus negcios? Se ele expulsar todo esse bando de 
Uitlanders, faz muito bem! Eles s queriam enriquecer.
O silncio que acompanha os acontecimentos sensacionais foi rompido por Francie:
- O qu? Voc ento  pr-Boer?
(Indubitavelmente, foi essa a primeira vez em que se empregou tal expresso.)
- E ento porque no os deixamos em paz? - disse June exactamente quando, abrindo a porta, a criada anunciou: "Mr. Soames Forsyte!" Sensao sobre sensao! As saudaes 
foram quase suprimidas pela curiosidade em que estavam todos em ver como se passaria o encontro entre ele e June porque, desconfiava-se, ou antes, era certo, que 
os dois no se tinham encontrado desde o velho e lamentvel caso do noivo de June, Bosinney, com a mulher de Soames. E todos viram

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que eles tocavam a mo um do outro e olhavam-se nos olhos reciprocamente. A tia Juley correu em socorro imediatamente:
- June  to original! Imagine, Soames, que ela no censura os Boers.
- Eles apenas querem a independncia - disse June. - E porque no a tero?
- Porque - disse Soames com o seu sorriso um pouco de vis - tm de acatar a nossa suserania.
- Suserania! - repetiu June, escarninha. - Mas ns no gostaramos da suserania de ningum.
- Eles receberam vantagens em troca disso - retrucou Soames. - Um contrato  um contrato.
- Os contratos nem sempre so justos - quase gritou June. - E quando no o so, devem ser quebrados. Os Boers so muito mais fracos. Ns devemos ser generosos.
Soames fungou, desdenhoso:
- Tudo isso  sentimentalismo.
A tia Hester, para quem a coisa mais vergonhosa do mundo era qualquer espcie de discrdia, comentou com deciso:
- Que tempo maravilhoso est a fazer para esta poca do ano!
Porm June no se deixou desviar:
- No sei porque devemos desdenhar o sentimentalismo.  a coisa melhor que existe.
Lanou em torno de si um olhar de desafio, e a tia Juley teve de intervir de novo:
- Voc tem comprado alguns quadros ultimamente, Soames? Mais uma vez ela fora servida pelo incomparvel instinto que
a fazia procurar sempre o assunto que deve ser evitado. Soames corou. Revelar o nome das suas recentes aquisies era o mesmo que mergulhar de cabea na goela do 
desprezo de June. Porque ele conhecia mais ou menos as predileces da prima pelos "gnios" ainda desconhecidos e o seu desdm pelos "xitos" para cuja vitria ela 
no contribura.
- Um ou dois - murmurou.
Mas o rosto de June tomara uma expresso nova, o Forsyte que havia nela percebia a oportunidade. Porque no compraria Soames alguns quadros de Eric Cobbley,

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- o seu mais recente protegido? E imediatamente abriu o ataque, Soames estava a par do que ele fazia? Era maravilhoso. Eric Cobbley seria a revelao de amanh.
Oh, sim, Soames conhecia-lhe alguns quadros. Na sua opinio, a pintura dele era "berrante" e nunca gozaria do favor do grande pblico.
June ficou toda em fogo e chamas.
- Naturalmente. E isso  a ltima coisa que ele pode desejar. Eu pensava que voc era um connoisseur, e no apenas um comerciante de quadros.
- Mas Soames  na verdade um connoisseur - interveio precipitadamente a tia Juley. - Tem um bom gosto maravilhoso, sabe sempre predizer quem  que vai ter xito.
- Oh -disse June num ar horrorizado, pondo-se de p na cadeira dourada. - Tenho horror a esse modo de avaliar quadros segundo o seu xito. Porque no comprar as 
coisas apenas quando se gosta delas?
- O que quer dizer - interveio Francie -  quando "voc" gosta delas.
E no silncio que se seguiu a isso ouviu-se Nicholas contar que Violet - a sua quarta filha - andava a frequentar aulas de pastel, no sabia se serviria para alguma 
coisa.
- Bem, at  vista, tia -disse June.-Tenho de ir.- Beijou as tias, passeou pela sala novo olhar de desafio e disse ainda:
- At  vista. - E saiu. Uma brisa pareceu sair em companhia
dela, como se todos houvessem soltado um suspiro.
O terceiro acontecimento sensacional produziu-se antes que ningum houvesse tido tempo para falar.
- Mr. James Forsyte.
James entrou, apoiando-se levemente numa bengala, estava envolvido numa pelica, que lhe dava um volume fictcio.
James estava to velho!
Toda a gente se ergueu. Fazia perto de dois anos que ele no aparecia em casa de Timothy.
- Faz calor aqui - disse James.
Soames ajudou-o a tirar a pelica, e no pde deixar de admirar a correco reluzente do seu trajo.

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James sentou-se, todo joelhos, cotovelos, sobrecasaca e longas suas brancas.
- Que quer dizer isto? - indagou o velho. E, embora a pergunta no tivesse nenhum sentido aparente, cada um compreendeu que ele queria falar de June. E os olhos 
deles perscrutaram a fisionomia do filho. - Pensei que devia vir saber as coisas por mim mesmo. Que  que responderam ao Kruger?
Soames tirou do bolso um jornal da tarde e leu o cabealho:

 "Aco imediata do Governo ingls. Proclamao do estado de guerra."

- Ah - disse James com um suspiro -, eu estava com medo de que se assustassem, como o velho Gladstone. Desta vez, vamos acabar com eles.
Todos o olharam espantados. James! Ele que estava sempre agitado, ansioso, inquieto! James, com o seu eterno "Eu bem disse!", e o seu pessimismo, e os seus prudentes 
empregos de capital! Havia algo estranho no espectculo de tanta resoluo no decano dos Forsyte.
- Onde est Timothy? - perguntou James. - Ele devia prestar ateno a esse assunto.
A tia Juley no sabia, Timothy no falara quase nada ao almoo, naquele dia. A tia Hester ergueu-se e saiu da sala e Francie disse com uma certa malcia:
- Os Boers so um bocado duros de roer, tio James.
- Hum! - murmurou James. - Onde  que voc se informa? A mim ningum me diz nada.
Nicholas filho observou com a sua voz tmida que Nick - o seu primognito - estava a fazer regularmente o treino militar.
- Ah! - murmurou James, olhando para o vazio diante de si. Pensava em Val. - Precisa de cuidar da me - disse ele. - No tem tempo para pensar em treino militar, 
com o pai que tem.
Aquelas misteriosas palavras fizeram que todos cassem em silncio, que ele prprio foi o primeiro a romper.
- Que  que June veio fazer aqui? - E deps em todos, sucessivamente, um olhar de suspeita. - O pai dela agora est rico.
Puseram-se todos ento a falar de Jolyon e da ltima vez que o tinham visto. Supunha-se que ia muito ao estrangeiro,

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que se avistava com toda a espcie de gente, agora que a mulher morrera. As suas aguarelas eram expostas por toda a parte e tinham muito xito. Francie chegou mesmo 
a dizer:
- Gostaria de voltar a v-lo. Ele era muito gentil.
A tia Juley lembrou que um dia ele adormecera no sof, naquele mesmo lugar onde James estava sentado. Sempre fora muito amvel.
- Voc no acha, Soames?
Sabendo que Jolyon administrava a herana deixada a Irene, todos compreenderam quanto aquela pergunta era inconveniente e olharam para Soames com interesse.
Soames corou ligeiramente.
- Est a comear a encanecer.
Na verdade? Seria que Soames o vira? Soames fez sinal que sim, e o leve rubor desapareceu. James disse de sbito:
- Bem... eu no sei... no posso dizer nada.
Toda a gente sentiu que havia um mistrio escondido por trs daquilo, e as palavras de James exprimiam com tal perfeio esse sentimento que ningum mais falou. 
Mas nesse momento a tia Hester voltou.
- Timothy - contou ela a meia voz - comprou um mapa e j cravou nele trs bandeiras.
- Ento Timothy... - E houve um suspiro geral de alvio. Se, na verdade, Timothy cravara trs bandeiras no mapa, isso
demonstrava do que seria capaz o pas quando os entusiasmos houvessem fermentado. E era como se a guerra j houvesse sido ganha.

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CAPTULO XIII

JOLYON V CLARO DENTRO DE SI MESMO


No velho quarto que Holly ocupara em criana, transformado hoje em atelier, no por causa da sua orientao para o norte, mas porque tinha vista sobre toda a regio, 
at ao Grand Stand de Epson, Jolyon estava de p, junto a uma janela. Foi depois para a outra, aberta numa parede lateral, que dava para o ptio da cavalaria, e 
assobiou para o co Balthasar, eternamente deitado sob a torre do relgio. O velho co ergueu a cabea e mexeu a cauda. "Pobre cachorro velho", pensou Jolyon, voltando 
 primeira janela.
Mantivera-se inactivo durante toda aquela semana, desde a sua tentativa de descobrir a verdade, pouco  vontade na sua conscincia, que era sempre muito aguda, perturbado 
nos seus sentimentos de compaixo, que eram facilmente excitveis, e com uma profunda sensao de que os seus sonhos a respeito de beleza se haviam encarnado definitivamente.
O Outono apoderara-se do velho carvalho, cujas folhas amarelavam. O sol fora abundante e quente naquele Vero, tanto para a vida das rvores como para a vida dos 
homens. "Eu tambm devo viver muito tempo",, pensava Jolyon. "A ferrugem est a invadir-me por falta de calor. Se no conseguir trabalhar, apanho o comboio para 
Paris." Mas a lembrana de Paris no lhe trouxe nenhum prazer. E, alm disso, como poderia ele ir para l?

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Tinha de ficar e esperar o que Soames pretendia fazer. "Estou encarregado dos interesses dela. No posso deix-la sem proteco", pensava ele. Julgara muito curiosa 
a clareza com que podia relembr-la, l no seu salozinho, onde apenas entrara duas vezes. A beleza de Irene devia posuir uma espcie de harmonia pungente. Um retrato 
literal nunca lhe faria justia, a sua essncia era... sim, que  que era? Ouviu o tropel de um cavalo, que o levou  outra janela.
No seu palafrm de longa cauda, Holly entrava no ptio. Ergueu os olhos e acenou-lhe com a mo. Tinha andado muito silenciosa nestes ltimos tempos, envelhecia, 
sem dvida, e comeava a pensar no futuro, como faziam todos - todos os jovens! Era o diabo, o tempo, na verdade! E, cismando que era uma tolice imperdovel estragar 
um tesouro que se ia embora to depressa, voltou aos pincis. Trabalho perdido, no podia fixar a vista - e, alm disso, a luz comeava a baixar. "Vou  cidade", 
pensou.
Um criado deteve-o no hall:
- Est uma senhora  sua procura, patro. Mrs. Heron. Extraordinria coincidncia! Atravessando a galeria de pintura, como ainda era chamada, viu Irene em p junto 
 janela.
Ela caminhou para ele, dizendo:
- Cometi uma violao de domiclio. Vim atravs do bosquezinho e do jardim. Sempre passava por l quando vinha visitar O tio Jolyon.
- Voc aqui no pode cometer violaes de domiclio, a histria desta casa, torna-lhe qualquer violao impossvel. E eu estava exactamente a pensar em si.
Irene sorriu. E era como se uma luz interior a houvesse iluminado - no a simples espiritualidade, mas algo de mais sereno, de mais completo, de mais sedutor.
- A histria! - murmurou ela. - Certo dia, disse ao tio Jolyon que o amor era eterno. Pois bem, isso  inexacto, s a averso dura.
Jolyon olhou-a, espantado. Acabara ela por esquecer Bosinney?
- Sim - disse ele -, a averso  uma coisa mais profunda que o amor ou o dio, porque  um produto natural dos nossos nervos, e ns no podemos modific-la.

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- Vim contar-lhe que recebi uma visita de Soames. E ele disse-me uma coisa que me assustou: "Voc ainda  minha mulher!"
- O qu! - exclamou Jolyon. - Voc no deve viver s! - E continuou a fix-la com os olhos muito abertos, aflito pelo pensamento de que, em presena da Beleza, ningum 
segue uma via inteiramente correcta, o que faz que tanta gente a considere imoral. - E que mais?
- Pediu que eu lhe apertasse a mo.
- E voc cedeu?
- Sim. Quando ele chegou, tenho a certeza de que no pensava nisso. Mudou de ideia enquanto estava l em casa.
- Ah, voc no deve realmente continuar a viver s!
- No conheo mulher nenhuma a quem possa pedir que viva comigo. E no posso arranjar um amante por encomenda, primo Jolyon.
- Deus a livre! - disse Jolyon. - Mas que situao abominvel! Quer jantar connosco? No? Ento permita que eu a acompanhe at  cidade. Eu pretendia ir l hoje 
 noite.
- Ah, sim?
- Sim. Estarei pronto dentro de cinco minutos.
No caminho para a estao, falaram sobre pintura e sobre msica, comparando as caractersticas de ingleses e franceses e a diferena das atitudes de ambos diante 
da arte. Mas a cor das sebes que bordejavam o longo caminho plano, o pipilar dos tentilhes que os escoltavam, o perfume dos fenos que j comeavam a secar ao sol, 
a linha da nuca de Irene, a fascinao dos seus olhos escuros, a seduo do seu corpo, tudo isso fazia sobre Jolyon uma impresso muito mais profunda que as palavras 
que eles trocavam. Sem ter claramente conscincia disso, ele mantinha-se mais erecto que de costume e caminhava num passo mais elstico.
No comboio, submeteu-a a uma espcie de confisso sobre o emprego que dava ao seu tempo.
Ela costurava os seus vestidos, andava pelas lojas, ia ver os doentes de um hospital, tocava piano, traduzia do francs. Obtinha trabalho regular num editor, o que 
lhe proporcionava um pequeno suplemento de rendimentos. Raramente saa  noite.

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- Veja voc, vivo h tanto tempo s que j nem reparo nisso. Creio que sou naturalmente solitria.
- No acredito nisso absolutamente - disse Jolyon. - D-se com muita gente?
- Muito pouca.
Ao chegarem  estao de Waterloo, entraram num cab e ele acompanhou-a at  porta. No momento de a deixar, apertou-lhe a mo entre as suas e disse:
- Voc poderia muito bem vir de vez em quando ver-nos a Robin Hill.  preciso manter-me ao par de tudo o que acontecer. At  vista, Irene.
- At  vista - respondeu ela em voz doce.
Voltando ao cab, Jolyon perguntava a si mesmo porque no a convidara para jantar e ir ao teatro. Que vida a de Irene, solitria, montona, sem alegrias! "Hotch-Potch 
Club", disse ele ao cocheiro. E quando o cab desembocou no Embankment, viu passar um homem, de casaca e sobretudo, que caminhava em passo rpido, roando tanto pelas 
paredes que parecia estar a coar-se nelas.
- Cos demnios! - exclamou Jolyon. -  Soames. Que diabo estar ele a magicar agora? - Fez parar o carro no canto da rua. desceu e desandou o caminho at poder ver 
a porta da casa. Soames estava parado defronte e erguia os olhos para a janela iluminada de Irene. "Se ele entrar", perguntava a si mesmo Jolyon, "que  que eu fao? 
Que  que eu tenho o direito de fazer?" O que aquele sujeito dissera era verdade. Ela ainda era sua mulher, sem a menor proteco contra as suas importunaes. "Bem, 
se ele entrar, sigo-o." E comeou a aproximar-se da casa. Soames, por seu lado, recomeara a andar. Estava agora exactamente diante da porta. Mas de sbito parou, 
girou sobre os calcanhares e voltou em direco ao Tamisa. "Que ser agora?", perguntou Jolyon. "Mais dez passos, e ele reconhece-me." Deu meia volta. O primo caminhava 
no mesmo passo que ele. Porm Jolyon atingiu o cab e subiu para ele antes que Soames houvesse chegado  esquina. "Ande", disse ele ao cocheiro. A silhueta de Soames 
apareceu perto do carro.
- Cocheiro! - disse ele. - Est livre? Ol!

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- Ol! - respondeu Jolyon. -  voc!
Vendo a suspeita que se desenhava no rosto do primo, branco sob as luzes, Jolyon tomou subitamente uma resoluo.
- Posso lev-lo, se vai para os lados de Piccadilly.
- Obrigado - disse Soames. E subiu.
- Estive de visita a Irene - disse Jolyon depois de o carro se pr a andar.
- Ah, sim!?
- Voc prprio foi visit-la, pelo que ela me disse.
- Sim - respondeu Soames. - Ela  minha mulher, voc sabe-o.
O tom como aquilo foi dito, o ricto mau que o acompanhava, encheram Jolyon de uma sbita clera. Mas dominou-se.
- Voc sabe o que faz, mas, se quer divorciar-se., talvez no seja muito prudente estar a fazer-lhe visitas. No se pode acender uma vela a Deus e outra ao Diabo.
-  muito amvel em prevenir-me - respondeu Soames -. mas ainda no estou inteiramente resolvido.
- Se voc no est, ela est - disse Jolyon, olhando directamente  sua frente. - E ningum pode fazer que as coisas voltem exactamente ao ponto em que estavam h 
doze anos.
- Isso  que ainda est para ver.
- Escute - disse Jolyon. - Ela est numa situao abominvel, e eu sou o nico homem a quem a lei permite dizer uma palavra a respeito dos seus negcios.
- Excepto eu - replicou Soames -. que tambm estou numa posio abominvel. A posio dela. foi ela mesma que a criou. A minha, foi ela que me fez criar. No tenho 
a certeza se no lhe pedirei, no seu prprio interesse, que volte a viver comigo.
- O qu! - exclamou Jolyon. E um arrepio percorreu-o todo.
- No sei o que voc quer significar por esse "O qu!" -respondeu friamente Soames. - Tudo o que tem a fazer a respeito dos negcios dela limita-se a pagar-lhe os 
rendimentos, lembre-se disso. Recusando-me a desonr-la por um divrcio, conservei os meus direitos, e, como j o disse, no tenho a certeza se no deverei exerc-los.

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- Meu Deus! - exclamou jolyon. soltando um pequeno riso breve.
- Sim - disse Soames. E a voz tinha uma tonalidade implacvel. - No esqueci o apelido que seu pai me deu: "O proprietrio". No   toa que me do apelidos.
"Isto  fantstico", murmurou consigo Jolyon. "Bem, mas ele no poder obrigar a mulher a viver em sua companhia. De qualquer forma, esse tempo j passou." E voltou 
a cabea para olhar Soames, perguntando a si mesmo: "Este homem ser um ente real?- Contudo, Soames parecia muito real, firme no assento, quase elegante, com o bigode 
aparado, o rosto plido, os dentes ligeiramente descobertos por um meio sorriso imvel. Houve um longo silncio, durante o qual Jolyon pensou: "Em vez de a auxiliar, 
s lhe agravei a situao."
Soames falou de sbito.
- Ser a melhor coisa que lhe poder acontecer, sob muitos aspectos.
Quando ouviu aquilo, fez-se um tal tumulto dentro de Jolyon que ele dificilmente pde manter-se imvel no assento do carro. Era como se se sentisse enclausurado 
em companhia de centenas de milhares dos seus conterrneos, enclausurado em companhia daquele aspecto do carcter nacional que sempre o revoltara - uma coisa que 
sabia natural e que entretanto lhe parecia inexplicvel -, a intensa crena daquela gente nos contratos e nos direitos orgnicos, o prazer que sentiam ao afirmarem 
que obravam virtuosamente insistindo sobre esses direitos. Ao seu lado, no cab, tinha a encarnao, a smula corporal, por assim dizer, do instinto da propriedade 
- e do seu prprio sangue, ainda por cima! Era inaudito e intolervel! "Mas no h s isso", pensou ele, com um sentimento de nojo. "Dizem que o co volta ao seu 
vmito." E, revendo-a, ele sentiu qualquer coisa despertar dentro de si. "A beleza! O Diabo vive nela!"
- Pois como lhe disse - continuou Soames -, ainda no estou decidido. E ficar-lhe-ei muito grato se voc no a procurar, nem se envolver nos assuntos dela.
Jolyon mordeu os lbios. Sempre detestara incidentes, mas dessa vez acolheu quase com prazer a ideia de provocar um.

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- No posso prometer-lhe nada - respondeu secamente.
- Muito bem - retorquiu Soames. - Ento ambos sabemos a quantas andamos. Eh, vou descer aqui. - Fez parar o cab e desceu sem uma palavra nem um gesto de adeus. Jolyon 
continuou at ao seu clube.
Gritavam na rua as primeiras notcias da guerra, mas ele no lhes deu ateno. Que poderia fazer para auxiliar Irene? Se ao menos o pai ainda estivesse neste mundo! 
O velho poderia fazer Tanta coisa! Mas porque no faria ele prprio tudo de que seu pai fosse capaz? J no tinha idade bastante? Passara dos cinquenta anos, casara 
duas vezes, tinha duas filhas adultas e um filho. " curioso", pensou ele. "Se Irene no fosse to bonita, eu no teria a menor hesitao. A beleza  uma coisa infernal 
quando lhe somos sensveis!"
Penetrou no salo de leitura do clube presa de uma grande agitao interior. Naquela mesma sala, numa tarde de Vero, ele mantivera uma conversa com Bosinney. Lembrava-se 
muito bem, ainda hoje, da lio disfarada e secreta que dera ao rapaz, no interesse de June - o diagnstico que ele se arriscara a fazer dos Forsyte -. e perguntara 
a si mesmo que espcie de mulher seria aquela contra a qual prevenia o outro. E agora quase precisava de uma advertncia para si prprio. "Diabolicamente cmico", 
pensou, "diabolicamente cmico!"

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CAPTULO XIV

SOAMES DESCOBRE O QUE QUER


 muito mais fcil dizer "Agora sabemos a quantas andamos" do que dar a essas palavras uma significao precisa. Pronunciando-as, Soames no fizera mais que dar 
livre curso  ciumenta violncia dos seus instintos. Descera do cab num estado de circunspecta irritao - contra si prprio por no ter ido ver Irene, contra Jolyon 
por a ter visto e, agora, contra a sua incapacidade de definir exactamente o que queria.
Abandonara o cab porque j no suportava estar sentado ao lado do primo, e, andando rapidamente em direco do leste, pensava: "No confiarei absolutamente nada 
nesse camarada Jolyon. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento! Um sujeito desses tem uma simpatia natural por... por... relaxamento." Ele hesitara ante a palavra 
"pecado", melodramtica de mais para ser empregada por um Forsyte.
A hesitao ante vrios desejos era um sentimento novo para Soames. Sentia-se como uma criana dividida entre dois brinquedos: um que lhe haviam prometido, outro 
que lhe haviam tirado e estranhava-se a si mesmo. Ainda no domingo anterior os seus desejos lhe haviam parecido to simples - a liberdade e Annette.. e nada mais. 
"Vou jantar l", resolveu. Talvez o facto de a ver lhe devolvesse a sua unidade de inteno, lhe acalmasse a exasperao e lhe refizesse a claridade no esprito.

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O restaurante estava quase cheio de um grande nmero de estrangeiros e de pessoas que, a julgar pelo aspecto, Soames tomou como literatos ou artistas. Retalhos de 
conversa chegavam-lhe aos ouvidos, atravs do rumor dos pratos e dos copos. Ouviu claramente exprimirem simpatia pelos Boers e censurarem o Governo ingls. "A clientela 
delas no  grande coisa", pensou. Acabou resolutamente o jantar e o caf especial sem revelar a sua presena, e quando finalmente terminou cuidou bem em que no 
o vissem dirigir-se ao santurio de Madame Lamotte. Segundo esperava, elas estavam a cear - uma ceia to mais convidativa que o jantar que acabava de comer que lhe 
deu uma espcie de mgoa - e a surpresa com que o acolheram parecia to real que lhe acudiu uma brusca suspeita: "Estou certo de que elas j sabiam muito bem da 
minha presena desde que cheguei." Atirou a Annette um olhar furtivo e perscrutador. To linda, to cndida na aparncia, seria possvel que estivesse a tentar pesc-lo? 
Voltou-se para Madame Lamotte e disse:
- Acabo de jantar aqui.
Realmente! Se ela o houvesse visto! Havia pratos que poderiam recomendar-lhe. Que pena! As suspeitas de Soames confirmaram-se, e ele imediatamente ficou alerta. 
"Preciso de prestar ateno ao que fao", considerou.
- Quer mais uma xcara de caf especial, monsieur, ou um licor, um Grand Marnier? - E Madame Lamotte ergueu-se para encomendar as bebidas escolhidas.
S com Annette, Soames perguntou, com um sorriso defensivo nos lbios:
- E ento, Annette?
A rapariga corou. No domingo precedente aquilo ter-lhe-ia agitado os nervos, hoje, dava-lhe mais ou menos a impresso que sentimos quando recebemos as festas de 
um co que nos pertence. Soames sentia uma curiosa sensao de poder, como se compreendesse que poderia dizer  francesinha: "Venha beijar-me!", e ela teria de vir. 
Entretanto - era estranho - parecia haver na sala outro rosto a mais, uma outra forma humana, e o ardor que sentia nos nervos era por aquele outro vulto ou por este? 
Fez um movimento de cabea em direco do restaurante e disse:

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- Vocs tm uns sujeitos esquisitos entre os seus clientes. Gosta desta vida, Annette?
Annette ergueu para ele os olhos durante um instante, baixou-os e brincou com o garfo.
- No. no gosto.
"Ela  minha", pensou Soames, "se eu a quiser. Mas ser que a quero?" Ela era graciosa, era bonita - muito bonita. Era fresca e tinha um certo bom gosto. Os olhos 
dele percorreram a sala. mas em esprito viu outra coisa: uma meia luz, paredes prateadas, um piano de pau-cetim, e junto desse piano uma mulher em p, com o corpo 
inclinado para trs, como se rdeas invisveis o afastassem dele - uma mulher que tinha ombros brancos que ele conhecia bem, que tinha olhos escuros que ele procurara 
conhecer. cabelos semelhantes ao mbar moreno. E como um artista que se esfora em busca do irrealizvel e se sente sempre alterado, a sede acendeu-se de novo em 
Soames naquele momento - sede da velha paixo que nunca satisfizera.
- Bem, voc  jovem - disse em tom calmo. - Tem toda a vida diante de si.
Annette abanou a cabea.
- s vezes penso que s tenho trabalho diante de mim. E no gosto do trabalho como a mam gosta.
- A sua me  maravilhosa - disse Soames com um leve tom de zombaria. - Nunca permitir que a m sorte se instale em casa dela.
Annette suspirou:
- Deve ser maravilhoso ser rico.
- Oh, voc ser rica um dia - respondeu ele com o mesmo tom zombeteiro. - No receie nada.
Annette ergueu os ombros.
- Monsieur  muito amvel. - E por entre os lbios, que faziam um leve trejeito, fez deslizar um chocolate.
"Sim, querida"., pensava Soames. "So muito bonitos, realmente, os seus lbios."
Madame Lamotte, com o caf e o licor, ps fim ao dilogo. e Soames no se demorou muito mais tempo.
Nas ruas do bairro de Soho,

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cujos imveis lhe davam a impresso de no pertencerem aos seus legtimos proprietrios, ele entregou-se s suas cismas. Se ao menos Irene lhe houvesse dado um filho, 
no seria obrigado a viver arrastando-se eternamente atrs das saias das mulheres. Esse pensamento irrompeu da pequena guarida que lhe ocupava no subconsciente. 
Um filho, uma finalidade para a vida, um ente que daria sentido ao resto da sua existncia, um ser a quem poderia legar, uma continuao de si prprio. "Se eu tivesse 
um filho", pensava ele com amargura, "um filho legtimo, poderia arranjar-me para continuar como no passado. Afinal de contas, as mulheres so todas iguais.)- Mas 
abanou a cabea, prosseguindo o caminho. No! As mulheres no eram todas iguais! Tentara persuadir-se disso outrora. no tempo das decepes da sua vida conjugal, 
mas nunca o conseguira, E no o conseguiria melhor agora. Tentou convencer-se de que Annette era igual  outra. Contudo, ela no o era, no tinha o fascnio da velha 
paixo. "E Irene  minha mulher", pensava ele, "minha mulher legtima. No fiz nada para a afastar de mim. Porque no volta ela para casa?  o melhor, o mais conforme 
com a lei. Evita todo o escndalo, toda a perturbao. Ser-lhe-ia desagradvel - mas porque seria impossvel? No sou um leproso, e ela j no est apaixonada por 
outro." Porque aceitar a imposio dos expedientes, dos srdidos oprbrios e inesperadas derrotas da Corte de Divrcios, quando Irene, igual a uma casa desabitada, 
esperava apenas que o seu legtimo proprietrio voltasse a assumir o seu usufruto e posse? Para um homem de temperamento to secreto como Soames, havia algo de poderosamente 
sedutor no pensamento de que regressaria tranquilamente  posse da sua propriedade sem que nenhuma revelao fosse feita ao mundo. "No", pensava ele. "Fico satisfeito 
por ter ido ver aquela menina. Agora j sei o que desejo mais. Se Irene consentir em voltar, terei por ela todas as consideraes imaginveis. Ela poder viver a 
sua prpria vida, e talvez - talvez se reconcilie comigo."
Qualquer coisa se lhe revolveu na garganta. E num passo resoluto, ao longo das grades de Green Park, prosseguiu o caminho em direco  casa do pai, tentando pr 
o p sobre uma sombra que o precedia no claro do luar.

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SEGUNDA PARTE

CAPTULO I

A TERCEIRA GERAO


Num meio-dia de Novembro, Jolly Forsyte descia lentamente a High Street, em Oxford, e Val Dartie subia a mesma rua, lentamente tambm. Jolly acabava de mudar por 
um fato comum a roupa de flanela usada para o remo e caminhava em direco do Frying-Pan, clube para o qual acabava de ser eleito. Val trocara o trajo de montar 
e ia para um local muitssimo mais excitante: a loja de um bookmaker em Cornmarket.
- Ol! - disse Jolly.
- Ol! - respondeu Val.
Os primos s se haviam encontrado duas vezes: Jolly, estudante do segundo ano, convidara o novato para jantar e no dia seguinte haviam-se avistado de novo em circunstncias 
mais ou menos exticas.
Por cima de uma oficina de alfaiate, em Cornmarket, morava um desses jovens indivduos a quem chamam "menores", cujos pais j morreram, cuja herana  importante, 
cujo tutor mora longe e cujos instintos so imorais. Com dezanove anos, comeara uma dessas carreiras atraentes e de todo inexplicveis para o comum dos mortais.
J famoso por ser possuidor da nica roleta existente em Oxford, ia antecipando o que dele se esperava com vertiginosa velocidade. Derrubara at mesmo Crum do seu 
trono,

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embora fosse de tipo sanguneo e gorducho, inteiramente carecido da langorosa fascinao do outro.
Val considerara uma espcie de baptismo ser levado  casa dele para jogar roleta e como uma espcie de confirmao entrar no seu prprio colgio pela janela, depois 
da hora de as portas serem fechadas. Certo momento, durante aquela noitada mgica, afastara o olhar do pano verde defronte de si e percebera o primo atravs de uma 
nuvem de fumo, em p do outro lado da mesa. "Rouge gagne, impelir, et manque!" No voltara a v-lo.
- Venha tomar ch comigo - convidou agora Jolly. E ambos tomaram o mesmo caminho.
Um estranho, vendo-os juntos, notaria uma intangvel semelhana entre aqueles dois primos em segundo grau, pertencentes  terceira gerao dos Forsyte, o mesmo arcabouo 
sseo do rosto, embora os olhos de Jolly fossem de um cinzento mais escuro e os cabelos mais louros e mais ondulados.
- Ch e buns (1) amanteigados, por favor, rapaz - pediu Jolly.
- Quer um cigarro? - perguntou Val, - Vi-o ontem  noite. Quanto fez?
- No joguei.
-Pois eu ganhei quinze libras.
Jolly teve vontade de repetir uma pilhria do pai a propsito de jogo: "Quando a gente  depenado, enoja-se, e quando depena os outros, tem d", mas contentou-se 
em dizer:
- Acho aquilo um jogo srdido. J estive na mesma classe com aquele sujeito:  um cretino.
- Oh, no sei - disse Val, num tom de quem defende um deus atacado pela maledicncia.-Ele  bom sportman.
E os dois trocaram em silncio o fumo dos cigarros.
- Creio que voc conhece a minha famlia - disse Jolly. - Vai chegar aqui amanh.
Val corou um pouco.
- Deveras! Posso dar-lhe um bom palpite para o handicap de Manchester, em Novembro.

*1. Buns - bolinhos de passas e queijo. (N. da T.)

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- Obrigado, mas eu s me interesso pelas corridas clssicas.
- Mas essas no rendem nada - observou Val.
- Eu detesto o ring - disse Jolly. -  uma barulhada excessiva. Prefiro o paddock.
- Eu gosto de apostar para apoiar as minhas opinies - respondeu Val.
Jolly sorriu. O seu sorriso parecia-se com o do pai.
- Eu no tenho opinies. Perco sempre, quando jogo.
- A gente tem de comprar a experincia,  claro.
- Sim, mas estraga-se tudo com a preocupao de no se deixar embaraar pelos outros.
- Naturalmente, sem isso, so eles que nos devoram, e  por isso que  interessante.
Jolly teve um arzinho de desprezo.
- Que  que voc faz do seu tempo? Rema?
- No, monto a cavalo e conduzo automvel. Jogarei plo no prximo trimestre, se conseguir que o meu av solte o dinheiro.
- O seu av  o velho tio James? Como  ele?
- Mais velho que o mundo - explicou Val. - E vive a pensar que vai ficar arruinado.
- Creio que o meu av era irmo dele.
-No acredito que tenha havido nenhuma grande figura entre todos esses velhos - disse Val. - Parece que todos adoravam o dinheiro.
- O meu av no era assim! - contradisse Jolly ardorosamente.
Val sacudiu a cinza do cigarro.
- O dinheiro s serve para gastar, eu gostaria bem de ter o dobro do que tenho.
Jolly fitou no outro aquele olhar de desaprovao, directo e ascendente, que herdara do velho Jolyon: dinheiro era uma coisa de que no se devia falar! E houve um 
novo silncio, enquanto eles bebiam o ch e comiam os buns.
- Onde vai hospedar-se a sua famlia? - perguntou Val com uma indiferena estudada.
- No Rainbow. Que  que voc pensa da guerra?

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- Srdida, at agora. Os Boers no tm linha. Porque no lutam eles em campo aberto?
- Porque o fariam? Tm tudo contra eles, excepto o modo de lutar. Pois eu admiro-os.
- So bons cavaleiros e bons atiradores - admitiu Val. - Mas so uns sarnentos. Voc conhece Crum?
- Crum, de Meryton? S conheo de vista.  da turma dos desordeiros, no ?
Val falou sem mover os olhos:
-  um dos meus amigos.
- Oh, sinto muito! - E ambos ficaram contrafeitos, olhando o vazio em frente, depois de haverem ofendido reciprocamente as susceptibilidades um do outro. Jolly estava 
inconscientemente a aliar-se a um grupo cuja palavra de ordem era a seguinte: "Desafiamos vocs a abrirem luta connosco. S temos  frente a metade da vida, e cada 
vez falaremos mais rpido e mais azedos, faremos mais e saberemos mais, e gastaremos em cada assunto muito menos tempo do que vocs poderiam sonhar. Ns somos a 
nata - feitos de ferro e do couro cru com que se fazem chicotes." E Val, inconscientemente tambm, arregimentava-se noutro grupo, cuja palavra de ordem rezava assim: 
"Desafiamos vocs a interessar-nos ou excitar-nos. Ns j experimentmos todas as sensaes, ou fingimos que as experimentmos. Estamos to exaustos pela vida que 
o tempo  de mais para ns. Saberemos perder at a camisa com indiferena. Queremos viver devagar e chegar atrasados a tudo. Tudo  fumo." O esprito de competio 
que est na massa do sangue dos Ingleses obrigava esses dois jovens Forsyte a terem ideias e nos seus programas pelo menos uma centena de ideias estavam misturadas. 
Os aristocratas j haviam adoptado na maioria uma espcie de messianismo como princpio. Uma vez por outra, entretanto, um honourable como Crum demorava-se languidamente 
pelo Nirvana dos jogadores que fora o summum bonum dos velhos dandies e dos seus substitutos, os maskers (1) da dcada dos 1380. E em torno de Crum agrupavam-se 
ainda as ltimas esperanas de alguns fidalgotes com uma plutocrtica entourage.

*1. Maskers - casquilhos, janotas. (N. da T.)

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Alm disso, havia entre os dois primos uma antipatia que se originava naquele impalpvel ar de famlia que talvez despertasse ressentimentos no corao de um e do 
outro ou fora produzida por uma preveno despertada neles por palavras estranhas ou meias aluses expressas pelos mais velhos, oriundas da velha animosidade que 
persistia entre os respectivos ramos do cl. E Jolly pensava, batendo com a colherinha na mesa: "Olha o alfinete de gravata dele, o colete, o sotaque arrastado, 
as apostas nas corridas! Valha-me Deus!" E Val pensava, acabando o doce: " um cretino!"
- Creio que voc ir esperar a sua famlia  estao - disse ele, erguendo-se. - Quer dizer-lhes da minha parte que terei muito prazer em acompanh-los a um passeio. 
No que haja grande coisa a ver... mas se os interessar...
- Obrigado. Darei o seu recado
- Eles aceitaro um almoo? Tenho um "escravo" muito alinhado. - Jolly no sabia se teriam tempo. - De qualquer forma, quer fazer o favor de perguntar?
- Voc  muito amvel - respondeu Jolly, absolutamente resolvido a no consentir que aceitassem, mas, com uma polidez instintiva, acrescentou: - O melhor que voc 
faz  vir jantar connosco amanh.
- Muito obrigado. A que horas?
- Sete e meia.
- Trajo de noite?
- No.
E os primos separaram-se com um subtil antagonismo no corao.
Holly e o pai chegaram no comboio da tarde. Era a primeira visita de Holly  cidade das flechas e dos sonhos, e ela estava muito silenciosa, olhando quase timidamente 
o irmo que fazia parte de to maravilhosa cidade. Depois do almoo, ficou a vaguear pela casa, examinando as instalaes com viva curiosidade. A sala de estar de 
Jolly era apainelada, e a arte fazia-se representar ali por uma srie de Bartolozzi que haviam pertencido ao velho Jolyon e por fotografias de colegas - rapazes 
vivos, um pouco hericos, que poderiam ser comparados  lembrana que ela guardava de Val.

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Jolyon tambm perscrutou com cuidado aquela prova do carcter e dos gostos do filho.
Jolly fazia questo de que eles o vissem remar, e puseram-se os trs a caminho do rio. Entre o pai e o irmo, Holly sentia-se em xtase cada vez que uma cabea se 
voltava e um par de olhos pousava nela. A fim de poderem ver melhor o remador, deixaram Jolly no ponto e, atravessando o rio, atingiram a vereda que o ladeava. 
Quase franzino - porque os nicos corpulentos, entre os Forsyte, eram o velho Swithin e George-, Jolly remava na segunda posio, num barco de oito remadores. Mostrava-se 
cheio de ardor e de energia. Jolyon considerou com orgulho que ele era o mais simptico de todo o grupo, Holly, como era natural da parte de uma irm, ficou mais 
impressionada por um ou dois outros, mas no o confessaria por nada no mundo. O rio estava muito bonito naquela tarde, com a relva das margens muito macia e as rvores 
ainda exibindo cores soberbas. Reinava em torno da velha cidade uma paz fidalga, e Jolyon prometeu a si mesmo passar o dia a desenhar se o tempo se mantivesse bom. 
O barco passou por eles uma segunda vez, ao longo dos pontes, a toda a velocidade, para regressar ao ponto de partida - as feies de Jolly estavam tensas, para 
esconder que vinha estafado. Pai e filha tornaram a atravessar o rio  espera dele.
- Olhe - disse Jolly, quando voltavam pelas campinas de Christ Church. - Tenho de convidar Val Dartie para jantar connosco hoje. Ele queria oferecer-lhes um almoo 
e convid-los para um passeio, mas eu pensei que seria melhor convid-lo eu. Assim, vocs no tero de visit-lo. No gosto muito dele.
As faces morenas de Holly tingiram-se de rosa.
- Porqu? - perguntou.
- Oh, no sei. No tem linha nos trajos e no parece grande coisa. Como so os pais dele, pap? Ns s somos primos em segundo grau, no ?
Jolyon refugiou-se num sorriso.
- Pergunte a Holly. Ela viu o tio dele.
- Val agradou-me - disse Holly, com os olhos fixos no cho, diante de si - O tio dele pareceu-me... diferente. - E por sob os clios lanou a Jolly um olhar furtivo.

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- Meus filhos - disse Jolyon com uma absurda determinao-, vocs j ouviram alguma vez a histria da nossa famlia? Parece um conto de fadas. O primeiro Jolyon 
Forsyte... pelo menos o primeiro de quem sabemos qualquer coisa e que seria o vosso tretav, morava no condado de Dorset,  beira-mar, e era de profisso um agricultor, 
como diz a sua tia, filho de agricultores... camponeses-lavradores, na verdade. O seu av costumava chamar-lhes "cervejinhas".- Olhou para Jolly, para ver como a 
fidalguia do rapaz suportava essas revelaes, e com o outro olho espiou o prazer malicioso que provocou em Holly a ligeira decepo que se lia no rosto do irmo. 
- Devemos imaginar que ele era atarracado e slido, um verdadeiro representante da Inglaterra de antes do comeo da Era Industrial. O segundo Jolyon Forsyte, seu 
bisav, Jolly, mais conhecido pelo nome de "Superior Dosset" Forsyte, foi construtor de casas, segundo reza a crnica, teve dez filhos e emigrou para Londres. Sabe-se 
que ele gostava de beber sherry. Devemos supor que representava a Inglaterra das guerras napolenicas e do mal-estar geral. O seu primognito foi o terceiro Forsyte 
que usou o nome de Jolyon, seu av, negociante de ch e presidente de vrias companhias, um dos ingleses mais slidos que j existiram, e, para mim, o mais querido 
de todos. - A voz de Jolyon perdeu o seu tom irnico e a filha e o filho fitaram-no com olhos graves. - Ele era justo e tenaz e tinha o corao afectuoso e jovem. 
Vocs ainda devem lembrar-se dele. Passemos aos outros! O seu tio-av James, av de Val, teve um filho, chamado Soames, de quem se conta uma histria de amor infeliz, 
que eu no pretendo contar a vocs. A respeito de James e dos outros oito filhos do "Superior Dosset", dos quais cinco ainda esto vivos, pode-se dizer que eles 
representam a Inglaterra vitoriana, com os seus princpios de individualismo e de negcios a cinco por cento de juros sobre o capital, caso vocs saibam o que isso 
significa. De qualquer forma, no decorrer das suas longas existncias, eles transformaram trinta mil libras num bom milho, dividido entre todos. Nunca fizeram nada 
de extravagante, salvo o tio Swithin, que uma vez se fez depenar jogando com trapaceiros e tinha o apelido de "Forsyte-Quatro-Cavalos" porque costumava guiar um 
carro de dois cavalos.

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O tempo deles passou, bem como o tipo que representavam, o que no  talvez um benefcio para o pas. Eles eram terra-a-terra, mas eram firmes. Eu sou o quarto Jolyon 
Forsyte... um mesquinho titular do nome...
- No, pap - contestou Jolly, enquanto Holly lhe apertava a mo.
- Sim - repetiu Jolyon -, um pobre espcime, representante, receio-o bem, do fim do sculo, dos rendimentos que nos chegam sem esforo, do amadorismo, da liberdade 
individual, que no  a mesma coisa, Jolly, que o individualismo. Voc  o quinto Jolyon Forsyte, meu velho, e est a abrir o baile do novo sculo.
Enquanto ele falava, atravessaram os portes do colgio, e Holly disse:
-  fascinante, pap.
Nenhum compreendeu inteiramente o que ela queria dizer. Jolly mostrava-se grave.
O Rainbow, que se distinguia, como todos os hotis de Oxford, pela sua falta de modernismo, oferecia  clientela um pequeno salo particular, apainelado de carvalho. 
E Holly estava l, vestida de branco, tmida e solitria, pronta para receber, quando chegou o seu nico conviva.
Val tocou-lhe a mo com o gesto de quem toca uma borboleta. Ela no aceitaria aquela "florinha murcha"? Ficaria muito bem nos seus cabelos. E estendeu-lhe uma gardnia 
que tirou da botoeira.
- Oh, no, obrigada, no posso... - Mas recebeu a flor e enfiou-a no corpete, porque se lembrara de sbito daquelas palavras "falta de linha nos trajos". A botoeira 
de Val chocaria, e ela desejava tanto que Jolly o estimasse! Seria que ela compreendia que Val nunca aparecia sob to bom aspecto, to moderado, como na sua presena? 
E estaria nisso talvez a metade do segredo da atraco que ele tinha sobre ela? - Nunca disse nada a respeito do nosso passeio, Val.
- Exactamente!  uma coisa s entre ns.
Ele no sabia o que fazer das mos, no deixava os ps tranquilos, e dava a Holly, por isso mesmo, uma deliciosa sensao de poder sobre ele.

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sensao impregnada de ternura, do desejo de o tornar feliz.
- Fale-me de Oxford. Parece-me que  adorvel.
Val reconheceu que realmente era agradvel uma pessoa fazer tudo o que queria. Os cursos no tinham importncia e tinha ali muito bons camaradas.
- Apenas - acrescentou ele - eu gostaria de estar em Londres, naturalmente, e poder visit-la. - A mo de Holly, posta sobre o joelho, fez um pequeno movimento tmido, 
e os seus olhos baixaram-se. - Voc no esqueceu - continuou ele, reunindo toda a sua coragem - que ns dois iremos percorrer o mundo juntos?
Holly sorriu.
- Oh, aquilo era brincadeira. Voc sabe muito bem que a gente no pode fazer essas coisas, depois de crescer.
- Porque no? Os primos podem - disse Val. - Nas prximas frias grandes, que comeam em Junho, voc sabe, e nunca acabam, ns vamos procurar uma oportunidade.
Porm, embora o arrepio da conspirao lhe corresse as veias, Holly abanou a cabea.
- No pode ser - murmurou ela.
- No? - perguntou Val com fervor. - E quem o impedir? No ser seu pai, nem seu irmo?
Nesse momento, Jolyon e Jolly entraram. E o romance refugiou-se nos sapatos de verniz de Val e nos sapatinhos de cetim de Holly, transmitindo-lhes comiches e frmitos 
durante todo o sero, onde a cordialidade e a espontaneidade brilharam pela ausncia.
Com a sua natureza sensvel  atmosfera, Jolyon teve rapidamente conscincia da hostilidade latente entre os dois primos, e Holly no se deixou decifrar, de forma 
que ele refugiou-se inconscientemente na ironia, que  fatal  expansividade dos jovens. Uma carta que lhe trouxeram depois do jantar mergulhou-o num silncio que 
s se quebrou quase no momento em que Jolly e Val se ergueram para as despedidas. Ele saiu com os rapazes, com um cigarro na boca, e acompanhou o filho at  grade 
de Christ Church.

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Depois de o deixar l, tirou a carta do bolso e releu-a sob um poste de iluminao:

Meu caro Jolyon,

Soames voltou esta noite - no dia dos meus trinta e sete anos. Voc tinha razo, no devo mais ficar aqui. Mudar-me-ei esta noite para o Tiedmont Hotel, mas no 
irei para fora antes de lhe falar. Sinto-me muito s e desanimada.

Afectuosamente,

Irene

Ele dobrou a carta e voltou a p-la no bolso, retomando o caminho, espantado da violncia dos seus sentimentos. Que teria Soames dito ou feito?
Dobrou High Street, em direco ao Turf, atravs de uma massa de flechas e torres, de longas paredes e fachadas de colgios, brilhantes ou sombreadas contra o luar 
muito claro. Naquele verdadeiro corao da Inglaterra, era-lhe difcil aceitar o facto de uma mulher isolada poder ser importunada ou ofendida - mas que outra coisa 
significaria aquela carta? Soames, na certa, devia estar a exigir-lhe que voltasse para a sua companhia, tendo ao seu lado o apoio da lei e da opinio pblica! "Mil 
oitocentos e noventa e nove", pensou ele, olhando os cacos de vidro no alto do muro do jardim de uma vila, "mas quando se trata de propriedade, somos ainda um povo 
de pagos! Irei a Londres amanh de manh. Nem sei se ser melhor para ela ir para o estrangeiro." E, alm disso, esse pensamento desagradava-lhe. Com que direito 
Soames a enxotava da Inglaterra? E, mais ainda, poderia segui-la, e naquelas terras longnquas ela estaria ainda mais indefesa ante as atenes do seu prprio marido. 
"Preciso tomar cuidado", cismava Jolyon. "Esse sujeito pode tornar-se muito desagradvel. Outro dia, no cab, ele assumiu um tom que no me agradou." Os seus pensamentos 
voltaram-se ento para a filha, para June. Seria que ela poderia ajud-lo? Irene fora outrora a sua melhor amiga, e agora era uma desvalida" capaz de despertar o
interesse de June. Resolveu telegrafar  filha para que o viesse esperar  estao de Paddington.
Desandando o caminho, a fim de voltar ao Rainbow, interrogava-se a si mesmo, para saber o que sentia. Ficaria no estado em que estava por qualquer outra mulher em 
situao idntica? No, absolutamente. A candura daquela concluso desorientou-o, e, vendo que Holly j se recolhera, subiu para o seu quarto. Mas no pde dormir, 
e ficou muito tempo sentado  janela, enfiado no sobretudo, contemplando o brilho do luar sobre os telhados.
No quarto vizinho, Holly tambm estava desperta e recordava os clios que franjavam os olhos de Val - sobretudo os clios inferiores. E cismava no que poderia fazer 
para que Jolly o estimasse mais. O perfume da gardnia enchia o quarto pequenino e era-lhe agradvel.
E Val, debruado  sua janela do primeiro andar, olhava para o ptio clareado pelo luar, mas sem o ver, via, em vez disso, Holly, frgil no vestido branco, tal como 
a vira  chegada, sentada junto ao fogo.
Porm Jolly, no seu quarto estreito como um fantasma, estava deitado, com a face sobre a mo, e sonhava que estava no mesmo barco que Val e disputava uma corrida 
com ele, enquanto o pai lhe gritava, da vereda ao longo do rio: "Ol, nmero dois! Tire as mos da, coa breca!"

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CAPTULO II

SOAMES FAZ UMA EXPERINCIA


Entre todas as radiantes firmas que embrasonam com as suas janelas o West End de Londres, Gaves & Cortegal eram considerados por Soames como "a mais atraente" - 
palavra que ento comeava a estar em moda. Ele nunca tivera o gosto do seu tio Swithin em matria de pedras preciosas, e quando, em 1887, Irene abandonara o lar 
e todas as jias que ele lhe dera, desgostara-se inteiramente dessa forma de emprego de capital. Porm ainda era capaz de conhecer um diamante, quando via algum, 
e durante a semana que precedeu o aniversrio de Irene, no seu caminho de ida e volta para o Poultry, demorava-se um pouco ante as montras das lojas dos grandes 
joalheiros, onde, se a gente no recebe o equivalente exacto do seu dinheiro, pelo menos sai de posse de um artigo que tem um cachet especial.
Depois do seu passeio de cab em companhia de Jolyon, cogitaes constantes tinham-no convencido cada vez mais da suprema importncia daquele momento de sua vida 
e da suprema necessidade em que estava de tomar uma deciso, uma boa deciso.
E ao lado da convico fria e raciocinada de que devia, agora ou nunca, garantir o seu bem-estar, instalar-se e fundar uma famlia, havia tambm a secreta solicitao 
dos seus sentidos, despertados pela presena daquela que fora outrora uma pessoa apaixonadamente desejada

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e o sentimento de que pecaria contra o senso comum e a decente prudncia dos Forsyte renunciando a uma mulher que j era sua.
Ele consultara, a respeito do caso de Winifred, a opinio de Dreamer, Q. C. - teria preferido Waterbruck, porm este havia sido nomeado juiz, e de modo to tardio 
que dera azo aos habituais boatos de manobra poltica-, e Dreamer aconselhara- lhe uma medida cuja oportunidade nunca fora posta em dvida por Soames: reclamar uma 
ordem do juiz determinando a Dartie que reintegrasse o domiclio conjugal.
Uma vez emitida a ordem, era preciso esperar a aco de Dartie. Se ele no fizesse nada, seria um caso de abandono de domiclio conjugal, nos termos da lei, eles 
obteriam ento provas do mau procedimento do marido e obteriam o divrcio. Tudo isso Soames conhecia muitssimo bem. E a simplicidade do caso da irm ainda o tornava 
mais desesperado ante as dificuldades do seu prprio caso. Tudo realmente o arrastava  simples soluo da volta de Irene. Receb-la-ia como se no tivesse nenhum 
ressentimento contra ela, nem sentimentos a vencer, nem injrias a perdoar, nem mgoas a esquecer! Afinal, ele nunca a ofendera, e isso j representava uma garantia. 
Poderia oferecer-lhe muito mais do que tinha agora. Poderia fazer uma doao liberal, em nome dela. e inamovvel.
E de vez em quando examinava minuciosamente a sua prpria imagem. Nunca fora um pavo como Dartie, nem se considerava um homme  femmes, mas tinha uma certa f na 
sua prpria aparncia - no de todo injusta, porque era bem feito, bem conservado, limpo, sadio, plido, sem nenhuma vermelhido suspeita, provocada pela bebida 
ou por outros excessos. O queixo dos Forsyte e a impenetrabilidade fisionmica eram, a seus olhos, virtudes. Tanto quanto lhe era possvel, no descobria nas suas 
feies nada que pudesse inspirar repulsa.
Os pensamentos e cuidados com que lidamos diariamente parecem-nos naturais, embora de incio nos tenham parecido absurdos. Se lhe fosse possvel dar a Irene alguma 
prova tangvel da sua vontade, do seu desejo de fazer tudo o que lhe fosse agradvel, seria que ela no consentiria em voltar?

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Entrou portanto na loja de Gaves & Cortegal na manh de 9 de Novembro, para comprar um alfinete de brilhantes.
- Por quatrocentas e vinte e cinco libras  dado, cavalheiro.  um presente para uma senhora distinta.
Na disposio de esprito em que estava, Soames aceitou sem discutir. Retomou o caminho do escritrio trazendo no bolso do peito o estojo de marroquim verde. Abriu-o 
vrias vezes, naquele dia, para lhe contemplar as sete pedras que lanavam uma luz fria no seu ninho oval tapetado de veludo. "Se a senhora no gostar dele, cavalheiro, 
teremos muito prazer em troc-lo por outro. Mas no  de temer isso." - Se na verdade no fosse de temer! E realizou um trabalho enorme, pois era o nico meio que 
conhecia para acalmar os nervos. Chegou-lhe um cabograma enquanto ainda estava no escritrio, passara-o o seu correspondente de Buenos Aires e trazia pormenores 
sobre o caso de Dartie, dando o nome e o endereo de uma camareira do Tuscarora que estava pronta a fornecer sob juramento o testemunho necessrio. E aquilo reavivou 
oportunamente em Soames a sua repugnncia pela lavagem da roupa suja em pblico. E enquanto viajava no metropolitano recebeu novo estmulo para reatar a vida conjugal 
ante a descrio de um processo de divrcio elegante que leu no jornal da tarde.
Movido pelo sentimento que conduz todos os Forsyte quando esto ansiosos ou perturbados e que os leva a aproximarem-se uns dos outros - graas ao instinto gregrio 
que constitui a sua fora e a sua coeso-, Soames resolveu ir jantar em Park Lane. No podia nem queria dizer nada aos pais a respeito das suas intenes - era muito 
altivo e muito dissimulado-, mas era-lhe um consolo pensar que eles desejariam e se alegrariam com o seu triunfo, se ele lhes contasse qualquer coisa.
James estava de um humor lgubre, porque o entusiasmo que se acendera nele ante a impudncia do ultimato de Kruger recebera um duche frio ante os precrios xitos 
do ms que se passara e ante as exortaes a um esforo maior que se liam nos artigos do Times. No sabia como acabaria aquilo tudo. Soames procurava anim-lo pronunciando 
a todo o tempo o nome do general Buller. Porm James no podia dizer nada!

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Tudo lhe parecia numa grande confuso. Colley e Ladysmith, na sua opinio, deviam levar os marinheiros l, tinham trabalhado muito bem na guerra da Crimeia. Soames 
tentou um outro mtodo de consolo, Winifred recebera uma carta de Val, contando que houvera festejos e fogos de artifcio em Oxford comemorando o Guy Fawkes Day 
e que, como pintara o rosto de preto, ele conseguira no ser apanhado.
- Ah - murmurou James -, ele no  tolo. - Mas balanou a cabea alguns instantes depois, dizendo que no sabia o que iria acontecer, e, olhando tristemente para 
o filho, queixou-se de Soames no ter um herdeiro. Ele gostaria de ter um neto que lhe usasse o nome. E agora... bem, a estava!
Soames estremeceu. No esperava aquele convite para revelar o segredo do seu corao. E Emily, que o viu estremecer, disse:
- Tolice, James. No fale assim!
Porm James, sem olhar de frente para ningum, continuou a murmurar. Tanto Roger, como Nicholas, como Jolyon, todos tinham netos. Swithin e Timothy nunca tinham 
casado. Ele fizera tudo o que pudera, mas agora no tinha muito tempo de vida diante de si. E, como se houvesse dito palavras profundamente consoladoras, calou-se 
e ps-se a comer os miolos que tinha no prato, arrumando-os no garfo com um pedao de po e engolindo o po.
Soames pediu desculpas logo que acabou o jantar. No estava realmente frio, mas vestiu a pelica, que serviria para o proteger contra os acessos de tremor nervoso 
que o tinham atacado durante todo o dia. Sabia, no seu subconsciente, que ficava melhor assim do que com o simples sobretudo preto.
Depois, acariciando com a ponta dos dedos o escrnio de marroquim, guardado junto ao corao, ps-se a caminho. Quase no fumava, mas acendeu um cigarro, e fumou-o, 
na ponta dos lbios, enquanto caminhava. Desceu lentamente Rotten Row em direco a Knightsbridge, de modo a chegar a Chelsea s nove e quinze. Em que empregaria 
ela o tempo, noite aps noite, naquele buraco solitrio? Que seres misteriosos eram as mulheres! Vivemos ao lado delas sem as conhecermos. Que teria em si aquele 
Bosinney para a tornar louca? Porque havia indiscutivelmente loucura em tudo o que ela fizera:

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loucura, maluquice, aco de luntica - que lhe havia feito perder todo o sentimento dos valores e arruinar a sua vida e a do marido! E durante um instante ele sentiu-se 
cheio de uma espcie de exaltao, como se ele prprio fosse o heri de um conto e, penetrado de esprito cristo, estivesse pronto para devolver  culpada todos 
os benefcios da existncia, perdoar e esquecer, e tornar-se o gnio bom do seu futuro. Sob uma rvore, defronte do quartel de Knightsbridge, em plena claridade 
branca do luar, tirou do bolso mais uma vez o estojo de marroquim e deixou que os diamantes brilhassem sob os raios de luz que os feriam. Sim, eram de primeira gua! 
Mas quando o escrnio se fechou com um rudo seco, sentiu-se percorrido por novo arrepio e ps-se a caminhar mais depressa, enfiando nos bolsos da pelica as mos 
enluvadas, quase desejando que ela no estivesse em casa. Voltou a assalt-lo a lembrana do perptuo mistrio dela, dos jantares solitrios noite aps noite - em 
trajo de cerimnia, como se ela quisesse fazer crer a si prpria que tinha companhia. O piano - onde ela tocava para si mesma. No tinha sequer um co ou gato - 
pelo menos segundo o que pudera observar. E ento lembrou-se da gua que ele tinha em Mapledurham, para o levar nas viagens  estao. Quando s vezes ele ia  cocheira, 
achava-a sempre l, meio adormecida, no entanto, quando voltavam para casa, tinha menos necessidade de a apressar do que quando se afastavam de l, como se a gua 
desejasse realmente voltar  solido da cavalaria. "Hei-de trat-la bem", pensava ele com incoerncia. "Terei muito cuidado!" E toda a sua capacidade para a vida 
domstica, da qual um destino zombeteiro parecia querer priv-lo para sempre, despertou subitamente em Soames, enquanto ele caminhava sonhadoramente em direco 
inversa a South Kensington Station. Em Kings Road apareceu-lhe um homem, defronte de uma casa pblica, tocando concertina. Soames olhou-o um momento, danando loucamente 
no passeio, ao som do seu prprio instrumento, e desviou-se, para passar bem distante daquela amostra de bebedeira foliona. Depois passaria a noite na priso. Como 
o povo era estpido! Porm o homem percebera o movimento de Soames ao evit-lo e atirou-lhe um rio de pragas e insultos. "Espero que o prendam depressa",

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pensou maldosamente Soames. "Andarem rufies desta espcie soltos na rua, onde passam mulheres ss!" Esse pensamento fora-lhe sugerido por um vulto de mulher que 
caminhava  sua frente. O andar dela parecia-lhe conhecido, e quando virou a esquina da rua para a qual ele se destinava o seu corao comeou a bater. Apressou 
o passo para dobrar tambm a esquina e ver se se enganava. No! Era realmente Irene. Reconhecia-lhe bem o passo, mesmo naquela ruela srdida. Ela dobrou mais duas 
esquinas, e na ltima viu-a dirigir-se ao pequeno bloco de apartamentos. Para ter a certeza de no a perder mais, deu quase a correr os passos que os separavam, 
subiu os degraus quatro a quatro e viu-a parada diante da sua porta. Ouviu a entrada da chave na fechadura e alcanou-a exactamente no momento em que ela se voltava, 
surpresa e inquieta, no umbral da porta que acabava de abrir.
- No tenha medo - disse ele, quase sem flego. - Vi-a por acaso. Deixe-me entrar um minuto.
Ela pusera a mo sobre o seio, tinha o rosto plido, os olhos dilatados pelo medo. Depois, como se se dominasse, inclinou a cabea e disse:
- Est bem.
Soames fechou a porta. Ele tambm tinha necessidade de se acalmar, e, logo que entrou no salozinho, esperou um bom minuto, respirando profundamente para abrandar 
as pancadas do corao. Naquele momento, to cheio de consequncias para o futuro, pareceu-lhe grosseiro puxar o escrnio de marroquim. Mas, se no o puxasse, ficaria 
diante dela, sem desculpas para a visita. E, dentro desse dilema, sentia-se impaciente ante todas aquelas complicaes de desculpas e justificaes. Teria de haver 
uma cena - no poderia ser de outra forma -, e ele tinha de afront-la. E ouviu a voz de Irene, constrangida e pattica na sua doura:
- Porque voltou? Ento no compreendeu que seria melhor no o ter feito?
Ele reparou no vestido de veludo escuro, a charpe preta, um pequeno toque tambm de veludo. E o conjunto ia-lhe admiravelmente. Evidentemente ela dispunha de dinheiro 
para gastar em roupa! E Soames disse bruscamente:

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-  o seu aniversrio. Eu trouxe-lhe isto. - E estendeu-lhe o escrnio de marroquim verde.
- Oh... no... no!
Soames apertou o fecho e as sete pedras reluziram sobre o veludo cinzento-plido.
- Porque no? - disse ele. - Apenas como uma prova de que voc j no me detesta.
- No poderia.
Soames tirou o alfinete do escrnio.
- Deixe ver o efeito que ele far.
Ela recuou. Ele seguiu-a e ps sobre o peito da mulher, mau grado os protestos dela, o alfinete que mantinha sempre na mo. E ela recuou ainda mais.
Soames deixou cair a mo.
- Irene - disse ele -, esqueamos o passado. Se eu o posso esquecer, voc, certamente, o deve. Recomecemos como se nada houvesse sucedido. Voc no quer?-A sua voz 
implorava e no olhar que ele punha sobre o rosto de Irene havia uma espcie de splica.
Encostada  parede, ela soltou um pequeno soluo. E foi essa a sua nica resposta. Soames continuou:
- Ser que voc realmente deseja passar toda a sua vida sepultada neste cubculo? Volte para casa, e eu dar-lhe-ei tudo o que voc quiser. Viver a sua prpria vida, 
juro-o.
E ele viu no rosto da mulher um leve estremecimento irnico.
- Sim - repetiu ele -, mas desta vez estou a falar srio. S lhe pedirei uma coisa: quero apenas... quero apenas um filho. No me olhe assim. Quero um filho.  muito 
duro. - Falara numa voz rpida, que ele prprio mal reconhecia, e duas vezes seguidas atirou a cabea para trs, bruscamente, como se sentisse dificuldade em respirar. 
E, vendo fixos em si os dois olhos de Irene, negros, com uma espcie de terror fascinado, ele recobrou-se e a sua penosa incoerncia mudou-se em clera: - Ser uma 
coisa antinatural o que lhe peo? - perguntou ele por entre os dentes. - Ser uma coisa antinatural querer ter um filho da prpria esposa? Voc arruinou a nossa 
vida, destruiu tudo, ns s vivemos pela metade, e no temos nenhum futuro.

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E ser to pouco lisonjeiro para voc que, a despeito de tudo, eu.,, eu ainda a queira para minha mulher? Fale, pelo amor de Deus, diga alguma coisa! Irene pareceu 
querer falar, mas no o conseguiu.
- No quero que tenha medo de mim - disse Soames suavemente. - Deus bem o sabe. Quero apenas que compreenda que no posso continuar a viver assim. Quero que voc 
volte. E quero-a.
Irene ergueu uma das mos e cobriu com ela a parte inferior do rosto, mas os seus olhos no deixaram os de Soames, como se ela confiasse neles para o manter  distncia. 
E todos aqueles anos desolados e amargos desde - desde quando? - desde que ele a conhecera, quase desfilaram no esprito de Soames numa grande onda de recordaes, 
e um espasmo, que por nada no mundo ele teria conseguido dominar, contraiu-lhe a face.
- No  tarde de mais - disse ele. - No, no  tarde demais... se voc quiser acreditar que no o .
Irene descobriu o rosto, e as suas mos contorceram-se sobre o peito. Soames agarrou-as.
- No!-disse a mulher em voz baixa. Mas ele continuou a segur-las, procurando mergulhar o olhar nos olhos dela, que no se adoavam. E ento ela disse em tom calmo: 
- Estou s aqui. Voc no ir proceder como j o fez uma vez.
Ele deixou cair as mos, como se fossem um ferro em brasa, e voltou-se. Seria possvel que houvesse neste mundo uma recusa to impiedosa de perdo? Seria possvel 
que aquele seu nico acto de posse violenta estivesse ainda to vivo na lembrana de Irene? Seria por isso que ele fora excludo para sempre da presena dela? E, 
em tom resoluto, ele disse, sem erguer os olhos:
- No sairei daqui sem uma resposta. Ofereo-lhe o que poucos homens ousariam oferecer, e quero uma resposta... uma resposta razovel.
E, quase com surpresa, ouviu-a dizer:
- No posso dar-lhe uma resposta razovel. A razo no tem nada que ver com isto. No posso dizer-lhe seno a verdade brutal: preferiria morrer.
Soames encarou-a de olhos desmesuradamente abertos.
- Oh! - exclamou. E foi ferido por uma espcie de paralisia da fala e de movimento, daquele tremor que possui um homem mortalmente insultado,

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quando ele ainda no sabe como receber o insulto, oco, ou antes, o que fazer. - Oh - tornou ele finalmente -:,  to grave assim? Ah, com efeito! Voc preferiria 
morrer!  muito amvel!
- Sinto muito. Mas voc exigiu que eu respondesse. E no posso lutar contra a verdade, pois no?
Ante aquele apelo, estranhamente espiritual, Soames procurou um alvio numa considerao actual e reps, com um gesto brusco, o alfinete no escrnio e o escrnio 
no bolso.
- A verdade! - exclamou. - As mulheres no sabem o que  a verdade. Elas s tm nervos.., apenas nervos.
E ouviu-a murmurar:
- Sim, os nervos no mentem. Voc ainda no descobriu isso? Ele estava silencioso, obcecado pelo pensamento: "Eu quero
odiar esta mulher. Quero odi-la." E era justamente a dificuldade. Se ao menos o pudesse! Lanou-lhe um olhar agudo e viu-a em p, de encontro  parede, imvel, 
a cabea erguida e as mos juntas, exactamente como se fossem fuzil-la. E ele disse-lhe rapidamente:
- No acredito numa s palavra disso tudo. Voc tem um amante. Se no fosse isso, no seria to... to idiota. - O olhar de Irene fez-lhe ver bem o seu erro. Porm 
ele voltava rapidamente de mais  liberdade de palavras da vida conjugal. Virou as costas  mulher e deu alguns passos em direco  porta. Mas no pde sair. Havia 
algo dentro dele que o impedia de o fazer, a caracterstica mais profunda e mais secreta dos Forsyte, a impossibilidade de largar a presa, a incapacidade de perceber 
a natureza extravagante e desolada da sua prpria tenacidade. Virou-se de novo e ficou de costas encostadas  porta, sem notar nada do ridculo daquela situao, 
com toda a largura da sala a separ-los.
- Voc j alguma vez pensou noutra pessoa alm de voc mesma?
- perguntou ele.
Os lbios de Irene estremeceram, depois ela respondeu lentamente:
- Voc j pensou que eu descobri o meu erro... o meu erro irremedivel, terrvel, logo na nossa primeira semana de casamento? Que durante trs anos fiz um esforo 
incessante... sabe realmente que eu fiz esse esforo? Seria por mim?

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Soames cerrou os dentes.
- Sabe Deus por quem seria! Eu nunca a compreendi, nem nunca a compreenderei. Voc tinha tudo o que pudesse desejar, e ainda pode ter mais que isso. Que  que h 
em mim, ento? Pergunto-lhe apenas isto: que  que h em mim? - Sem perceber quanto havia de pattico nessa pergunta, ele prosseguiu com paixo: - No sou coxo, 
no sou repugnante, no sou um bruto, no sou um idiota. Que  que tenho? Que mistrio h em mim?
Mas Irene apenas respondeu por um longo suspiro.
Ele juntou as mos. num gesto estranhamente expressivo.
- Quando vim aqui, hoje  noite, estava... esperava... eu queria sinceramente fazer tudo quanto fosse possvel para apagar o passado e recomear sob felizes auspcios. 
E como nica resposta voc apresenta-me os seus nervos, silncios e suspiros. No h nada de tangvel.  como...  como uma teia de aranha.
- Sim.
Aquele simples murmrio, provindo da outra extremidade da sala, provocou em Soames novo acesso de furor.
- Pois no me agrada estar enredado numa teia de aranha. Hei de rasg-la. - E caminhou em direco a Irene.-Rasg-la-ei agora!
Porque se aproximara dela, realmente, no o sabia. Mas quando estava perto, o velho perfume conhecido, que lhe emanava dos vestidos, afectou-o de sbito. Ps as 
mos sobre os ombros da mulher e inclinou-se para a beijar. Mas no lhe beijou os lbios, apenas uma linha estreita e dura, situada no lugar onde os lbios de Irene 
se haviam cerrado. Depois as mos dela repeliram-no e ele ouviu-a dizer:
- Oh, no!
Vergonha, compuno e um sentimento da futilidade de tudo invadiram-no inteiramente. Ento deu meia volta e saiu.

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CAPTULO III

VISITA A IRENE


Jolyon encontrou June a esper-lo na estao de Paddington. Ela recebera o telegrama do pai durante o pequeno-almoo. O apartamento - um estdio e dois quartos em 
Saint Johns Wood Garden - fora escolhido pela completa independncia que lhe garantia. Sem a vigilncia de Mrs. Grundy, sem a presena de criadas, ela podia receber 
os seus "desvalidos" a qualquer hora do dia, e no era raramente que os "desvalidos" sem estdio utilizavam o estdio de June. Ela gozava a sua liberdade e possua-se 
a si mesma com uma espcie de paixo virginal. O ardor que prodigalizara a Bosinney e com o qual - dada a sua tenacidade de Forsyte - decerto o fatigara, empregava-o 
agora em prol dos enjeitados e dos "gnios" desconhecidos do mundo artstico. Vivia, de facto, para transformar aqueles patinhos feios nos cisnes que, tinha a certeza, 
todos eles eram. O extremo fervor da sua proteco obscurecia-lhe o julgamento. Porm ela era leal e liberal, as suas mos pequenas e enrgicas estavam sempre erguidas 
contra a opresso acadmica e comercial, e, embora o seu rendimento fosse considervel, a sua conta no banco era sempre deficitria. Chegara a Paddington Station 
extremamente irritada, por causa de uma visita a Eric Cobbley. Uma miservel galeria recusara quele gnio de cabeleira lisa fazer uma exposio individual das suas 
telas. O impudente gerente, depois de visitar o atelier do pintor,

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exprimira a opinio que seria "uma exposio precria do ponto de vista de venda". E aquele exemplo decisivo de covardia comercial, aplicado ao seu "desvalido" favorito 
- coitado, numa situao to difcil, com mulher e dois filhos - ainda lhe fazia ferver o sangue nas veias, subindo-lhe ao rosto pequeno e resoluto e fazendo que 
os seus cabelos avermelhados brilhassem mais flamejantes que nunca. Ela beijou o pai e subiu a um cab, em companhia dele, sentindo tanta necessidade dele quanto 
ele sentia dela. A questo era saber qual seria o primeiro, o pai ou a filha, a fazer saber a sua necessidade. Jolyon chegara a dizer-lhe:
- Minha querida, queria que voc viesse comigo...-Mas voltou-se para June e viu pelos seus olhos azuis, que iam da direita para a esquerda como a cauda de um gato 
preocupado, que ela no o escutava.
- Pap,  realmente verdade que eu no posso absolutamente tocar no meu dinheiro?
- S no rendimento, felizmente, meu amor.
- Mas  horrvel! Ser que no se poderia dar um jeito? Deve haver uma maneira. E eu soube que poderia comprar uma pequena sala de exposies por dez mil libras.
- Uma pequena sala de exposies - murmurou Jolyon. - Parece-me um desejo modesto. Porm seu av previu isso.
- O que eu acho - exclamou vigorosamente June -  que todo esse cuidado com o dinheiro  uma vergonha, quando h tantos homens de talento neste mundo atirados de 
lado apenas por falta de algumas libras. Nunca me casarei nem terei filhos. Porque no poderei fazer algum bem com o meu dinheiro, em vez de o ter amarrado, na perspectiva 
de coisas que jamais viro?
- O seu nome  Forsyte, minha querida - respondeu Jolyon naquele tom irnico ao qual a natureza impetuosa da filha jamais se habituara. -E os Forsyte, voc bem o 
sabe, so pessoas que legam as suas propriedades aos netos de tal maneira que, no caso de esses netos morrerem antes dos pais, possam legar em testamento aos tais 
proprietrios o que s lhes chegaria s mos quando os ditos pais morressem. Voc compreendeu? Nem eu, mas, de qualquer forma,  verdade. Ns vivemos o princpio 
de que,


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at onde for possvel manter a fortuna em famlia, ela no correr para fora. Se voc morrer solteira, o seu dinheiro ir para Jolly e Holly, e para os filhos deles, 
se se casarem. No lhe agrada saber que, faa o que fizer, nunca ser deserdada?
- E no poderei arranjar o dinheiro emprestado? Jolyon abanou a cabea.
- Voc pode alugar uma sala, se conseguir fazer isso com o seu rendimento.
June soltou um grunhido de desprezo.
- Sim. E ento o rendimento no me chegaria para ajudar mais ningum.
- Mas, minha filha, isso no viria a dar no mesmo?
- No - respondeu sagazmente June. - Eu poderia comprar uma sala por dez mil libras, o que representaria apenas quatrocentas libras por ano. De aluguel, no entanto, 
teria de pagar mil libras por ano, o que s me deixaria quinhentas libras de rendimento. Se eu tivesse essa sala, pap, pense no que poderia fazer? Poderia fazer 
a reputao de Eric Cobbley num minuto, e a de muitos outros.
- Quem o merece faz o seu nome com o tempo.
- Depois da morte.
- E voc j encontrou artista algum, minha querida, que se sentisse melhor por ter feito nome ainda vivo?
- Sim, j o encontrei a si - disse June, apertando-lhe o brao.
Jolyon estremeceu. "Eu?", pensou ele. "Oh, ento ela vai pedir-me qualquer coisa. Ns, Forsyte. temos cada um a nossa maneira de pedir."
June aproximou-se mais do pai.
- Papzinho - disse ela -, compre a sala, e eu pagar-lhe-ei quatrocentas libras por ano. Assim, nenhum de ns dois ficar mal satisfeito. Alis, ser um bom emprego 
de capital.
Jolyon procurou libertar-se.
- Voc no acha que a compra de uma sala de exposies, feita por um artista, ser uma coisa um pouco dbia? E, alm disso, dez mil libras  muito dinheiro, e eu 
no tenho senso comercial.
June olhava-o com uma expresso admirativa.

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- Realmente, mas o senhor tem um grande senso prtico, E tenho a certeza de que o senhor seria capaz de fazer a coisa prosperar. Seria uma maneira magnfica de nos 
vingarmos de todos esses negociantes horrorosos e desse pblico abominvel. - E de novo ela apertou o brao do pai.
O rosto de Jolyon exprimia um desespero cmico.
- E onde fica essa sala to desejada? Esplendidamente situada, decerto?
- Bem perto de Cork Street.
"Ah", pensou Jolyon, "eu estava certo que haveria de ser bem perto de qualquer parte. E agora  a minha vez de dizer o que quero dela!"
- Bem, vou pensar nisso. Mas no agora. Voc lembra-se de Irene? Quero que venha visit-la em minha companhia. Soames anda de novo a persegui-la. E ela ficaria em 
segurana se ns lhe dssemos asilo em qualquer parte.
A palavra "asilo", que ele empregara por acaso, era a mais propcia a despertar o interesse de June.
- Irene! No a vejo desde.. Naturalmente gostarei de a ajudar.
Chegou ento a vez de Jolyon lhe apertar o brao, em sinal de calorosa admirao pela ardente criaturinha que ele engendrara.
- Irene  muito orgulhosa - disse ele, olhando-a de vis, porque lhe ocorrera uma dvida referente  discrio de June - No  fcil ajud-la.  preciso proceder 
com precauo.  aqui o encontro, enviei-lhe um telegrama prevenindo-a de que apareceramos.
- No posso suportar Soames -: disse June enquanto descia do carro. - Ele desdenha toda a gente que ainda no triunfou.
Irene estava no que se chamava "o salo das senhoras" no Piedmont Hotel.
Se June tinha uma qualidade, essa qualidade era a coragem moral. Caminhou directamente para a antiga amiga, beijou-a na face e sentaram-se num sof onde nunca ningum 
se sentara desde a abertura do hotel. Jolyon pde ver que Irene estava profundamente comovida pela simplicidade daquele perdo.
- Ento Soames tem vindo incomod-la? - perguntou ele.

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- Visitou-me ontem  noite. Quer que voltemos a viver juntos.
- Mas voc no far isso, naturalmente - exclamou June. Irene sorriu fracamente e sacudiu a cabea.
- Mas a situao dele  horrvel - murmurou ela.
- Culpa dele. Devia ter-se divorciado, quando podia faz-lo. Jolyon recordou o fervor com que June desejara outrora que
um divrcio no viesse manchar a memria do seu noivo, defunto e infiel.
- Deixemos que Irene nos diga o que pretende fazer - disse ele.
Os lbios de Irene tremeram, porm ela falou em voz calma.
- O melhor que farei  fornecer-lhe um pretexto para se desembaraar de mim.
- Mas isso  horrvel! - gritou June.
- Que outra coisa poderei fazer?
-  impossvel fazer isso - disse Jolyon calmamente - sans amour.
Ele pensou que ela iria chorar, mas Irene ergueu-se bruscamente e, voltando as costas aos dois, ficou um momento imvel, para recuperar o domnio de si prpria.
June disse subitamente:
- Ento vou procurar Soames, e intimo-o a deix-la em paz. Que quer ele, na idade em que est?
- Quer um filho,  muito natural.
- Um filho! - exclamou June com desprezo.-Naturalmente! Para ter a quem deixar o dinheiro. Se ele deseja tanto um filho, basta arranjar uma mulher qualquer, e ter 
um, ento vocs poderiam divorciar-se e ele casaria com ela.
Jolyon compreendeu de sbito que fizera mal em trazer june - a violenta parcialidade dela militava a favor de Soames.
- Seria melhor que Irene viesse calmamente para nossa casa de Robin Hill, e esperasse pelo que do as coisas...
- Naturalmente - disse June. - Apenas...
Irene olhou de frente para Jolyon - e muitas vezes depois ele tentou analisar aquele olhar e no o conseguiu.
- No! Iria incomodar todos. Vou partir para o estrangeiro.

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Ele compreendeu pelo tom de voz dela que a resoluo era irrevogvel. E, sem ligao directa com as preocupaes de todos no momento, ocorreu-lhe esta ideia. "Afinal, 
poderei v-la, l onde estiver." Mas disse:
- No acha que lhe seria mais difcil defender-se dele no estrangeiro, na hiptese de ele a seguir?
- No sei. Mas s o que posso fazer  tentar. June ergueu-se e ps-se a passear pela sala.
-  horrvel! - exclamava ela. - Porque  que as criaturas tm de ser torturadas e reduzidas  misria e  impotncia, eternamente, por causa de leis repulsivas 
com pretenses  moral?
Mas algum entrou na sala, e June parou de caminhar. Jolyon aproximou-se de Irene.
- Voc precisa de dinheiro?
- No.
- Quer que eu alugue o seu apartamento?
- Sim, Jolyon, por favor.
- Quando parte?
- Amanh.
- E no vai voltar l, antes de partir?-Ele perguntou aquilo com uma ansiedade cuja estranheza o surpreendeu.
- No, j tenho aqui tudo de que preciso. --Manda-me o seu endereo?
Ela estendeu-lhe a mo.
- Voc  um apoio seguro como um rochedo.
- Edificado em areia - disse Jolyon, apertando fortemente a mo dela na sua. - Mas lembre-se de que, em qualquer tempo, ser-me- um prazer fazer qualquer coisa por 
si. E se mudar de ideia.. Vamos, June. despea-se!
June afastou-se da janela e rodeou Irene com os braos.
- No pense nele - disse ela em voz baixa. - Divirta-se bem, e que Deus a abenoe.
Levando consigo a lembrana de Irene, com lgrimas nos olhos e um sorriso nos lbios, pai e filha afastaram-se em silncio, passando ao lado da senhora que interrompera 
a entrevista e folheava os jornais espalhados na mesa.
Defronte  National Gallery, June exclamou:

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- Dedicada a todos os animais sem dignidade e entre todas as suas horrveis leis!
Porm Jolyon no lhe respondeu. Ele herdara um pouco do equilbrio do pai e era capaz de encarar as coisas com imparcialidade, mesmo quando estava comovido. Irene 
tinha razo. A situao de Soames era to m ou pior que a dela. Quanto  lei, era feita para uma natureza humana que merecia pouca estima E, sentindo que, se continuasse 
em companhia da filha, acabaria por cometer uma indiscrio de uma espcie ou de outra, expli cou-lhe que precisava de apanhar o comboio de Oxford, e, chamando um 
cab, deixou-a a contemplar as aguarelas de Turner. depois de prometer pensar na sua sala de exposies.
Mas, em vez disso, pensava em Irene. Dizem que a piedade  vizinha do amor. Nesse caso, ele estava certamente em risco de a amar, porque sentia uma profunda piedade. 
Pensar que ela iria errar pela Europa, to solitria e vencida! "Espero que no v perder a cabea.  muito capaz de fazer um gesto de desespero." Realmente, agora 
que Irene desfizera o precrio lao das suas ocupaes quotidianas, no podia imaginar como ela conseguiria prosseguir na vida - to bonita, sem poder esperar nada, 
magnfica presa para o primeiro que aparecesse! E na sua exasperao entrava mais uma gota de receio e de cime. As mulheres fazem estranhas coisas quando se sentem 
acuadas num beco sem sada. "Queria saber o que Soames vai fazer agora", cogitava ele. " uma situao ignbil e idiota. E certamente ho-de dizer que a culpa  
dela."
Preocupadssimo, com o corao dolorido, apanhou o comboio, perdeu o bilhete e na estao de Oxford tirou o chapu a uma senhora que ele recordava ter visto em qualquer 
parte, sem ser capaz de lhe dizer o nome, nem mesmo quando a viu tomar ch no Rainbow.

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CAPTULO IV

ONDE OS FORSYTE RECEIAM PR O P


Fremente ante a derrota das suas esperanas e guardando ainda, de encontro ao corao, o estojo de marroquim verde, Soames revolvia pensamentos to amargos como 
a morte. Uma teia de aranha! Caminhando em passo rpido, sem nada ver do luar, cismava na penosa cena que se acabara de passar e na lembrana que guardava do corpo 
de Irene, rgido sob o seu abrao. E quanto mais reflectia mais certo ficava de que ela tinha um amante - aquelas palavras que dissera, "preferia morrer", seriam 
ridculas sem isso. Mesmo que nunca o houvesse amado, jamais dissera nada antes do aparecimento de Bosinney. No, ela estava novamente apaixonada. De contrrio, 
no teria dado aquela melodramtica resposta  sua proposta, que, em qualquer circunstncia, era razovel. Muito bem! Aquilo simplificava a situao.
"Vou dar certos passos, para saber a quantas ando", cogitou ele. "Amanh de manh, antes de qualquer outra coisa,, irei procurar Polteed."
Mas, apesar de tomar aquela resoluo, sabia que iria ter dificuldades consigo prprio. Muitas vezes recorrera aos servios da agncia de Polteed, na rotina da sua 
profisso - empregara-os recentemente no caso de Dartie, mas nunca supusera que os empregaria para vigiar a sua prpria mulher.
Era muito insultuoso para Soames Forsyte!

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Dormiu sobre aquele projecto e sobre o seu orgulho ferido - ou antes, passou uma noite de insnia. S quando fazia a barba se recordou de que ela prpria resolvera 
usar apenas o seu nome de solteira, Heron. Polteed no saberia - pelo menos de comeo - de quem ela era mulher, nem o olharia obsequiosamente para lhe rir nas costas. 
Irene seria apenas a mulher de um dos seus clientes. E aquilo era verdade - no era ele o seu prprio advogado?
Estava literalmente apavorado por no pr o seu desgnio em execuo no primeiro momento, pois receava fraquejar mais tarde se o no fizesse imediatamente. E, pedindo 
a Warmson, de manh cedo, uma xcara de caf, fugiu de casa antes da hora do pequeno-almoo. Caminhou rapidamente para uma daquelas pequenas ruas do West End onde 
Polteed e outras firmas congneres serviam s virtudes das classes abastadas. At ento, sempre convocara Polteed ao seu escritrio, no Poultry, mas conhecia-lhe 
bem o endereo, e chegou l  hora em que abriam as portas. Na entrada, to bem mobilada que poderia parecer a de um agiota, foi recebido por uma senhora que deveria 
ter sido professora.
- Desejo falar com Mr. Claud Polteed. Ele conhece-me... no  preciso dar o meu nome.
Era importantssimo - uma considerao que primava sobre todas as outras - evitar que toda a gente soubesse que ele, Soames Forsyte, estava reduzido a mandar espiar 
a mulher.
Mr. Claud Polteed - to diferente de Mr. Lewis Polteed - era um desses homens de cabelo preto, nariz ligeiramente adunco e olhos castanhos e vivos que podem ser 
tomados por judeus, mas que na verdade so fencios. Recebeu Soames numa sala onde os sons eram abafados por tapetes e cortinas espessas, mobilada confidencialmente, 
sem nenhum sinal de papelada  vista.
Cumprimentando Soames deferentemente, ele girou a chave na fechadura da nica porta com certa ostentao.
"Quando um cliente me chama", costumava ele dizer, "toma as precaues que quer. Se vem aqui, conveno-o de que no h risco de indiscrio. Pode dizer em segurana 
tudo o que quiser, sem ningum mais..."
- E ento, Mr. Forsyte, em que posso ser-lhe til?
A garganta de Soames cerrara-se tanto que mal podia falar.
Era absolutamente necessrio esconder daquele homem que no tinha mais que um interesse profissional no assunto a tratar e, mecanicamente, o seu rosto exibiu um 
sorriso de vis.
- Vim procur-lo to cedo porque no h um minuto a perder. - Se ele perdesse uma hora a mais, seria bem capaz de ainda se prejudicar a si mesmo. - Voc dispe de 
uma mulher absolutamente segura?
Mr. Polteed abriu uma gaveta fechada  chave, tirou de l um memorando, percorreu-o com os olhos e fechou-o depois na gaveta.
- Sim - disse ele. - Disponho de uma mulher inteiramente segura.
Soames sentara-se e cruzara as pernas - e s o traa uma ligeira vermelhido, que alis poderia parecer a sua cor normal.
- Ento mande-a vigiar imediatamente Mrs. Irene Heron,, apartamento C, Truro Mansions, Chelsea. E espere novas instrues.
- Est muito bem - retorquiu Mr. Polteed. - Divrcio, decerto? - E soprou num tubo acstico. - Mrs. Blamcih est? Preciso de lhe falar dentro de dez minutos.
- Cuide voc mesmo dos relatrios - recomendou Soames - e envie-os pessoalmente, com a nota "confidencial", lacrados e registados. O meu cliente exige o maior segredo.
Mr. Polteed sorriu, como para dizer: "Est a ensinar o padre-nosso ao vigrio, patro." Os seus olhos deslizaram sobre Soames e durante um instante pareceram no 
profissionais.
- Diga-lhe que fique inteiramente despreocupado - respondeu ele. - O senhor fuma?
- No - disse Soames. - Compreenda-me bem:  possvel que no saia nada desse assunto. Se transparecer algum nome, ou se a vigilncia for suspeitada, podem advir 
consequncias serissimas.
Mr. Polteed inclinou-se.
- Posso transferir o caso para a categoria cifrada. Sob esse sistema, o nome nunca  mencionado: s h referncias a nmeros.
Abriu uma gaveta,, tirou duas pequenas fichas, sobre as quais escreveu algumas palavras, depois estendeu uma delas a Soames.
- Guarde isso, Mr. Forsyte.  a sua chave da cifra. O caso ser chamado 7X. A pessoa vigiada ser 17,

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quem a vigiar ser 19, o domiclio dessa pessoa ser 25, o senhor - quero dizer, o seu escritrio -, 31, o meu escritrio, 32, e eu, em pessoa, 2. No caso de o 
senhor ter de mencionar por escrito o seu cliente, o seu nmero ser 43, se existe a pessoa que suspeitamos, ela ser 47, uma segunda pessoa ser 51. O senhor ter 
outras indicaes ou instrues especiais?
- No - disse Soames.- Bem,  mister ter toda a considerao que for possvel.
Novamente Mr. POlteed se inclinou.
- E quanto a despesas? Soames ergueu os ombros.
- O que for razovel - respondeu ele com um tom seco, levantando-se. - Desejo que isso fique inteiramente nas suas mos!
- Inteiramente - disse Mr. Polteed, aparecendo subitamente entre ele e a porta. - Breve terei de v-lo a respeito deste assunto. At  vista, Mr. Forsyte.
E mais uma vez o seu olhar aflorou Soames, sem nada de profissional na sua expresso, e ele abriu a porta.
- At  vista -disse Soames, sem olhar nem  direita nem
 esquerda.
Uma vez na rua, praguejou profundamente, fortemente, contra si mesmo. Para rasgar uma teia de aranha, era preciso recorrer a esse mtodo insidioso como outra teia 
de aranha - secreta e imunda, principalmente para quem considerava a sua vida privada a parte mais sagrada da propriedade. E ele voltou ao escritrio, pondo em segurana 
o escrnio de marroquim verde e a chave do cdigo que devia mostrar-lhe claro como gua o seu fracasso domstico.
Era estranho que aquele homem, cuja vida fora inteiramente dedicada a expor aos olhares do pblico as dobras mais escondidas da propriedade e dos desacordos domsticos 
dos outros, receasse to profundamente ver os seus prprios desacordos expostos ao olhar desse mesmo pblico, mas, na verdade, no era nada estranho, pois poucas 
pessoas poderiam conhecer to bem como ele, em todos os pormenores, os impiedosos processos do maquinismo legal.
Trabalhou severamente durante o dia todo.

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Winifred deveria aparecer-lhe s quatro horas, para que ele a acompanhasse a uma conferncia no Temple, com Dreamer Q. C, e, esperando-a, Soames releu a carta que 
ele fizera a irm escrever no dia da partida de Dartie, para lhe pedir que voltasse:

Meu caro Montague,

Recebi a sua carta ao mesmo tempo que a notcia de que voc me havia abandonado para sempre e partira para Buenos Aires. Isso causou-me, naturalmente, uma penosssima 
surpresa. Aproveito a primeira oportunidade para lhe escrever a fim de lhe dizer que estou pronta a perdoar o passado, se voc consentir em voltar imediatamente. 
Peo-lhe que o faa. Estou muito perturbada e no posso dizer-lhe mais nada hoje. Mando-lhe esta carta registada para o endereo que voc deixou no seu clube. Responda 
por favor por cabo submarino.

Sua mulher afectuosa,

Winifred Dartie

Irra! Que amarga comdia! E Soames revia-se inclinado sobre o ombro de Winifred, enquanto ela copiava o borro que ele fizera a lpis, e o modo como ela disse, depondo 
a pena: "E imagine que ele volte, Soames!", numa voz estranha, como se no soubesse o que queria. "Ele no voltar", respondera o irmo, "antes de ter gasto o dinheiro 
todo.  por isso que  mister agir imediatamente." Anexa  cpia dessa carta, estava o bilhete de bbado que Dartie garatujara no Iseeum Club. Soames talvez desejasse 
que aquilo no fosse to manifestamente produto de uma bebedeira, pois era exactamente isso o que o tribunal iria acentuar. Parecia-lhe ouvir a voz do juiz a dizer: 
"A senhora tomou isso a srio? Srio bastante para lhe escrever a carta que escreveu? A senhora pensa que ele estava em si quando escreveu isso?" Mas no importava, 
o facto estava claro: Dartie partira e no voltara. Estava claro tambm a sua resposta telegrfica: "Impossvel voltar. Dartie." Soames sacudiu a cabea. Se tudo 
no estivesse feito dentro dos prximos meses, o sujeito acabaria por voltar,

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como uma moeda fallsa que no se conseguiu passar. Livrando-se dele, economizariam pelo menos mil libras por ano. Sem falar de todos os desgostos que ele dava a 
Winifred e ao pai. "Vou dizer a Dreamer que ande ligeiro", pensou Soames. "Temos de trabalhar rapidamente."
Winifred, que adoptara uma espcie de meio luto - e que alis ficava muito bem com os seus cabelos louros e com a sua alta silhueta, chegou no barouche puxado pela 
parelha de James. Soames nunca mais a vira na City, desde que o pai se retirara dos negcios, cinco anos atrs, e chocou-o o que o carro tinha de incongruente. "Os 
tempos mudam", pensou ele, "e ningum sabe o que est para desaparecer!" As prprias cartolas j iam escasseando E pediu notcias do sobrinho. Val, contou Winifred, 
escrevera a dizer que Ia jogar plo no prximo trimestre. Julgava que ele estava a frequentar uma roda muito boa. E acrescentou, com uma ansiedade elegantemente 
disfarada:
- Haver muita publicidade a respeito do meu caso, Soames? Ser absolutamente necessrio que os jornais falem nele? H-de ser to aborrecido para ele e para as meninas!
Sentindo-se atingido pela mesma inquietao, Soames respondeu:
-  muito difcil impedir os jornais de darem a notcia. Eles pretendem proteger a moral pblica, e o que fazem  corromp- la com esse vergonhoso noticirio. Mas 
ainda no chegmos at a, iremos hoje procurar Dreamer para que ele 'mande uma intimao a Dartie, concitando-o a retomar a vida conjugal.  lgico que ele compreenda 
que isso conduz ao divrcio, mas voc tem de fingir que deseja sinceramente a volta de Dartie - e pode praticar isso hoje.
Winifred suspirou:
- Oh, como Monty foi estpido!
Soames lanou-lhe um olhar penetrante. Via claramente que ela no podia tomar Dartie a srio e que renunciaria a tudo ao menor pretexto. Mas poup-la a um pequeno 
escndalo, agora, poderia resultar apenas num desastre real para a irm e os filhos, e talvez mesmo a runa, se Dartie voltasse a depender deles, piorando cada vez 
mais e gastando o dinheiro que James deixaria para a filha. Embora toda a herana ficasse vinculada, o sujeito saberia descobrir meios

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de arranjar dinheiro e obrigaria a famlia a pagar, sob pena de v-lo desmoralizado, falido, ou at mesmo preso! Saltaram da carruagem lustrosa, de cavalos lustrosos 
e criados de cartolas lustrosssimas, na altura do Embankment, e caminharam at ao escritrio de Dreamer, Q. C, em Crown Office Rovv.
- Mr. Bellby est aqui, sir - disse o contnuo. - Mr. Dreamer chegar dentro de dez minutos.
Mr. Bellby era o mais novo da firma, mas no to novo assim pois Soames s se servia de advogados de reputao firmada: e, alis, era um mistrio para ele como  
que os advogados conseguiam estabelecer geralmente o conceito de que deveriam ser consultados de preferncia a outros. Mr. Bellby estava sentado, dando uma olhadela 
final nos seus papis. Acabava de chegar do tribunal e vestia ainda a beca, o seu nariz parecia um cabo de bomba de gua, os olhos eram pequenos e de um azul lavado 
e o lbio inferior fazia uma protuberncia estranha - no poderia ser mais bem escolhido como complemento e controlador de Dreamer.
Depois de cumprida a formalidade da apresentao de Winifred, eles deixaram de falar no bom ou no mau tempo e comentaram a guerra. Soames declarou subitamente:
- Se Dreamer no agir j, ns no poderemos iniciar a aco antes de seis meses. E eu no quero que o caso se arraste muito tempo, Bellby.
Mr. Bellby, que tinha um ligeiro sotaque irlands, sorriu para Winifred e murmurou:
-  a lemtido da lei, como diz Hamlet, Mrs. Dartie.
- Seis meses! - repetiu Soames. - Mas isso ir at Junho. E o caso s ser julgado ento depois das frias grandes. Temos de andar depressa, Bellby. (Ser-lhe-ia 
por de mais difcil manter Winifred no bom caminho durante esse tempo todo.)
- Mr. Dreamer est  sua espera, sir.
Mr. Bellby entrou primeiro, e Soames acompanhou-o, junto com Winifred, depois de um intervalo de um minuto, que ele mediu no relgio.
Dreamer, Q. C, de beca, mas no de peruca, estava encostado  lareira, como se aquela conferncia participasse da natureza de uma recepo mundana, tinha a pele 
lisa como marroquim

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- talvez um pouco gordurosa -, caracterstica do saber profundo, um nariz considervell, sobre o qual estava pendurado um pequeno pincenez, e curtas suas grisalhas, 
parecia sentir um grande prazer em piscar constantemente o olho e em fazer desaparecer o lbio inferior sob o lbio superior., o que lhe dava um tom abafado s palavras. 
Tinha tambm um modo curioso de se dirigir bruscamente s pessoas, como se as houvesse encontrado subitamente no dobrar de uma esquina, e essa sua maneira de falar, 
junta a um tom de voz desconcertante e ao hbito que tinha de resmungar antes de falar, havia-lhe garantido uma imensa reputao na Cmara de Divrcios. Depois de 
ouvir, com um olho meio fechado, a recapitulao dos factos que Mr. Bellby lhe fazia, resmungou e disse:
- Sei disso tudo.-E, despegando-se do canto da lareira e encarando Winifred, fez-lhe esta pergunta no seu tom de voz soturno: - Ns queremos que ele volte, no , 
Mrs. Dartie?
Soames apressou-se a responder:
- A situao de minha irm  intolervel. Dreamer resmungou:
- Exactamente. E agora poderemos basear-nos na recusa que ele mandou telegrficamente, ou devemos esperar at ao Natal, para lhe deixar a possibilidade de escrever 
uma carta...  esse o ponto, no ?
- Quanto mais cedo... - comeou Soames.
- Que  que voc diz disso, Belby? - perguntou Dreamer, saindo do outro canto.
Mr. Bellby farejou o ar como um perdigueiro.
- O caso no pode comear antes dos meados de Dezembro. Ns temos de dar um prazo maior.
- No - disse Soames. - Porque h-de minha irm ser incomodada s porque o marido resolveu...
- Ganhar o mundo! - completou Dreamer, saindo de novo do seu canto. - Perfeitamente. As pessoas no deveriam ganhar o mundo, no , Mrs. Dartie? - E soergueu a beca 
atrs de si, como um peru levantando as penas da cauda para fazer roda. - Estou de acordo. Poderemos agir desde j. H ainda alguma coisa?
- No no momento - disse Soames em tom significativo. - O meu fim era apresent-lo  minha irm.


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Dreamer fez ouvir o seu grunhido amvel:
- Muito prazer. At breve! - E deixou cair a cauda da beca. Saram em fila. Winifred desceu a escada. Soames ficou ainda
um instante. A despeito de si mesmo, estava impressionado com Dreamer.
- Creio que a prova est perfeita - disse ele a Bellby. - Entre ns, se no fizermos a coisa rapidamente, ela acabar por no se fazer. Voc acha que "ele" compreender 
isto?
- Hei-de faz-lo compreender.  um bom sujeito, apesar... um bom sujeito.
Soames fez um gesto de assentimento e desceu para junto da irm. Encontrou-a no corredor mordendo as unhas sob o vu e disse-lhe logo:
- O testemunho da criada ser completo.
O rosto de Winifred endureceu e ela endireitou-se enquanto se dirigiam para o carro. E at chegarem a Green Street mantiveram-se em silncio, cismando incessantemente, 
tanto um como o outro, nesta mesma coisa: "Porqu, oh, porqu ser preciso que eu exponha assim o meu infortnio ao pblico? Porque tenho de empregar espies, para 
que metam o nariz nos meus assuntos privados? A culpa no foi minha!"

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CAPTULO V

JOLLY DELIBERA


O instinto de propriedade, que, to redondamente frustrado, estava a levar dois membros da famlia Forsyte a desembaraarem-se do que eles j no poderiam possuir, 
crescia cada dia mais no corpo poltico britnico. Nicholas, originariamente to dbio em referncia a uma guerra que poderia afectar a propriedade, andava a dizer 
que aqueles Boers eram uns sunos. Estavam a provocar enormes despesas, e quanto mais depressa recebessem a sua lio, melhor. Se fosse ele, mandaria para l Wolseley! 
Vendo um pouco mais longe que os outros - e era por isso o detentor da maior fortuna entre todos os Forsyte -, j compreendera que Buller no era o homem necessrio: 
" um touro furioso, que s enxerga onde vai marrar, e, se ele no tomar cuidado, Ladysmith cair." Isto foi dito em Dezembro, e quando a Semana Negra comeou era-lhe 
permitido dizer a todos: "Eu bem os preveni disso... Durante essa semana de trevas, tal como nenhum Forsyte jamais vira, Nicholas neto teve de fazer tantos exerccios 
no seu batalho, o DeviFs Own, que Nicholas filho consultou o mdico da famlia, a respeito da sade do filho, e alarmou-se ao saber que ele estava perfeitamente 
so.
O rapaz contentara-se em comer os seus jantares e em fazer visitas  cantina, gastando l um pouco, e aquilo representava, de certo modo, um pesadelo para os pais:

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viam-no a brincar com a eficincia militar justamente num tempo em que eficincia militar era exigida at da populao civil. O av, naturalmente, praguejava contra 
essa concepo, fora educado na crena, alis geralmente difundida, de que no pode haver guerra nenhuma na Inglaterra que no seja de pequenas propores e estritamente 
profissional, e mostrava-se profundamente desgostoso dos empreendimentos imperiais, que s traziam prejuzos, ele, por exemplo, possua aces da De Beers, que cada 
dia baixavam mais, e aquilo doa-lhe mais que o sacrifcio do neto.
Em Oxford, entretanto, prevaleciam sentimentos inteiramente diversos. A efervescncia natural a todas as aglomeraes de jovens, aumentando gradualmente nos dois 
meses que precederam a Semana Negra, cristalizara-se nas mais ardentes oposies. Os adolescentes normais, mesmo na Inglaterra conservadora, embora no tomem as 
coisas muito a srio, opinavam veementemente por uma luta decisiva que desse cabo definitivamente dos Boers. Val Dartie era, naturalmente, partidrio dessa ampla 
faco. Os jovens radicais, por outro lado - grupo pequeno, porm talvez mais ruidoso-, eram pela paralisao da guerra e concesso de autonomia, aos Boers. At 
 Semana Negra, os grupos eram mais ou menos amorfos,. com apenas as arestas agudas, e as discusses no passavam de acadmicas. Jolly era dos que no se decidiam 
por nenhum partido. Herdeiro do amor pela justia que caracterizava o velho Jolyon, seu av, no conseguia ver apenas um dos lados da questo. E, ao mesmo tempo, 
no seu grupo da "nata" havia um chefe de opinies extremamente avanadas e grande magnetismo pessoal. Jolly hesitava. O pai tambm parecia indeciso nas suas opinies. 
E embora, como  prprio dos vinte anos, ele olhasse severamente para o pai, descobrindo defeitos que ainda poderiam ser remediados, achava que Jolyon tinha um certo 
"ar" que emprestava encanto especial ao seu credo de tolerncia irnica. Os artistas,  claro, so notoriamente semelhantes a Hamlet, e em considerao a isso podia-se 
perdoar muita coisa a um pai. mesmo quando esse pai  profundamente amado. Porm a opinio original de Jolyon de que "meter o nariz onde no  chamado - como o haviam 
feito os Uitlanders - e depois tomar poses de orculo no  atitude decente" - quer fosse fundada ou no - tinha uma certa atraco para o filho,

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que se preocupava bastante com atitudes fidalgas. Por outro lado, entretanto, Jolly no suportava fazer o papel daquilo que o seu prprio grupo chamava excntrico 
e que o grupo de Val chamava maricas, de forma que continuava ainda indeciso quando irrompeu a Semana Negra. Uma-duas - trs - assim chegaram sucessivamente as ominosas 
derrotas de Stormberg, Magersfantein, Colenso. A estrdia alma inglesa, reagindo depois da primeira, exclamara: "Ah, mas Methuen!" Depois da segunda: "Ah, mas Budiler!" 
E por fim, sombriamente, endurecera. E Jolly dissera a si prprio: "No, cos diabos! Acabamos por lamber os ps desses maltrapilhos, no quero mais saber se estou 
certo ou no." E, como se estivessem combinados, o pai dele andava a pensar da mesma forma. No sbado seguinte, pelo fim do trimestre, Jolly foi convidado para beber 
um pouco em companhia de um dos da "nata". Depois do segundo brinde, feito com o borgonha do colgio- "Viva Buller e morram os Boers!" -, sem pateada, ele notou 
que Val Dartie, tambm convidado, o olhava sardonicamente e dizia qualquer coisa ao vizinho de mesa. Jolly tinha a certeza de que aquele segredo lhe era injurioso. 
Apesar de ser o rapaz menos capaz neste mundo de se fazer notado e provocar distrbios em pblico, Jolly ficou rubro e apertou os lbios. A hostilidade latente que 
sempre sentira contra o primo foi sbita e fortemente aumentada. "Muito bem", pensou ele. "Espere um pouco, meu caro!" Mais um pouco de vinho do que seria preciso 
levou-o a tocar o brao de Val e dizer, quando j caminhavam por um local afastado:
- Que foi que voc disse ainda agora, a meu respeito?
- No sou livre de dizer o que quero?
- No.
- Bem. Pois eu disse que voc  um pr-Boer, e na verdade  isso mesmo!
- Voc  um mentiroso!
- Est a procurar briga?
- Naturalmente, mas no aqui. No jardim.
- Muito bem. Ento venha.
Foram, olhando de vis um para o outro, mostrando-se sem pressa, e, inflexveis, pularam as grades do jardim. As pontas de ferro rasgaram a manga de Val. e aquilo 
preocupou-o.

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O esprito de Jolly estava preocupado pela ideia de que iam lutar dentro do recinto de um colgio ao qual ambos eram estranhos. No podiam faz-lo, mas isso no 
importava... Aquela besta!
Passaram pelo relvado em plena escurido e tiraram os casacos.
- Voc no est bbado, pois no? - perguntou de sbito Jolly. - Porque, se estiver, no posso lutar consigo.
- Estou tanto como voc.
- Ento muito bem.
Sem se apertarem as mos, puseram-se ambos em posio de defesa. Ambos sabiam que tinham bebido de mais, e, portanto, tomavam um cuidado especial em manter uma atitude 
correcta, at que Jolly, quase acidentalmente, atingiu Val no nariz. Aps isso, a luta transformou-se numa furiosa troca de sopapos, na sombra profunda das velhas 
rvores, at que, cansados e j um pouco feridos, os dois se apartaram., ao ouvirem uma voz que perguntava: "Como se chamam, moos?"
Ante aquela suave pergunta, vinda de sob a lmpada do porto do jardim, semelhante  pergunta de um deus, os lutadores acalmaram-se de sbito, apanharam os casacos, 
pularam a grade e dirigiram-se para o stio onde tinham comeado a discusso.
Ali, na meia luz, limparam a cara, e, sem uma palavra, puseram-se a caminho, a dez passos de distncia um do outro, at ao porto do colgio. Caminhavam silenciosos, 
Val dirigindo-se para Broad, ao longo de Brewery, e Jolly dirigindo-se para High. Com a cabea mais desanuviada, lamentava-se de no ter lutado com mais arte, passando 
em revista todos os golpes de knockout que no utilizara. E visionava um imaginrio combate, infinitamente dissemelhante daquele que se acabara de passar, infinitamente 
herico, com cinto e espada., com confiana e esgrima, tal como apareciam nas pginas do bem-amado Dumas. Ele via-se a si mesmo na posio de La Mole, Aramis, Bussy. 
Chicot, D'Artagnan, somados todos num s indivduo, mas absteve-se inteiramente de imaginar Val na pele de Coconnas, Brissac ou Rochefort. O sujeito era apenas o 
cretino de um primo a querer ser gente. No importava! Dera-lhe uns dois bons murros. "Pr-Boer!" A palavra ainda o chicoteou e passaram-lhe pela cabea pensamentos 
de se alistar. Via-se a cavalgar nas plancies africanas, lutando valentemente,, enquanto os Boers fugiam como coelhos

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E, erguendo os olhos, viu as estrelas que luziam sobre os telhados do High e ele prprio deitado no karoo (1) - ou noutro lugar qualquer -, enrolado num cobertor, 
com a espingarda pronta e o olhar fixo num cu luzente.
No dia seguinte teve uma ressaca pavorosa, que ele tratou, como faziam os da sua roda de elegantes, mergulhando a cabea na gua fria, fazendo um caf to forte 
que no pde beber e bebericando apenas um clice de vinho do Reno ao almoo. Espalhou o boato de que "um maluco cara em cima dele, ao dobrar uma esquina", o que 
explicava a pisadura que apresentava numa das faces. No desejava de modo algum contar a histria da luta, porque, pensando bem, s lhe traria uma glria muito precria.
No outro dia acabaram-se as aulas, e ele dirigiu-se para Robin Hill. S l estavam June e Holly. pois o pai fora de viagem para Paris. E ele passou umas frias inquieto, 
descontente, quase inteiramente afastado das irms. Com efeito, June estava preocupada com os seus "desvalidos" e, como habitualmente, Jolly no se entendia com 
eles, especialmente Eric Cobbley e a famlia, que enchiam literalmente a casa durante as frias. E entre Holly e ele realizou-se uma estranha separao, como se 
ela comeasse a ter opinies por si prpria, o que era to desnecessrio. Treinava boxe descuidadamente, no punchball, galopava furiosamente, mas sozinho, em Richmond 
Park, fazendo questo de saltar as sebes que dividiam certas leas relvadas - educando os nervos, dizia ele. Jolly, mais que a maioria dos rapazes, vivia sob o medo 
de ter medo. Comprou uma espingarda e ps-se a montar guarda nos prados em redor de casa:, atirando atravs do tanque da horta, pondo em perigo a vida dos jardineiros, 
com o pensamento de talvez um dia se apresentar como voluntrio e ir ajudar a salvar a frica do Sul para o seu pas. E de facto, quando comeou a chamada de recrutas 
para os Yeomanry, o rapaz sentiu-se inteiramente abalado. Deveria alistar-se? Nenhum dos elegantes seus amigos - e ele mantinha correspondncia com muitos - pensava 
nisso. Se eles fizessem o menor movimento, ele teria ido tambm, imediatamente - pois, muito sensvel  emulao e com um forte sentido de grupo,

*1. Karoo - grandes plancies arenosas da frica do Sul. (N. da T.)

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no suportava ser deixado atrs por ningum -, mas fazer aquilo por impulso prprio poderia parecer fanfarronada, porque, naturalmente, no era um gesto realmente 
necessrio. Ademais, no queria ir, porque, jovem Forsyte que era, recuava antes de saltar um obstculo desconhecido. Havia uma grande mistura de coisas dentro dele, 
coisas ardentes e confusas, e ele sentia-se muito diferente do seu antigo eu, sereno e fidalgo. Foi ento que, certo dia, se lhe deparou uma cena que o encheu de 
clera. Dois cavaleiros trotavam pela alameda do parque prximo da Ham Gate: o da esquerda era sem nenhuma dvida Holly, na sua gua ruo-prateada, o da direita 
era aquele cretino do Val Dartie. O primeiro impulso de Jolly foi esporear o cavalo, indagar o motivo daquele fenmeno, depois intimar o primo a desaparecer e levar 
Holly para casa. O segundo impulso foi pensar que ficaria com cara de parvo se eles no lhe obedecessem. Dirigiu o cavalo para debaixo de uma rvore, mas descobriu 
ento que lhe seria igualmente impossvel espi-los. Restava-lhe apenas voltar para casa e esperar a chegada da irm. A exibir-se na companhia daquele valdevinos! 
No pde aconselhar-se com June, porque ela partira no comboio da manh, em companhia de Eric Cobbley e do seu bando. E o pai ainda estava naquela "Paris podre". 
E sentiu solenemente que aquele era um dos momentos para os quais ele se treinava assiduamente no colgio. Em companhia de um outro rapaz, chamado Brent, costumavam 
atear fogo a jornais e atir-los a arder no meio da sala de estudo, a fim de se habituarem a manter o sangue-frio em momentos de perigo. Mas no sentia nenhum sangue-frio 
enquanto esperava a irm, na cavalaria, fazendo festas distradas ao co Balthasar, gordo como um frade velho, e que, triste pela ausncia do dono, virava apenas 
o focinho, em prova de agradecimento  ateno. Passou-se mais de meia hora antes que Holly chegasse, corada e muito mais bonita do que tinha o direito de estar. 
Viu que ela o olhava de relance - sentindo-se culpada, sem dvida-, depois seguiu-a e, segurando-lhe o brao, encaminhou-a para o escritrio do av. A sala, pouco 
utilizada agora, era ainda vagamente povoada, aos olhos deles dois, por uma presena  qual associavam ternura, grandes bigodes cados, cheiro de charuto e risadas. 
Ali, Jolly, menino ainda, antes de frequentar qualquer escola, lutava com o av,

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que mesmo aos oitenta anos mantinha o invencvel hbito de lhe dar rasteiras. Ali, Holly, trepada no brao da poltrona de couro, afastava as madeixas prateadas de 
um ouvido onde sempre tinha segredos a murmurar. Atravs daquela sacada, eles trs haviam sado vezes sem conta para jogar cricket no relvado ou brincar um jogo 
misterioso, chamado "Wopsy-Doozile", que no devia ser descoberto pelos mais velhos, porque cansava muito o velho Jolyon. Ali, certa noite de calor, Holly aparecera 
de camisolo, porque tivera um pesadelo e tinha medo. E, ainda ali, Jolly, tendo comeado mal o dia, pois enchera de magnsia o ovo cozido de Mademoiselle Beauce, 
travara com o av - na ausncia do pai - o seguinte dilogo:
- No, rapaz, voc no devia ter feito isso.
- Mas, av, ela deu-me um murro no ouvido, ento eu esmurrei-a um pouquinho, e ento ela bateu-me de novo.
- Voc esmurrou uma dama? Isso no se faz! J pediu perdo?
- Ainda no.
- Ento deve pedir imediatamente. Vamos.
- Mas foi ela que comeou, av. E bateu-me duas vezes e eu s uma.
- Meu caro, isso que voc fez foi uma vergonha.
- Bem, mas ela ficou danada, e eu no fiquei.
- Vamos.
- Ento o av tambm vem.
- Bem, mas s esta vez.
E os dois saram de mos dadas.
Ali estavam as novelas de Waverly, os livros de Byron, o Roman Empire, de Gibbon, o Cosmos, de Humboult, os bronzes da chamin, aquela obra-prima da velha escola 
Barcos de Pesca Holandeses ao Pr-do-Sol. A nica diferena que havia era a ausncia do velho Jolyon, de pernas cruzadas, na cadeira de braos, com a sua ampla fronte 
e os olhos profundos mergulhados no Times. E foi ali que os seus dois netos entraram. E Jolly disse:
- Vi voc e aquele indivduo no parque.
O rubor que subiu s faces da pequena deu-lhe alguma satisfao: ela devia estar envergonhada!
- E da? - retorquiu Holly.

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Jolly estava surpreso, pois esperava muito mais - ou muito menos.
- Voc sabe - disse pausadamente - que ele me chamou pr-Boer no trimestre passado? E tivemos uma briga.
- Quem venceu?
Jolly quis responder: "Creio que fui eu", mas aquilo pareceu-lhe abaixo da sua dignidade. E insistiu:
- Escute - disse. - Que  que isso significa? E sem dizer nada a ningum!
- Porque tenho obrigao de dizer? O pap no est aqui. Porque no posso passear a cavalo com ele?
- Voc pode passear comigo. Na minha opinio, ele  um indivduo srdido.
Holly ficou plida de clera.
- No .  culpa sua, se no gosta dele.
E, deslizando por trs do irmo, saiu da sala, deixando-o a contemplar abstractamente um bronze representando uma Vnus montada numa tartaruga, e que at ento ficara 
escondida dele, atrs da cabea morena da irm, coberta pelo chapu de feltro de amazona. Jolly sentiu-se profundamente perturbado, abalado nos seus alicerces juvenis. 
Um domnio que fora seu, durante toda a vida, ali estava, despedaado aos seus ps. Caminhou at  Vnus e mecanicamente examinou a tartaruga. Porque no gostava 
ele de Val Dartie? No poderia diz-lo. Ignorante da histria da famlia, precariamente informado sobre aquele drama que a agitara treze anos atrs, quando Bosinney 
abandonara June por amor da mulher de Soames, sem saber realmente quase nada a respeito de Val, ele sentia-se completamente alheio a tudo. Apenas no gostava dele. 
E a questo agora era esta: que devia fazer? Val Dartie, com efeito, era seu segundo primo, mas isso no era desculpa para Holly andar a passear em companhia dele. 
E, ao mesmo tempo, falar numa coisa que ele vira por acaso, era contra o seu credo. Nesse dilema, sentou-se na velha cadeira de couro e cruzou as pernas. Comeava 
a escurecer, e ele permanecia ali sentado, olhando, atravs da sacada, o velho carvalho ainda carregado de folhas e transformando-se lentamente num vulto de escurido 
mais profunda, desenhado na escurido mais suave da noite.

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"Av!", pensou ele, sem muito nexo, segurando o seu relgio. No podia ver os ponteiros, mas escutava o rudo da mquina. Era o primeiro relgio de ouro que o av 
possura, polido pelo tempo, com mossas provocadas por muitas quedas. O seu som era como uma vozinha vinda daquela tranquila Idade de Ouro, quando a famlia chegara 
de Saint John's Wood, em Londres, para aquela casa. Tinham vindo com o av, na carruagem dele, e quase instantaneamente correram para as rvores. rvores para trepar, 
olhando o av, l em baixo, a regar os canteiros de gernios! Que deveria fazer? Escrever ao pai dizendo-lhe que tinha de voltar para casa? Aconselhar-se com June? 
Mas June era to - to inesperada! No fazer nada e confiar na sorte? Afinal de contas, em breve estariam terminadas as frias. Sair, procurar Val e intim-lo a 
desaparecer? Mas onde encontr-lo? Holly nunca lhe daria o endereo do primo! Um labirinto de caminhos, uma nuvem de possibilidades! Acendeu um cigarro. Quando j 
tinha fumado metade, o cenho franzido desanuviou-se, quase como se uma mo velha e magra o tivesse acariciado suavemente. E pareceu-lhe, ao mesmo tempo, que ouvia 
segredarem-lhe ao ouvido: "No faa nada. Seja bonzinho com Holly, seja bonzinho com sua irm, meu velho!" E Jolly fez um sinal de assentimento satisfeito, soprando 
o fumo atravs das narinas.
Porm l em cima, no seu quarto, tendo despido o fato de amazona, Holly ainda estava de testa franzida.
"Ele no  assim, no  assim!", eram as palavras que tomavam forma nos seus lbios.

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CAPTULO VI

JOLYON INDECISO


O pouso de Jolyon em Paris era num pequeno hotel particular, situado mo andar superior de um restaurante junto da Gare Saint-Lazare.
Odiava encontrar os seus correligionrios Forsyte a viajarem pelo estrangeiro e a correrem desamparados, como peixes fora de gua, na pera, na Rue Rivoli e no Moullin 
Rouge. Aborrecia-o aquele ar que eles exibiam, indicativo de que haviam viajado apenas para verem, o mais rapidamente possvel, "qualquer coisa de diferente". Porm 
nenhum outro Forsyte vinha para perto do seu esconderijo, onde ele tinha um bom fogo no quarto de dormir e onde o caf era excelente. Paris sempre lhe parecera mais 
atraente no Inverno. O aroma acre da lenha de castanheiro que ardia nas lareiras, a vivacidade dos raios brilhantes do sol de Inverno, os cafs abertos, desafiando 
o ar gelado, as diligentes e compactas multides que enchiam os boulevards, tudo lhe demonstrava que, no Inverno, Paris possua uma alma que, como uma ave de arribao, 
emigrava quando o Vero aparecia.
Ele falava bem o francs, tinha vrios amigos, conhecia certos pequenos restaurantes onde se pode comer bons petiscos e observar tipos curiosos. Sentia-se filsofo 
em Paris, com o fio da ironia aguado, a vida aparecia-lhe com um subtil e involuntrio significado, oferecia-se como um feixe de diversos sabores a provar

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- era como um tiro disparado na escurido, desprendendo fascas fulgurantes.
Quando, na primeira semana de Dezembro, decidira ir a Paris, estava longe de admitir que era a presena de Irene l que o influenciava. Mas ainda no passara l 
dois dias, e j se sentia certo de que o desejo de a ver contribura em mais de metade para aquela resoluo. Na Inglaterra, no se gosta de admitir o que  natural. 
Ele pensara, antes, que seria bom falar com ela a respeito do aluguel do apartamento e outros assuntos, mas, logo ao chegar a Paris, compreendeu melhor os seus desejos. 
Havia um encanto particular na cidade. No terceiro dia escreveu a Irene, recebendo uma resposta que lhe proporcionou um agradvel arrepio nos nervos:

Meu caro Jolyon,

Ser para mim uma felicidade v-lo.

Irene.

Dirigiu-se para o hotel dela, num dia luminoso, com a sensao igual  que j experimentara tantas vezes quando ia visitar alguma pintura particularmente querida. 
Nenhuma mulher, por mais longinquamente que o recordasse, lhe inspirara aquela sensualidade especial e ainda impessoal. Ele ia visit-la para se sentar l e dar 
prazer aos seus olhos, e voltar talvez sem a conhecer melhor, porm disposto a tornar no dia seguinte e novamente dar prazer aos olhos. E era esse o seu sentimento 
quando ela lhe veio ao encontro, na desbotada e enfeitada salinha de um silencioso hotel da margem do rio, precedia-a um rapazinho, que fazia as vezes de criado 
e que, pronunciando um discreto "madame", desapareceu. O rosto dela, o sorriso, a postura, eram exactamente as que ele sonhara, e a expresso daquele rosto dizia 
claramente: "Um amigo!"
- Ento - perguntou ele-, quais so as novidades, pobre exilada?
- Nenhuma.

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- Nada de Soames?
- Nada.
- Aluguei o seu apartamento, e, como bom servidor, trago-lhe algum dinheiro. Gosta de Paris?
Enquanto lhe fazia esse interrogatrio, parecia a Jolyon que jamais vira lbios to delicados e sensveis - o lbio de baixo curvando-se um pouquinho, o lbio superior 
terminando no canto por uma minscula covinha.
Era o mesmo que estar a descobrir uma mulher naquilo que at agora fora para ele uma esttua animada e meiga, quase impessoalmente admirada. Ela reconhecia que viver 
s em Paris era um pouco difcil e, embora Paris fosse cheia de vida prpria, muitas vezes lhe parecia incua como um deserto. Alm disso, os ingleses no eram muito 
estimados l, naquele momento.
- Isso dificilmente ser o seu caso - retorquiu Jolyon. --Voc deve atrair muito os franceses.
- O que tem as suas desvantagens. Jolyon concordou.
- Ento consinta que, enquanto eu estiver em Paris, tome conta de si. Vamos comear isso amanh. Venha jantar comigo no meu restaurante predilecto, e depois iremos 
 pera Cmica.
E aquilo foi o preldio de encontros dirios.
Jolyon depressa descobriu que, para todos aqueles que desejam uma situao esttica para as suas afeies, Paris  ao mesmo tempo o primeiro e o ltimo lugar onde 
se pode conviver amigavelmente com uma mulher. E uma descoberta esvoaava-lhe dentro do corao, como um pssaro brilhante: Elle est ton rve! Elle est ton rve! 
s vezes parecia-lhe natural, s vezes ridculo, um triste caso de paixo num homem maduro. Graas ao facto de j ter sido uma vez votado ao ostracismo pela sociedade, 
deixara de ter qualquer considerao pela moralidade convencional, mas a ideia de um amor que ela nunca poderia retribuir - e como o poderia, na idade em que ele 
estava?, - ia-se apossando do seu subconsciente. Sentia tambem um grande d pelo vazio e isolamento da vida de Irene. Consciente de representar um conforto para 
ela e do prazer que, por vrias maneiras, ela claramente manifestava na sua companhia, sentia-se afectuosamente disposto a nada fazer nem dizer que pudesse destruir 
essa satisfao.

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V-la beber de camaradagem consigo era um espectculo idntico a ver uma planta estiolada banhar-se de chuva. Tanto quanto eles podiam saber, ningum mais conhecia 
o endereo dela. a no ser ele prprio, era desconhecida em Paris, e a ele mal o conheciam, de forma que lhes parecia desnecessrio manterem discrio nos passeios, 
palestras, concertos, visitas a galerias de pintura, teatros, jantares ntimos, expedies a Versalles, Saint-Cloud, e mesmo Fontainebleau. E o tempo voava - um 
daqueles meses sem lembranas de passado nem perspectivas de futuro. O que na juventude dele seria uma paixo imprudente era agora um sentimento, talvez profundo, 
mas mais amvel, mais temperado, no seu companheirismo protector, por admirao, desesperana e cavalheirismo, sentimento que se mantinha paralisado nas suas veias 
enquanto ela estivesse ali, sorridente e feliz junto  sua amizade, e cada dia, aos olhos dele, mais linda e mais rica de afinidades espirituais consigo prprio: 
a filosofia da vida de Irene parecia-lhe caminhar admiravelmente bem ao lado da sua, condicionada mais pela emoo que pela razo, ironicamente desconfiada, sensvel 
 beleza, quase apaixonadamente humana e tolerante, embora submetida a uma disciplina instintiva, da qual, como simples homem, ele se sentia menos capaz.
E durante todo aquele ms de camaradagem nunca perdeu inteiramente aquele sentimento que o possura no primeiro dia, de que visitava uma obra de arte querida pela 
qual sentia um desejo quase impessoal. O futuro - inexorvel mulo do presente-, procurava no o olhar de frente, com receio de perturbar aquela placidez, porm, 
fez planos de renovar a temporada em lugares ainda mais agradveis, onde o sol fosse quente e onde houvesse coisas estranhas para ver e pintar. Mas o fim chegou 
subitamente, no dia 20 de Janeiro, trazido por um telegrama:

Alistei-me no Imperial Yeomanry.
Jolly

Jolyon recebeu-o quando estava a preparar-se para acompanhar Irene ao Louvre. E aquilo fez-lhe dar uma reviravolta repentina. Enquanto estava a vagabundear em Paris, 
o filho

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- cujo mentor e cujo guia o pai tinha obrigao de ser - dera esse grande passo para o perigo, o sofrimento, talvez mesmo a morte. Sentiu-se perturbado at ao ntimo 
da alma, compreendendo subitamente que Irene j atingira as razes mais profundas do seu ser. E, ameaado assim de ruptura, o lao que os prendia - porque indiscutivelmente 
j se formara entre eles uma espcie de lao - mostrava que no tinha mais nada de impessoal. O prazer tranquilo de contemplarem juntos as coisas - Jolyon compreendia-o 
- desaparecera para sempre. E ele via o seu sentimento tal como realmente o era - uma paixo. Ridculo, talvez, mas to real que cedo ou tarde se revelaria sozinho. 
E agora, parecia-lhe, no podia, no devia revelar nada.
O telegrama de Jolly interpunha-se inexoravelmente no seu caminho. Sentia orgulho pelo alistamento do filho, orgulho pelo seu rapaz que partia para longe, a fim 
de lutar pela ptria, porque at no "pr-boerismo" de Jolyon a Semana Negra deixara as suas marcas. E assim o fim do seu romance chegava antes do comeo! Bem, felizmente 
ele nada dera a perceber.
Quando chegou  galeria, ela estava em p junto  Virgem das Rochas, graciosa, absorta, sorridente e inconsciente. "Terei de deixar de ver isto?", pensava Jolyon. 
" antinatural, uma vez que ela deseja que eu continue a procur-la." Parou, despercebido, olhando-a., fartando-se da contemplao dela, invejando o quadro que tanto 
a absorvia. Duas vezes Irene voltou a cabea para a entrada, e ele pensou: "Isto  por mim". Por fim, caminhou at ela.
- Olhe! - disse Jolyon.
Irene leu o telegrama e ele ouviu-a suspirar.
Aquele suspiro tambm era para ele! A sua posio era realmente cruel! Para ser leal ao filho, tinha de abandon-la e partir. Para ser leal ao desejo do seu corao, 
deveria finalmente dizer-lhe os seus sentimentos. Poderia ela, quereria ela compreender o Silncio com que ele olhava fixamente o quadro em frente deles?
- Creio que tenho de voltar imediatamente para casa - disse ele por fim. - E vou sentir tremendas saudades disto tudo.
- Eu tambm. Mas, naturalmente, voc deve ir.
- Pois ! - disse Jolyon, estendendo-lhe a mo.

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E, ao encontrar os olhos dela, uma onda de ternura quase o dominou completamente.
- Assim  a vida! - disse ele. - Tenha cuidado consigo, minha amiga!
Tinha a impresso de que os ps e as pernas o chumbavam ao cho e o crebro recusava-se a lev-lo para longe dela. Junto  porta, viu-a erguer a mo e tocar os dedos 
nos lbios. Jolyon ergueu solenemente o chapu, e no olhou mais para trs.

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CAPTULO VII

DARTIE VERSUS DARTIE


O processo "Dartie versus Dartie", para a reintegrao do domiclio conjugal - sobre o qual Winifred, intimamente se sentia to profundamente indecisa -, seguia 
as leis da subtraco em direco ao dia do julgamento. Esse dia no chegou antes que o tribunal suspendesse os trabalhos pelo Natal, mas era o terceiro caso da 
lista no dia da reabertura da Corte de Divrcios. Winifred passou as suas frias de Natal um pouco mais elegantemente que de costume, com aquele segredo fechado 
no seu peito magro. James foi particularmente liberal para ela naquele Natal, exprimindo desse modo a sua solidariedade e o seu alvio ante a prxima dissoluo 
do casamento da filha com aquele "refinado velhaco" - alvio que o seu velho corao sentia, mas que os seus velhos lbios no ousavam proclamar.
O desaparecimento de Dartie diminuiu muito a importncia da queda dos Consolidados, e, quanto ao escndalo, a animosidade real que ele sentia contra o malandro do 
genro e a crescente primazia que o sentimento de propriedade ia adquirindo sobre a reputao na alma de um legtimo Forsyte j prestes a deixar este mundo serviram 
para anestesiar o esprito do velho, de quem todas as aluses ao assunto - excepto as dele prprio - eram cuidadosamente afastadas. O que o assustava, como advogado 
e como pai, era o medo de que Dartie subitamente resolvesse voltar,

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em obedincia  intimao do tribunal. Seria uma bela complicao! E na verdade o medo consumia-o tanto que, ao presentear Winifred com um grande cheque, pelo Natal, 
ele disse: "Isto  principalmente para aquele sujeito que se foi embora, para o manter afastado daqui." Era uma pena, realmente, deitar fora tanto dinheiro, mas 
representava uma espcie de seguro contra aquela ameaa de falncia que em breve j no penderia sobre a sua cabea, se realmente o divrcio se fizesse. E depois 
inquiriu minuciosamente de Winifred at que ela lhe garantisse que mandara o dinheiro. Pobre mulher! Custara-lhe muito mandar o dinheiro directamente para a bolsa 
"daquela sujeita". Soames, ouvindo isso, abanou a cabea. Eles no estavam a tratar com um Forsyte razoavelmente tenaz nos seus propsitos. Aquilo era muito arriscado, 
j que no sabiam bem como andavam as coisas por l. E, ademais, era preciso ter muito cuidado com o tribunal. E ia saber o que Dreamer estava a fazer.
- Eu queria saber - disse ele subitamente - para onde vai aquele bailei depois da temporada na Argentina.
Nunca perdia uma oportunidade para uma advertncia. Porque ele sabia que Winifred ainda tinha uma fraqueza, se no por Dartie, pelo menos para no expor as misrias 
dele em pblico. Embora no achasse bom mostrar-lhe admirao, admitia que ela estava a proceder extremamente bem, com todos os filhos em casa suspirando por notcias 
do pai: Imogen j em idade de ser apresentada na sociedade e Val muito inquieto a propsito de tudo.
Ele sentia que Val era a verdadeira preocupao de Winifred a esse respeito, pois, indiscutivelmente, ela preferia-o a todos os outros filhos. O rapaz poderia provocar 
a paralisao do processo, se o resolvesse fazer. De forma que Soames tomava todo o cuidado em afastar dos ouvidos do sobrinho quaisquer referncias aos preliminares 
do caso, que j estavam a realizar-se. Fez mais: convidou Val a ir jantar com ele no Remove, e, depois de ver o rapaz acender um charuto, introduziu o assunto que, 
sabia-o, lhe tocava to de perto o corao.
- Ouvi dizer que voc pretende jogar plo em Oxford.
Val rectificou um pouco a sua posio reclinada na cadeira.
- Exactamente! - disse ele.

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- Bem - continuou Soames. -  uma coisa muito dispendiosa. Seu av no consentir nisso se no lhe garantirem que no o sangraro tambm por outro lado.
E fez uma pausa, para ver se o rapaz compreendia o que ele queria dizer.
Os espessos clios escuros de Val escondiam-lhe os olhos, mas uma ligeira careta contraiu-lhe a boca larga e ele murmurou:
- Creio que o senhor est a referir-se ao pap!
- Sim - retorquiu Soames. - Receio que o seu projecto dependa da alternativa de seu pai continuar a ser ou no uma fonte de despesas para a famlia.
Mas Val tambm andava a sonhar, por esses dias, com um palafrm ruo-prateado e com a pequena que o montava. Embora Crum estivesse em Londres e uma apresentao 
a Cynthia Drake dependesse apenas de um pedido seu, Val no fez esse pedido.
Na verdade, ele evitava Crum e vivia uma vida estranha at para si prprio, excepto no que se referia a assuntos com o alfaiate e com cavalos de aluguel. Para a 
me, para as irms, para o irmo mais novo, Val estava a empregar aquelas frias em "visitar colegas" e as suas noites a dormir em casa. No lhe podiam propor nada 
durante o dia que ele no respondesse: "Sinto muito, combinei ver um amigo." E despendia um cuidado extraordinrio em sair e entrar despercebido em casa, quando 
estava em trajos de montar. At que, sendo admitido como membro do Goats Club, levou a montaria para l, onde podia trocar de roupa sem que ningum o visse e deslizar 
no seu cavalo de aluguel para Richrnond Park. Tratava religiosamente, mesmo consigo prprio, o seu novo sentimento. No deu uma palavra a respeito dele aos "colegas", 
que alis no tentava sequer encontrar - e que considerariam o facto muito ridculo, to avanados eram os seus credos. Mas no podia impedir que o amor lhe destrusse 
todos os outros apetites, interpondo-se entre ele e os legtimos prazeres da juventude, de tal modo que - o prprio Val o sabia - estava a tornar-se um maricas aos 
olhos de Crum. Tudo em que ele cuidava era vestir-se pelos ltimos figurinos de equitao e escapulir-se para o porto de Robin Hill, onde deveria chegar a gua 
rua, montada modestamente pela sua amazona de cabelos escuros,

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e na suave queda das folhas enquanto os dois cavalgavam lado a lado, falando pouco, apostando corridas s vezes, e s vezes segurando-lhe as mos. Mais de uma vez, 
aos seres, em momentos de expanso, ele se sentira tentado a falar  me naquela priminha arisca e meiga, contar-lhe quanto ela j se apoderara dele e lhe enchera 
a vida. Porm uma amarga experincia ensinava-lhe que gente de mais de trinta e cinco anos  pouco compreensiva. E, afinal, Val pensava que teria de voltar ao colgio 
e ela teria de "aparecer em sociedade" antes que pudessem casar. Para qu ento complicar as coisas enquanto a pudesse ver? Irms so entes importunos e antipticos, 
um irmo ainda  pior, de forma que no havia ningum a quem fazer confidncias. Ah! Aquele horroroso processo de divrcio! Que infelicidade ter um nome que outras 
pessoas no usavam! Se ao menos ele se chamasse Gordon, ou Scott, ou Howard, como toda a gente! Mas Dartie - no havia outro no colgio roteiro. Mais lhe valeria 
chamar-se Morkin, pelo apoio que lhe trazia! E as coisas iam assim, at que um dia, nos meados de janeiro, o palafrm ruo-prateado e a sua amazona no apareceram 
no ponto de encontro. Hesitante, no ar frio, Val discutia consigo se deveria ou no ir at  casa. Jolly poderia estar l, e ainda conservava fresca na memria a 
lembrana do encontro de ambos na escurido do jardim. E ele no podia viver a lutar com o irmo dela! De forma que voltou tristemente para a cidade e passou a tarde 
mergulhado em negra melancolia. No dia seguinte, ao pequeno-almoo, notou que a me usava um vestido diferente e estava de chapu na cabea. O vestido era preto, 
com vivos de azul-pavo, o chapu preto e grande - ela estava excepcionalmente bonita. Porm, quando, depois do pequeno-almoo, a me lhe disse: "Venha c, Val", 
dirigindo-se para a sala de estar, ele sentiu-se possudo de um desfalecimento. Winifred fechou cuidadosamente a porta e passou o leno sobre os lbios. Aspirando 
o perfume de violetas de Paran que o leno desprendia, Val perguntava intimamente: "Ser que ela soube alguma coisa a respeito de Holly?" A voz da me interrompeu-lhe 
o pensamento:
- Voc quer ser amvel comigo, meu filho? - Val sorriu dubiamente. - Quer acompanhar-me agora de manh...
- Tenho de ir ver... - comeou Val.


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Mas qualquer coisa que viu no rosto dela f-lo interromper-se. - Quero dizer... - prosseguiu ele - a mam no se refere...
- Sim, tenho de ir ao tribunal agora de manh.
J! Aquele diablico caso, que ele j quase conseguira esquecer desde que ningum o mencionava! Com d de si mesmo, ficou de p, apertando entre os dedos pequenos 
pedaos da pele do rosto. Mas, percebendo ento que os lbios da me estavam contorcidos, disse impulsivamente:
- Pois no, mam. Vou consigo. Brutos!
Quais eram os brutos, ele no sabia, mas a expresso traduzia exactamente o sentimento de ambos e trouxe-lhes uma certa serenidade.
- Creio que  melhor eu mudar de roupa - murmurou ele, fugindo para o quarto.
Ps um colarinho alto, um alfinete de gravata, um shooter e as suas polainas cinzentas mais novas, numa combinao meio hertica. Olhando para si mesmo no espelho, 
disse: "Bem, quero ir para o Inferno, se deixar perceber alguma coisa!" E saiu. Encontrou na porta de sada a carruagem do av, e dentro dela a me, envolta em peles, 
com o aspecto de quem ia a uma recepo na Mansion House (1). Sentaram-se ao lado um do outro, no barouche fechado, e durante todo o caminho para o tribunal Val 
apenas fez uma aluso ao processo.
- Eles no vo falar na histria das prolas, pois no?
O pequeno regalo branco de peles de Winifred ps-se a tremer.
- Oh, no - disse ela. - Hoje tudo ser muito simples. A sua av quis vir comigo, mas eu no quis. Julguei que o meu filho poderia cuidar de mim. Voc est to bonito. 
Val. Empurre apenas o colarinho um pouco mais para trs... est bem.
- Se eles a ameaarem...
- Oh, no o faro. Pretendo mostrar-me muito calma.  o nico meio.
- No iro chamar-me para testemunhar, ou qualquer coisa parecida?
- No, meu querido. J est tudo arranjado.

*1. Palcio do Lord Mayor de Londres. (N. da T.)

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E ela acariciou-lhe a mo. A determinao que se lia na fronte de Winifred fez parar o tumulto que lavrava no peito de Val, e ele entreteve-se em tirar e calar 
as luvas. Via agora que trouxera exactamente o par que no combinava com as polainas, deveriam ser cinzentas, mas eram de uma camura pardo-escura. No podia decidir 
se as tiraria ou no. Chegaram bastante antes das dez horas. Era a primeira vez que ele ia  Law Courts, e o edifcio impressionou-o.
- Cristo!-exclamou quando atravessavam o hall. - Dava para quatro ou cinco bons campos de tnis!
Soames j os esperava ao p da escada.
- C esto vocs! - disse ele, sem lhes apertar as mos, como se o acontecimento os houvesse tornado ntimos de mais para tais formalidades. -  na Happerly Browne 
Court I Seremos os primeiros.
Uma sensao idntica  que experimentava quando ia mergulhar num banho gelado feriu o peito de Val, mas acompanhou fielmente a me e o tio, como algum a quem nada 
mais poderia valer e achando que o tribunal cheirava a mofo. A gente que andava l parecia viver a espiar os outros, e ele segurou Soames pela manga:
- Escute, tio, o senhor no vai deixar os miserveis desses jornais comentarem o caso, vai?
Soames trespassou-o com um daqueles seus olhares de vis que j haviam feito calar tanta gente.
- Aqui - disse ele - voc no precisa de tirar as suas peles, Winifred.
Val entrou atrs dele, irritado e de cabea erguida. Naquele desgraado buraco, toda a gente - e havia muita gente - parecia estar sentada nos joelhos uns dos outros, 
embora estivessem separados pelos bancos. E Val teve a impresso de que iam escorregar todos para o vazio no centro do anfiteatro. Isso, entretanto, no foi mais 
que uma viso momentnea - a que se associavam os mveis de mogno, togas pretas, as brancas perucas em cachos e caras, e papelada - tudo secreto e surrado - antes 
que ele se sentasse ao lado da me na primeira fila, voltando as costas para toda a gente, consolando-se em aspirar o cheiro de violetas de Parma

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e decidindo-se afinal a tirar as luvas. A me olhava-o, e teve a sbita conscincia de que ela desejara realmente t-lo ao seu lado e que ele pesava de algum modo 
no caso. Pois bem! Iria mostrar quela gente! Erguendo os ombros, cruzou as pernas e fitou inescrutvehnente as polainas. Mas nesse mesmo instante um velhote de 
beca e grande peruca, vergonhosamente parecido com uma velha cmica enfeitada, passou por uma porta, junto  fileira de bancos defronte, obrigando-o a descruzar 
rapidamente as pernas e a pr-se de p como toda a gente. "Dartie versus Dartie!"
Foi inexprimivelmente desagradvel para Val ver o seu nome apregoado daquela forma em pblico. E, consciente de sbito de que algum perto dele, bem atrs, estava 
a falar da sua famlia, volveu o rosto e viu um velho palhao de grande peruca, que falava como se estivesse a mastigar as palavras - velhote esquisito, que ele 
j vira uma vez ou duas a jantar em Park Lane e a entornar o vinho do Porto, compreendia agora que estavam a "amans-lo" ento em casa do av. Ao mesmo tempo, achava 
o velho palhao quase fascinante, e teria continuado assim, a fit-lo, se a me no lhe tocasse no brao. Reduzido a olhar em frente de si, fixou o olhar na cara 
do juiz. Porqu aquele outro velhote, de boca sarcstica e olhos activos, gozava do poder de se imiscuir nos assuntos privados dos outros? No teria ele prprio 
os seus assuntos, iguais aos de todos, e provavelmente iguais aos mais srdidos? E aquilo agitou em Val, como uma dor, o profundo individualismo que ele trazia de 
nascena na massa do sangue. A voz por trs dele continuava a zumbir:
- Divergncias sobre assuntos financeiros. Extravagncias do acusado. - Que palavra! Seria o seu pai o acusado? - Situao tensa... frequentes ausncias da parte 
de Mr. Dartie. A minha cliente, com toda a razo... Vossa Graa h-de concordar comigo, sentia-se ansiosa por pr fim a uma situao que apenas poderia lev-la  
runa, advertia-o contra o jogo de cartas e as apostas em cavalos de corridas. - "Est bem", pensava Val, "carreguem!" - A crise dos comeos de Outubro, quando o 
acusado escreveu esta carta, datada do seu clube... Val sentiu as orelhas a arder.

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- Proponho que se leia isso, assinalando as emendas e rasuras naturais a uma epstola escrita por um gentleman que, com a permisso de Vossa Graa, estava... a jantar...
"Besta velho!", pensou Val, corando profundamente. "No esto a pagar-lhe para dizer pilhrias!"
- Agora j voc no poder voltar a insultar-me em minha prpria casa. Partirei amanh da Inglaterra. Ele emprega aqui uma expresso, meritssimo juiz, bem frequente 
na boca de todos aqueles que no tiveram xitos apreciveis.
"Coruja ridcula!", pensou Val. E o seu rubor acentuou-se.
- Estou cansado dos seus insultos. A minha cliente informar Vossa Graa de que esses alegados insultos consistiram apenas na expresso "voc no vale nada", uma 
expresso suave, arrisco-me a dizer, dadas as circunstncias.
Val olhou de vis para o rosto impassvel da me - havia um ar de pnico nos seus olhos. "Pobre mam", pensou ele. E tocou com o seu o brao de Winifred. A voz atrs 
deles continuava a zumbir.
- Vou iniciar uma vida nova. M. D. E no dia seguinte, meritssimo juiz, o acusado embarcou no navio Tuscarora, com destino a Buenos Aires. Desde ento, no recebemos 
nenhuma notcia dele, a no ser uma negativa, pelo cabo submarino, em resposta  carta que a minha cliente lhe escreveu no dia seguinte, consumida de desgosto, pedindo-lhe 
que voltasse para casa. Com permisso de Vossa Graa, chamarei Mrs. Dartie ao banco das testemunhas.
Quando a me se levantou, Val teve um tremendo mpeto de erguer-se tambm e dizer: "Olhem! Quero preveni-los de que faro muito bem em trat-la decentemente." Mas 
dominou-se, e, ao ouvi-la dizer "A verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade", ergueu os olhos. Ela fazia uma bonita figura com as suas peles e o grande chapu, 
um leve rubor nas faces, calma, lacnica, e sentiu-se orgulhoso por v-la enfrentar assim "aqueles desgraados rbulas". O inqurito comeou. Sabendo que aqueles 
eram apenas os preliminares do divrcio, Val acompanhava com certa satisfao o questionrio organizado de modo a dar a entender que ela apenas queria a volta do 
marido. Parecia-lhe que era uma forma "de enganar inteligentemente as velhas perucas".

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E teve um choque muitssimo desagradvel quando o juiz disse de sbito:
- E agora, porque foi que o seu marido a abandonou? No foi porque a senhora lhe disse que "ele no valia nada"?
Val viu o olhar do tio brilhar em direco ao banco das testemunhas, sem que o rosto dele se movesse, ouviu um agitar de papis atrs de si, e o instinto disse-lhe 
que a sada estava em perigo. Seria que o tio Soames e o palhao velho de trs teriam feito alguma embrulhada com aquilo? A me estava a falar com um ligeiro tremor.
- No, senhor juiz, tudo j estava mal h muito tempo.
- Que  que andava mal?
- As nossas divergncias a respeito de dinheiro.
- Mas a senhora dava-lhe dinheiro. E pretende que ele a abandonou para melhorar de posio?
"Que bruto! Velho bruto, bruto, bruto!", pensou Val de sbito. "Parece um rato a farejar... a querer atirar-se a um queijo..." E o seu corao parou de sbito. Se... 
se o juiz dizia aquilo, ento, na verdade, sabia muito bem que a me no queria que o pai voltasse. A me falou num tom um pouco mais mundano:
- No, senhor juiz, mas eu recusei-me a dar-lhe mais dinheiro. Ele levou bastante tempo a acreditar nisso, mas acreditou por fim, e quando acreditou...
- Eu sei, a senhora recusou.. Mas a senhora mandou-lhe algum dinheiro, depois.
- Senhor juiz, eu queria que ele voltasse.
- E a senhora pensava que isso o traria de volta?
- No sei, senhor juiz. Agi assim por conselho de meu pai. Algo que Val notou no rosto do juiz, no som de papis por
trs dele, no sbito cruzar das pernas do tio, mostrou-lhe que ela dera a resposta adequada.
((Muito hbil!", pensou ele. "Mas, meu Deus, quanto fingimento!"
O juiz falava agora:
- Apenas uma pergunta mais, Mrs. Dartie: a senhora ainda estima o seu marido?

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As mos de Val, que pendiam junto ao corpo, cerraram os punhos. Que necessidade tinha aquele juiz de levar as coisas para aquele plano humano? Fazer a me falar 
a respeito do seu prprio corao, dizer talvez o que nem ela prpria sabia, diante de toda aquela gente! No era decente. E Winifred respondeu em voz baixa:
- Sim, senhor juiz.
Val viu o juiz baixar a cabea. "Ah, se eu pudesse dar-lhe um tabefe no crnio!", pensou irreverentemente o rapaz, enquanto a me se erguia e voltava a sentar-se 
ao seu lado. Seguiram-se os testemunhos da partida e ausncia permanente do pai - e o que foi prestado por uma das prprias criadas de sua casa chocou Val como particularmente 
repulsivo. Houve mais palavrrio, mais mentiras, e ento o juiz pronunciou a intimao, mandando que o acusado reintegrasse o lar. E todos partiram. Val caminhava 
atrs da me, com o queixo cerrado, os clios baixos, nivelando a todos no mesmo desprezo. A voz da me, no corredor, tirou-o de um espasmo de clera:
- Voc portou-se muito bem, querido. Foi uma grande consolao para mim t-lo ali. Seu tio e eu vamos almoar.
- Muito bem - disse Val. - Ainda tenho tempo de apanhar aquele meu colega.
E, separando-se abruptamente deles, correu para as escadas e para o ar livre. Atirou-se a um carro e mandou que se dirigisse para o Goats Club. S cuidava em ver 
Holly e no que deveria fazer antes que o irmo dela lhe mostrasse aquilo tudo nos jornais do dia seguinte.
Quando Val os deixou, Winifred e Soames encaminharam-se para o Cheshdre Cheese. Ele combinara aquele local de encontro com Mr. Bellby. quela hora matinal, disporiam 
de lugares quase s para eles, Winifred julgara que seria interessante conhecer a famosa casa de pasto. Depois de pedirem uma refeio ligeira, para consternao 
do criado, esperaram juntos a chegada de Mr. Bellby - em silenciosa reaco depois da meia hora de suplcio nas garras da publicidade. Mr. Bellby entrou, precedido 
pelo seu nariz,

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to jovial quanto eles estavam sombrios. Ento! Tinham obtido o mandato de reintegrao de domiclio, e isso j era muito!
- Realmente - disse Soames em voz baixa, como convinha. - Mas temos agora de preparar nova espcie de provas. Porque haver decerto processo de divrcio, e o caso 
parecer suspeito  Corte se se descobrir que, desde o comeo, j estvamos informados do adultrio dele. As perguntas do juiz mostraram claramente que ele no estava 
a aceitar bem essa tentativa de reintegrao de domiclio.
- Ora - disse jovialmente Mr. Bellby -, ele esquece isso tudo. Pense que um juiz desses tem de tratar de uma centena de casos entre uma audincia e outra. Alm disso, 
j tem obrigado os precedentes de divrcio anteriores, concedidos quando as provas so satisfatrias. Basta que no o deixemos saber que Mrs. Dartie tem conhecimento 
dos factos. Dreamer resolver isso muito bem. - Soames assentiu com um gesto.-Quero cumpriment-la, Mrs. Dartie - continuou Mr. Bellby. - A senhora tem um dom natural 
para depor. Forte como um rochedo.
Chegou ento o criado com trs pratos numa s mo, observando:
- Mandei apressar as empadas, sir. Hoje o recheio  de codornizes.
Mr. Bellby aplaudiu essa previso com um fungar do nariz, mas Soames e Winifred olhavam com desconfiana para o prato e tocavam cautelosamente com a ponta do garfo 
a massa escura da empada, na esperana de distinguirem os corpos das codornizes. No entanto, depois de comearem, ambos sentiram que tinham mais fome do que supunham 
e comeram o prato todo, com um copo de Porto cada um. A palestra girou sobre a guerra. Soames achava que Ladysmith cairia mesmo que fosse preciso esperar um ano 
para isso. Bellby achava que tudo estaria terminado pelo Vero. Ambos concordaram em que era preciso mandar mais homens. Isso garantiria a vitria completa, j que 
se tratava agora de uma questo de prestgio. Winifred trouxe a conversa para um terreno mais slido, declarando que no queria que o processo de divrcio se prolongasse 
at depois do incio das frias de Vero em Oxford. Assim, os rapazes j teriam esquecido de todo o caso quando Val voltasse para o colgio. Os advogados afirmaram-lhe 
que era indispensvel um intervalo de seis meses,

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depois disso, quanto mais depressa, melhor. O restaurante comeava a encher-se, e os trs partiram, Soames para a City, Bellby para o seu escritrio, Winifred apanhou 
um cab e encaminhou-se para Park Lane, a fim de contar  me o que se passara. Tudo afinal decorrera to bem, tomado em conjunto, que se combinou contar a James, 
pois o velho no cessava de repetir, dia aps dia, a propsito do caso de Winifred, que "ele no sabia, no poderia dizer..."
Recebeu as notcias de m vontade. Era uma maneira nova que tinham agora de tratar as coisas, e ele no sabia, no poderia dizer! Porm deu um cheque a Winifred, 
acrescentando:
- Acho que voc deve ter tido uma poro de despesas. Est com um chapu novo. Porque  que Val no vem visitar-nos?
Winifred prometeu traz-lo qualquer dia para jantar. Ao chegar a casa, subiu para o quarto de dormir, onde poderia estar s. E agora, que tinham intimado o seu marido 
a reintegrar o lar, com o fito exclusivo de a afastar dele para sempre, tentou descobrir mais uma vez, no seu corao triste e solitrio, o que era que realmente 
queria.

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CAPTULO VIII

O DESAFIO


Amanh estava nevoenta, com tendncia para nevar, mas o sol apareceu quando Val trotava em direco a Rochampton Gate, donde se ps a galopar at ao habitual ponto 
do encontro. O seu estado de esprito melhorava rapidamente. Afinal, no houvera nada de to terrvel na cerimnia da manh, alm da desagradvel violao da vida 
privada. "Se ns fssemos noivos", pensava ele, "nada do que acontecesse teria importncia." E sentia-se, com efeito, igual a todo o resto da sociedade humana, que 
lamenta os maus resultados do casamento, e entretanto diligencia por se casar. E galopou por entre a relva seca pelo Inverno de Richmond Park, com medo de estar 
atrasado. Porm encontrou-se sozinho no ponto combinado, e essa segunda defeco da parte de Holly abalou-o terrivelmente. Hoje, especialmente hoje, no poderia 
voltar sem a ter visto! E, saindo do parque, continuou a andar em direco a Robin Hill. No podia resolver definitivamente por quem perguntaria quando chegasse 
l. Imagine-se que o pai houvesse voltado ou que a irm ou o irmo estivessem l! Decidiu-se a arriscar e perguntar primeiro por todos, caso tivesse sorte e no 
houvesse ningum, seria muito natural perguntar ento por Holly, se estivesse algum, salvar-se-ia alegando que a visita "fora um pretexto para um passeio a cavalo".
- S Miss Holly est em casa, sir.

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- Oh, obrigado. Posso levar o meu cavalo para a cavalaria? E faa o favor de anunciar a Miss Holly o primo dela... Mr. Val Dartie.
Quando voltou, ela estava no hall, muito corada e medrosa. Conduziu-o at ao fundo da sala e sentaram-se junto a uma sacada.
- Fiquei terrivelmente inquieto - disse Val em voz baixa. - Que sucedeu?
- Jolly j sabe dos nossos passeios a cavalo.
- Ele est em casa?
- No. Mas espero-o de um momento para o outro.
- Ento! - exclamou Val. E, inclinando-se, tomou-lhe a mo. Ela tentou recuar, mas no o conseguiu, desistiu da tentativa, e ficou a olhar o primo intensamente. 
- Primeiro que tudo - continuou ele -, quero contar-lhe Uma coisa a respeito da minha famlia. Meu pai, voc sabe, no est... Isto , ele deixou minha me, e esto 
a tentar divorciar-se. Hoje fizeram a intimao para ele reintegrar o lar. Amanh isso sai nos jornais. - Os olhos de Holly escureceram, tomados de assustado interesse, 
a mo dela apertou a dele. Porm o jogador que havia em Val dominou-o de novo, e ele prosseguiu rapidamente: - Naturalmente, isso no quer dizer nada, at agora, 
mas creio que vai piorar muito. Um processo de divrcio  uma coisa horrorosa:, voc sabe. E eu fiz questo de lhe contar porque... porque... voc deveria saber 
se... - E ps-se a gaguejar, fixando os olhos muito abertos da moa. - Se voc for um anjo e gostar de mim, Holly, eu adoro-a e queria que ficssemos noivos. - Ele 
dissera tudo de modo to atabalhoado que lhe dava vontade de esmurrar a prpria cabea, e, escorregando de joelhos, procurou aproximar-se mais do rosto meigo e perturbado 
dela. - Voc gosta de mim, no gosta? Se voc no gostar, eu...-Houve um momento de silncio e de suspenso, to assustador que ele podia ouvir o som de uma tosquiadora 
que pretendia cortar a relva inexistente do campo de tnis. Ela inclinou-se ento para a frente, a sua mo livre tocou os cabelos dele e o rapaz arquejou: - Oh, 
Holly!
Ele sonhara com aquele momento, mas sempre de um modo imperativo, imaginando-se o jovem amante e senhor. E agora sentia-se humilde, comovido, trmulo. Receava erguer-se 
e quebrar o encanto,

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com medo de que se deixasse de estar ali, ajoelhado, ela se recobrasse e negasse a sua prpria rendio - to trmula tambm estava ela no seu abrao, com os clios 
baixos e os lbios prximo dos seus. Os olhos da moa abriram-se e pareciam um pouco hmidos, Val comprimiu os lbios nos dela. E de sbito ergueu-se, ouvira passos, 
uma espcie de gemido abafado. Olhou em torno. Ningum! Porm as longas cortinas que dividiam o hall ainda estavam a oscilar.
- Deus do Cu! Quem ser? Holly tambm estava de p.
- Creio que  Jolly - murmurou ela. Val cerrou os punhos e decidiu:
- Muito bem! J no me importo com coisa alguma, uma vez que estamos noivos!
E correu largamente as cortinas. Junto  lareira do hall, estava Jolly, propositadamente virado de costas. Val avanou: Jolly voltou-se e encarou-o.
- Peo-lhe perdo por ter ouvido - disse ele.
Mesmo com as melhores intenes do mundo, Val no poderia deixar de o admirar naquele momento. Tinha o rosto impassvel. a voz lmpida, e parecia estranhamente fidalgo, 
agindo de acordo com os seus princpios.
- Est bem - disse Val abruptamente. - No tem de que pedir desculpas.
- Oh! - exclamou Jolly. - Venha por aqui, por favor.
E atravessou o hall, seguido pelo primo. Na porta do escritrio, sentiu que lhe tocavam o brao e a voz de Holly disse:
- Eu tambm vou.
- No - disse Jolly.
- Sim - insistiu Holly.
Jolly abriu a porta e todos entraram. Dentro da pequena sala, colocaram-se em tringulo, nos cantos do espesso tapete turco, profundamente perturbados, sem olharem 
uns para os outros, realmente incapazes de descobrir qualquer coisa de cmico na situao.
Val quebrou o silncio:
- Holly e eu estamos noivos.
Jolly deu uns passos para trs e encostou-se  janela.

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- Estamos em nossa casa - disse ele -, e no posso insult-lo aqui. Porm meu pai est em Paris. Tenho de cuidar de minha irm. Voc aproveitou-se disso.
- No vejo as coisas assim - retorquiu Val, irritado.
-  como eu as vejo - continuou Jolly. - Seno, porque no me falou ou no esperou pela volta de meu pai?
- Tive motivos para isso.
- Que motivos?
- Razes de famlia. Acabei de contar a Holly. Quis que ela soubesse de tudo antes que as coisas acontecessem.
De sbito, Jolly tornou-se menos distinto.
- Vocs so uns garotos - disse ele. - Voc sabe bem disso.
- No sou um garoto - protestou Vl.
- ... Voc ainda no fez vinte anos.
- E que idade tem voc?
- Eu j fiz vinte anos - disse Jolly.
- Acabou de os completar. E, de qualquer modo, sou to homem como voc.
O rosto de Jolly tornou-se carmesim, depois ficou sombrio. Evidentemente estava a processar-se uma luta qualquer dentro dele, e Val e Holly esperavam de p, defrontando-o, 
to claramente aquela luta se acusava. Podiam at ouvi-lo respirar. Depois o rosto do rapaz desanuviou-se, e ele mostrou-se estranhamente resoluto.
- Vamos ver isso. Desafio voc a fazer o que eu farei.
- Desafia? Jolly sorriu.
- Sim, desafio-o. E sei muito bem que no o far.
Uma punhalada de dvida atravessou Val, aquilo era galopar no escuro.
- No me esqueci de que voc  um mata-mouros - disse Jolly lentamente-, e na verdade penso que voc no passa disso. E voc chamou-me "pr-Boer". - Val ouviu um 
arfar alm do som do seu prprio flego e viu o rosto de Holly inclinado um pouco para a frente, muito plido, com os olhos muito abertos. - Sim - continuou Jolly, 
com uma espcie de sorriso -, breve o veremos. Vou alistar-me no corpo dos Imperial Yeomanry, e desafio-o a fazer o mesmo, Mr. Val Dartie.

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A cabea de Val recuou. Fora como se recebesse uma pancada entre os olhos, to inesperado era aquilo, to excessivo e apavorante no meio do seu enlevo amoroso, e 
olhou para Holly com os olhos subitamente arregalados, comoventemente confuso.
- Sente-se! - disse Jolly. - Tem tempo para pensar! Pense bem no que vai fazer.
E ele prprio sentou-se no brao da cadeira do av.
Val no se sentou, ficando em p, com as mos enterradas nos bolsos, os punhos cerrados e trmulos. Os terrveis aspectos de ambas as decises entre as quais era 
obrigado a escolher feriam-lhe o esprito, como um boxeur enfurecido que o golpeasse pelos dois lados. Se no aceitasse o "desafio", ficaria perdido aos olhos de 
Holly e aos olhos do seu jovem inimigo - aquele bruto do irmo. Se o aceitasse, ento tudo se desvaneceria - o rosto dela, os olhos, os cabelos, os seus beijos que 
mal tinham comeado!
- No se apresse - disse de novo Jolly. - No quero ser desleal.
E ambos olharam para Holly. Ela encostara-se s estantes que iam at ao tecto, e a sua cabea morena repousava contra o Roman Empire, de Gibbon, enquanto os olhos, 
numa espcie de suave agonia, estavam fixos em Val.
E ele, que no tinha nenhum pendor para a introspeco, teve de sbito uma viso que o cegou: ela ficaria orgulhosa do irmo - o seu inimigo-e ficaria envergonhada 
por ele, Val! As mos saram-lhe dos bolsos, como movidas por uma mola.
- Muito bem! - disse. - Aceito!
O rosto de Holly - oh, era estranho! Ele viu-a corar, inclinar-se para a frente. Acertara, pois. O rosto dela iluminara-se de ansiosa admirao. Jolly ps-se de 
p e inclinou-se de leve, como quem quer dizer: "Est combinado."
- Amanh ento - disse. - Iremos juntos. Recobrando-se do impulso que o levara quela deciso, Val
olhou-o maliciosamente por sob os clios. "Muito bem", pensou ele, "voc ganhou esta. Mas a prxima ser minha." E disse com dignidade:
- Estarei pronto.

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- Encontrar-nos-emos amanh, na Repartio de Recrutamento - disse Jolly -, s doze horas.
E, abrindo a porta, encaminhou-se para o terrao, de acordo com o seu credo de cavalheirismo que o fizera retirar-se quando os surpreendera no hall.
Era extrema a confuso de Val ao ver-se s com aquela por quem subitamente pagara to alto preo. Porm ainda predominava nele a disposio: "Para que vissem como 
ele era! Deve-se receber as piores coisas com um sorriso!"
- L teremos boas cavalgadas e bons exerccios de tiro - disse ele. - De qualquer modo, sempre  uma consolao. - E sentiu uma espcie de amargo prazer ao ouvir 
o suspiro que parecia provir do fundo do peito de Holly. - Oh, a guerra depressa estar acabada - continuou ele. - Talvez at nem tenhamos de embarcar para l. No 
me importo com coisa alguma, seno com voc.
O que ele queria era ver-se livre do horror daquele divrcio. Era uma coisa pssima! Sentiu a mo meio quente dela deslizar na sua. Jolly pensaria que tinha posto 
algum obstculo ao amor deles, hem? Apertou-a fortemente contra o peito, olhando-a docemente atravs dos clios semicerrados, sorrindo para anim-la, prometendo 
voltar logo para v-la, sentindo-se cerca de dez centmetros mais alto e muito mais senhor dela do que nunca o fora. Beijou-a muitas vezes antes de montar a cavalo 
e voltar para a cidade. E assim, agudamente, ante a menor provocao, o instinto de propriedade floresce e aumenta.

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CAPTULO IX

JANTAR EM CASA DE JAMES


J no havia jantares de cerimnia em casa de James, em qualquer famlia chega sempre uma poca em que o patro e a patroa "j no esto mais para isso". J no 
se serviam nove pratos seguidos a vinte bocas, nem o gato da casa teria mais de indagar, surpreso, por que razo era subitamente enxotado.
De forma que foi com certa excitao que Emily - pois, apesar dos seus setenta anos, ainda apreciava festas e elegncias - deu ordens para um jantar de seis talheres 
em vez de apenas dois, escreveu ela prpria uma poro de palavras estrangeiras nos menus e arranjou as flores- mimosas da Riviera e brancos jacintos romanos que 
no vinham de Roma.  verdade que os convivas seriam apenas James e ela, Soames, Winifred, Val e Imogen - mas Emily sentia prazer em renovar, pelo menos em imaginao, 
as glrias do passado.
E vestiu um trajo decotado, o que fez James observar:
- Para que vestiu isso? Vai constipar-se.
Mas Emily sabia que o colo das mulheres  resguardado pelo prazer de brilhar, at mesmo aos oitenta anos, e respondeu apenas:
- Deixe-me pr-lhe um desses peitilhos de camisa que eu lhe dei, James, depois, basta apenas que mude as calas e vista o seu casaco de veludo. Val gosta de o ver 
bem vestido.

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- Peitilho de camisa! - exclamou James. - Voc vive a gastar dinheiro  toa.
Porm, suportou que lhe mudassem tudo e murmurou vagamente:
- Tenho medo de que ele d um sujeito extravagante. Com uma luz mais brilhante nos olhos e um pouco mais de
cor nas faces que de costume, dirigiu-se para a sua cadeira na sala de estar, a fim de esperar o toque da campainha na porta da rua.
- Organizei um jantar de cerimnia - disse Emily, satisfeita. - Achei que seria uma boa oportunidade para Imogen se habituar  sociedade, j que ela vai debutar 
em breve.
James emitiu um som indefinvel, pensando em Imogen quando ela costumava trepar-lhe nos joelhos ou rebentar bombas na sua companhia.
- Ela vai ficar bonita... - disse. - No me admiro...
- Ela  bonita - acrescentou Emily. - E h-de fazer um bom casamento.
- L est voc.... - murmurou James. -  muito melhor que fique em casa e cuide da me. Se um segundo Dartie lhe levasse a sua linda neta, aquilo acabaria com ele! 
Nunca perdoara a Emily por se ter deixado levar por Montague Dartie, como ele prprio tambm se deixara. - Onde est Warmson? - perguntou de sbito o velho. - Quero 
beber um copo de Madeira hoje  noite.
- Vamos ter champanhe, James. James abanou a cabea.
- No. Champanhe no me far bem nenhum.
Emily inclinou-se na sua cadeira prximo do fogo e tocou a campainha.
- O seu patro quer que traga uma garrafa de Madeira aberta, Warmson.
- No, no! - exclamou James, com a ponta das orelhas tremendo veementemente e os olhos fixos num objectivo visto apenas por ele. - Escute, Warmson: v  adega de 
baixo, e no meio da ltima prateleira,  esquerda, voc achar sete garrafas. Tire a do meio, mas no a agite.  a ltima garrafa de Madeira que recebi de Mr. Jolyon 
quando viemos para c... e nunca ningum mexeu nela.

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Deve estar ainda em excelentes condies. Porm no sei, no posso dizer...
- Est bem, sir - respondeu Warmson, retirando-se.
- Estava a guardar esse vinho para as nossas bodas de ouro
- disse James de sbito. - Mas no viverei mais trs anos, na idade em que estou.
- Tolices, James--disse Emily. - No fale assim.
- Eu mesmo  que devia ter ido buscar - murmurou James. - Ele vai agitar a garrafa, como se fosse um vinho qualquer.
E caiu em silenciosa rememorao dos longos momentos
- junto aos bicos de gs acesos, s teias de aranha, ao cheiro de vinhos armazenados - passados por ele na adega, momentos que lhe serviam de aperitivo para muitas 
festas. No vinho daquela adega estava escrita a histria dos quarenta anos que tinham decorrido desde que ele viera para Park Lane com a sua jovem noiva e das vrias 
geraes de amigos e conhecidos que j haviam passado para o desconhecido desde ento, as suas prateleiras, hoje desfalcadas, guardavam a histria das festividades 
de famlia - todos os casamentos, nascimentos e mortes de parentes e amigos, E quando ele, James, j tambm houver partido, a adega ficar, sem que ele saiba o que 
ser feito dela. Se a beberem toda ou a estragarem, no ser ele quem se admire!
A entrada do filho arrancou-o dessa cisma profunda, e logo depois chegaram Winifred e os dois filhos mais velhos.
Foram para a sala de jantar de braos dados, James com Imogen - a debutante -, porque a companhia da linda neta alegrava-o, Soames com Winifred, Emily com Val, cujos 
olhos luziram ao ver o prato de ostras. Seria uma excelente despedida, com champanhe e vinho do Porto! Sentia-se realmente carecido disso, depois do que fizera durante 
o dia, e que ainda no fora divulgado. Aps os primeiros copos, pareceu-lhe agradvel ter aquela dinamite escondida dentro da manga - aquela pea sensacional de 
patriotismo -, ou antes, aquele exemplo de desafio pessoal, porque o seu prazer naquilo que fizera pela ptria e pela rainha tinha, aos seus olhos, um significado 
inteiramente pessoal. Porque Val no se sentia um homem de caserna, indissoluvelmente ligado a armamentos e a cavalos, tinha direito a sentir-se vaidoso, mas no,

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naturalmente, do que estava a fazer. Iria anunciar o facto sobriamente, quando houvesse uma pausa na conversa. E, espiando o menu, resolveu que quando chegassem 
s bombes aux fraises seria o melhor momento. Haveria uma certa solenidade, enquanto estivessem a comer aquilo. Uma ou duas vezes, antes que atingissem esse rseo 
clmax do jantar, ocorreu a Val que nunca contavam nada ao av. E, alm disso, o velho estava a beber Madeira com um ar to contente! Mas, por outro lado, talvez 
lhe agradasse aquela compensao  desagradvel notoriedade do divrcio. A vista do tio, do lado oposto da mesa, tambm era um estmulo forte. Ele estava to longe 
de compreender certas coisas de sportsman que seria um prazer ver-lhe a cara na altura da comunicao. E, mais ainda, seria melhor participar o facto  me daquela 
maneira pblica do que intimamente, pois ento correria o perigo de se comover. Ele sentia muito quando pensava nela, mas, afinal, no  de esperar que algum sinta 
muito as tristezas alheias quando tem de enfrentar a separao de Holly.
A voz do av chegou dbilmente at ele.
- Val, prove um pouco do Madeira com o doce. Voc no pode ter isso no colgio.
Val olhou o leve lquido que lhe enchia o copo, que mostrava o leo caracterstico dos velhos vinhos a boiar-lhe  superfcie, e aspirou-lhe o aroma, pensando: "Agora!" 
Era um momento excelente. Bebeu, e um suave calor correu-lhe nas veias, j aquecidas. Com um rpido olhar em torno, disse:
- Alistei-me hoje nos Imperial Yeomanry, av. - E esvaziou o copo, como se bebesse uma sade ao seu prprio acto.
- O qu? - foi a dbil pergunta da me.
- Jolly Forsyte e eu alistmo-nos juntos.
- Voc j assinou?
- Assinei! Vamos para o campo na segunda-feira.
- Eu sabia! - gritou Imogen.
Todos olharam para James. Ele inclinava-se para a frente, com a mo em torno da orelha.
- O qu? - perguntou ele. - Que est ele a dizer? No posso ouvir.
Emily estendeu o brao para atingir a mo de Val.

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- Estamos apenas a dizer que Val se alistou nos Yeomanry, James. Esplndido para ele. Vai ficar muito bonito fardado.
- Alistou-se no... Que idiotice! - exclamou trmulamente James. - Voc no v dois palmos adiante do nariz! Ele... ele vai ter de sair da Inglaterra! Vai ter de 
ir para a guerra antes mesmo de saber o que est a fazer!
Val viu os olhos de Imogen, que o adimiravam, e sua me, tranquila e elegante, com o leno cobrindo os lbios. De sbito o tio disse:
- Voc ainda no tem idade bastante.
- Pensei nisso - sorriu Val. - Declarei vinte e um anos de idade.
Ouviu a av dizer, em tom admirativo:
- Pois, Val, foi herico isso que voc fez.
Estava cnscio da deferncia com que Warmson lhe enchia a taa de champanhe. E da voz do av, resmungando:
- No sei mesmo o que h-de acontecer se vocs continuam assim.
Imogen fazia-lhe festas no ombro, o tio olhava-o de lado. S a me se mantinha sentada, imvel, at que, impressionado pela calma dela, Val disse:
- Vocs sabem que tudo vai indo muito bem, depressa liquidaremos aquilo. S desejo  chegar l ainda a tempo de fazer qualquer coisa.
Sentia-se ensoberbecido, triste, e, ao mesmo tempo, tremendamente importante. Aquilo ensinaria ao tio Soames e a todos os Forsyte como  que se  sportsman. Fizera 
decerto algo de herico e excepcional declarando que tinha vinte e um anos de idade.
A voz de Emily trouxe-o de volta  terra:
- Voc no deve tomar mais outro copo, James. Warmson!
- Vo ficar assombrados em casa de Timothy! - exclamou Imogen. -Eu dava muito para ver a cara deles! Voc vai usar espada, Val, ou apenas uma espingarda?
- Quem lhe meteu isso na cabea?
A voz do tio produziu um leve choque na boca do estmago de Val. "Quem lhe metera na cabea?" Como responder quilo? E sentiu-se grato pelo socorro que a av lhe 
trouxera.

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- Pois eu acho muito bonito isso que Val fez. Tenho a certeza de que vai dar um soldado esplndido, tem exactamente o tipo prprio. Vamos ficar orgulhosos dele.
- Que  que tem o moo Jolly Forsyte com isso? Porque  que vocs foram juntos? - prosseguiu Soames, misteriosamente implacvel. - Supunha que vocs dois no eram 
muito amigos.
- No somos - rosnou Val -, mas eu  que no iria deixar-me bater por ele. - Viu que o tio o olhava de modo inteiramente diverso, como se o aprovasse. O av tambm 
balanava a cabea, concordando, e a av fazia o mesmo. Todos o aprovavam por no se deixar bater pelo primo. Devia haver uma razo para isso! Val estava obscuramente 
consciente de qualquer elemento perturbador colocado fora do seu campo de viso, uma coisa semelhante ao centro ainda no localizado de um ciclone. E, fixando o 
rosto do tio, teve a viso realmente inexplicvel de uma mulher de olhos pretos, cabelos louros e colo branco, que cheirava bem. usava lindas meias de seda, de quem 
ele gostava muito quando era pequenino. Por Deus, sim! Era a tia Irene! Ela gostava de o beijar, e ele um dia mordera-lhe o brao, de brincadeira, porque lhe agradava 
tanto - to macio. O av estava a falar.
- Que  que o pai dele anda a fazer?
- Est fora, em Paris - respondeu Val, fixando a expresso, realmente estranha, do rosto do tio, igual  de um co que rosna.
- Artistas! - comentou James. E aquela palavra, que vinha do mais profundo da alma do velho, ps termo ao jantar.
Defronte  me, no cab em que voltavam para casa, Val provou os outros frutos do herosmo, que tinham gosto de nsperas maduras de mais.
Na verdade, ela apenas disse que ele devia ir ao alfaiate, a fim de ter uma farda bem feita, e no se entrouxar na que lhe forneceriam no regimento. Mas Val pde 
ver muito bem que ela estava profundamente abalada. Veio-lhe aos lbios uma consolao: dizer  me que pelo menos assim ele estaria afastado daquele estpido divrcio. 
Mas a presena de Imogen e a conscincia de que ela, Winifred, no ficaria afastada do estpido divrcio, fizeram-no calar-se. Sentiu-se magoado por j no a ver 
orgulhosa do filho.

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Quando Imogen foi para a cama, ele arriscou uma nota emocional:
- Sinto horrivelmente ter de deix-la, mam.
- Bem,, vou tentar suportar isso o melhor que puder. Ns devemos fazer que lhe dem uma comisso o mais depressa possvel. Comissionado, as coisas no sero to 
duras para si. No conhece nenhum dos oficiais, Val?
- Nenhum.
- Espero que eles no o atormentem muito. Vou sair com voc amanh, para arranjar as coisas. Boa noite. D-me um beijo.
Com aquele beijo, macio e tpido, entre os olhos, e aquelas palavras "Espero que eles no o atormentem muito", Val sentou-se e acendeu um cigarro em frente do fogo 
moribundo. Estava com a cabea fora do lugar - excitado pela figura que fizera. E tudo aquilo escondia um pesar amaldioado. "Estarei sempre com aquele sujeito, 
o Jolly", pensava ele, subindo lentamente a escada e passando defronte do quarto onde a me mordia o travesseiro para amortecer os soluos desolados que a agitavam.
E mais um dos convivas do jantar de James estava desperto: Soames, no seu quarto de dormir sobre o quarto do pai. "Ento Jolyon estava em Paris - a fazer o qu? 
Rondando em torno de Irene!" O ltimo relatrio de Polteed anunciava algo de novo para breve. Seria isso? Aquele sujeito, com a sua barba, a sua odiosa maneira de 
falar, filho do velho que o apelidara de "Proprietrio" e comprara para ele a sua casa fatal. Soames sempre lamentara ter vendido a casa de Robim Hill e nunca perdoara 
ao tio por t-la comprado e ao primo por morar mela.
Indiferente ao frio, levantou a janela e olhou atravs do parque. A noite de Janeiro estava gelada e escura, o som do trfego era pequeno, caa geada, as rvores 
estavam nuas e via-se apenas uma ou duas estrelas.
"Vou ver Polteed amanh", pensou Soames. "Cos diabos! Acho que estou louco por ainda a querer. Aquele sujeito! Se... Hum! No!"

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CAPTULO X

A MORTE DO CO BALTHASAR


Jolyon, que cruzara o estreito durante a noite, chegou a Robin Hill no domingo pela manh. No avisara ningum, de forma que se dirigiu a p da estao para casa, 
entrando nos seus domnios pelo porto do bosque. Ao chegar ao banco arranjado no velho tronco cado, sentou-se, cobrindo primeiro o toro com o sobretudo. "Lumbago!", 
pensou. " assim que acaba o amor na minha idade!" E de sbito Irene pareceu-lhe muito prxima, exactamente como estivera naquele dia do passeio a Fontainebleau, 
quando eles se sentaram num tronco para comerem o almoo. Intensamente prxima! Chegava-lhe s narinas o perfume das folhas cadas, que brilhavam ao sol plido. 
"Felizmente, no estamos na Primavera", cismou Jolyon. "Com o cheiro dos pinheiros, o canto dos pssaros, o rebentar das flores, isto seria insuportvel! Espero 
que quando chegar a Primavera j tudo isto esteja acabado, velho maluco que sou!" E, apanhando o casaco, tornou ao seu caminho atravs dos campos. Passou pelo lago 
e subiu lentamente a encosta. J ao chegar a cima, um ladrido rouco saudou-o. E em p, no relvado que ficava depois da fernery, avistou o seu velho co Balthasar. 
O animal, cujos olhos embaciados tomavam o dono por um estranho, dava o alarme contra ele. Jolyon soltou o seu assobio especial. E mesmo quela distncia de mais 
de cem metros,

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pde ver o alvoroo que agitava o obeso corpo malhado de castanho e branco ao reconhec-lo. O velho co sacudia as ancas, e a sua cauda, enrolada sobre o dorso, 
iniciou um dbil e excitado balano. Avanou bamboleando-se, ergueu-se num impulso e desapareceu na entrada da fernery. Jolyon esperava encontr-lo na cancela, mas 
Balthasar no estava ali, e, alarmado, ele entrou na fernery. Deitado de lado, olhando para cima, com os olhos j vidrados, jazia o velho co.
- Que  isso, meu velho? - gritou Jolyon.
A cauda enrolada e peluda de Balthasar ainda se agitou e os seus Olhos embaciados pareciam dizer: "No posso levantar-me, meu dono, mas tenho muito prazer em v-lo 
de volta."
Jolyon ajoelhou-se. Os seus olhos, obscurecidos, dificilmente podiam ver a respirao que deixava aos poucos de agitar o ventre do animal. Ergueu lentamente a cabea 
imvel e pesadssima.
- Que  isso, velho amigo? Que foi que lhe deu?
A cauda ainda se agitou uma vez, os olhos perderam o ltimo brilho de vida. Jolyon passou as mos pelo vulto inerme e tpido. No fora nada - o corao deixara apenas 
de bater, naquele corpo obeso, ante a emoo da volta do dono.
E Jolyon sentiu o focinho do co, semeado de alguns plos brancos, tornar-se frio de encontro aos seus lbios. Ficou alguns minutos de joelhos, com a mo sob a cabea, 
pesada. O corpo pesava tambm muito, quando ele o levou at ao alto da encosta, o cho estava juncado de folhas mortas, e Jolyon fez com elas uma cobertura para 
o cadver do amigo. No soprava nenhum vento, e as folhas proteg-lo-iam de olhos curiosos at  tarde. "Quero eu prprio enterr-lo", pensou Jolyon. J se haviam 
passado dezoito anos depois que ele chegara um dia  casa de St. John's Wood, com o minsculo cachorrinho no bolso. Era estranho que o velho co morresse exactamente 
agora! Seria um pressgio? No porto, voltou-se para olhar o vulto coberto de folhas, depois caminhou lentamente em direco da casa, com um grande peso no peito.
June estava l. Viera a correr, ao saber da notcia do alistamento de Jolly. O patriotismo do irmo vencera as simpatias dela pelos Boers. A atmosfera da casa era 
estranha e agitada quando Jolyon entrou e contou que o velho Balthasar morrera. E a notcia teve o efeito de os solidarizar a todos. Rompera-se um elo com o passado

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- o velho Balthasar! Dois dos presentes no podiam lembrar-se de nada antes dele, para June, o co representava os ltimos dias do av, para Jolyon, a vida cheia 
de dificuldades domsticas e lutas estticas, antes da sua entrada no reinado do amor e da fortuna do pai! E agora desaparecera!
 tarde, ele e Jolly apanharam ps e enxadas e caminharam para o campo, escolheram um lugar prximo quele onde j estava o corpo, com o seu lenol de folhas secas, 
para no serem obrigados a lev-lo para mais longe, e comearam a cavar. Cavaram em silncio durante dez minutos, e ento descansaram.
- Bem, meu velho - disse jolyon. - Voc acha que era sua obrigao fazer o que fez?
- Sim - respondeu Jolly. - Naturalmente que no o desejava por mim.
Como aquelas palavras representavam exactamente o prprio estado de esprito de Jolyon!
- Admiro-o muito por isso, meu velho. No acredito que eu fizesse o mesmo na sua idade... receio que fosse uma coisa excessiva para um Forsyte. Porm creio que o 
tipo vai enfraquecendo, a cada gerao. O seu filho, se voc tiver filhos, h de ser um puro altrusta, quem sabe?
- Ento no h-de parecer-se comigo, pap, eu sou estupidamente egosta?
- No, meu filho, evidentemente voc no o . Jolly abanou a cabea e voltaram a cavar.
- Estranha vida a de um co - disse subitamente Jolyon. - O nico quadrpede com rudimentos de altrusmo e sentimento de Deus!
Jolly olhou para o pai.
- O senhor acredita em Deus, pap? Nunca tive uma certeza a esse respeito.
Ante essa pergunta partida de algum a quem lhe era impossvel dar uma resposta leviana, Jolyon soergueu-se um momento, com as costas doloridas da posio em que 
cavava a terra.
- Que  que voc entende por Deus? - perguntou ele. - H duas ideias irreconciliveis de Deus. Uns acreditam no Desconhecido Princpio Criador,

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enquanto outros acreditam em Algum que  a Substncia do altrusmo humano.
- Eu sei.  isso que nos leva a Cristo, no ?
Jolyon encarou o filho. Cristo, o elo entre essas duas ideias! Dito pela boca das crianas! Aqui estava por fim explicada cientificamente toda a ortodoxia! O sublime 
poema da vida de Cristo era a tentativa humana para reunir esses dois princpios irreconciliveis. E, afinal, desde que a Substncia do altrusmo humano tem uma 
parte maior do Desconhecido Princpio Criador, quanto nenhuma outra coisa na Natureza e no Universo poderia ser escolhida como um elo pior! Engraado como se pode 
atravessar a vida sem ver as coisas por esse prisma!
- Que  que voc pensa a esse respeito, meu velho? Jolly franziu o cenho.
- Bem, naturalmente, no meu primeiro ano de Oxford, ns falvamos muito a respeito dessas coisas. Porm no segundo ano j no nos preocupvamos com elas. E eu, no 
sei porqu...  terrivelmente interessante.
Jolyon recordava que ele tambm falara muito acerca dessas coisas no seu primeiro ano de Cambridge e abandonadas no segundo.
- Quero crer - disse Jolly - que era daquele segundo Deus em que o senhor falou que o velho Balthasar tinha noo.
- Isso mesmo. Seno ele no teria rebentado o seu pobre velho corao por amor de algum que no fosse ele prprio.
- Mas, na verdade, no seria isso tambm uma emoo egosta? Jolyon abanou a cabea.
- No. Os ces no so como os legtimos Forsyte, eles amam outras coisas alm deles prprios.
Jolly sorriu.
- Pois ento eu penso que sou Forsyte legtimo - disse ele. - S me alistei porque desafiei Val Dartie a alistar-se tambm.
- Mas porqu?
- Ns no nos suportamos - disse Jolly laconicamente.
- Ah! - murmurou Jolyon.
Ento a averso durava at  terceira gerao! E porqu essa averso renovada no teria agora uma expresso declarada?

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"Devo contar tudo ao rapaz?", pensou ele. Mas qual seria o fim - se ele, por sua parte, tiver de parar em breve?
E Jolly pensou: "Holly que conte o que h a respeito daquele indivduo. Se ela no o fizer, quer dizer que no deseja que eu fale - e eu teria feito um triste papel. 
De qualquer forma, pus um ponto final no assunto. E gostaria muito mais de ter feito isso sozinho!"
E continuaram a cavar em silncio, at que Jolyon disse:
- Agora acho que j est de bom tamanho, meu velho.- E, apoiando-se nas ps, olharam para o monte de folhas, algumas das quais j haviam sido removidas pelo vento 
do crepsculo. - No suporto esta parte da cerimnia - disse subitamente Jolyon.
- Deixe-me fazer, pap. Ele nunca se importou muito comigo. Jolyon abanou a cabea.
- Vamos dep-lo com todo o cuidado, com folhas e tudo. Nunca mais o hei-de ver. Eu seguro a cabea. Agora!
Com extremo cuidado, ergueram o corpo do co, cujo plo malhado aparecia aqui e ali atravs das folhas. Depuseram-no na cova, pesado, frio, indiferente, Jolly espalhou 
mais folhas em cima do corpo, enquanto Jolyon, profundamente receoso de mostrar emoo em frente do filho, comeou rapidamente a atirar terra para dentro do buraco.
Ali estava o passado! Se ao menos houvesse um futuro feliz a esperar! Era o mesmo que estar a lanar terra sobre a sua prpria vida. Replantaram cuidadosamente a 
relva sobre a ligeira elevao, e, satisfeitos por terem poupado os sentimentos um do outro, voltaram para casa de braos dados.

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CAPTULO XI

TIMOTHY COMBATE A DECOMPOSIO


Na Bolsa dos Forsyte, a notcia do alistamento espalhou-se depressa, junto  notcia de que June, para no ser ultrapassada,, ia tambm para fora, como enfermeira 
da Cruz Vermelha. E tais acontecimentos eram to extremados, to subversivos ao puro forsytismo, que provocavam um efeito aglutinante na famlia. no primeiro domingo 
 tarde, a casa de Timothy estava apinhada de membros da famlia que procuravam descobrir o que pensavam uns e outros a respeito daquilo tudo e reforar entre si 
o abalado sentimento de crdito da famlia.
Giles e Jesse Hayman tambm j no ficariam muito tempo entregues  defesa da costa, breve iriam para a frica do Sul, Jolly e Val viajariam em Abril. Quanto a June 
- bem, nunca ningum sabia o que ela realmente iria fazer!
A retirada de Spion Kop e a absoluta ausncia de notcias do teatro da guerra davam um ar de realidade quilo tudo, firmada de assustadora maneira por Timothy.
O mais novo dos Forsyte - que tinha apenas oitenta anos e era em geral considerado parecido com o pai, o "Superior Dosset", at mesmo na sua mais conhecida caracterstica, 
a de beber sherry- permanecera invisvel durante tantos anos que se tornara quase um mito. Toda uma longa gerao decorrera desde que os riscos da profisso de editor 
lhe haviam atacado os nervos, na idade de quarenta anos, desde ento, retirara-se com um peclio de apenas trinta e cinco mil libras

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e decidira dedicar a sua vida a cuidadosos empregos de capital. Aumentando-o de ano a ano com os juros compostos que cobrava, em quarenta anos duplicara-o, sem jamais 
saber o que seria gastar as solas dos sapatos para ganhar dinheiro.
Economizava, por ano cerca de duas mil libras, e, com o cuidado que tinha consigo, esperava, segundo dizia a tia Hester, dobrar esse capital antes de morrer. O que 
quereria ento fazer com esse dinheiro, estando mortas as irms e morto ele prprio, fora sempre indagado zombeteiramente pelos espritos livres como Francie, Euphemia, 
Nicholas filho ou Christopher, cujo esprito era to livre que ele, ultimamente, andava a dizer que tencionava dedicar-se ao palco. Todos admitiam, entretanto, que 
Timothy sabia bem o que fazia,, e possivelmente tambm o sabia Soames - criatura incapaz de divulgar um segredo.
Os poucos Forsyte que o haviam visto descreviam Timothy como um homem de rude e robusta aparncia, no muito alto, o rosto muito vermelho, cabelos grisalhos, com 
muito pouco do refinamento que os outros Forsyte haviam herdado da me, pois a mulher do "Superior Dosset" fora bonita, de gnio meigo. Sabia-se que ele tomara um 
interesse surpreendente pela guerra, cravando bandeirinhas num mapa desde que a luta comeara - e pensava-se com desagrado no que sucederia quando a Inglaterra fosse 
de todo escorraada para o mar, pois ento seria quase impossvel a Timothy pr as suas bandeiras no lugar certo. Quanto ao seu conhecimento sobre os movimentos 
da famlia ou as suas opinies a respeito deles, isso era pouco conhecido, salvo pela tia Hester, que alegava,, a propsito de tudo, que o irmo estava muito abalado. 
Foi portanto uma espcie de milagre quando os Forsyte, ao chegarem na tarde do domingo que se seguiu  evacuao de Spion Kop, perceberam, um aps outro, a presena 
de algum sentado na nica cadeira de braos realmente confortvel. A pessoa mantinha-se de costas para a luz, escondendo a parte inferior do rosto com uma das mos, 
e a voz respeitosa da tia Hester dizia aos recm-chegados:
- Seu tio Timothy, meu querido.
Timothy saudava-os a todos com uma frase nica, e aquilo poder-se-ia antes dizer que escapava dele, em vez de ser articulado:
- Como vai? Desculpe no me levantar.

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Francie estava presente e Eustace viera no seu carro, Winifred trouxera Imogen. quebrando a frieza provocada pelos preliminares do divrcio com o entusiasmo pelo 
alistamento de Val, Marian Tweetyman trazia as ltimas notcias de Jesse e Giles. Esses todos, junto com as tias Juley e Hester, Nicholas filho, Euphemia e George, 
que viera no carro de Eustace, constituam uma rica assembleia, testemunho dos mais prsperos dias da famlia. No havia uma nica cadeira desocupada em toda a pequena 
sala de estar e um receio geral possua todos - o medo de que viesse mais algum.
Esquecido um pouco o constrangimento provocado pela presena de Timothy, a conversa tomou um rumo militar. George perguntou  tia Juley quando partiria ela para 
a Cruz Vermelha, quase lhe provocando uma gargalhada: depois apontou para Nicholas e disse:
- O rapaz de Nicholas filho  um soldado valente, no ? Quando comea ele a usar a farda caqui?
Nicholas filho, sorrindo com uma espcie de meiga splica, explicou que naturalmente a me iria ficar muito inquieta.
- Ouvi dizer que os Siameses j embarcaram - disse George. voltando-se para Marian Tweetyman. - Em breve para l iremos todos. En avant, Forsytes! Em frente, ordinrio! 
Quem tem medo?
A tia Juley gorgolejou - George era to engraado! Hester quereria ir buscar o mapa de Timothy? Assim ele poderia mostrar a todos onde estavam os combatentes.
E, ante um som emitido por Timothy, e que foi interpretado como um consentimento, a tia Hester deixou a sala.
George prosseguia na sua imagem do avano dos Forsyte, nomeando Timothy marechal-de-campo, Imogen, em quem ele imediatamente reparara, seria vivandeira. E, pondo 
a cartola entre os joelhos, comeou a bater nela como num tambor. Mas a palhaada dele era recebida com duas reaces simultneas: todos riam - George tinha a fama 
de engraado na famlia -, mas todos sentiam tambm que algo semelhante a um caruncho estava a perfurar a solidez da famlia. E aquilo parecia-lhes pouco natural, 
justamente agora quando ela estava a mandar cinco dos seus membros para o servio da rainha. George podia ir longe de mais, de forma que houve um alvio quando ele 
se levantou, ofereceu o brao  tia Juley,

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dirigiu-se a Timothy, fez-lhe uma reverncia, beijou a tia com uma paixo afectada e cmica e disse:
- Oh, que alegria, querido pap! Vamos, Eustace!
E saiu, seguido pelo grave e desdenhoso Eustace, que nem sequer sorrira.
- Imagine, nem esperaram pelo mapa! No se incomode com as coisas dele, Timothy.  to engraado - disse a tia Juley, quebrando o silncio.
Timothy ergueu a mo que lhe tapava a boca.
- No sei que coisas esto para vir - ouviram-no dizer. - Que querem eles com essa histria de partir daqui? No ser assim que ho-de vencer os Boers.
S Francie teve a audcia de observar:
- E como ser que os vencero, tio Timothy?
- Todos esses voluntrios bem fardadinhos e as despesas que do s servem para deitar fora o dinheiro do pas.
Foi nessa altura que a tia Hester trouxe o mapa, segurando-o nos braos como a um beb com erupes. Ajudada por Euphemia, estendeu-o sobre o piano, um Coldwood 
que tocara pela ltima vez, segundo se supunha, no Vero que precedeu a morte da tia Ann, treze anos atrs. Timothy ergueu-se. Caminhou para junto do piano, e ficou 
de p, olhando o mapa, enquanto todos se lhe reuniam em torno.
- Aqui  que estamos, esta  a ltima posio conhecida. E muito precria:. Hum!
- Sim - disse Francie, num tom que era quase um desafio. - Mas como  que o senhor vai alterar isso, tio Timothy, sem mais homens?
- Homens! - exclamou Timothy. - No precisamos de mais homens a gastarem o nosso dinheiro. Precisamos de um Napoleo, ele teria liquidado isso num ms.
- Mas se no se arranjar nenhum Napoleo, tio Timothy?
- Isso  com eles - replicou o velho. - Para que  que sustentamos um exrcito que nos custa os olhos da cara em tempos de paz? Eles deveriam estar a morrer de vergonha 
por virem suplicar auxlio ao pas. Deixem que cada homem cuide do que lhe compete, e daremos conta do recado. - E, olhando em redor de si,

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acrescentou quase colrico: - Voluntariado! Com efeito! Gastando bom dinheiro com o que no presta! Temos de economizar! Conservar energia  o nico meio. - E com 
um som prolongado, que no era bem uma fungadela nem era bem um espirro, pisou um p de Euphemia e saiu da sala, deixando atrs dele uma grande sensao e um leve 
cheiro de barley-sugar (1).
O efeito de uma tal declarao, emitida com convico por algum que evidentemente faz um sacrifcio para a dizer,  sempre considervel. E os oito Forsyte que ficaram 
na sala - todos mulheres, excepto Nicholas filho - ficaram silenciosos um momento, rodeando o mapa. Ento Francie disse:
- Realmente, penso que ele tem razo. Afinal, para que existe o exrcito? Eles deveriam ter previsto isso. S o que  preciso  estimular os soldados.
- Minha querida! - exclamou a tia Juley. - Mas eles tm sido to progressistas! Lembre-se de que eles abandonaram a farda escarlate... e sempre foram to orgulhosos 
dela! Agora todos parecem presidirios. Ainda ontem,, Hester e eu estivemos a dizer que os militares devem sentir muitssimo essa mudana. Imaginem o que diria dela 
o Duque de Ferro!
- As novas cores so muito elegantes - disse Winifred. - Val fica muito bonito fardado.
A tia Juley assentiu.
- Gostaria de saber com quem se parece o filho de Jolyon. E pensar que a gente nunca o viu. O pai deve ter muito orgulho dele.
- O pai dele est em Paris - disse Winifred.
Os ombros da tia Hester ergueram-se subitamente, como para repelir a prxima observao da irm, porque as faces enrugadas de Juley ficaram rubras.
- Ontem recebemos a visita da querida Mrs. Mac Ander, que acabava de chegar de Paris. E imaginem vocs quem foi que ela encontrou na rua? Nunca adivinharo.
- Nem tentaremos, tia - disse Euphemia.

*1. Barley-sugar - doce feito com cevada e acar. (N. da T.)

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- Irene! Imaginem! Depois de todo este tempo... a passear com uma barba loura...
- Tia! A senhora mata-me! Com uma barba loura...
- Eu estava a dizer - continuou a tia Juley severamente - com um cavalheiro de barba loura. No est nem um dia mais velha, alis, foi sempre to bonita - acrescentou 
a tia Juley com uma espcie de tmida desculpa.
- Oh, conte tudo, tia! - gritou Imogen. - Ainda me lembro dela,  o esqueleto no armrio da famlia, no ?
A tia Hester sentou-se. Na verdade, Juley acabara por contar aquilo!
- Ela no tinha nada de esqueleto, se bem me lembro - murmurou Euphemia. - Se o tinha, era muitssimo bem coberto.
- Minha querida! - exclamou a tia Juley.-Que maneira esquisita de dizer as coisas, no acho isso bonito.
- No, mas como  que ela era? - persistiu Imogen.
- Vou dizer-lhe, minha filha - disse Francie.- Uma espcie de Vnus moderna., muitssimo bem vestida.
Euphemia exclamou causticamente:
- Vnus nunca andou vestida, e tinha olhos de safira. Nessa altura Nicholas despediu-se.
- Mrs. Nick  muito rigorista- disse Francie, com uma gargalhada.
- Ela tem seis filhos - explicou a tia Juley. - Tem toda a razo em ser cuidadosa.
- E o tio Soames tinha uma paixo louca por ela, no tinha? - continuou a inexorvel Imogen, movendo os seus olhos escuros de rosto para rosto.
A tia Hester fez um gesto de desespero, enquanto a tia Juley respondia:
- Sim, o seu tio Soames era-lhe muito afeioado.
- Naturalmente ela fugiu de casa com algum?
- No, decerto no, isto , no foi precisamente assim.
- Que foi que ela fez ento, tia?
- Vamos, Imogen - disse Winifred. - Temos de ir andando. Mas a tia Juley interveio resolutamente:
- Ela... ela no procedeu bem.

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- Ora! - exclamou Imogen. - At a j eu sabia.
- Pois bem, minha filha - disse Francie. - Ela teve um caso amoroso que terminou com a morte do rapaz, e ento deixou seu tio. Eu sempre gostei muito dela.
- Ela costumava dar-me chocolates - murmurou Imogen - e usava um perfume muito bom.
- Naturalmente - notou Euphemia.
- Natural mente, no - retorquiu Francie, que usava essncias particularmente caras.
- No posso compreender porque  que estamos a falar aqui em tais coisas - disse a tia Juley, juntando as mos.
- Ela divorciou-se?- perguntou Imogen, j da porta,
- Decerto que no - gritou a tia Juley.
Ouviu-se um som na porta do fundo, Timothy voltara  sala.
- Vim buscar o meu mapa - explicou ele. - Quem  que se divorciou?
- Ningum, tio - respondeu Francie com inteira verdade. Timothy apanhou o mapa de cima do piano.
- No deve haver dessas coisas na famlia - disse ele. - J esses alistamentos todos so bastante ruins. O pas est a destruir-se. Nem sei mesmo para onde vamos. 
- E apontou o dedo rombudo para o tecto: - H mulheres de mais, actualmente, e elas no sabem o que querem.
Dizendo isto, agarrou firmemente o mapa com ambas as mos e saiu, como se receasse que lhe respondessem.
As sete mulheres a quem ele se dirigira mergulharam num murmrio baixssimo, do qual apenas emergia a voz de Francie:
- Realmente os Forsyte...! Depois a voz da tia Juley:
- Ele precisa de tomar um escalda-ps de mostarda esta noite, Hester. Voc quer dizer a Jane? Estou com medo de que o sangue lhe tenha subido  cabea outra vez...
Naquela noite, quando ela e Hester estavam sentadas sozinhas depois do jantar, a tia Juley deixou cair uma malha do crochet e ergueu os olhos:
- Hester, no posso pensar nisso que andam a dizer: que Soames quer a volta de Irene para casa.

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Quem foi que nos contou que George fez uma caricatura de Soames com esta legenda: "Ele no ser feliz enquanto no conquistar isto"?
- Foi Eustace - respondeu a tia Hester de sobre o Times. - Trazia-a no bolso, mas no quis mostr-la.
A tia Juley estava silenciosa, ruminando. O relgio andava, o Times estalava, o fogo fazia ouvir o seu crepitar. A tia Juley deixou cair outra malha.
- Hester - disse ela - tive um pensamento terrvel.
- Ento no me conte - disse rapidamente Hester.
- Oh, mas tenho de contar. Voc nem sabe como  terrvel.- E a sua voz desceu at um murmrio: - Jolyon... Dizem que Jolyon deixou crescer a barba ultimamente. E 
a barba  loura.

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CAPTULO XII

PROGRESSO DA INVESTIGAO


Dois dias depois do jantar em casa de James, Mr. Polteed forneceu a Soames matria bastante para cogitaes. - Um cavalheiro - disse ele, consultando a chave escondida 
na sua mo esquerda-, 47 segundo convencionmos, est a dedicar uma ateno acentuada a 17, durante este ltimo ms, em Paris. Porm, at agora, parece que nada 
houve de decisivo. Os encontros realizaram-se todos em lugares pblicos, sem que os dois procurassem esconder-se: em restaurantes, na pera, na pera Cmica, no 
Louvre, no Jardim do Luxemburgo, na sala do hotel, etc. Nunca ningum a viu entrar nos aposentos dele, nem vice-versa. Foram a Fontainebleau, mas no se passou nada 
de especial. Em resumo: a situao  prometedora, mas requer pacincia.- E, erguendo subitamente o olhar, Mr. Polteed acrescentou: -  um ponto com efeito curioso: 
47 tem o mesmo sobrenome que... que 31!
"Este sujeito sabe que eu sou o marido", pensou Soames.
- O primeiro nome  um pouco esquisito: Jolyon - continuou Mr. Polteed. - Conhecemos o seu endereo em Paris e a sua residncia aqui. No desejamos, naturalmente, 
estar a seguir uma pista falsa.

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- Prossiga, mas tenha muito cuidado - rosnou Soames.
A certeza instintiva de que aquele detective lhe adivinhara o segredo tornava-o ainda mais reticente.
- Com licena, sir - disse Mr. Polteed. - Vou verificar se chegou alguma correspondncia nova.
Voltou com algumas cartas. E, tornando a fechar a porta, estudou os envelopes.
- Sim, temos aqui uma carta confidencial para mim, mandada por 19. Eis o que diz: "47 embarcou hoje para a Inglaterra. Endereo da bagagem: Robin Hill. Os dois separaram-se 
nas galerias do Louvre, s 3.30. A despedida no teve nada de particular. Suponho que o melhor  continuar aqui e prosseguir na vigilncia a 17. O senhor pode igualmente 
fazer vigiar 47 na Inglaterra, se o achar necessrio."
Mr. Polteed lanou a Soames um olhar muito pouco profissional, como se estivesse a reunir material para um livro sobre a natureza humana -- livro que pretenderia 
escrever mais tarde, quando se aposentasse. Depois continuou:
- 19  uma mulher muito inteligente e disfara-se muito bem. Cobra caro, mas merece bem o ordenado. At agora, ningum suspeita da vigilncia. Porm, depois de algum 
tempo, o senhor sabe, as pessoas sensveis comeam a perceber aquela presena constante, embora no vejam nada de definitivo. Talvez o melhor seja abandonar a vigilncia 
de 17 e continuar a de 47. No podemos tentar interceptar a correspondncia de ambos sem grandes riscos. E no aconselho isso, no p em que esto as coisas. Mas 
o senhor pode dizer ao seu cliente que a vigilncia vai prosseguindo muito bem.
E mais uma vez os olhos estreitos do detective perscrutaram o rosto taciturno do seu cliente.
- No - disse subitamente Soames. - Prefiro que o senhor continue a vigilncia em Paris, discretamente, sem se preocupar com esta outra pista.
- Muito bem - retorquiu Mr. Polteed. - Podemos fazer isso.
- Como... como  o modo pelo qual ambos se tratam?
- Posso ler o que diz a nossa vigilante - disse Mr. Polteed,

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abrindo  chave uma gaveta da secretria e apanhando um mao de papis. - Estas declaraes so inteiramente confidenciais. C est! "17  muito atraente, 47 bem 
mais puxado em idade (gria do ofcio, o senhor compreende), evidentemente espera uma oportunidade, 17 talvez dificulte para impor condies, impossvel dizer mais 
sem reunir novos elementos. Porm inclinamo-nos a pensar - embora sem conhecer as intenes dela - que agiro de impulso, qualquer dia. Ambos tm estilo."
- Que significa isso? - perguntou Soames por entre os lbios cerrados.
- Bem - murmurou Mr. Polteed, com um sorriso que lhe mostrava vrios dentes muito brancos-,  uma expresso que costumamos empregar. Por outras palavras, no se 
trata de uma aventura de week-end. Alis, chegaro a isso, quer se portem seriamente ou no.
- Hum!-rosnou Soames. -  tudo?
- Sim - respondeu Mr. Polteed -, mas  realmente prometedor.
"Aranha!", exclamou mentalmente Soames, dizendo depois:
- At logo!
Caminhou atravs de Green Park, em direco  Victoria Station, onde apanharia o metropolitano para a City. Para fins de Janeiro, fazia muito calor. A luz do sol, 
furando a neblina, luzia na relva gelada, tecendo no ar uma verdadeira teia de aranha resplandecente.
Pequenas aranhas -e grandes aranhas! E a maior aranha de todas, que era a prpria tenacidade dele, envolvida para sempre naquele casulo que no lhe deixava aberto 
nenhum caminho. Porque andaria aquele sujeito a rondar em torno de Irene? As coisas estariam realmente a passar-se segundo Polteed sugeria? Ou no estaria Jolyon 
apenas compadecido do isolamento dela, ou como quer que lhe chamasse, incurvel sentimental que sempre fora? E se, entretanto, as coisas fossem o que Polteed pretendia? 
Soames parou. No podia ser! Jolyon era sete anos mais velho que ele, Soames, e no tinha melhor aparncia. No era mais rico! Que atractivo tinha?

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"Alm disso, ele voltou", continuou a cismar Soames. "E no parece, pois... Pois irei procur-lo, eu!" E, agarrando um carto, escreveu:

Se voc pode perder comigo uma hora, numa das tardes desta semana, estarei diariamente no Connoisseurs das cinco e trinta s seis, ou irei procur-lo no Hotch Potch, 
se voc o preferir. Necessito v-lo.

S. F.

Subiu St. James Street e entregou o bilhete ao porteiro do Hotch Potch.
- Entregue a Mr. Jolyon Forsyte, assim que ele chegue. E tomou um dos novos automveis em direco  City. Jolyon recebeu o carto nessa mesma tarde e olhou da janela
para a fachada do Connoisseurs. Que quereria Soames, agora? Desconfiara dos factos passados em Paris? E, caminhando atravs de St. James Street, resolveu no esconder 
a sua visita. "Porm, o que no posso fazer", pensou ele, " deix-lo saber que ela est em Paris, a menos que ele no o saiba j." Nesse complicado estado de esprito, 
foi conduzido at ao lugar onde Soames estava a tomar o seu ch, numa pequena sacada.
- No quero ch, obrigado - disse Jolyon. - Mas fumarei, se voc o permite.
As cortinas ainda no haviam sido baixadas, embora as luzes da rua j estivessem acesas, os dois primos sentaram-se um em frente do outro, esperando.
- Soube que voc esteve em Paris - disse finalmente Soames.
-  verdade. Acabo de voltar.
- Val disse-mo. Ele e seu filho vo realmente embarcar para a frica? - Jolyon confirmou com a cabea. - Quero crer que voc no teve oportunidade de ver Irene. 
Parece que ela est em qualquer parte, no estrangeiro.
Jolyon envolveu-se em fumo antes de responder.
- Sim, vi-a.
- Como vai ela?
- Muito bem.

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Houve novo silncio. Depois Soames ergueu-se da cadeira.
- Quando o vi pela ltima vez, estava entre duas resolues. Conversmos, e voc manifestou-me a sua opinio. No desejo reabrir a discusso. Quero apenas dizer 
isto: a minha posio em relao a ela  extremamente difcil. No quero que voc continue a usar a sua influncia contra mim. Aquilo que aconteceu, aconteceu j 
h muito tempo. E pretendo pedir a Irene que esquea o passado.
- Voc j lhe fez esse pedido, sabe-o muito bem - murmurou Jolyon.
- A ideia, ento, era imprevista para ela. Causou-lhe um choque. Porm, quanto mais ela pensar nisso, melhor deve verificar que  a nica soluo para ns ambos.
- No  essa a impresso que me ficou do estado de esprito dela-disse Jolyon com uma calma particular. - E desculpe se lhe digo isto, mas creio que voc se equivoca 
quando pensa que o raciocnio tem alguma coisa a ver com o caso.
Viu a face do primo tornar-se ainda mais plida - ele usara, sem o saber, as prprias palavras de Irene.
- Obrigado, mas eu vejo as coisas mais singelamente do que voc pensa. Quero apenas estar certo de que voc no usar a sua influncia contra mim.
- No sei o que  que lhe faz pensar que eu tenha qualquer influncia - disse Jolyon. - Porm, se eu a tenho, s a utilizarei no sentido que, julgo, conduzir  
felicidade dela. Creio que sou desses a quem chamam "feministas".
- Feminista! - repetiu Soames, como se procurasse ganhar tempo. - Isso significa que voc est contra mim?
- Inteiramente. Sou contra toda a mulher que vive com um homem de quem decididamente no gosta, considero isso srdido.
- E suponho que todas as vezes que voc se avista com ela mete-lhe essas coisas na cabea.
- No conto v-la em breve.
- Nem se voltar a Paris?
- No, pelo menos no o espero - disse Jolyon, consciente da ateno deliberada com que Soames o encarava.
- Bem, isso era tudo que eu tinha a dizer.

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Voc sabe muito bem que quem quer que se intrometa entre marido e mulher incorre em grave responsabilidade.
Jolyon ergueu-se e fez uma ligeira inclinao de cabea.
- At logo - disse. E, sem lhe estender a mo, caminhou para fora, deixando Soames a fitar-lhe as costas.
"Ns, Forsytes", pensava Jolyon, chamando um cab, "somos muito civilizados. Entre homens rsticos, isto teria dado em vias de facto. E se meu filho no estivesse 
de partida para a guerra! A guerra!" Um ressaibo das suas velhas dvidas apoderou-se dele. "Linda guerra! Domnio sobre povos ou sobre mulheres! Tentativas para 
dominar e possuir aquilo que nos repele! A negao da dignidade pacfica! Posse, direitos de propriedade. E quem quer que se insurja  um pria! Graas a Deus, sempre 
me insurgi!"
Realmente, mesmo antes do seu primeiro e desastroso casamento, ele j se enfurecia contra a opresso dos Irlandeses e j se exaltava a favor de mulheres que procuravam 
libertar-se de homens a quem detestavam. A Igreja ensinava que a liberdade da alma e a liberdade do corpo eram coisas absolutamente diversas. Perniciosa doutrina! 
Corpo e alma no podem ser separados. O livre-arbtrio s cresce quando est a salvo de quaisquer prises. De contrrio, deperece. "Eu devia ter dito a Soames", 
pensou Jolyon, "que o considero cmico. Ah, mas ele tambm  trgico!"
Realmente, no podia haver no mundo nada mais trgico que um homem escravizado ao seu instinto de propriedade, um homem que, por causa dessa obsesso, no pode sequer 
olhar para o cu. nem penetrar nos sentimentos de outra pessoa.
"Tenho de escrever a Irene a preveni-la", pensou ele, "de que haver novo assalto." E durante todo o caminho para Robin Hill rebelou-se contra o sentimento que lhe 
dizia que a sua obrigao de se manter junto do filho o impedia de voltar a Paris.
Mas Soames, sentado ainda na sua cadeira, era presa de uma dor no menos aguda - uma dor de cime -, como se lhe houvessem revelado que aquele sujeito tinha precedncia 
sobre ele no corao dela e que tecera uma nova teia de aranha no seu caminho at  mulher. "Isso significa que voc est contra mim?" E no obtivera nada com aquela 
pergunta desassombrada. Feminista! Fazedor de frases! "No devo precipitar as coisas. Tenho algum tempo.

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Ele no est de volta para Paris, a menos que me tenha mentido. Vou deixar que venha a Primavera!"
De que modo poderia servir-me a Primavera - a no ser para lhe aumentar a dor - era coisa que ele no saberia dizer. E, olhando em frente para a rua, onde iam passando 
vultos de poste para poste, sob a luz que caa das altas lmpadas, ele pensava: "Nada me parece bom, nada me pode ajudar - estou isolado. Este  que  o mal."
Fechou os olhos, e imediatamente pareceu-lhe ver Irene, numa rua escura, ao p de uma igreja - passando, voltando o pescoo at que ele pudesse apanhar-lhe o brilho 
dos olhos, com a testa branca sob um chapeuzinho escuro, grampos dourados enfiados nele e um vu caindo para trs. Abriu os olhos - to vividamente a enxergara! 
Oh, no, no havia ningum ali!

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CAPTULO XIII

"C ESTAMOS OUTRA VEZ!"


As toilettes de Imogen para o seu dbut ocuparam os cuidados da me e a bolsa do av durante todo o ms de Maro. Com a tenacidade dos Forsyte, Winifred procurava 
a perfeio. E aquilo distraiu-a da rpida aproximao das novas cerimnias que iam devolver-lhe a liberdade - e ela no sabia realmente se a desejava. Distraiu-a 
tambm do filho e da prxima partida dele para uma guerra da qual s chegavam notcias inquietadoras. Tal como abelhas ocupadssimas com as flores de Vero ou vespas 
adejando e precipitando-se sobre as flores de Outono, ela e a "pequena" - da mesma altura que a me e com medidas de busto em nada inferiores - adejavam pelas lojas 
de Regent Street, os estabelecimentos de Hanover Square e Bond Street, perdidas em cogitaes e examinando estofos. Dzias de moas de gestos afectados e passo peculiar 
desfilaram diante de Winifred e Imogen, exibindo "criaes". Os modelos - "Novssimo, madame, o ltimo que recebemos" - a que aquelas duas relutantes freguesas haviam 
voltado as costas chegariam para encher um museu e os modelos que se sentiam obrigadas a comprar davam quase para esgotar a conta bancria de James. "No se deve 
fazer as coisas pela metade", pensava Winifred, desejosa de transformar aquele dbut da filha num xito inesquecvel. A calma delas em provar a pacincia daquelas 
criaturas impessoais que lhes deslizavam  frente

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s poderia ser igualada  dos que so movidos por uma f religiosa. E representava,, da parte de Winifred, um longo sacrifcio ritual  sua deusa da Moda, to fervoroso 
como pode ser o culto de um catlico  Virgem, para Imogen, era uma experincia de modo algum desagradvel: sentia-se bonita e lisonjeada, numa palavra - era "interessante".
Na tarde de 20 de Maro, depois de haverem estripado todo o stock do Skyward's, pararam para merendar em Caramel & Baker's e, depois de restauradas por um bom chocolate 
coroado de creme, voltaram para casa atravs de Berkley Square - com a Primavera iluminando a tarde.
Depois de abrir a porta - recentemente pintada de verde-claro. pois nada fora negligenciado para o dbut de Imogen - Winifred dirigiu-se  cestinha de prata, para 
ver se havia l algum novo carto de visita, quando as suas narinas se aguaram. Que cheiro era aquele?
Imogen tirara uma novela da estante e absorvera-se nela, e quase rapidamente, devido  estranha sensao que lhe subia ao peito, Winifred disse:
- V para cima, querida, e descanse antes do jantar.
Imogen, ainda a ler, subiu a escada. Winifred viu-a bater a porta do quarto, e ento aspirou longamente o ar da sala. Seria que a Primavera estava a perturbar-lhe 
os sentidos, trazendo-lhe nostalgia do seu "palhao", a despeito de todo o seu juzo e da sua virtude ultrajada? Um cheiro de homem! Um aroma fugidio de charuto 
e de gua de lavanda-um aroma que j no sentia h seis meses, quando dissera a Monty que "ele no valia nada". Donde viria ele? Ou seria o fantasma de um aroma 
- curiosa emanao da memria? Winifred olhou em torno de si. No... nada... coisa alguma, nenhuma alterao no hall nem na sala de estar. Era apenas uma iluso 
de perfume - falsa, enlouquecedora, doentia! Na cestinha de prata havia cartes novos, dois com "Mr. and Mrs. Polegate Thom" e um com "Mr. Polegate Thom" sozinho. 
Cheirou-os, mas o perfume deles era severo. "Devo estar fatigada", pensou. "Vou subir e deitar-me." L em cima, o quarto de vestir estava s escuras, esperando uma 
mo que lhe acendesse as luzes, e ela passou ao quarto de dormir. L tambm as cortinas estavam meio descidas

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e tudo escuro, porque j eram seis horas. Winifred tirou o chapu - aquele cheiro, de novo -, e de repente ergueu-se, como se tivesse levado um tiro, agarrada ao 
espaldar da cama.
Um vulto escuro erguera-se do sof, no canto. Uma palavra de horror - na sua famlia - escapou-lhe:
- Meu Deus!
- Sou eu... Monty - disse a voz.
Largando o espaldar, Winifred deu uns passos e fez girar o comutador da luz que pendia sobre a mesa-de-cabeceira. E ele apareceu exactamente dentro da circunferncia 
luminosa da lmpada, embrasonado pela ausncia da corrente do relgio, as botas engraxadas... mas... sim... com os calcanhares rodos. O rosto e o peito estavam 
na sombra. Indiscutivelmente estava mais magro - ou seria um efeito de luz? Ele avanou, iluminado agora dos calcanhares ao cabelo preto - indiscutivelmente um pouco 
grisalho! As suas feies estavam mais morenas, descoradas, o bigode preto havia perdido a insolncia, mostrava-se agora sardnico, e havia no rosto dele muitas 
rugas que ela no lhe conhecia. No tinha alfinete de gravata, e o fato - ah, ela conhecia-o bem! - como estava amarrotado, lustroso! Deteve novamente o olhar nos 
calcanhares rodos das botas dele. Qualquer coisa de grande e inexorvel apoderara-se daquele homem e embriagara-o, devastara-o, gastara-o. E ela continuou de p, 
sem falar, imvel, fitando sempre os calcanhares rodos.
- Pois bem! - disse o marido. - Recebi a intimao e obedeci. Estou de volta.
O peito de Winifred dilatou-se. A nostalgia pelo marido que se erguera nela ante aquele aroma lutava contra um cime mais profundo do que ela jamais sentira. Ali 
estava ele - sombra obscurecida, como que despojada do seu eu brilhante e garboso. Qual seria a fora que lhe fizera aquilo, que o espremera como uma laranja a que 
esgotam o sumo? Aquela mulher!
- Estou de volta - repetiu ele. - Passei um tempo horroroso. Jesus! Volto para o estaleiro. No trouxe nada alm da minha pessoa e do que tenho nesta maleta.
- E onde est o resto? - gritou Winifred, subitamente animada. - Como ousou voltar? Sabia muito bem que a intimao foi feita apenas para fins de divrcio. No me 
toque!

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Mantinham-se ambos perto do espaldar do grande leito onde haviam passado juntos as noites de tantos anos. Muitas vezes
sim, muitas vezes - ela desejara a volta do marido. Mas agora,
que ele regressara, sentia-se possuda por um frio e mortal ressentimento. Ele ergueu a mo ao bigode, mas no o torceu nem cofiou, na sua velha maneira habitual, 
antes o repuxou para baixo.
- Meu Deus! -disse ele. -Se voc soubesse o que passei!
- Prefiro no saber!
- Os nossos filhos vo bem? Winifred fez sinal que sim e perguntou:
- Como entrou?
- Com a minha chave.
- Ento as criadas no sabem. Voc no pode ficar aqui, Monty.
Ele soltou uma risadinha sardnica.
- Onde, ento?
- Em qualquer parte.
- Bem, olhe para mim! Aquda... aquela desgraada...
- Se voc falar no nome dela - gritou Winifred -, eu vou imediatamente para Park Lane e no volto.
E subitamente ele fez uma coisa simples, mas to pouco afectada que a comoveu, Fechou os olhos. Era como se dissesse: "Muito bem! Estou morto para todos."
- Posso arranjar-lhe um quarto para passar a noite - disse ela. - As suas coisas ainda esto aqui, s Imogen est em casa.
Dartie voltou a encostar-se ao espaldar da cama.
- Bem, est tudo nas suas mos. - E com a mo dele fez um gesto de entrega. - J acabei com tudo. Voc no tem necessidade de ferir mais com muita fora... j no 
vale a pena. Fiquei apavorado, Freddie.
Aquele apelido carinhoso, j em desuso h anos e anos, provocou um calafrio em Winifred.
"Que  que eu vou fazer?", pensava ela. "Em nome de Deus. que  que eu vou fazer?"
- Tem um cigarro?
Winifred tinha cigarros numa caixa ao lado da cama, pois fumava nas noites em que no podia dormir. Tirou um e acendeu-o.

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E aquele acto f-la recuperar de todo o lado prtico da sua natureza.
- V tomar um banho quente. Porei alguma roupa sua no quarto de vestir. Conversaremos mais tarde.
Ele acenou que sim e fixou os olhos nela - pareciam meio mortos... ou seriam as rugas das plpebras que se tinham tornado mais profundas?
"J no  o mesmo", pensou Winifred. "Nunca mais ser o mesmo! Mas que ir ele ser ento?"
- Est bem - disse Dartie, caminhando em direco  porta. At mesmo o andar mudara - parecia o andar de um homem
que perdera todas as iluses e dvidas a respeito de se valeria a pena andar.
Depois que ele saiu e se ouviu o som da gua a cair na banheira,, ela ps uma muda completa de roupas de homem na cama do quarto de vestir, foi ao andar de baixo 
e apanhou uma caixa de biscoitos e uma garrafa de whisky. Vestindo depois um casaco, escutou um momento  porta da casa de banho e saiu de casa. Na rua, hesitou. 
Passava das sete! Estaria Soames no seu clube ou em Park Lane? E tomou o caminho de Park Lane. Monty voltara! Soames sempre o receara- e ela muitas vezes o desejara,. 
Voltara! Era to prprio dele aquele gesto - gesto de palhao - chegar e dizer: "Aqui estou!", para levar ao ridculo todos eles: a Lei, Soames e ela prpria. Afinal, 
talvez fosse melhor troar da Lei do que ter aquela nuvem sombria suspensa sobre ela, sobre os filhos. Que alvio! Ah, mas como aceitar a volta dele? "Aquela mulher" 
devastara-o, extrara dele uma paixo que ele nunca dera a ela - uma paixo de que ela nunca o imaginara capaz. Aquilo era o que mais lhe doa: aquele seu clown, 
egosta e ruidoso, que ela nunca realmente estimulara, fora despojado e marcado por outra mulher! Era insultante! Insultante de mais! No estava certo, no era decente 
receb-lo de volta!
 verdade que fora ela que o chamara e talvez agora a lei a obrigasse a conserv-lo. E ele ainda era to seu marido quanto antes - e ela livrar-se-ia das garras 
do tribunal. Tudo o que ele quereria, decerto, era dinheiro - para o empregar em charutos e em gua de lavanda. Aquele cheiro! "Afinal, no estou velha",

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pensou Winifred, "no estou velha ainda." E no entanto havia aquela mulher que o reduzira a estas palavras: "Fiquei apavorado... Freddie!"
Winifred j se aproximava da casa do pai, e durante todo o percurso o Forsyte que havia dentro dela conduzia-a  profunda concluso de que, afinal, Monty era propriedade 
sua, uma propriedade que tinha de ser disputada a um mundo usurpador. E chegou ento  casa de James.
- Mr. Soames? Est no quarto dele? Vou subir. No diga a ningum que estou aqui.
O irmo estava a vestir-se. Ela encontrou-o defronte do espelho, atando a gravata com um arzinho de desprezo.
- Ol! - disse ele, vendo-a no espelho. - Que  que vai mal?
- Monty! - disse Winifred insensivelmente. Soames deu meia volta.
- O qu?
- Voltou!
- O tiro saiu pela culatra - murmurou Soames. - Por que diabo voc no me consentiu que se alegasse crueldade? Eu sempre soube que havia muitos riscos nesta direco.
- Oh! No fale nisso! Que  que eu fao? - Soames respondeu com um profundo suspiro. - Ento? - insistiu Winifred, impaciente.
- Que  que ele alegou?
- Nada. Uma das botas dele est quase sem calcanhar. Soames encarou-a.
- Ah! Naturalmente! Est nas ltimas. De forma que tudo recomea! Isso acabar por matar meu pai!
- No poderemos esconder isto do pap?
-  impossvel. Ele tem um faro iniludvel para tudo que possa aborrec-lo. - E Soames ps-se a meditar, com os dedos enfiados nos suspensrios de seda azul. - Deve 
haver alguma maneira legal - murmurou por fim - para o manter afastado.
- No! - gritou Winifred. - No quero fazer mais papel de tola. Prefiro ficar com ele.
Os dois irmos encararam-se. Tinham os coraes a transbordar,

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mas no podiam exprimir os seus sentimentos - Forsyte que eram.
- Onde o deixou?
- No banho. - E Winifred soltou uma risadinha amarga. - A nica coisa que ele trouxe foi a gua de lavanda.
- Calma! - disse Soames. - Voc est muito abalada. Vou voltar consigo.
- Que adianta?
- Temos de discutir as coisas com ele.
- Discutir! H-de ser como sempre... Quando ele melhorar . volta s cartas, aos cavalos,  bebida e...
E ela calou-se, lembrando-se do aspecto do rosto do marido. Parecia uma criana maltratada. Talvez...
- Melhorar? - replicou Soames. - Ele est doente?
- No. Est liquidado.
Soames tirou o casaco de sobre uma cadeira, vestiu-o, vestiu tambm o sobretudo, humedeceu o leno com gua-de-colnia, arranjou a corrente do relgio e disse:
- Ns nunca temos sorte.
No meio da sua perturbao, Winifred sentia pena do irmo, como se aquela rpida observao revelasse as profundas mgoas que o roam.
- Eu gostaria de ver a mam - disse ela.
- Est com o pap no quarto deles. V para o escritrio, sem fazer barulho. Lev-la-ei at l.
Winifred deslizou at ao pequeno escritrio escuro, notvel principalmente por um Canaletto duvidoso de mais para ser posto noutro local e uma excelente coleco 
do Anurio Jurdico, fechada j h muitos anos. Ficou l, com as costas voltadas para as cortinas, olhando a chamin vazia, at que a me entrou, seguida por Soames.
- Oh, pobrezinha! - disse Emily. - Que cara to triste a sua! Realmente, isso que ele fez foi muito mal feito!
Eles tinham-se habituado tanto, em famlia, a no darem expanso a emoes deselegantes, que seria impossvel a Emily proporcionar  filha um bom desabafo. Mas havia 
consolao na sua voz abafada e nos seus ombros, ainda rolios, cobertos de rendas negras.

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Ajudada pelo orgulho e pelo desejo de no entristecer a me, Winifred respondeu, contendo-se como pde:
- Est tudo muito bem,, mam.
- Quem sabe - disse Emily, olhando para Soames - se no valeria a pena Winifred dizer-lhe que o processar se ele no desistir de aproveitar o pretexto da intimao 
de reintegrar o domiclio? Ele levou as prolas dela, e, se no as trouxe de volta, creio que, com efeito, basta isso.
Winifred sorriu. Todos se empenhavam em dar sugestes sobre isto e aquilo, mas ela j sabia muito bem o que iria fazer - o que se resumiria a no fazer nada. O pensamento 
de que, afinal, ela conquistara uma espcie de vitria, recuperara a sua propriedade, ia a cada momento ganhando terreno dentro de si. No! Se ela quisesse puni-lo, 
poderia faz-lo dentro de casa, sem precisar de proclamar o facto perante o mundo inteiro.
- Bem - disse Emily -, vamos para a sala de jantar. Voc deve descansar e jantar connosco. Deixe que eu falo com seu pai.
E, enquanto Winifred se dirigia  porta, ela fez rodar o comutador da luz. Ainda no tinham visto o que acontecera no corredor.
L, atrado pela luz num compartimento onde nunca a acendiam, estava James, enrolado no seu xaile cor de areia, de plo de camelo, com os braos escondidos, dando 
a impresso de que a sua cabea prateada estava afastada das calas elegantes por toda uma vasta extenso de deserto. E mantinha-se de p, inimitavelmente semelhante 
a uma cegonha que tivesse diante de si uma r grande de mais para a engolir.
- Que  isto tudo? - perguntou James. - Vocs nunca me dizem nada.
O encontro era to inesperado que deixou Emily sem resposta. Foi Winifred quem caminhou at ele e, pondo a mo sobre um dos braos agasalhados do velho, disse:
- Monty no faliu, pap. Apenas voltou.
Os trs esperaram que algo de srio acontecesse, e estimavam que ela lhe houvesse segurado o brao, mas no conheciam a profundidade das razes naquele sombrio velho 
Forsyte.

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Qualquer coisa entortou-lhe a boca e o queixo, algo agitou-lhe as longas suas prateadas. E ele disse ento, com uma espcie de dignidade:
- Ele ainda h-de ser a minha morte. Sei que ainda h-de ser.
- O senhor no deve incomodar-se, pap. Tenciono encarregar-me de fazer que ele proceda correctamente.
- Ah! - disse James. - Tomem, levem esta coisa. Estou com calor. - Retiraram-lhe o xaile que o envolvia. Ele voltou-se e caminhou firmemente para a sala de jantar. 
- No quero sopa - disse para Warmson, sentando-se na sua cadeira.
Todos se sentaram tambm, Winifred ainda de chapu, enquanto Warmson punha um quarto talher. Quando ele saiu,. James perguntou:
- Que foi que ele trouxe de volta?
- Nada, pap.
James concentrou o olhar na sua prpria imagem reflectida numa das colheres da mesa.
- Divrcio! - resmungou ele. - Idiotice! Em que estava eu a pensar? Devia era ter-lhe pago uma mesada para o manter longe da Inglaterra. Soames! Procure-o e proponha-lhe 
isso.
Parecia uma sugesto to recta e to simples que a prpria Winifred ficou surpresa quando se ouviu dizer:
- No. Pretendo ficar com ele, j que voltou. Ele agora h-de proceder bem.
Todos a olharam. Sempre fora sabido que Winifred tinha muita coragem.
- Fora daqui! - exclamou James elipticamente. - Quem sabe que assassino... Procure o revlver dele, No v para a cama sem um revlver. Devia ter Warmson a dormir 
em sua casa. Eu prprio vou cuidar disso amanh.
Todos ficaram comovidos por aquela declarao, e Emily disse, para o consolar:
- Est bem, James, no faremos nenhuma tolice.
- Ah! - resmungou James sombriamente. - No sei, no posso dizer!
A chegada de Warmson, com o peixe, desviou a conversa.
Quando, imediatamente depois do jantar, Winifred se dirigiu
ao pai para lhe dar o beijo de despedida,

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ele olhou-a com olhos to cheios de interrogao e tristeza que ela ps na voz toda a consolao que pde:
- Est tudo muito bem, pap querido. No se preocupe. Eu no preciso de nada... ele est muito manso. Ns s nos preocuparemos por causa do senhor. Boa noite. Deus 
o abenoe!
James repetiu as palavras "Deus o abenoe!", como se no soubesse realmente o que elas significavam,, e os seus olhos acompanharam a filha para alm da porta.
Winifred chegou a casa antes das nove e subiu directamente para o primeiro andar.
Dartie estava deitado na cama do quarto de vestir. Mudara toda a roupa e vestia agora um fato azul, com sapatos rasos, cruzara o brao sob a cabea e um cigarro 
apagado pendia-lhe da boca.
Winifred comparou-o - com uma sensao de ridculo - s flores da sua varanda num dia abrasador de Estio. Era assim que elas caam e assim ficavam, desmaiadas, mas 
j um pouco mais vivas depois que o Sol se punha. Parecia-lhe que um orvalho benfico j rociara o seu devastado marido.
Ele disse, com indiferena:
- Creio que voc esteve em Park Lane. Como vai o velho? Winifred no pde evitar a resposta amarga:
- Ainda no morreu. - Ele, magoado, encolheu-se. - Escute, Monty. Eu no admitirei que ele seja perturbado. Se no pretende comportar-se decentemente,  melhor que 
se v embora, que v para qualquer parte. J jantou?
- No.
- Quer comer qualquer coisa? Ele ergueu os ombros.
- Imogen j me ofereceu. No quis.
Imogen! Na plenitude da sua emoo, Winifred esquecera a filha.
- Voc viu-a? Que disse ela?
- Beijou-me.
Winifred viu, mortificada, que a face escura e sardnica dele se abrandava. " isso", pensou ela. "Ele preocupa-se com a filha, no comigo."
Os olhos de Dartie moviam-se de um lado para outro.

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- Imogen sabe de alguma coisa a meu respeito? - perguntou ele.
Winifred compreendeu num relance que aquela era a arma de que ela precisava: ele receava que soubessem.
- No. Val sabe. Os outros no, sabem apenas que voc se foi embora. - Ouviu-o suspirar, aliviado. - Mas eles ho-de saber tudo - continuou firmemente -, se voc 
me der motivos para isso.
- Muito bem! - murmurou ele. - Bata-me! Estou por terra! Winifred caminhou para a cama.
- Olhe, Monty. Eu no quero mago-lo. No quero feri-lo. No pretendo aludir a nada. No pretendo fazer barulho. Qual seria a utilidade disso? - Ficou silenciosa 
um instante. - Mas no posso aguentar mais, nem o quero!  melhor que voc saiba. Fez-me sofrer muito. Mas j me acostumei a gostar de si. E por isso...
Ela cruzou o pesado olhar dos olhos castanihos dele com a luz plida dos seus olhos esverdeados, tocou-lhe subitamente a mo e dirigiu-se para o seu prprio quarto.
Sentou-se durante um longo espao de tempo defronte do espelho, brincando com os anis nos dedos, pensando naquele homem que ela domara, que lhe era quase um estranho, 
deitado na cama do outro quarto, resolvida a "no fazer barulho", mas, devorada de cimes - cimes pelo que ele fizera - e, ao mesmo tempo, presa de uma intensa 
piedade.

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CAPTULO XIV

UMA NOITE DE ORGIA


Soames assistia sombriamente  chegada da Primavera - tarefa penosa para quem est consciente de que o tempo voa-, sem entretanto sentir mais prximo das suas mos 
o pssaro que cobiava, sem conseguir libertar-se da teia invisvel que o enredava,. Mr. Polteed no dava novidade nenhuma - apenas que a vigilncia continuava - 
e custava um horror de dinheiro. Val e o primo haviam seguido para a guerra, donde vinham notcias mais favorveis. Dartie ia-se mantendo razoavelmente, James agarrava-se 
 sade, os negcios progrediam quase assustadoramente. Portanto, nada havia a perturbar Soames alm da sensao de estar preso quela teia, sem poder dar um passo 
em qualquer direco.
No chegou propriamente a evitar o Soho, porque no queria faz-las pensar que "desaparecera", como teria dito James. Mesmo porque ele poderia precisar de "reaparecer" 
a qualquer momento. Porm estava a ser to restrito e cauteloso a esse respeito que muitas vezes passava pela porta do Restaurant Bretagne sem entrar e vagueava 
pelas vizinhanas do prdio, que, por ser situado em tal zona, sempre lhe dera a sensao de uma propriedade ilegal.
Vagueava pois, assim, numa noite de Maio, em Regent Street, por entre a mais estranha multido que jamais vira. Uma multido ruidosa, jovial, formidvel, que assobiava, 
bailava e gania.,

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pondo na cara narizes postios, mscaras grotescas, penachos - todos os aparatos da sandice, conforme Soames pensava.
Mafeking! Realmente, fora um alvio. Deus do Cu! E seria isso uma desculpa? Quem era aquela gente, onde vivia., donde viera para se aglomerar no West End? Faziam-lhe 
ccegas no rosto, assobiavam-lhe aos ouvidos. As raparigas gritavam: "Tira o chapu, boneco!" Um moo, com um piparote, derrubou-lhe a cartola, e ele recuperou-a 
com dificuldade. Explodiam-lhe bombas mesmo debaixo do nariz ou entre os ps. Ele sentia-se perdido, exasperado, ofendido. Aquela vaga imensa de gente que vinha 
de todos os bairros, como se houvessem num mpeto rebentado todos os portes divisrios-, era como um rio de guas estranhas, em cuja existncia ele j ouvira falar, 
talvez, mas na qual nunca acreditara. Aquilo era ento a populaa, a inumervel e vvida negao dos refinamentos do forsytismo! Aquilo era - por Deus! - a Democracia! 
E o seu cheiro, os seus berros, eram hediondos! No East End, no Soho. talvez fossem tolerveis, mas ali, em Regent Street, em Piccadilly! Que fazia a polcia? Em 
1900, Soames, como milhares de Forsytes, nunca havia visto o caldeiro com a tampa retirada, e agora, olhando para dentro dele, dificilmente podia acreditar no testemunho 
dos seus olhos abrasados. Era inexprimvel, aquilo tudo! Aquela gente no aceitava qualquer restrio e parecia lev-lo na troa. Enxameava ali - rude, brutal, rindo... 
que risadas! Nada lhes parecia sagrado! No se surpreenderia se comeassem a quebrar as vidraas. Em Pall Mall, junto quelas augustas manses - os clubes - cuja 
entrada custa sessenta libras, a mesma multido ululante, irreverente, jovial, danava loucamente pela rua. Das janelas dos clubes, os seus prprios correligionrios 
olhavam para fora, com comedido divertimento. Eles no compreendiam ento! Porque aquilo era srio - aquilo poderia conduzir a tudo! A multido estava alegre hoje, 
mas qualquer dia poderia estar de humor diferente! Lembrou-se de que ali mesmo houvera um motim, l pelos anos de oitenta,, quando ele estava em Brighton, e tinham 
quebrado coisas e feito discursos. Porm, mais do que receio, o que Soames sentia era uma profunda surpresa. Aquela gente era histrica - no parecia inglesa! E 
tudo isso por causa da libertao de uma cidadezinha - uma cidadezinha do tamanho de Watford,

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a seis mil milhas de distncia. Autodomnio, reserva! Essas qualidades, que lhe eram quase mais caras que a vida, esses indispensveis atributos da propriedade e 
da cultura, onde estariam? Aquilo j no era a Inglaterra! No, no era a Inglaterra!
Assim cogitava Soames, prosseguindo o seu caminho como podia. Era como se subitamente houvesse descoberto qualquer coisa que mutilasse o direito de "propriedade 
pacfica e total" dos seus documentos legais ou se avistasse um monstro que se emboscava e ameaava o futuro, cobrindo-o j com a sua sombra.
Aquela falta de compostura, aquela falta de reverncia! Era como se ele descobrisse que nove dcimos da populao da Inglaterra se compunha de estrangeiros. E se 
era assim, se isso era verdade, ento muita coisa poderia acontecer!
Em Hyde Park Corner, esbarrou em George Forsyte, muito queimado do sol que apanhava nos prados de corridas, com um nariz postio na mo.
- Ol, Soames - disse ele. - Tome um nariz! - Soames respondeu com um sorriso plido. - Apanhei isto a um desses sportsmen - continuou George, que evidentemente 
voltava de um jantar bem regado. - Tive de derrub-lo, porque estava a tentar arrancar- me o chapu. Digo-lhe que qualquer dia teremos de lutar com esses sujeitos. 
Esto terrivelmente insolentes... todos esses radicais e socialistas. Querem os nossos proventos. Voc deve contar isso ao tio James, h-de ajud-lo a dormir.
"In vino ventas", pensou Soames. Porm apenas abanou a cabea e passou para Hamilton Place. Em Park Lane s havia um punhado de folies, no muito barulhentos. E, 
erguendo o olhar para as casas, Soames pensou: "Afinal, somos os alicerces do pas. No conseguiro derrubarnnos facilmente. Nove dcimos da lei beneficiam a propriedade."
Mas, quando fechou atrs de si a porta da casa do pai, todo aquele pesadelo orgaco passou-lhe pelo esprito, como se, depois de um sonho, despertasse no conforto 
aquecido e limpo do seu leito macio.
Caminhando pelo meio da grande sala de estar, vazia, parou um instante. Precisava de uma mulher! Algum para falar, para trocar ideias. Era o seu direito! Cos diabos! 
O seu direito!

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TERCEIRA PARTE


CAPTULO I

SOAMES EM PARIS


Soames viajara pouco. Aos dezanove anos, fizera o petit tour com o pai, a me e Winifred: Bruxelas, o Reno, a Sua, e a volta para casa, via Paris. Aos trinta e 
sete anos, quando comeava a tomar interesse pela pintura, passara na Itlia oito semanas de Vero, vendo a arte da Renascena - um pouco diferente do que esperara 
encontrar. Na volta, demorara-se quinze dias em Paris, sempre metido consigo, como acontece com qualquer Forsyte cercado por um povo to fortemente caracterizado 
e "estrangeiro" como  o francs. Os seus conhecimentos do francs haviam sido aprendidos na escola secundria, de forma que no o compreendia quando o falavam. 
E, assim, preferira sempre manter-se silencioso em toda a parte, no correria perigo de que o levassem ao ridculo. Desagradavam-lhe o corte das roupas masculinas, 
os carros fechados, os teatros, que pareciam colmeias, as exposies, que cheiravam a cera. Era muito cuidadoso e tmido para explorar aquele lado de Paris que os 
Forsyte supem constituir a atraco escusa da cidade e, quanto a aquisies para a sua coleco, no fizera nenhuma. Como diria Nicholas - eram todos um bando de 
esganados. E voltara mal satisfeito, dizendo que Paris era imerecidamente louvada.
Quando, pois, voltou a Paris em 1900, era aquela a sua terceira experincia no centro da civilizao. Dessa vez, no entanto, era a montanha que ia ao encontro de 
Maom.

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Porque ele sentia-se agora mais profundamente civilizado do que Paris, e talvez realmente o fosse. E, alm disso, tinha um objectivo definido.
A sua viagem no representava uma mera genuflexo ante um templo de bom gosto e imoralidade, mas a prossecuo dos seus prprios e legtimos negcios. E ele viera, 
realmente, porque as coisas j se iam tornando ridculas. O tempo andava - e nada. nada! Jolyon no voltara a Paris, e ningum mais era "suspeito"! Ocupado com casos 
novos e confidenciais, Soames ia-se compenetrando, dia a dia, quanto  essencial a um "solicitador" uma reputao imaculada. Porm,  noite e nos momentos de folga, 
ele sentia-se devastado pelo pensamento de que o tempo corria, o dinheiro corria, e o seu futuro continuava to confuso como antes. Desde a noite de Mafeking descobrira 
que um "jovem mdico, doidivanas", andava a rondar em torno de Annette. Duas vezes se encontrara com ele - um moo estrdio e jovial, com pouco mais de trinta anos. 
E nada irritava mais Soames que a jovialidade - qualidade indecente, extravagante, sem nenhuma relao com os factos da vida. Numa palavra: a mistura dos seus desejos 
e esperanas transformara-se numa tortura. E ultimamente ocorrera-lhe o pensamento de que Irene talvez j soubesse que estava a ser seguida. Foi isso que acabou 
por resolv-lo a ir a Paris e ver as coisas por si mesmo, ir l e tentar mais uma vez quebrar-lhe a repugnncia, a sua recusa em aplanar e suavizar a vida de ambos. 
Se fracassasse novamente... bem, de qualquer forma poderia verificar o que ela estava a fazer.
Foi para um hotel na Rue Caumartin, muito recomendado aos Forsytes, onde praticamente ningum falava francs. No formara nenhum plano. No queria assust-la. Bastava 
faz-la crer que no lhe adiantava tentar escapar-se dele pela fuga. E na manh seguinte levantou-se com um tempo esplndido.
Paris tinha um ar de alegria, uma tal cintilao na sua forma estrelada, que quase irritava Soames. E ele caminhava gravemente, com o nariz um pouco erguido, numa 
curiosidade real. Desejava agora compreender as coisas da Frana. No era Annette francesa? Tinha muito a aproveitar com aquela visita - mas poderia aproveitar? 
E, com esses louvveis intuitos, j estava quase a percorrer pela terceira vez a Place de La Concorde. Entrou pelo Coars La Reine,

242

onde estava situado o hotel de Irene - e chegou l quase subitamente, porque ainda no resolvera nada do que deveria fazer. Atravessando para a outra margem do rio, 
estudava o edifcio, de aspecto alegre, com toldos verdes, visto atravs de uma cortina de folhas de pltanos. E, certo de que seria melhor encontr-la casualmente 
nalgum lugar pblico, em vez de se arriscar a uma visita, sentou-se num banco donde poderia observar a porta do hotel. Ainda no eram onze horas, e seria improvvel 
que ela j houvesse sado. Alguns pombos esgravatavam por ali e aqueciam a plumagem nas rstias de sol, entre a folhagem dos pltanos. Um trabalhador passou e atirou-lhes 
as migalhas do seu almoo, enroladas num pedao de jornal. Uma bonne, com uma touca na cabea, acompanhava duas rapariguinhas de tranas e calcinhas de rendas. Rolava 
perto um cab, cujo cocheiro usava um casaco azul e chapu lustroso. A Soames, parecia que tudo aquilo tinha um ar afectado, composto - uma espcie de pitoresco anacrnico. 
Que povo teatral, o francs! Acendeu um dos seus raros cigarros, com um sentimento de rancor contra o destino que o arrastara a terras to estranhas. No se admiraria 
se Irene gostasse daquela vida estrangeira. Ela nunca fora propriamente inglesa
- bastava olh-la para o ver! E comeou a pensar que janela seria a dela, sob aqueles toldos verdes. Que palavras poderia ele dizer, capazes de lhe penetrarem a 
orgulhosa obstinao? Atirou a ponta do cigarro a um pombo, enquanto cogitava: "No posso ficar aqui para sempre, a rodar os polegares.  melhor ir-me embora e vir 
visit-la  tarde." Mas continuou ali, ouviu bater doze horas, depois meia hora. "Esperarei at  uma hora", pensou ele, "j que esperei at agora." Porm nesse 
mesmo instante ergueu-se precipitadamente, mas tornou a sentar-se, rpido. Uma mulher de vestido creme aproximava-se, com uma sombrinha bege. Era Irene! Esperou 
at que ela se afastasse o bastante para no o reconhecer, depois ps-se a caminhar atrs dela. Irene andava lentamente, como se no tivesse nenhum objectivo especial, 
dirigia-se, se ele no se enganava, para o Bois de Boulogne. Durante meia hora acompanhou-a, guardando sempre a mesma distncia, at que ela entrou no Bois. Iria 
encontrar algum l? Algum maldito francs
- um desses sujeitos, tipo Bel Ami, que no tm nada a fazer
alm de rondar em torno das mulheres? Ele lera aquele livro com dificuldade e com uma espcie de enojada fascinao.

243

Seguiu-a soturnamente ao longo de uma lea sombreada, perdendo-a de vista, recobrando-a depois, nas curvas do caminho. E lembrou-se de si, muitos anos atrs, quando 
uma noite, no Hyde Park, deslizara de rvore em rvore, como uma cobra, de cadeira em cadeira, numa caada cega, ridcula, devorado de cimes por causa dela e do 
moo Bosinney. O caminho terminava subitamente, e, assustado, Soames deu com Irene sentada em frente a uma fonte - uma pequena Nobe de bronze esverdeado, vestida 
com os cabelos que lhe caam at aos quadris, fitando o tanque de lgrimas que chorara. Aproximou-se da mulher to rapidamente que j quase a ultrapassara quando 
se voltou e tirou o chapu. Ela no fez nenhum movimento especial. Sempre tivera grande domnio sobre si mesma - era uma das coisas que ele mais lhe admirava, uma 
das suas grandes queixas contra a mulher, porque nunca lhe fora possvel descobrir em que estaria ela a pensar. Teria ela compreendido que ele a seguira? A sua calma 
encolerizou-o e, desdenhando explicar a sua presena, Soames apontou para a pequena e melanclica Nobe e disse:
-  realmente uma bela coisa. - Pde verificar ento que ela lutava para se manter serena. - Eu no quis assust-la.  este um dos seus refgios?
- .
- Um pouco isolado.
Enquanto ele falava, uma senhora, em andar de passeio, parou um pouco para olhar a fonte e passou por eles. Os olhos de Irene seguiram-na.
- No - disse ela, picando o cho com a ponteira da sombrinha. - Nunca estou isolada. Todos temos a nossa sombra.
Soames compreendeu e, olhando-a duramente, exclamou:
- Bem, mas a culpa  sua. Pode livrar-se disso a qualquer momento. Irene, volte para mim e liberte-se. - Irene riu. - No ria! - exclamou Soames, batendo o p. - 
Isso  inumano. Escute: no h nenhuma condio que eu possa propor-lhe para a sua volta a casa? E se eu lhe prometer uma casa separada, que s visitarei uma vez 
por outra?

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Irene ergueu-se, com qualquer coisa de selvagem brilhando-lhe subitamente no rosto e no corpo.
- No! No! No! Voc pode perseguir-me at ao tmulo! Nunca voltarei!
Ultrajado, humilhado, Soames bateu em retirada.
- No faa uma cena! - disse ele rudemente. E ambos ficaram de p, imveis, olhando para a pequena Nobe, cuja nudez esverdeada o sol iluminava. -  essa ento a 
sua ltima palavra? - murmurou Soames, cerrando as mos. - Voc condena-nos a ambos.
Irene inclinou a cabea.
- No posso voltar. Adeus.
Um sentimento de monstruosa injustia feriu em cheio Soames.
- Um momento! - disse ele. - Escute-me um instante. Voc assumiu para comigo um compromisso sagrado... e veio para mim sem um penny na mo. E teve tudo que eu pude 
dar-lhe. Voc quebrou esse compromisso sem qualquer motivo, foi falsa e desleal comigo. Recusou-me um filho, deixou-me prisioneiro. E, apesar de tudo, representa 
tanto para mim que eu ainda a quero... ainda a quero. Diga-me agora que  que voc pensa de si prpria?
Irene voltou-se com o rosto mortalmente plido, os olhos escuros a faiscar.
- Deus fez-me assim como sou - disse ela. - Perversa, se voc o quer, mas no to perversa a ponto de me entregar outra vez a um homem a quem tenho dio.
A luz do sol reflectia-se nos seus cabelos louros enquanto ela se afastava e parecia acariciar o seu macio vestido creme.
Soames no pde falar nem mover-se. Aquela palavra "dio", to extremada, to primitiva, fazia tremer todo o Forsyte que havia nele. Com uma maldio ntima, atirou-se 
para a frente, para onde ela desaparecera, e quase caiu nos braos da senhora que a seguia - a idiota, a idiota vigilante!
Pouco depois, estava, gotejante de suor, numa das leas do Bois.
"Est bem,", pensou ele. "J no preciso ter mais qualquer considerao por ela. Ela no teve considerao nenhuma por mim. Vou mostrar-lhe ainda hoje se  minha 
mulher ou no."
Mas no seu caminho de volta para o hotel foi forado

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a concluir que ele prprio no sabia o que significava a sua ameaa. Ningum pode fazer cenas em pblico. E, alm de cenas em pblico, que podia mais ele fazer? 
E quase amaldioou a prpria estupidez. Ela no merecia qualquer considerao. Porm ele merecia considerao de si prprio. E sentado, sem ter querido almoar, 
no hall do seu hotel, no qual os turistas passavam a todo o momento de Badeker na mo, sentia-se possudo pelo mais negro desnimo. A ferros! A sua vida inteira, 
com todos os seus naturais instintos e decentes aspiraes empenhados e atados - tudo porque o Destino, dezassete anos antes, entregara o seu corao quela mulher. 
E to completamente que, mesmo hoje, ele no dispunha de corao para o dar a outra mulher. Amaldioado o dia em que a encontrara, amaldioados os seus olhos por 
no terem visto nela seno a cruel Vnus que ela era! E no entanto, recordando-a como a vira h pouco, com o seu macio vestido de crepe-da-china banhado pela luz 
do sol, no pde suster um pequeno gemido, e um turista que passava, ouvindo-o, pensou: "Esse homem est com alguma clica? Vejamos! Que foi que comemos ao almoo?"
Mais tarde, defronte do caf que ficava prximo da pera, junto a um copo de ch frio com limo e um canudo de palha dentro dele, Soames tomou a maliciosa resoluo 
de ir jantar no hotel de Irene. Se ela estivesse l, poderia falar-lhe. Se no estivesse, deixar-lhe-ia um bilhete. Vestiu-se cuidadosamente e escreveu o seguinte:

O seu idlio com aquele sujeito Jolyon Forsyte -me conhecido em todos os pormenores. Se voc prosseguir nisso, fica entendido que no deixarei de virar uma nica 
pedra para tornar a vida dele insuportvel.

S. F.

Selou o envelope, mas no lhe ps endereo, recusando-se a escrever o nome de solteira que ela impudentemente adoptara ou pr o nome Forsyte, com receio de que ela 
no o abrisse. Depois ps-se a caminho, percorrendo as ruas luminosas, abandonadas aos caadores de prazeres nocturnos. Entrando no hotel dela,

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tomou lugar num canto afastado da sala de refeies, donde poderia avistar todas as entradas e sadas. Ela ainda no estava l. Comeu pouco, rapidamente, preocupado. 
Ela no apareceu. Soames demorou-se na antecmara, depois do caf, bebeu dois clices de brandy. Porm ela no apareceu. Procurou a lista dos hspedes e percorreu 
os nomes. Nmero 12, primeiro andar! E resolveu-se a entregar ele prprio o bilhete. Subiu os degraus, cobertos por uma passadeira vermelha, e passou um pequeno 
salo. Oito... dez... doze! Deveria bater, atirar o bilhete por baixo da porta, ou...? Olhou furtivamente em torno e girou o trinco. A porta abriu-se, mas dava apenas 
para um pequeno espao que levava a outra porta. Bateu nessa outra porta - mas no recebeu resposta. A porta estava fechada. Ia at muito perto do cho, o bilhete 
no passava na estreita frincha. Meteu-o de novo no bolso e ficou um instante escutando. Sentiu uma impresso absoluta de que ela no estava ali. E subitamente foi-se 
embora, atravessando o salo e descendo a escada. Parou na recepo e perguntou:
- O senhor quer ter a bondade de entregar este bilhete a Mrs. Heron?
- Madame Heron partiu hoje, monsieur. Partiu subitamente, s trs horas. Motivo de doena na famlia.
Soames apertou os lbios.
- Oh!-exclamou ele. - E o senhor sabe o endereo dela?
- Non, monsieur. Inglaterra, creio.
Soames tornou a pr o bilhete no bolso e saiu. Chamou um carro aberto que ia a passar.
- Leve-me a qualquer parte!
O homem, que, obviamente, no o compreendera, sorriu e fez estalar o chicote. E Soames foi conduzido dentro daquela vitria de rodas amarelas por aquela Paris em 
forma de estrela com uma paragem aqui e ali e a pergunta: "C'est par ici, monsieur?"
- No, v andando!
At que o homem, desesperado, lanou o carro a trote, e a vitria de rodas amarelas continuou a rodar sem parar atravs das casas altas e patinadas, das avenidas 
de pltanos.
"Igual  minha vida", pensava Soames. "Sem objectivo, para c e para l!"

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CAPTULO II

PRESO  TEIA


Soames voltou  Inglaterra no dia seguinte, e na outra manh recebeu uma visita de Mr. Polteed, que ostentava uma flor na botoeira e chapu de coco. Soames chegou-lhe 
uma cadeira.
- As notcias da guerra no so ms, pois no? - disse Mr. Polteed. - Espero que esteja a passar bem, sir.
- Obrigado!
Mr. Polteed inclinou-se para trs, sorriu, abriu a mo, olhou para dentro dela e disse brandamente:
- Creio que, finalmente, conseguimos o que o senhor pretendia.
- O qu! - exclamou Soames.
- Dezanove relatrios que, segundo penso, podero perfeitamente apoiar uma alegao de provas concludentes.
E Mr. Polteed calou-se.
- E ento?
- No dia 10 do corrente, depois de testemunhar um encontro entre 17 e uma terceira pessoa, 19 pode jurar que o viu a sair do quarto de dormir dela, no hotel, s 
10 horas da noite. Com siderado bastante, especialmente porque 17 deixou Paris... e indiscutivelmente com o cavalheiro em questo. Realmente ambos deixaram a cidade, 
e ainda no os tornmos a apanhar. Mas havemos de o conseguir. A nossa agente trabalhou duramente,

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em circunstncias difceis, e estou satisfeito por ter chegado a um resultado.
Mr. Polteed tirou um cigarro, bateu-lhe a ponta na mesa, olhou para Soames e tornou a guard-lo. A expresso do rosto do seu cliente no era animadora.
- Quem  essa nova pessoa? - perguntou Soames abruptamente.
- Isso no sabemos. Mas a nossa agente pode jurar que o viu e descrever a sua aparncia. - Mr. Polteed apanhou uma carta e comeou a ler: "Homem de meia-idade, estatura 
mediana, fato azul,  tarde, smoking  noite, plido, cabelo escuro, bigodinho escuro, faces lisas, queixo grande, olhos pardos, p pequeno, ar culpado..."
Soames ergueu-se e caminhou at  janela. E parou ali, possudo por uma fria sardnica. Idiota de nascena, aranha idiota de nascena! Sete meses a quinze libras 
por semana - para ser seguido como amante da prpria mulher! Ar culpado! E escancarou a janela.
- Est calor - disse ele. E voltou a sentar-se. Cruzando os joelhos, lanou um olhar sombrio a Mr. Polteed. - No creio que isso seja bastante -disse ele, mastigando 
as palavras -, sem dar nome nem endereo. Creio que os senhores devem dar um descanso  senhora e tomar de novo o fio da meada pelo nosso amigo 47.
No poderia dizer se Polteed o teria identificado ou no. Porm tinha uma viso mental de si prprio, no meio do pessoal de Polteed, dissolvido em inextinguveis 
gargalhadas. "Ar culpado! Com mil demnios!"
Mr. Polteed disse num tom ansioso, quase pattico:
- Posso garantir ao senhor que j temos tido xito com elementos ainda mais precrios que estes.  Paris, o senhor sabe. Uma mulher atraente que vive sozinha. Porque 
no arriscar, sir? Acho que poderemos muito bem empregar este pretexto.
Soames teve uma sbita viso: o zelo profissional do homem espicaado: "O maior triunfo da minha carreira! Obtive o divrcio de um cliente com o testemunho de uma 
visita dele ao quarto de dormir da prpria mulher!  uma coisa de que poderei gabar-me depois de aposentado!"

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E, por um rpido momento, ele prprio pensou: "E porque no? Afinal, centenas de homens de estatura mdia tm p pequeno e ar culpado!"
- No estou autorizado a correr nenhum risco - disse ele laconicamente.
Mr. Polteed ergueu os olhos.
-  pena - disse ele-, realmente  uma pena. A outra pista parece muito dispendiosa.
Soames ergueu-se.
- No se preocupe com isso. Faa o favor de mandar vigiar 47, e tome cuidado em no cometer nenhum equvoco. At logo!
Os olhos de Mr. Polteed piscaram ante a palavra "equvoca"..
- Muito bem. Procuraremos estar bem informados,
E Soames viu-se novamente a ss. Que caso emaranhado, confuso, ridculo! Estirando os braos sobre a mesa, deitou neles a fronte. Durante dez minutos ficou assim, 
at que um escrevente entrou com um dossier de partilhas entre Manifold e Topping.
Naquela tarde ele deixou cedo o trabalho e dirigiu-se ao Restaurant Bretagne. S Madame Lamotte estava em casa. Quereria monsieur tomar um pouco de ch em companhia 
dela?
Soames assentiu.
Quando estavam ambos sentados, em ngulo recto um com o outro, na pequena sala, ele disse abruptamente:
- Preciso falar com a senhora, madame. - O rpido claro que passou pelos lmpidos olhos castanhos da mulher mostrou-lhe que ela h muito tempo esperava aquelas 
palavras. - Primeiro, quero perguntar-lhe uma coisa. Aquele moo mdico... como se chama?... h alguma coisa entre ele e Annette?
Madame Lamotte tornara-se de sbito como se fosse toda feita de azeviche: cortante, negra, spera, luzente.
- Annette  jovem - disse ela. - E tambm o  monsieur le docteur. Entre gente moa, as coisas marcham rapidamente: porm Annette  uma boa filha. Ah, que jia que 
ela !
Essa exclamao final fez aparecer um sorriso nos lbios de Soames.
- Ento no h nada de definitivo?
- Definitivo... no, com efeito! O rapaz  muito simptico, porm, que quer o senhor? Ainda no tem um vintm!
E ergueu a chvena de porcelana, Soames fez o mesmo. Os olhos de ambos encontraram-se.
- Eu sou casado - disse ele - e vivo separado de minha mulher h muitos anos. Estou agora a divorciar-me dela. - Madame Lamotte deps a chvena. "Com efeito. Como 
acontecem coisas trgicas a uma pessoa." A completa ausncia de sentimentos dela produziu uma estranha espcie de desdm em Soames. - Sou rico - prosseguiu ele, 
inteiramente consciente de que aquela observao no era de bom gosto. -  intil dizer mais. neste momento, mas creio que a senhora me compreende.
Os olhos de madame, to abertos que mostravam toda a crnea, fitaram-no bem de frente.
- Ah!... a... mais nous avons le temps! - foi o que ela disse. - Mais uma xcara?
Soames recusou, e, despedindo-se, saiu.
Podia agora ficar tranquilo. Ela no consentiria que Annette se comprometesse com aquele cretino antes que... Porm, que probabilidades tinha ele de um dia dizer 
"Estou livre"? Que probabilidades? O futuro perdera todo o aspecto de realidade. Ele sentia-se igual a uma mosca, presa entre os fios de uma teia de aranha, olhando 
para a maravilhosa liberdade do ar com olhos magoados.
Sentia-se carecido de exerccio e ps-se a caminhar para Kensington Gardens, atravessou Queen's Cate em direco a Chelsea. Talvez Irene houvesse voltado ao apartamento. 
E ele poderia descobrir alguma coisa. Porque, desde a sua ltima e ignominiosa recusa, o seu amor-prprio ofendido refugiara-se na crena de que ela deveria ter 
um amante. Chegou defronte de Little Mansions  hora do jantar. Mas no houve necessidade de fazer indagaes. Uma cabea grisalha de mulher estava a regar os vasos 
de flores da janela de Irene, o apartamento fora evidentemente alugado. Ele caminhou lentamente para diante, ao longo do rio - numa tarde de clara e silenciosa beleza, 
tudo cheio de harmonia e paz. excepto dentro do seu corao.

250 - 251


CAPTULO III

RICHMOND PARK


Na tarde em que Soames atravessou o canal em direco  Frana, Jolyon recebeu em Robin Hill o seguinte telegrama:

Seu filho doente de tifo sem perigo imediato telegrafaremos notcias.

A casa j estava agitada pela iminente partida de June - que embarcaria no dia seguinte-, quando o telegrama chegou. E ela estava a fazer a entrega ao pai de Eric 
Cobbley e da sua famlia quando o despacho chegou.
A resoluo de servir como enfermeira da Cruz Vermelha que June tomara logo aps o alistamento de Jolly estava a ser lealmente executada, a despeito da irritao 
e a mgoa que ela sentia, como o sentem todos os Forsyte ante tudo que lhes mutila a liberdade individual. Entusiasmada a princpio pela "sublimidade" do trabalho, 
June comeou, passado um ms, a considerar que ela poderia dirigir-se a si prpria muito melhor do que poderiam dirigi-la os outros. E, se Holly no tivesse insistido 
em seguir-lhe o exemplo e no estivesse a cursar a escola de treino, June, inevitavelmente, teria voltado a trs. A partida de Jolly e Val, que embarcaram em Abril, 
juntamente com os seus batalhes, estimulara a princpio a sua resoluo vacilante. Mas agora
no momento de partir por sua vez, o pensamento de deixar Eric Cobbley, com a mulher e os dois filhos, atirado no ambiente gelado de um mundo que o desconhecia, pesava 
tanto sobre ela que quase a fazia desistir.
Mas a leitura do telegrama, com a sua inquietadora realidade, decidiu a questo. Ela j se via a tratar de Jolly - porque, naturalmente, eles deix-la-iam tratar 
do prprio irmo! Jolyon, sempre vago e cheio de dvidas, no tinha tal esperana. Pobre June! Seria que algum Forsyte da gerao dela poderia compreender quanto 
a vida  rude e brutal? Desde que soubera da chegada do filho a Cape Town, a lembrana dele fora um motivo de tristeza para Jolyon. No podia habituar-se  ideia 
de que Jolly estava constantemente a correr perigo. E o telegrama, embora grave, como era, trouxera-lhe quase um alvio. Pelo menos, agora estava a salvo de balas. 
No entanto, o tifo era uma doena to virulenta! O Times estava cheio de listas de vtimas dela. Porque no podia ser ele prprio o doente, naquela cama de hospital 
de alm-mar, enquanto o seu filho estaria so e salvo em casa? A capacidade anti-forsytiana de sacrifcio dos seus trs filhos chegava a assustar Jolyon. Ele desejava 
ardentemente trocar de lugar com o filho porque o amava, mas no eram motivos pessoais idnticos que os moviam a eles trs. E ele s podia concluir disso tudo que 
aquilo era o sinal de declnio do tipo Forsyte.
No fim da tarde, Holly foi procur-lo, sob o velho carvalho. Ela crescera muito durante aqueles ltimos meses de prtica hospitalar, fora de casa. E, vendo-a aproximar-se, 
o pai pensava: "Essa tem mais juzo que June, embora seja ainda uma criana, mais discernimento. Graas a Deus, no vai embarcar como os outros." Holly sentou-se 
no balouo e deixou-se ficar quieta e calada. "Sente isso tudo", pensava Jolyon, "tanto como eu." E, vendo-lhe os olhos fixos nele, disse:
- No se preocupe muito, minha filha. Se ele no estivesse doente, poderia estar em perigo muito maior.
Holly saiu do balouo.
- Queria dizer-lhe uma coisa, pap. Foi por minha causa que Jolly se alistou.

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- Como?
- Quando o senhor estava em Paris, Val Dartie e eu apaixonmo-nos um pelo outro. Costumvamos passear a cavalo por Richmond Park... e ficmos noivos. Jolly descobriu, 
e achou que deveria impedi-lo. Por isso desafiou Val a alistar-se! Foi culpa minha, pap. E por isso quero tambm ir para l. Porque, se acontecer qualquer coisa 
a um dos dois, morrerei de remorsos. E, alm disso, j tenho tanta prtica como June.
Jolyon olhava-a, com uma estupefaco mesclada de ironia. Ento estava ali a resposta ao enigma que ele tentara descobrir: os seus filhos, afinal, eram todos Forsyte! 
Holly devia ter-lhe dito isso h mais tempo! Porm ele deteve as palavras sarcsticas que lhe chegavam aos lbios. A ternura para os jovens era talvez o artigo mais 
sagrado do seu credo. Ele recebera, indubitavelmente, o que merecia. Noiva! To afastado vivia da filha! E de Val Dartie, sobrinho de Soames - pertencente ao lado 
inimigo! Era tudo imensamente desagradvel. Desmontou o cavalete e encostou a tela ao tronco da rvore.
- Voc j falou a June?
- J. Ela prometeu que me arranjar um lugar qualquer no camarote.  uma cabina de um s lugar, mas uma de ns pode dormir no cho. Se o senhor consentir, ela ir 
pedir permisso para o meu embarque.
- Voc  muito criana, minha filha. Eles no consentiro na sua partida.
- June conhece algumas pessoas a quem ela ajudou a ir para Cape Town. Se l eles no me deixarem trabalhar como enfermeira, poderei continuar a praticar, como estou 
a praticar aqui. Deixe-me ir, pap!
Jolyon sorriu, porque estava com vontade de chorar.
- Eu nunca impeo ningum de fazer qualquer coisa - disse. Holly rodeou-lhe o pescoo com os braos.
- Oh, pap,  o melhor pai que h no mundo.
"Isto quer dizer que sou o pior", pensou Jolyon. Se alguma vez ele duvidou do seu credo de tolerncia, f-lo naquele instante.
- Eu no me dou com a famlia de Val - disse ele. - E no conheo Val, mas Jolly no gosta dele.

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Holly olhou para longe e disse:
- Eu amo-o.
- Isso resolve tudo - disse Jolyon secamente.
Mas, vendo a expresso do rosto da filha, beijou-a, cismando: "Haver algo mais pattico que a f dos jovens?" E, uma vez que ele no a proibia de partir, era lgico 
que deveria fazer que isso se realizasse da melhor forma possvel. E foi  cidade em companhia de June. Graas  persistncia dela, ou devido ao facto de o oficial 
com quem tiveram de tratar ser um velho condiscpulo de Jolyon, foi obtida a permisso para Holly partilhar o camarote de June. Levou-as no dia seguinte  estao 
de Surbiton, onde as duas se despediram dele e partiram, carregadas de dinheiro, de remdios e das letras de crdito sem as quais os Forsyte nunca empreendem uma 
viagem.
Voltou  noite para Robin Hill, sob um cu brilhante. As criadas serviram-lhe pressurosas o seu jantar tardio, procurando mostrar que o lastimavam, e Jolyon comeu-o 
com o maior cuidado, para mostrar que apreciava os sentimentos delas. Mas foi um verdadeiro alvio quando pde ir fumar o seu charuto no terrao calado de grandes 
lajes, cuidadosamente escolhidas pelo jovem Bosinney, de acordo com a sua forma e cor. Sentia a noite fechada em torno de si - uma noite lindssima, com uma brisa 
que mal soprava entre as rvores e um perfume to suave que quase fazia sofrer.
O relvado estava molhado de orvalho, e Jolyon continuou a passear, abaixo e acima, por sobre as lajes, parecia-lhe que no era um s, mas trs, caminhando de um 
extremo ao outro: o pai caminhava do lado da casa, o filho caminhava do lado do terrao, e ambos apoiavam ligeiramente o brao nos seus. Ele no ousava erguer a 
mo at ao charuto, com receio de os perturbar, e o charuto ardia sozinho, lanando-lhe a cinza sobre o peito, at que lhe caiu dos lbios, que j comeavam a arder, 
aquecidos. Os dois ento abandonaram-no e os seus braos caram, desamparados. Trs Jolyons num nico Jolyon tinham estado a passear ali!
Ainda se demorou um pouco, atentando nos sons de fora - uma carruagem que passou pela estrada, um comboio longnquo,

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o co da granja de Gage, as rvores que sussurravam, o moo da estrebaria que soprava a sua gaita. Uma multido de estrelas l em cima - to luminosas e silentes, 
to distantes! A Lua ainda no se via. Havia luz suficiente apenas para lhe deixar ver os pendes sombrios das flores de ris na margem do terrao - a sua flor favorita, 
porque trazia a prpria cor da noite nas ptalas crespas. Voltou para a casa grande, escura, sem um nico ser vivo ao lado dele para a compartilhar.
Absoluta solido! No poderia continuar a viver ali, sozinho. Mas realmente, enquanto existe beleza ao seu lado, porque h-de um homem sentir-se sozinho? A resposta, 
como a de tantas outras adivinhas idiotas,  esta: "Sente-se s porque est s. Quanto maior  a beleza, maior  o isolamento, porque o complemento da harmonia  
a unio. A beleza sozinha no consola ningum, se a alma est privada do resto."  noite, doentiamente bela, com os seus cachos de estrelas, com o cheiro do mel 
e das ervas que subia do campo, ele no podia goz-la, porque aquela que representava aos seus olhos toda a vida e toda a beleza - a sua encarnao e a sua essncia 
- estava longe, totalmente afastada, agora, pensava ele, por respeito s convenincias da moral.
Dificilmente, dormiu um pouco, tentando penosamente obter aquela resignao que  to difcil de obter pelos Forsyte - gente habituada a agir  sua prpria maneira 
e cuja abastana j foi amplamente garantida pelos pais. Mas pela madrugada conseguiu adormecer profundamente, e logo comeou a sonhar um estranho sonho.
Estava num palco, com cortinas imensamente altas e ricas - to altas como as estrelas - rodeando em semicrculo uma linha enorme de gambiarras. Ele prprio era muito 
pequenino, um minsculo vulto preto errando daqui para ali, e o engraado  que ele no era apenas ele prprio, mas tambm Soames, de forma que no se contentava 
apenas em sentir, mas em vigiar igualmente. Aquele vulto que era ele e Soames tentava encontrar uma sada atravs das cortinas que, pesadas e sombrias, os rodeavam. 
Vrias vezes atravessou o palco, antes que descobrisse com alegria uma sbita fenda, uma estreita tira de beleza, da cor de flores de ris, semelhante a uma nesga 
do Paraso, remota, inefvel.

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Caminhando apressadamente para atravessar a abertura, viu as cortinas fechadas  sua frente. Amargamente desapontado, ele - ou seria Soames? - foi para o outro lado, 
e novamente descobriu a fenda entre as cortinas separadas, que novamente se fecharam  sua aproximao. E ficou a caminhar assim, de um para o outro lado, sem nunca 
encontrar sada, at que acordou com a palavra "Irene" nos lbios. O sonho perturbou-o muito, especialmente por causa daquela identificao entre si e Soames. Na 
manh seguinte, sentindo que lhe seria impossvel trabalhar, passou o dia a andar no cavalo de Jolly, com o fim de se fatigar. E no segundo dia resolveu ir a Londres, 
a fim de ver se poderia obter permisso para acompanhar as filhas  frica do Sul. E comeara justamente a aprontar-se, na manh seguinte, quando recebeu esta carta:

Meu caro Jolyon,
Green Hotel, Richmond,

20 de Junho,

Voc ficar surpreendido quando souber quo prxima estou de si. Paris tornou-se impossvel - e eu resolvi voltar para c, a fim de poder estar ao alcance dos seus 
conselhos. Ser para mim uma felicidade se voltar a v-lo. Desde que voc saiu de Paris, no creio que tenha encontrado algum com quem valesse a pena trocar uma 
palavra. Vai tudo bem, relativamente a voc e ao seu filho? Ningum sabe, creio eu, que estou agora aqui.

Irene

Irene a trs milhas de distncia dele! E, alm disso, fugindo! Ficou um momento imvel, com um estranho sorriso nos lbios. Aquilo era muito mais do que ele ousaria 
desejar!
Pelo meio-dia, dirigiu-se a p para Richmond Park, e, enquanto caminhava, cismava: "Richmond Park! Coa breca, parece que ele nos persegue, a ns, Forsyte! No que 
os Forsyte vivam aqui

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- ningum vive aqui, salvo a famlia real e alguns couteiros e veados-, mas em Richmond Park a Natureza permite-se ir at muito longe, embora no longe de mais, 
faz um grande esforo para se mostrar natural e parece dizer: Olhe para os meus instintos - so quase paixes, quase incontrolveis, mas no incontrolveis de todo, 
 claro." Sim, Richmond Park possua-se a si prprio, mesmo naquele luminoso dia de Junho, com cantigas de cuco que desciam como setas do cimo das rvores e as abbadas 
verdes e copadas anunciando o pice do Vero.
O Green Hotel, onde Jolyon entrou  uma hora, ficava exactamente em frente daquela famosa hospedaria, a Crown and Sceptre. Era modesto, altamente respeitvel, sem 
nunca prescindir do rosbife frio e da torta de morangos e da presena de duas respeitveis vivas, cuja carruagem e parelha estavam sempre estacionadas  porta.
Numa salinha forrada de cretone, to discreta que parecia destinada a proibir qualquer emoo, sentada ao piano coberto com uma colcha de croch, Irene tocava Hansel 
e Gretei, lendo a msica num velho lbum. Na parede, acima dela, via-se um retrato da Rainha montada num pnei, entre os seus guarda- caas de capas escocesas, e, 
no cho, corpos de veados mortos. Junto dela, no parapeito da janela, havia um vaso de fucsias rseas e brancas. O vitorianismo da sala s faltava falar-e, no seu 
vestido justo ao corpo, Irene pareceu a Jolyon como Vnus emergindo dos destroos do sculo passado.
- Se o dono do hotel tiver olhos - disse ele -, mand-la- embora. Voc estraga-lhe toda a decorao.
Dizendo isto, tentava desviar a emoo do momento. E depois de almoarem o rosbife frio, pickles e torta de groselha, tudo regado a ginger-ale, foram passear no 
parque, onde a palestra leve foi substituda pelo silncio que Jolyon receara.
- Voc no me falou a respeito de Paris - disse ele finalmente.
- No. Fui seguida durante muitos dias. A gente acaba por se habituar. Porm depois Soames chegou. Junto da pequena Nobe... a mesma histria de sempre... se eu 
no quereria voltar para ele...

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-  incrvel!
Ela falara sem levantar os olhos, mas ergueu-os ento. E aqueles olhos escuros pregados nele diziam o que as palavras no ousavam exprimir: "J cheguei ao extremo. 
Se voc me quiser, estou aqui."
Seria que ele j passara por um momento emocional to profundo como agora - apesar de j estar to velho?
As palavras "Irene, adoro-a!" quase lhe escaparam. E ento, com uma nitidez de que nunca julgara capaz a sua viso mental, viu Jolly deitado, com o rosto voltado 
para uma parede, branca.
- Meu filho est muito doente, na frica - disse calmamente.
O brao de Irene deslizou ao longo do dele.
- Continuemos a andar. Eu compreendo.
No era preciso tentar nenhuma explicao miservel! Ela compreendera! Continuaram a caminhar atravs da relva alta, que lhes chegava aos joelhos, por entre os carvalhos, 
falando a respeito de Jolly. Duas horas mais tarde ele deixou-a em Richmond Hill Gate e voltou para casa.
"Irene conhece o meu sentimento por ela", pensou Jolyon, Naturalmente! Ningum poderia esconder uma coisa dessas de tal mulher!"


259


CAPTULO IV

POR SOBRE O RIO


Jolly estava mortalmente cansado de sonhos, sonhos que o tinham deixado fraco e lnguido de mais para poder de novo sonhar. Jazia entorpecido, recordando vagamente 
coisas longnquas, mal tinha foras para abrir os olhos e fitar atravs da janela prxima  sua cama de campanha uma nesga de rio correndo entre a areia e as moitas 
alvadias e ralas do karoo. Agora, Jolly j sabia o que era o karoo, embora no houvesse visto ainda nenhum ber deslizar atravs dele como um coelho, nem ouvido 
o perpassar das balas. A doena derrubara-o antes mesmo que tivesse sentido o cheiro da plvora. Bastara um gole de gua infectada, numa altura de sede, ou um fruto 
mal lavado - quem sabe? Pelo menos, no o sabia ele, que no tinha energia nem mesmo para disputar a vitria  doena, que mal tinha conhecimento bastante para saber 
que havia muitos outros estirados ali, ao seu lado, conhecimento apenas para espiar aquela nesga de rio e recordar dbilmente as suas lembranas longnquas.
O Sol j estava quase escondido. Em breve o tempo esfriaria. Ele gostaria de saber as horas, de sentir na mo o seu velho relgio to gasto, ouvir bater o seu maquinismo. 
Aquilo dar-lhe-ia uma sensao de conforto de lar. No tinha foras suficientes para recordar que o seu velho relgio rebentara de vez no dia em que ele cara ali.

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O crebro pulsava-lhe to fracamente que as caras que entravam e saam - enfermeiras, mdicos, ordenanas- eram indistinguveis, todas lhe pareciam a mesma cara 
indiferente. As palavras que diziam a seu respeito pareciam-lhe todas a mesma coisa e no significavam quase nada.
Os actos que praticara outrora, embora longnquos e apagados, eram mais distintos: caminhadas pelas velhas caladas de Harrow - "Aqui, sir! Aqui, sir!"-, o seu gesto 
de enrolar as botas na Westminster Gazette - o papel era esverdeado, as botas luzentes -, o av chegando de um lugar qualquer, muito escuro - um cheiro de terra 
-, a estufa dos cogumelos! Robin Hill. O enterro do co Balthasar sob as folhas! Pap... l em casa...
A conscincia voltou-lhe, mostrando-lhe que o rio no tinha gua e que algum estava a falar. Queria alguma coisa? No. Que  que se pode querer?
Muito fraco para querer... apenas ouvir o maquinismo do relgio...
Holly! No estava a atirar bem a bola! Oh! Mande-a de cima! No deixe arrastar! "Olhe a curva, nmero dois!" Ele era o nmero dois! A conscincia voltou de novo, 
mostrando-lhe uma espcie de nevoeiro roxo l fora e uma Lua crescente, que ia surgindo, sangrenta. Os seus olhos prenderam-se nela, fascinados. E durante longos 
minutos de vazio cerebral ele sentiu-se erguido para o alto, para o alto...
- Est a acordar, doutor!
No ia enrolar novamente as botas? Nunca? "Olhe a forma, nmero dois! No chore! V serenamente... por sobre o rio... durma! Escuro?" Se algum quisesse fazer soar... 
o relgio!

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CAPTULO V

SOAMES AGE


Uma carta selada, com o endereo do punho de Mr. Polteed, permaneceu fechada no bolso de Soames durante duas horas, dado que dedicava uma ateno absoluta aos negcios 
da New Colliery Company, pois a companhia, cujo declnio comeara por ocasio da retirada do velho Jolyon da presidncia, cara to baixo que, agora, s se tratava 
quase de uma liquidao. Levou depois a carta consigo para o almoo no City Club, que hoje lhe era sagrado por causa das refeies que fizera l em companhia de 
James, na dcada de setenta, quando o pai o trazia ali para o habituar desde cedo  rotina da sua futura profisso. L, num canto remoto, defronte de um prato de 
carneiro assado e pur de batatas, Soames leu:

Prezado senhor,

De acordo com a sua sugesto, passei a ocupar-me com o outro lado e obtive resultados compensadores. A observao de 17 permitiu-nos localizar 17 no Green Hotel, 
em Richmond. Os dois foram vistos em encontros dirios, durante a semana passada, em Richmond Park. Nada de absolutamente crucial foi observado at agora. Porm, 
em conjuno com o que foi observado em Paris,

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no comeo do ano, tenho a certeza de que poderemos satisfazer o tribunal. Continuaremos, entretanto, a manter a vigilncia, at receber as suas prezadas ordens. 
Atenciosamente,

Claud Polteed

Soames leu duas vezes a carta, depois chamou o criado.
- Leve isso. Est frio.
- Quer que lhe traga outra coisa, sir?
- No. Leve-me caf  outra sala.
E, pagando o que no comera, saiu da sala, passando por dois conhecidos sem dar mostra de os ver.
"Satisfazer o tribunal", pensava ele, sentado junto a uma pequena mesa redonda de mrmore, com o caf defronte de si. Aquele sujeito, aquele Jolyon! Puxou o caf, 
adoou-o, bebeu-o. Haveria de infam-lo aos olhos dos prprios filhos! E, erguendo-se com aquela deciso quente dentro de si, sentiu pela primeira vez a inconvenincia 
de ser o seu prprio advogado. No poderia tratar aquele escandaloso caso no seu prprio escritrio. Tinha de confiar a sua dignidade ntima a um estranho, qualquer 
outro profissional calejado em desonras de famlia. A quem procuraria? Linkman & Laver, em Budge Row, talvez - gente de confiana, no muito conhecidos, com quem 
s tinha relaes de cumprimento. Mas, antes de os procurar, tinha de ver Polteed mais uma vez. Porm, a esse pensamento, Soames teve um momento de profunda fraqueza. 
Separar-se do seu segredo? Como encontrar as palavras? Como submeter-se a si prprio  piedade ostensiva dos outros,  zombaria disfarada?
Afinal, o camarada j sabia de tudo muito bem - sim, sabia! E, sentindo que devia acabar imediatamente com aquilo, apanhou um cab que o levou ao West End.
Naquele dia quente, a janela de Mr. Polteed estava francamente aberta e a nica precauo discreta era uma tela, prevenindo a intruso de moscas. Duas ou trs tinham 
tentado entrar, mas haviam sido apanhadas pela rede, de forma que pareciam estar ali  espera de que as devorassem. Mr. Polteed,

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seguindo a direco do olhar do cliente, ergueu-se, pedindo desculpas, e fechou a janela.
"Presunoso estpido!", pensou Soames. Como o fazem todos os que acreditam fundamentalmente em si prprios, no esperou oportunidade e disse com o seu sorriso de 
vis:
- Recebi a sua carta. E vou agir. Creio que o senhor sabe quem  realmente a senhora que est a vigiar?
A expresso de Mr. Polteed era naquele momento uma obra-prima. Dizia claramente: "Bem, que  que o senhor est a pensar? Porm, o meu conhecimento do facto  puramente 
profissional- por favor, esquea-o!" E fez um leve movimento com a mo esquerda, como para dizer: "Tais coisas acontecem a todos!"
- Muito bem, pois - disse Soames, mordendo os lbios. - No h necessidade de dizer mais nada. Estou a dar instrues a Linkman & Laver para agirem em meu nome. 
No quero ver as suas provas, mas tenha a bondade de as transmitir a esses senhores, hoje s cinco horas. Continue a vigilncia com o mesmo segredo.
Mr. Polteed semicerrou os olhos, como se comeasse a obedecer desde logo.
- Meu caro senhor... - disse ele.
- O senhor est convencido - interrompeu Soames com sbita energia - de que as suas provas so suficientes?
Um ligeiro movimento agitou os ombros de Mr. Polteed.
- O senhor pode arriscar. Com o que temos, e com a natureza humana, o senhor pode arriscar.
Soames ergueu-se.
- Ento procure Mr. Linkman. Obrigado. No se incomode. No podia suportar ver Mr. Polteed deslizar ao seu lado,
como de costume, at  porta.
Na luz do sol, em Picadilly, enxugou a testa. Passara-se j o momento pior - e ele podia encarar os estranhos melhor que os conhecidos. Voltou para a City, a fim 
de executar o que ainda lhe restava fazer.
Naquela noite, em Park Lane, assistindo ao jantar do pai, sentia-se possudo pelo seu velho desejo de um filho - um filho que lhe assistisse ao jantar quando ele 
estivesse velho,


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um filho para sentar nos joelhos, como James o sentara nos seus, tempos atrs, um filho seu que o pudesse entender porque era da sua carne e do seu sangue - entend-lo, 
consol-lo, que fosse mais culto que ele prprio, porque o seu desejo era melhorar e crescer sempre. Envelhecer - tal como aquele magro, prateado e to frgil vulto 
sentado ao seu lado - e sentir-se inteiramente s ao lado das riquezas que acumulara, das propriedades que reunira, no tomar interesse por nada, porque no tinha 
futuro - e tudo o que era seu passaria para mos e bocas e olhos estranhos, por quem ele no se interessava! No! Era preciso aceitar o sacrifcio, libertar-se para 
poder casar, para ter um filho que o cuidasse antes que ele ficasse to velho como aquele ancio, como seu pai, que a todo o momento levantava a vista do picado 
de fgado para olhar o filho.
Cogitando nessas coisas, foi para a cama. Porm, deitado entre as finas bretanhas que eram o orgulho de Emily, foi assaltado por lembranas e torturas. Vises de 
Irene, o sentimento quase material do corpo dela ao seu lado. Porque fora ele to louco por voltar a v-la, deixar que aquilo de novo o tomasse de tal modo que lhe 
causava uma dor atroz pensar nela - ela, em companhia daquele sujeito... aquele ladro!

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CAPTULO VI

UM DIA DE VERO


O pensamento de Jolyon raras vezes deixou a lembrana do filho nos dias que se seguiram ao seu primeiro passeio em companhia de Irene pelas leas de Richmond Park. 
No chegou nenhuma outra notcia. As suas indagaes no War Office no lhe adiantaram nada. E no podia esperar nenhuma informao vinda da parte de June ou de Holly 
antes de trs semanas. Naqueles dias, sentiu bem quo insuficientes eram as suas lembranas de Jolly e que pai dilettante ele fora. No tinha uma nica recordao 
em que nela a clera entrasse, nenhuma reconciliao, porque nunca houvera uma briga, nenhuma troca de confidncias ntimas, nem mesmo quando a me do rapaz morrera. 
Nada, alm de uma semi-irnica afeio. Sempre receara tomar abertamente qualquer direco, com medo de perder a sua liberdade ou de interferir na liberdade do filho. 
S na presena de Irene Jolyon sentia alvio - alvio complicado entretanto pela crescente compreenso de quanto o seu corao estava dividido entre ela e o rapaz. 
Sentia-se ligado a Jolly pelo sentimento de continuidade e pelo credo social de que se alimentara largamente na sua mocidade e na vida escolar e universitria do 
filho, aquele sentimento de apoio mtuo e mtuo avano que tanto pai como filho sempre esperam um do outro. A Irene, ligava-o o amor que ambos tinham pelas coisas 
belas e pela Natureza. E cada dia parecia-lhe mais difcil distinguir qual era, entre ambos, o lao mais forte dentro de si.

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E foi rudemente despertado dessa paralisia sentimental, numa certa Tarde, quando se preparava para sair para Richmond. Um rapaz saltou de uma bicicleta e dirigiu-se 
a ele, com uma cara estranhamente familiar e um meio sorriso:
- Mr. Jolyon Forsyte? Obrigado!
Depondo um envelope nas mos de Jolyon, cavalgou a sua mquina e desapareceu no caminho. Intrigado, Jolyon abriu o envelope: "Processo de divrcio: Forsyte versus 
Forsyte e Forsyte". Uma sensao de vergonha e nojo foi seguida por imediata reaco. "C est o que voc na verdade queria, e agora no gosta!" Ela, porm, deveria 
ter recebido uma carta idntica. Tinha de procur-la imediatamente. E tratou de pr-se a caminho. Era um assunto cheio de ironia. Porque, a despeito de tudo o que 
a Escritura diz acerca dos desejos do corao,  preciso que haja mais que inteno para satisfazer a lei. Eles poderiam perfeitamente defender-se, ou, pelo menos, 
poderiam tent-lo, em boa f. Mas a ideia de se submeter a isso revoltava Jolyon. Porque, se no era seu amante de facto, era-o em desejo, e sabia bem que ela estava 
pronta a dar-se toda a ele. O rosto de Irene dissera-lhe isso bem claro. No que ele exagerasse o sentimento dela a seu respeito. Era uma mulher que j passara pela 
sua grande paixo, e ele no poderia esperar nova paixo, na idade que ela agora tinha. Porm, confiava em Jolyon, estimava-o, devia sentir que ele representava 
um abrigo. Decerto no iria pedir-lhe que se defendesse da acusao, sabendo que ele a adorava! Graas a Deus, Irene no tinha aquela mrbida conscincia britnica 
que recusa a felicidade pelo simples amor da renncia! Ela alegrar-se-ia ante a perspectiva de se ver livre-depois de dezassete anos de morte em vida! Quanto  publicidade, 
o leo j fora lanado sobre as chamas. A denegao da acusao em nada a diminuiria. E Jolyon tinha naquele momento os legtimos sentimentos de um Forsyte cuja 
vida ntima  ameaada: se tinha de cair sob a garra da lei, que isso ao menos lhe rendesse uma vantagem real! Ademais, a ideia de se sentar num banco de testemunhas 
e jurar que nenhum gesto, nem mesmo uma palavra de amor, fora trocada entre ambos, parecia-lhe mais degradante do que aceitar tacitamente o estigma do adultrio

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- mais legitimamente degradante considerando os sentimentos do seu corao -, e nem por isso a coisa se tornaria menos vergonhosa e prejudicial para os seus filhos.
Horrorizava-o a ideia de explicar diante de um juiz e de doze ingleses de condio mediana os seus encontros em Paris, os seus passeios em Richmond. Horrorizava-o 
a brutalidade, a hipcrita censura do processo, a probabilidade de no ser acreditado, e a simples evocao de Irene, que, aos seus olhos, representava a prpria 
encarnao da Vida e da Beleza, afrontando todas aquelas suspeitas, apavorava-o. No, no! Uma defesa representaria apenas um bom divertimento para toda Londres, 
um bom escndalo para aumentar a tiragem dos jornais. Era mil vezes melhor aproveitar o que Soames e os deuses lhe haviam mandado!
"Alm disso", cogitava ainda honestamente ele, "quem sabe se, a despeito do que h com o rapaz, eu poderei manter este estado de coisas por muito tempo? E, de qualquer 
modo, ela ficaria sempre exposta s vergonhas do processo!"
To absorvido estava que no se apercebeu da brusca mudana do cu, que se tornara avermelhado, com grandes traos brancos. Uma grande gota de gua esmagou-se como 
uma estrela na poeira da estrada, quando ele entrou no parque. "Oh", pensou Jolyon, "trovoada! Espero que ela no tenha vindo ao meu encontro. Isto vai ficar tudo 
alagado." Mas nesse mesmo instante viu Irene, que atravessava o porto. "O nico meio  corrermos para Robin Hill", resolveu ele.
A tempestade passara pelo Poultry s quatro horas, trazendo uma abenoada distraco para os escreventes de todos os escritrios. Soames estava a beber uma chvena 
de ch quando lhe entregaram um bilhete:

Caro senhor
"Forsyte versus Forsyte e Forsyte",

De acordo com as suas instrues, temos o prazer de informar que fizemos a entrega pessoal das intimaes aos respondentes da sua aco,

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hoje mesmo, nas residncias de ambos, respectivamente em Richmond e Robin Hill. Atenciosamente,

Linkman & Laver

Durante alguns minutos, Soames ficou a olhar o memorando. Desde que dera as instrues, sentira-se tentado a anul-las. Seria um tal escndalo, uma vergonha to 
universal! Alm disso, as provas obtidas nunca lhe haviam parecido muito concludentes. De qualquer modo, cada dia acreditava menos que aqueles dois houvessem chegado 
a tais extremos.  verdade que uma tal intimidade decerto e fatalmente os levaria a isso. E esse pensamento fazia-o sofrer. Aquele sujeito ser amante dela - dela, 
diante de quem ele, Soames, fracassara! Seria tarde de mais? Agora, que os assustara com a intimao, no disporia de alguma arma que pudesse separ-los? "Porm, 
se eu no agir imediatamente", cogitava Soames, "ser depois tarde de mais - pois eles j foram intimados. Vou procur-lo. Vou imediatamente!"
E, doentiamente enervado, ansioso, dirigiu-se para um dos novos carros a motor. Seria preciso muito tempo para expulsar do campo aquele sujeito, e sabe Deus que 
deciso teriam eles tomado depois do choque! "Se eu fosse um comediante", pensava Soames, "deveria ter levado um chicote, ou uma pistola, ou qualquer outra dessas 
coisas!" E apanhou, em vez disso, uma papelada relativa ao caso "Magentic versus Wake", com inteno de a ler em caminho. Mas nem sequer a abriu. Ficou praticamente 
imvel dentro do carro, sacudido, balanado, inconsciente da trepidao que lhe maltratava a nuca ou do cheiro de petrleo. Deveria guiar-se pela atitude do outro. 
O importante era no perder a cabea!
Londres j comeava a despejar os seus operrios quando ele chegou a Putney Bridge. O formigueiro movimentava-se em direco ao subrbio. E que multido de formigas, 
cada uma cuidando da sua vida e segurando com as antenas a grande migalha! Talvez pela primeira vez na sua vida, Soames pensou: "Eu posso ir-me embora para onde 
quiser! Nada pode atingir-me!

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Posso lamber os dedos, viver como quiser - gozar!" Mas no! Ningum pode deixar subitamente a sua antiga vida, abandonar tudo. e instalar-se em Cpua, para gastar 
o dinheiro e a reputao que conquistou. A vida de um homem  o que ele possuiu e sonha possuir. S os loucos pensam diferentemente - loucos, socialistas e libertinos!
O carro passava agora por ruas de vilas, em grande velocidade. "Quinze milhas por hora, penso eu", dizia a si mesmo Soames. "Isto levar toda a gente a mudar-se 
para fora da cidade." E pensou no provvel reflexo desse acontecimento sobre as pores de Londres que pertenciam a James - porque ele prprio nunca fizera desses 
empregos de capital, utilizando as suas reservas apenas em aquisies de quadros.
E o carro aumentou de velocidade para subir a colina que fica depois de Wimbledon Common. Ah, aquele encontro! Decerto um homem de cinquenta e dois anos, com filhos 
crescidos, um nome artstico conhecido, no iria agir estouvadamente. "Ele no h-de querer cobrir toda a famlia de vergonha, gostava do pai como eu gosto do meu, 
e eles eram irmos. Aquela mulher traz em si uma semente de destruio. Que haver nela? Nunca o soube."1
O carro passava agora ao longo de um bosque, e ele escutou o canto de um cuco, talvez o primeiro que ouvia naquele ano. Estava agora quase defronte do local que 
escolhera primitivamente para sua casa e que fora to sem-cerimoniosamente recusado por Bosinney em favor da prpria escolha dele.
E Soames enxugou com o leno o rosto e as mos, aspirando longamente o ar, para se acalmar. "No perder a cabea", pensava ele, "no perder a cabea!"
O carro entrou num caminho que deveria ter sido seu e um som de msica chegou-lhe aos ouvidos. Esquecera as filhas de Jolyon.
- Talvez eu volte imediatamente - disse ele ao motorista. - Ou talvez demore um pouco. - E tocou a campainha.
Seguindo a criada, atravessou as cortinas do hall interno, sentindo um alvio ntimo ao pensar que a tenso do encontro seria quebrada graas  presena de Holly 
ou June ao piano.

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Mas, para completa surpresa sua, viu Irene a tocar e Jolyon a ouvi-la, sentado numa cadeira de braos. Ambos se ergueram. O sangue subiu  cabea de Soames e a sua 
resoluo de se guiar estritamente por isto ou aquilo evaporou-se. E aquele sangue dos seus antepassados, os rsticos Forsyte da beira-mar, transtornou-lhe o rosto.
- Muito bonito! - exclamou ele. Ouviu o outro murmurar:
- No estamos em local apropriado. Vamos para o escritrio, se voc no se incomoda.
E ambos passaram pela cortina aberta. No pequeno escritrio, onde entrou atrs deles, Irene ficou de p junto  sacada e o "outro" numa grande cadeira, perto dela. 
Soames bateu a porta atrs de si. E o som chegou-lhe aos ouvidos igual ao de outra porta batida alguns anos atrs-quando ele expulsara Jolyon por se intrometer nos 
seus negcios.
- Bem - disse ele -, que  que tm em vosso favor? O sujeito teve a audcia de sorrir.
- O papel que recebemos hoje tira-lhe o direito de nos interrogar. Quero crer que gostaria bem de tirar o pescoo do n da justia!
- Oh! - exclamou Soames. - Voc pensa assim! Pois vim aqui para lhes dizer que pretendo divorciar-me dela fazendo uso de todos os argumentos capazes de os difamar 
a ambos, a menos que vocs jurem afastar-se completamente um do outro, de hoje em diante.
Estava espantado da sua prpria fluncia, porque sentia o esprito ausente e as mos tremiam-lhe. Nenhum dos dois respondeu, mas o rosto de ambos pareceu-lhe insolente.
- Bem - continuou ele. - Voc, Irene?
Os lbios dela moveram-se, mas Jolyon ps-lhe a mo no brao.
- Deixe-a! - exclamou furiosamente Soames. - Irene, voc quer fazer esse juramento?
- No.
- E voc?
- Ainda menos.
- Ento, ambos vocs so culpados?

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- Sim. Culpados.
Era Irene que falava com aquela voz serena, com aquele ar inatingvel que o enlouquecia. E, caminhando para ela, exclamou:
- Voc  um demnio!
- Saia! Saia desta casa, se no quer que eu lhe quebre a cara! Aquele sujeito falar em quebrar-lhe a cara! Saberia ele quo
prximo estava de ser estrangulado?
- Que procurador, aproveitando-se da procurao! Ladro, a roubar a mulher do primo!
- Chame-me o que quiser. Voc escolheu a sua parte, ns escolhemos a nossa,. Saia!
Se houvesse trazido uma arma, Soames t-la-ia usado naquele momento.
- Vocs ho-de pagar caro!
- Temos muito prazer em pagar.
Ante aquela irnica deformao do sentido da sua frase feita pelo filho daquele que o apelidara "o Proprietrio", Soames parou,, fitando-o. Era ridculo!
E os dois defrontavam-se, possudos pela violncia de alguma fora secreta. Nada existia que os apaziguasse, palavra nenhuma os reconciliaria. Mas Soames no sabia 
como fazer, como voltar as costas e sair. Os seus olhos pousavam-se no rosto de Irene - a ltima vez que olharia aquele rosto fatal... a ltima vez, decerto!
- Quanto a voc - disse ele subitamente -, espero que ela o trate como tratou a mim.  tudo.
Viu-a estremecer, e, com uma sensao que no era inteiramente de triunfo, nem inteiramente de alvio, precipitou-se para abrir a porta, atravessou o hall e refugiou-se 
no carro, reclinando-se nas almofadas, de olhos fechados. Nunca na sua vida se sentira to prximo de uma violncia criminosa, nunca tivera de travar uma luta to 
forte com a sua segunda natureza. Sentia-se ferido e nu, como se tudo o houvesse abandonado - significado da vida, interesse do trabalho. O sol batia-lhe em cheio 
- mas ele sentia frio. A cena passada no lhe estava mais presente, porm no conseguia materializar o que tinha pela frente, no podia deter-se em nada. E sentia-se 
assustado, como se pendesse  borda de um precipcio,

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como se algum mecanismo da sanidade mental lhe estivesse a falhar.
"No fui feito para isto", pensava ele. "No devia - no fui feito para isto."
O carro aumentou de velocidade, e, em procisso mecnica, rvores, casas e pessoas passavam,, mas sem qualquer sentido. "Sinto tudo estranho", continuava a pensar 
Soames. "Vou tomar um banho turco. Estive... estive muito perto de uma certa coisa. De uma coisa proibida." O carro trepidava mais por sobre a ponte acima de Fuiham 
Road, ao longo do parque.
- Para o Haimmaim - disse Soames.
Era curioso como, num dia to quente, o calor pudesse ser to confortador! Atravessando a sala cheia de vapor quente, cruzou com George Forsyte, que vinha em sentido 
contrrio, vermelho e luzente.
- Ol - disse George. - Voc est a treinar-se para qu? No me parece que tenha nenhuma gordura suprflua.
Palhao! Soames passou por ele, sorrindo o seu sorriso de vis. Deitado de costas, coando a pele irritada pelos primeiros sinais da transpirao, ele pensava: "Deix-los 
rir! No quero importar-me com coisa alguma! No fui feito para violncias. Faz-me mal!"

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CAPTULO VII

UMA NOITE DE VERO


Soames deixou um silncio mortal no pequeno escritrio. - Obrigado pela sua boa mentira - disse subitamente Jolyon. - Vamos sair daqui... o ar j no  o que era! 
E ao longo do prado do sul, junto do qual plantavam pessegueiros, passearam longamente em silncio. O velho Jolyon plantara algumas rvores meridionais entre aquele 
terrao relvado e a encosta, cheia de rannculos e margaridas. Havia doze anos que elas vinham florescendo, e agora as suas pequenas espirais escuras j tinham um 
ar da Itlia. Os pssaros cantavam suavemente por entre os arbustos hmidos, as andorinhas desciam rpidas, com um luzir azulado de ao nos pequenos corpos agudos, 
a relva, refrescada, parecia mais verde e primaveril sob os ps dos caminhantes, as borboletas perseguiam-se umas s outras. Depois daquela cena penosa, a calma 
da Natureza era maravilhosamente pungente. Junto  parede banhada de sol, ficava um estreito canteiro cheio de nesedas e amores-perfeitos, e, alm dos zumbidos das 
abelhas que lhe voejavam em torno, ouviam-se outros sons: o mugido de uma vaca separada do bezerro, o apelo de um cuco no alto de um choupo, bem no meio do bosque. 
Quem pensaria que atrs deles, a cerca de dez milhas, Londres comeava - a Londres dos Forsyte, com a sua riqueza e as suas misrias, a sua bruma e o seu rumor, 
as suas ilhas isoladas de pedra e beleza, o seu amplo e horrendo mar de tijolos e estuque?

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Aquela Londres que assistira  tragdia de Irene e aos duros dias da mocidade de Jolyon, aquela teia de aranha, aquela fbrica principesca do instinto de propriedade!
Enquanto caminhavam, Jolyon meditava nestas palavras: "Espero que o trate como tratou a mim." Aquilo dependeria dele prprio. E poderia Jolyon confiar em si prprio? 
Permitiria a Natureza que um Forsyte no escravizasse aquilo que adorava? Poderia a beleza ser-lhe confiada? Ou seria ela apenas como uma visitante, que chegasse 
quando quisesse, fosse possuda durante alguns momentos passageiros e s voltasse quando novamente o quisesse?
"Somos uma raa de ladres - mesquinhos e vorazes. A flor da vida no est protegida contra ns. Deix-la vir para mim se quiser, quando quiser, ou no vir de todo, 
se no quiser. Deixar-me ser apenas o seu guarda-costas, o seu repouso. Nunca... nunca a sua priso!"
Ela era aquela nesga de beleza que ele vira no seu sonho. Seria que, agora,, atravessaria as cortinas e a encontraria? Seria que o rico estofo que emparedava aquele 
crculo fechado, seria que a priso do instinto de posse dentro da qual se agitava o pequeno vulto negro formado por ele e Soames se abriria e lhe permitiria atravess-la 
e ir ao encontro de alguma coisa que no se ligasse apenas aos sentidos? "Ah, possa eu, possa eu ao menos saber no agarrar nada,, no destruir nada!"
Mas por altura do jantar foi preciso organizar planos.  noite ela no deveria voltar ao hotel, e no dia seguinte ele lev-la-ia a Londres. Daria instrues ao seu 
advogado, Jack Herring. No deviam levantar um dedo para impedir a marcha do processo. Revelia, custas - tudo o que eles quisessem -, tudo deveria ser pago e feito, 
conquanto que ela no tivesse de comparecer perante a justia! No dia seguinte ele procuraria Herring - iriam ambos at l e falariam com o advogado. E ento partiriam, 
no suscitariam dvidas, no levantariam nenhuma dificuldade contra as provas, deixariam que a mentira dela se transformasse em verdade. Jolyon olhou para Irene, 
e pareceu-lhe, aos seus olhos cheios de adorao, que mais de uma mulher estava sentada ali. O esprito da beleza universal profundo, misterioso, o esprito que 
os velhos mestres, Ticiano, Giorgione, Botticelli, tinham sabido captar

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e transferir para o rosto dos seus modelos - aquela beleza voltil que lhe parecia impressa na testa, nos cabelos, nos lbios, nos olhos da amada.
"E tudo isso vai ser meu", pensava ele, "At me provoca medo."
Depois do jantar foram tomar caf no terrao. Ficaram l longamente, porque a tarde estava belssima, e assistiram  lenta chegada da noite de Vero. Dois morcegos 
voejavam, com o misterioso rumor que eles fazem ao voar. Jolyon colocara as cadeiras defronte da sacada do escritrio e as mariposas acorriam para visitar a discreta 
luz que de l chegava. No havia vento, nem mesmo um murmrio nas folhas do carvalho, a vinte metros de distncia. A Lua subiu por sobre o bosque, grande, cheia. 
E as duas luzes lutaram, at que o luar venceu, mudando a cor e a qualidade de todo o jardim, deslizando ao longo das lajes do cho, atingindo os ps de Jolyon e 
Irene, subindo, modificando-lihes os rostos.
- Bem - disse finalmente Jolyon. - Voc deve estar cansada.  melhor ir deitar-se. A criada lev-la- ao quarto de Holly.
E tocou a campainha do escritrio. A criada, ao chegar, estendeu-lhe um telegrama. Vemdo-a sair com Irene, ele pensou: "Este telegrama j deve ter chegado h uma 
ou duas horas, e ela no ousou traz-lo aqui! Bem, em breve j no teremos a fama sem o proveito!" E, abrindo o telegrama, leu:

Jolyon Forsyte, Robin Hill
Seu filho faleceu sem sofrimento a 20 de Junho. Sinceras condolncias.

Um nome desconhecido assinava.
Deixou o papel cair no cho e ficou de p, imvel. O luar banhava-. Uma mariposa pousou-lhe no rosto. Fora aquele o primeiro dia em que no pensara em Jolly quase 
incessantemente. Jolyon caminhou cegamente at  sacada, tropeou na cadeira de braos - a cadeira do pai - e deixou-se cair num dos braos dela. Ficou sentado, 
olhando fixamente para a noite. Apagara-se como a chama de uma vela, longe de casa, de qualquer amor, sozinho, na escurido!

276

O seu filho! O seu pequeno camarada, sempre to bom, to amigo! Cortado da vida aos vinte anos de idade, como a haste de uma flor - sem ter vivido nada! "Eu, na 
verdade, no o conhecia", pensou Jolyon. "Nem ele me conhecia. Mas amvamo-nos um ao outro. E s o amor tem importncia."
Morrer longe dali, sozinho, desejando os seus - desejando estar em casa! Isso parecia ao corao de um Forsyte mais penoso, mais triste que a prpria morte. Sem 
abrigo, sem proteco, em suma, sem amor! E todo o sentimento familiar profundamente enraizado nele, que estava na massa da sua carne e do seu sangue, que fora to 
forte no velho Jolyon - e que era to forte em todos os Forsyte-, sentia-se ultrajado, despedaado pela morte solitria do filho. Seria muito melhor que Jolly houvesse 
morrido na batalha, sem ter tempo para desejar a presena dos seus, para chamar por eles, talvez, no seu delrio!
A Lua escondera-se agora por trs do grande carvalho, enchendo-o de uma vida sobrenatural, que parecia estar a espreit-lo - o carvalho que o seu filho amara tanto, 
onde gostava de trepar, donde cara uma vez e se magoara, mas sem chorar!
A porta rangeu e Jolyon viu Irene chegar, apanhar o telegrama, l-lo. Sentiu o leve roagar do seu vestido. Irene caiu de joelhos, e Jolyon tentou sorrir-lhe. Depois 
ela apertou-o nos braos e encostou a cabea dele ao seu ombro. O perfume e o calor dela rodearaM-no e a presena querida apossou-se lenta e suavemente de todo o 
seu ser.

277


CAPTULO VIII

JAMES  ESPERA


Recuperando a serenidade, Soames jantou no Remove e voltou para Park Lane. Oltimamente, o pai andava a sentir-se pior. E aquele desgosto deveria ser afastado dele. 
Nunca, at quele instante, compreendera to bem quanto o entravava o receio de ver curvada para a cova a cabea branca do pai, quo Intimamente aquele receio estava 
ligado ao seu prprio e ntimo receio por um escndalo. A sua afeio pelo pai, sempre profunda, aumentara naqueles ltimos anos, em que James o procurara como ao 
real apoio do seu declnio. Parecia-lhe tristssimo que algum que fora to cuidadoso com a sua prpria vida, e que fizera tanto pelo bom nome da famlia - de tal 
modo que esse nome era hoje quase uma garantia de slida e rica respeitabilidade - tivesse de suportar, nos seus ltimos dias, v-lo arrastado nos jornais. Era quase 
como estender uma mo  morte, aquele inimigo final dos Forsyte, "Falo primeiro com a mam, e quando o caso se concretizar arranjaremos um meio de lhe esconder os 
jornais. Ele dificilmente consegue ler algum", pensou Soames. E, abrindo ele prprio a porta com a sua chave, ia comear a subir os degraus, quando se apercebeu 
de um barulho inslito no patamar do segundo andar. A voz da me dizia:
- Que  isso. James, voc vai constipar-se. Porque no espera com calma?
E a voz do pai respondeu:
- Esperar? Estou sempre  espera. Porque  que ele no volta?

278

- Voc pode falar com ele amanh de manh, em vez de ficar a no patamar como se fosse uma criana.
-  capaz de ir directamente para a cama. E eu no posso
dormir.
- Mas volte para a cama, James.
- Hum! Voc diz tudo isso, mas amanh de manh posso muito bem j estar morto.
- Mas no precisa de esperar at amanh de manh. Eu vou l a cima busc-lo. Aquiete-se!
- Voc  assim... sempre com essa alegria. Ele pode muito bem no vir!
- Bem, se ele no vier, no ser esperando-o aqui que voc o apanha... e vestido s com o robe-de-chambre.
Soames deu a ltima volta da escada e avistou o vulto alto do pai, enrolado num robe de seda parda, em p junto  balaustrada do patamar. A luz caa sobre os cabelos 
prateados e as suas do velho, envolvendo-lhe a cabea numa espcie de halo.
- C est ele! - ouviu o pai exclamar, numa voz que lhe pareceu magoada, e a consoladora resposta da me, da porta do quarto de dormir:
- Ento est bem. Venha, que eu vou escovar-lhe os cabelos.
James estendeu um dedo longo e magro, curiosamente semelhante  falange de um esqueleto, e passou atravs da porta do quarto de dormir.
"Que ser?", pensava Soames. "Que ser que ele descobriu
agora?"
O pai estava sentado defronte do toucador, em frente do espelho, enquanto Emily lhe passava lentamente sobre o cabelo as escovas de prata. Fazia aquilo vrias vezes 
por dia, porque a escova produzia sobre o velho um efeito idntico ao que se opera num gato quando algum o coa entre as orelhas.
- C est voc! Estive  espera.
Soames bateu-lhe no ombro, e, apanhando um abotoador de prata, examinou cuidadosamente a marca.
- Bem - disse ele -, o senhor est com melhor aspecto. James abanou a cabea.
- Quero dizer-lhe uma coisa. Ainda no disse nada  sua me.

279

E anunciava a ignorncia de Emily sobre o que ele no lhe contara como se aquilo fosse uma ofensa.
- O seu pai esteve muito agitado toda a noite. E, realmente, no sei mesmo do que se trata.
O leve sussurrar das escovas no cabelo continuava a acompanhar-lhe a voz.
- No! Voc no sabe nada! - disse James. - Soames  que pode dizer-me. - E, fixando no filho os olhos parados, nos quais havia um brilho de ao, desagradvel de 
ver, murmurou: - Estou prestes a partir, Soames. Na minha idade, s se pode supor que de um momento para o outro podemos morrer. E fica a um monto de dinheiro. 
Rachel e Cecily no tm filhos, Vall foi-se embora... e aquele sujeito, o pai dele, est pronto para agarrar tudo que puder E tenho a certeza de que algum vai apanhar 
Imogen.
Soames ouvia vagamente. J escutara tudo aquilo antes. E entretanto o sussurrar das escovas continuava.
- Se  isso... - disse Emily.
- Isso! - gritou James. - No  s isso! Estou a chegar ao que quero. - E mais uma vez os seus olhos se detiveram penosamente em Soames. - Falo em voc, meu filho-disse 
ele subitamente.- Voc deve requerer o divrcio.
Aquela palavra, vinda de tais lbios, quase desfez o aprumo de Soames, que concentrou rapidamente o olhar no abotoador de prata, enquanto, como pedindo desculpa, 
James se apressou a dizer:
- No sei o que  feito dela... dizem por a que est para fora. O seu tio Swithin admirava-a muito... era um sujeito engraado.- Era sempre assim que ele aludia 
ao seu falecido irmo gmeo. - Tenho a certeza de que ela no deve estar sozinha.
E com aquela regra sucinta sobre o efeito da beleza na natureza humana, calou-se, espiando o filho com uns olhos dbios de pssaro. E Soames manteve-se igualmente 
calado.
- Vamos, James. Soames sabe melhor que voc.  assunto dele.
- Ah! - exclamou James. E a palavra parecia vir-lhe do ntimo. - Mas h todo o meu dinheiro, e todo o dinheiro dele... para onde vai? E, quando ele morrer, perde-se 
o nome.
Soames voltou a colocar o abotoador no pano rseo de seda e rendas que cobria o toucador.
- O nome? - disse Emily. - Mas h ainda todos os outros Forsyte.
- Como se isso adiantasse - resmungou James. - Irei para a cova, e no ficar ningum depois de ns, a menos que ele torne a casar.
- O senhor tem toda a razo - disse placidamente Soames - Estou a requerer o divrcio.
Os olhos de James quase lhe saltaram das rbitas.
- O qu! - exclamou ele. - A est! Nunca ningum me diz nada!
- Bem - disse Emily -, quem teria imaginado que voc desejaria isso? Meu filho, isso  realmente uma surpresa, depois de tantos anos.
- Vai haver escndalo - resmungou James, como para si mesmo. - Mas no posso evit-lo. No escove com tanta fora. Quando ser o julgamento?
- Antes das frias de Vero. Vai correr  revelia. Os lbios de James moveram-se num clculo secreto.
- No hei-de viver at ver o meu neto - disse ele baixinho. Emily parou de lhe escovar os cabelos.
- Naturalmente voc h-de v-lo, James. Soames vai agir to rpido quanto possa.
Houve um longo silncio, at que James ergueu o brao.
- D c a gua-de-colnia! - E, levando o frasco ao nariz, moveu o rosto na direco do filho. Soames curvou-se e beijou a testa do pai, exactamente onde comeavam 
a nascer os cabelos. Um arrepio de distenso passou sobre o rosto de James, como se dentro dele as ondas da ansiedade estivessem a rolar para longe. - Vou para a 
cama - disse. - No quero ver os jornais, quando trouxerem as notcias. So muito desagradveis. No posso preocupar-me com elas... estou velho de mais.
Profundamente impressionado, Soames caminhou at  porta. E ainda ouviu o pai dizer:
- Estou muito cansado. Vou rezar deitado. E a resposta da me:
- Est bem, James. Assim fica muito melhor.

280 - 281


CAPTULO IX

FORA DA TEIA


Na Bolsa dos Forsyte, a notcia da morte de Jolly, por entre a morte de outros soldados, causou uma estranha sensao. Era estranho ler que Jolyon Forsyte - o quinto 
daquele nome em descendncia directa -morrera de tifo, ao servio do seu pas... e no poder sentir pessoalmente essa perda. E aquilo revivia o velho ressentimento 
contra o pai do rapaz por se ter exilado da famlia. Pois to grande era ainda o prestgio do velho Jolyon que os demais Forsyte no compreendiam, como seria de 
esperar, que eles prprios haviam banido, por irregulares, os descendentes do irmo mais velho.
A novidade aumentou, como era natural, o interesse e a ansiedade por notcias a respeito de Val, mas o sobrenome de Val era Dartie, e, mesmo que ele fosse morto 
em batalha ou ganhasse a Victoria Cross, aquilo no representava o que representaria, se ele usasse o nome de Forsyte. Da mesma forma, morte ou glria dos Hayman 
tambm no poderiam ser satisfatrias. O orgulho da famlia sentia-se defraudado.
Como foi que chegou  Bolsa o boato de que "algo de assustador, minha querida, estava para acontecer", ningum, nem mesmo Soames, que agia com tanto segredo, seria 
capaz de descobrir. Talvez, algum houvesse visto a nota "Forsyte versus Forsyte e Forsyte" no dirio do foro e acrescentasse a essa informao aquela outra:

282

"Irene em Paris com um homem de barba loura." Talvez alguma parede em Park Lane tivesse ouvidos. O facto  que era sabido - sussurrado entre os velhos, discutido 
entre os jovens - que em breve o orgulho da famlia sofreria um golpe.
Soames, fazendo uma das suas visitas dominicais  casa de Timothy-com a sensao de que, depois do processo, no mais as faria -, sentiu no ar, logo ao chegar, que 
o facto j era sabido de todos. Ningum, naturalmente, ousou aludir ao caso diante dele. mas cada um dos quatro Forsyte ali presentes reteve o flego, cuidando em 
que nada impedisse a tia Juley de dizer alguma inconvenincia. E ela olhou to compassivamente para Soames, conteve-se tantas vezes para no falar, que a tia Hester 
pediu desculpas e saiu, dizendo que ia lavar os olhos de Timothy, que estava com um terol. Soames, impassvel, no se demorou muito. E saiu mordendo uma praga entre 
os lbios plidos, quase sorridentes.
Felizmente para a paz do seu esprito - actualmente torturado pela aproximao do escndalo-, vivia cada dia mais ocupado com os assuntos referentes  sua retirada 
dos negcios, pois j chegara a essa amarga deciso. Continuar a avistar-se com toda aquela gente que o conhecera como um indivduo esperto e astuto conselheiro 
- depois daquilo - no! A vaidade e o orgulho, que viviam to estranhamente associados nele  sua paixo de possuir, revoltavam-se contra tal pensamento. Retirar-se-ia, 
iria viver isolado, continuaria a comprar quadros, faria um grande nome como coleccionador - afinal, sempre tivera mais vocao para aquilo que para a Lei. E, na 
prossecuo dessa ideia, tratava de realizar a fuso da sua firma com a de um outro colega, sem que ningum soubesse da transaco, porque aquilo iria despertar 
curiosidade e anteciparia talvez o momento da humilhao. Entendera-se com a firma Cuthcott, Holiday e Kingson-da qual dois titulares j eram mortos. O nome da firma, 
depois da fuso, seria Cuthcott, Holliday, Kingson, Forsyte, Bustard & Forsyte. No entanto, depois de um debate durante o qual se discutiu se os mortos deveriam 
ainda influir, decidiu-se que o nome seria Cuthcott, Kingson & Forsyte - sendo Kingson o scio activo e Soames o comanditrio. E, por deixar  firma o seu nome, 
o seu prestgio e os seus clientes, Soames iria deter uma parte considervel.

283

 noite, como o faz todo o homem que chega a esse importante ponto da sua carreira, fez um clculo do que havia ganho, e, depois de dar uma ampla margem s depreciaes 
decorrentes da guerra, chegou  concluso de que era possuidor de cerca de cento e trinta mil libras. Por morte do pai, que j no poderia, infelizmente, ser esperada 
para mais tarde, deveria entrar de posse de mais cinquenta mil, e toda a sua despesa anual, actualmente, mal chegava a duas mil libras. E de p, por entre os seus 
quadros, antevia um futuro cheio de aquisies proveitosas, graas  sua exercitada faculdade de conhecer melhor que os outros. Vendendo o que estava prestes a cair, 
comprando o que ainda iria subir, prevendo judiciosamente as mudanas de gosto que estavam para vir, faria uma coleco nica, que, por sua morte, passaria para 
a nao sob o ttulo: "Doao Forsyte".
J determinara como agiria em relao a Madame Lamotte, caso o divrcio corresse bem. Sabia que ela s tinha uma ambio - viver das suas rentes em Paris, perto 
dos seus netos. Ele compraria por bom preo o Restaurant Bretaigne. Madame viveria em Paris como uma rainha-me, mantendo-se com os juros desse capital, empregado 
do modo que ela quisesse. (Incidentalmente, Soames pensava em colocar um bom gerente no lugar dela e fazer que o restaurante lhe pagasse um bom juro pelo seu dinheiro. 
Havia grandes possibilidades no Soho.) Quanto a Annette, prometia dot-la com quinze mil libras - exactamente a mesma quantia que o velho Jolyon deixara para "aquela 
mulher".
Uma carta do advogado de Jolyon, endereada aos seus prprios advogados:, informou-o de que "aqueles dois" estavam na Itlia. E foi devidamente anotado de que primeiro 
se haviam detido num hotel de Londres. O caso era claro como a luz do sol e seria decidido em meia hora, ou menos. Mas durante aquela meia hora Soames conheceria 
o Inferno, e, depois daquela meia hora, todos os portadores do nome de Forsyte descobririam o espinho que se esconde sob a rosa. No tinha iluses, como Shakespeare, 
de que as rosas sob um novo nome podem cheirar to bem como antes. O nome era uma propriedade, uma posse concreta e imaculada, cujo valor se veria reduzido no mnimo 
de cerca de vinte por cento. Afora Roger, que uma vez recusara apresentar-se ao Parlamento e

284

- oh, ironia! - Jolyon, pintor conhecido e apreciado - nunca houvera propriamente Forsytes "distintos". Mas justamente essa falta de "distino" social era o grande 
valor do nome. Era um nome privado, intensamente individual, de inteira propriedade deles. Nunca fora explorado, por bem ou por mall., por nenhuma publicidade importuna. 
Ele e todos os membros da famlia possuam o seu nome inteiramente, sadiamente, privativamente, sem nenhuma outra interferncia do pblico alm da que era requerida 
para a solenizao dos seus baptizados, casamentos e mortes. E durante aquelas semanas de espera e preparao para a aco da Lei, Soames concebeu um amargo desagrado 
pela Lei, to profundamente sentia a violao do seu nome, forado que era pela necessidade que sentia de perpetuar esse mesmo nome de uma maneira legal! A monstruosa 
injustia do caso excitava em Soames uma eterna e contida fria. Ele nunca desejara nada mais alm de viver dentro de uma obscura domesticidade, e agora tinha de 
apresentar-se no banco das testemunhas, depois de todos aqueles fteis e desolados anos, e proclamar a sua falncia em reter uma mulher - incorrer na piedade, no 
divertimento, no desprezo dos seus semelhantes. Tudo estava de pernas para o ar. Ela e aquele sujeito  que deveriam estar a sofrer - e andavam pela Itlia! E naquelas 
semanas, a Lei, a quem ele havia servido to fielmente, para quem olhara sempre to reverentemente, como guardi de toda a propriedade, parecia-lhe quase desprezvel. 
Que poderia haver de mais louco do que dizer a um homem que ele era possuidor da sua mulher e puni-lo depois quando algum a arrebatava ilegalmente? Seria que a 
Lei no compreendia que o nome de um homem  para ele como a menina dos seus olhos e que  mais duro ser publicamente um marido enganado do que um sedutor? E ele 
invejava Jolyon, a reputao que o outro se garantira de haver vencido onde ele, Soames, fracassara. A questo da indemnizao tambm o perturbava. Queria fazer 
aquele sujeito sofrer, mas lembrava-se das palavras do primo-"Terei muito prazer em pagar.." - com o desagradvel sentimento de que a cobrana de uma indemnizao 
faria sofrer no a Jolyon, mas a ele prprio. Chegava mesmo a comprender que Jolyon gostaria realmente de a pagar - prdigo que era. Alm disso, uma indemnizao 
no era propriamente o que deveria reclamar.

285

A exigncia de indemnizao, entretanto, foi feita quase mecanicamente, e, quando a hora ficou mais prxima, viu naquilo mais uma armadilha que aquela Lei, insensvel 
e despropositada, lhe punha aos ps, para o levar ao ridculo, dando azo a que toda a gente dissesse sarcasticamente: "Oh, sim, bom preo cobra ele pela mulher!" 
E deu ordem aos seus advogados para que tornassem bem claro que o montante da indemnizao era destinado a uma casa de mulheres decadas. Durante muito tempo hesitara 
entre a instituio filantrpica a escolher, mas, depois de se haver decidido pelas "Madalenas", acontecia-lhe acordar  noite e pensar: "No devia ter escolhido 
uma coisa to alusiva. Isso vai chamar a ateno. Antes algo mais discreto -- de melhor gosto." No gostava de ces, seno t-los-ia escolhido. E foi j desanimado 
que por fim - os seus conhecimentos sobre filantropia eram limitados - escolheu os cegos. Isso no poderia parecer imprprio e fazia que o jri cobrasse uma alta 
indemnizao.
Houve desistncia de grande nmero de processos, que j no eram muitos naquele Vero, de forma que o caso de Soames deveria ser julgado antes de Agosto. E quanto 
mais prximo se ia tornando o dia, mais e mais Winifred se transformava na nica consolao do irmo. Ela tinha para ele o sentimento solidrio de quem j estivera 
em circunstncias idnticas e era a nica mulher em quem ele confiava, certo de que ela no introduziria Dartie na confidncia. Aquele patife haveria de se alegrar 
bem! No fim de Julho, na tarde precedente ao julgamento, foi visitar a irm. Os Dartie no haviam podido passar fora as frias, porque Montague j despendera o oramento 
de Vero, e Winifred no ousava ir pedir mais dinheiro ao pai, pois o velho no queria que o perturbassem com coisa alguma enquanto esperava a soluo do caso de 
Soames.
O irmo encontrou-a com uma carta na mo.
-  de Val? - perguntou ele sombriamente. - Que  que ele conta?
- Conta que se casou - respondeu Winifred.
- Com quem, valha-me Deus? Winifred encarou o irmo.
- Com Holly Forsyte, filha de Jolyon.
- O qu?

286

- Pediu autorizao e casou. Eu nem sabia que ele a conhecia.  estpido, no ?
Soames soltou o seu riso curto ante aquele resumo caracterstico da situao.
- Estpido! Bem, creio que eles no ouviro falar no caso antes de voltarem.  melhor que fiquem por l. O pai h-de dar-lhe dinheiro.
- Mas eu quero que Val volte para c - disse Winifred quase lamentosamente. - Perdi-o, e  ele quem me ajuda a suportar tudo.
- Eu sei - retorquiu Soames. - Como tem procedido Dartie?
- Poderia ser pior, mas a questo  sempre dinheiro. Quer que o acompanhe ao tribunal amanh, Soames?
Soames segurou-lhe a mo. O gesto traa tanta solido da parte dele que ela comprimiu longamente a mo do irmo.
- No se importe, meu velho. Depois de tudo passar, h-de sentir-se muito melhor.
- No sei o que foi que eu fiz - disse Soames roucamente. - No fiz nada. Est tudo s avessas. Eu era louco por ela. Sempre o fui.
Winifred viu uma gota de sangue brotar-lhe do lbio, e aquilo comoveu-a profundamente.
-  claro que a culpada de tudo sempre foi ela! Mas que devo fazer a respeito desse casamento de Val, Soames? No sei nem como lhe escreverei, como aludir ao facto. 
Voc conheceu essa menina.  bonita?
- Sim,,  bonita - respondeu Soames. - Morena, muito educada.
"Afinal, talvez no seja assim to mau", pensou Winifred. "Jolyon sempre teve estilo." E disse:
-  uma complicao. Que dir disso o pap?
- No se deve contar a ele. A guerra vai acabar em breve, e  melhor que Val se instale numa fazenda e fique por l.
Era o mesmo que dizer que o sobrinho estava perdido.
- Eu no disse nada a Monty - acrescentou desoladamente Winifred.

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O divrcio foi julgado no dia seguinte antes do meio-dia e liquidado em menos de meia hora. Soames, no banco das testemunhas, plido, bem vestido, abatido, sofrera 
tanto na previso daquilo tudo que o momento j o encontrara quase como um morto. No instante em que a sentena foi pronunciada, ele deixou o tribunal.
Faltavam ainda quatro horas para se tornar propriedade do pblico! "Processo de divrcio de um advogado"! Uma clera sombria, agressiva, substitura o seu inanimado 
sentimento de antes. "Para o Diabo todos eles!", pensou. "No fugirei. Irei agir como se nada houvesse acontecido." E fez a p todo o caminho que ia de Fleet Street 
a Ludgate Hill, em direco ao City Club, onde almoou, voltando depois para o escritrio. E trabalhou estoicamente durante toda a tarde.
 sada, compreendeu que os escreventes j sabiam do caso e respondeu s suas involuntrias olhadelas com um olhar to sardnico que eles imediatamente se encolheram. 
Em frente de St. Paul parou para comprar o mais cavalheiresco de todos os jornais da tarde. Sim, l estava! "Divrcio de um conhecido advogado. Um primo  o cmplice. 
Indemnizao doada a uma instituio de cegos." Assim, eles haviam anotado esse pormenor. E,  vista de cada rosto que passava, ele cismava: "Quem me diz que esse 
no sabe?" E subitamente sentiu-se mal, como se algo estivesse a rodar-lhe em torno da cabea.
Que era aquilo? Ele estava a deixar que a coisa o possusse! Nada disso! Assim, adoeceria. No devia preocupar-se. Devia era ir para o rio, meter-se no barco e ir 
pescar. "No vou entregar-me assim, ficar neste desespero", resolveu.
Ocorreu-lhe repentinamente que tinha algo importante a fazer antes de sair da cidade. Madame Lamotte! Tinha de explicar-lhe a Lei. Ainda eram precisos seis meses 
antes que estivesse realmente livre! Apenas no desejava ver Annette. E levou a mo ao alto da cabea: estava realmente muito quente.
Dobrou por Covent Garden. Naquele sombrio dia de Julho, o tom sujo do velho mercado ofendeu-o e o Soho pareceu-lhe mais que nunca o desencantado bero da malandragem. 
S o Restaurant Bretagne, limpo, pintado de claro, com os seus caixotes azuis,

288

onde estavam plantadas arvorezinhas ans, detinha um longnquo e afrancesado auto-respeito. Era a hora que mediava entre as duas refeies, e uma plida criadinha 
estava a preparar as mesas para o jantar. Soames entrou na parte privativa das donas da casa. Para desprazer seu, foi Annette quem atendeu  porta. Ela tambm parecia 
plida e com a cabea meio tonta.
- O senhor est realmente a tornar-se um estranho - disse ela languidamente.
Soames sorriu.
- No tenho nenhum desejo de o ser. Onde est sua me, Annette? Tenho notcias para ela.
- A mam no est.
Pareceu a Soames que ela o olhava de uma maneira estranha.
Seria que ela sabia? Que lhe teria contado a me? E o esforo para adivinhar essa incgnita provocou-lhe uma tontura. Agarrou-se fortemente  borda da mesa, e, aturdido, 
viu Anmette caminhar na sua direco, com os olhos escancarados de surpresa. Soames fechou os seus e disse:
- Estou bem,. Parece que o sol me fez mal.
O sol! O que lhe havia feito mal fora a escurido! A voz de Annette, francesa e moderada, disse:
- Sente-se, que isso passa. - A mo dela apertou-lhe o ombro, e Soames deixou-se cair numa cadeira. Quando a sombria sensao o abandonou e ele abriu os olhos, ela 
fitava-o bem de perto. Que expresso inescrutvel e estranha numa rapariga de vinte anos! - Sente-se melhor?
- No  nada - disse Soames. O instinto dizia-lhe que no lhe convinha mostrar-se fraco diante dela - a idade j era um handicap suficiente. A sua fortuna com Annette 
estava na fora de vontade. Nestes ltimos meses perdera terreno graas  indeciso - e no podia arriscar-se a perder mais. Ergueu-se e disse: - Escreverei  sua 
me. Vou passar umas longas frias em minha casa na margem do rio. Desejaria muito que vocs ambas fossem at l e se demorassem. Seria excelente. Voc concorda, 
no?
- Seria realmente adorvel.
Um lindo "r" rolado, o dela, mas nenhum entusiasmo. E, quase tristemente, Soames acrescentou:

289

- Voc sofre com o calor, no, Annette? Far-lhe-ia bem ir para perto do rio. Boa noite.
Annette acompanhou-o. Havia uma espcie de compuno naquele movimento.
- O senhor realmente resolveu ir? No quer um pouco
de caf?
- No - disse Soames com firmeza. - D-me a sua mo. Ela estendeu a mo, e Soames levou-a aos lbios. Quando
ergueu os olhos, viu no rosto dela a mesma estranha expresso de antes. "No posso dizer...", pensava quando saiu. "Mas no devo pensar, no devo preocupar-me."
Mas preocupava-se enquanto caminhava em direco a PaM Mall. Ingls, de outra religio, de meia-idade, marcado como estava por uma tragdia domstica, que tinha 
ele para lhe dar? S dinheiro, posio social, lazeres, admirao! Isso era muito, mas seria o bastante para uma linda rapariga de vinte anos? Sentia-se completamente 
ignorante a respeito de Annette. E tinha tambm um curioso medo da natureza de francesa da me dela e dela prpria. Sabiam ambas to bem o que queriam. Eram quase 
Forsyte. Nunca soltariam o pssaro da mo pelo que estava a voar!
O tremendo esforo que lhe custou escrever um simples bilhete para Madame Lamotte, quando chegou ao seu clube, mostrou-lhe novamente que j atingira o fim da sua 
resistncia.
Depois de selar a carta e mand-la para o correio, dirigiu-se  sala de refeies. Trs colheradas de sopa convenceram-no de que no podia comer. E, mandando chamar 
um cab, foi at Paddington Square, onde apanhou o primeiro comboio para Reading. Chegou a casa exactamente quando o Sol desaparecia, e ps-se a caminhar pelo campo. 
O ar estava saturado do cheiro dos cravos e cravinas da beira do rio. Uma frialdade sorrateira subia lentamente da gua.
Descanso... paz! Deixai que um pobre desgraado repouse! No permiti que a confuso, a vergonha, a clera, lhe voejem pela cabea como morcegos malficos! Como os 
pombos aninhados e j quase adormecidos nos seus pombais, como os animais do bosque, na outra margem, como o pobre diabo na sua casinhola, como as rvores, como 
o prprio rio, cuja gua brilha  meia luz, como o cu j escuro onde apontam as primeiras estrelas - deixai que ele se desligue de si mesmo e repouse!

Minha cara senhora,

A senhora ver por este recorte de jornal incluso que obtive hoje o meu decreto de divrcio. Segundo a lei inglesa, apenas estarei livre, no entanto, para contrair 
novo casamento, seis meses depois do decreto. Entretanto, tenho a honra de lhe pedir que me considere como candidato formal  mo de sua filha. Dentro de poucos 
dias terei o prazer de lhe escrever novamente, pedindo a ambas que venham passar uns dias na minha casa de campo.

Sou, minha cara senhora, seu amigo devotado.

Soames Forsyte


290 - 291



CAPTULO X

A PASSAGEM DE UMA ERA


O casamento de Soames com Annette' realizou-se em Paris, no ltimo dia de Janeiro de 1901, com tal intimidade que nem Emily foi avisada seno depois de tudo feito. 
No dia seguinte s bodas, ele trouxe a noiva para um desses silenciosos hotis de Londres, onde se gasta muito dinheiro com menos resultado que em qualquer outro 
lugar do mundo. A beleza da mulher, nos seus melhores vestidos de parisiense, dava mais satisfao ao marido do que lhe daria a mais perfeita pea de porcelana, 
uma jia ou um quadro. E ansiava pelo momento em que a exibiria em Park Lane, em Green Street e na casa de Timothy.
Se algum lhe perguntasse nesses dias: "Aqui entre ns... voc est apaixonado por essa pequena?", ele teria respondido: "Apaixonado? Que  estar apaixonado? Se 
se refere ao que senti por Irene nos velhos tempos, nas primeiras vezes em que a encontrei e ela no queria saber de mim, quando eu suspirava e penava atrs dela, 
sem descanso, at que ela cedeu... no! Mas se quer dizer que eu admiro a juventude e a beleza de Annette, que os meus sentidos doem um pouco quando a vejo mover-se 
pelo quarto... sim! Se eu penso que ela vai refazer-me a vida, ser uma boa esposa, uma boa me para os meus filhos, ainda lhe direi: sim! De que preciso mais? E 
que mais tm pelo menos trs quartos das mulheres que se casam de parte do homem que casa com elas?"

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E se o inquiridor prosseguisse nas suas perguntas: "E acha bonito ter tentado essa pequena a entregar-se-lhe por toda a vida sem que voc lhe tenha tocado o corao?", 
ele responderia: "Os franceses vem as coisas de maneira diferente de ns. Encaram o casamento do ponto de vista do estabelecimento dos filhos, e, segundo a minha 
prpria experincia, no tenho a certeza de que eles no procedam do ponto de vista mais de acordo com os sentimentos. Desta vez, no poderei esperar mais do que 
o que lhe dou, ou que ela pode dar. Daqui a alguns anos, no me admirarei se ela me der alguns cuidados, mas ento estarei velho, terei filhos, fecharei os olhos. 
J tive a minha grande paixo - a paixo dela ainda est talvez por vir. E no creio que seja por mim. Ofereo-lhe muitas compensaes e no lhe peo grande coisa 
em troca - excepto filhos, ou, pelo menos, um filho. Porm, de uma coisa estou certo: ela tem muito bom senso!"
E se, 'insacivel, o inquiridor prosseguisse: "Voc no deseja ento nenhuma unio espiritual neste casamento?". Soames teria sorrido com o seu sorriso de vis e 
continuado: "Ela ser como deve ser. Se eu obtenho satisfao para os meus sentidos, perpetuao de mim mesmo, bom gosto e bom humor em casa -  tudo o que posso 
esperar na minha idade. J no estou mais para correr atrs de um sentimentalismo absurdo." E, diante disso, o inquiridor haveria de ter o bom gosto de se calar.

A rainha morrera, e o ar da maior cidade que h sobre a Terra estava sombrio de lgrimas recalcadas. De pelica e cartola, trazendo pelo brao Annette, envolta em 
peles escuras, Soames cruzava Park Lane na manh da procisso de funeral, pelo trilho de Hyde Park. Por menos que o comovessem os assuntos nacionais, aquele acontecimento, 
supremamente simblico, aquele clmax de um longo e rico perodo, impressionava-o. Em 1837, quando ela subira ao trono, o "Superior Dosset" estava ainda a construir 
as casas com que desfeava Londres. E James, um rapazola de vinte e seis anos, comeava a fundar os alicerces da sua clientela. Ainda havia diligncias, os homens 
rapavam o lbio superior, comiam ostras que vinham de fora, em barris, lacaios de libr sentavam-se por trs das carruagens,

293

as mulheres ainda no tinham direitos de propriedade. Havia urbanidade no campo e pocilgas para os pobres. Pobres diabos eram enforcados por pequenos crimes e Dickens 
mal comeara a escrever. Quase duas geraes haviam desaparecido- enquanto apareciam os navios a vapor, comboios, o telgrafo, bicicletas, a luz elctrica, o telefone, 
e agora aqueles automveis- e tanta era a fortuna acumulada que os oito por cento tinham descido a trs e os Forsytes contavam-se por mil! A moral mudara. as maneiras 
mudaram, os homens mudaram. Deus transformara-se em Mammon - um Mammon to respeitvel que se decepcionaria a si prprio. Sessenta e quatro anos haviam beneficiado 
a propriedade e promovido a ascenso da classe mdia. Tinham-na fortalecido, cinzelado, polido, at que, agora, em maneiras, moral, 'linguagem, aparncia, trajo 
e alma, ela era quase indistinguvel da nobreza. Uma poca que promovera a liberdade individual de tal modo que um homem, se tinha dinheiro, era livre pela lei e 
de facto, e, se no tinha dinheiro, era livre pela lei, mas no de facto. Uma era que canonizara a hipocrisia, de forma que bastava parecer respeitvel para o ser. 
Uma grande Era, a cuja influncia transformadora nada escapara, a no ser a natureza do homem e a natureza do universo.
E, para assistir  passagem dessa Era, Londres - sua favorita e seu capricho - mandava para a rua os seus cidados atravs de todos os portes de Hyde Park, eixo 
do vitorianismo, feliz reduto dos Forsytes, por sob o cu cinzento, que j no chuviscava, a sombria multido reunia-se para assistir ao espectculo. "A boa rainha 
velha", cheia de anos e de virtudes, sara pela ltima vez da sua recluso a fim de proporcionar um feriado a Londres. De Hounds-ditch, Acton, Ealing, Hampstead, 
Isfington e BethnaJ Green, de Hackney, Hornsey, Leytonstone, Battersea e Fumam, de todas aquelas verdes pradarias onde florescem os Forsytes - Mayfair e Kensington, 
St. James e Belgravia, Bayswater e Chelsea, de Regent's Park, o povo acorria, aglomerando-se nas estradas por onde passaria a morta, com pompa faustosa e sombria. 
Nunca at ento uma rainha reinara tanto tempo, nem povo nenhum tivera a sorte de ver tanta histria enterrada de uma vez. Era realmente pena que a guerra devastasse 
l fora e que a coroa de louros da vitria no
pudesse ser deposta sobre o esquife real! Mas tudo o mais estava ali para acompanhar a rainha e prestar-lhe honras - soldados, marinheiros, prncipes estrangeiros, 
bandeiras a meia haste, sinos a tocar e, acima de tudo, a multido enxameante, imensa, vestida de preto, com talvez uma ligeira tristeza aqui e ali, bem funda no 
corao, sob a roupa de luto regulamentar, Afinal, mais que uma rainha, partia para o repouso eterno uma mulher que soubera afrontar desgostos e dores e vivera bem 
e amplamente de acordo com as suas convices.
Afastado da multido que se apertava nas filas, Soames, protegendo Annette com o brao, esperava. Sim! O sculo estava a passar, com os seus trade-unionistas e trabalhistas 
na Cmara dos Comuns, com a sua fico continental. Havia algo no sentimento geral que no podia ser expresso em palavras, mas que mostrava que as coisas j eram 
diferentes. E Soames recordou a multido da noite de Mafeking e George Forsyte a dizer: "So todos: socialistas e querem o que  nosso!" Tal como James, Soames no 
sabia, no podia dizer... com Eduardo VII no trono! As coisas nunca estariam to seguras como sob a boa velha Viccy! Convulsivamente, apertou o brao da mulher. 
Aquilo, afinal, era algo substancial que lhe pertencia, uma certeza domstica. Algo que, mais uma vez, fazia da propriedade uma coisa real. Bem junto dela e procurando 
afastar os outros, Soames sentia-se satisfeito. A multido espalhava-se em torno deles, comia sanduches, atirava as migalhas para o cho, garotos trepados nos pltanos 
tagarelavam l em cima feitos macacos e atiravam sementes e cascas de laranja. J passava da hora. O cortejo j deveria estar a aproximar-se!
E de sbito,  esquerda, um pouco atrs, Soames viu um homem alto, de chapu mole, barba grisalha e curta, e uma mulher tambm alta, com uma pelica redonda e vu. 
Jolyon e Irene, conversando, sorrindo um para o outro, juntinhos como Annette e ele! No o haviam visto, e, furtivamente, com um estranho sentimento no corao, 
Soames ps-se a vigi-los. Pareciam felizes! Que tinham vindo eles fazer ali - criaturas cuja presena era ilcita, rebeldes ao ideal vitoriano? Que tinham eles 
em comum com aquela multido? Cada um deles duas vezes exilados pela moralidade - e ostentando, por assim dizer, o seu amor e sua impudncia? E olhava-os, fascinado.

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Admitindo com repulsa que, mesmo com o seu brao apertado ao de Annette, ela... ela - era... Irene! No! Ele no admitiria isso! E virou os olhos para o outro lado. 
No queria v-los e deixar que a velha amargura, o velho desejo insatisfeito crescessem de novo dentro de si! Foi ento que Annette se voltou e lhe disse:
- Olhe aquele casal, Soames. Tenho a certeza de que eles o conhecem. Quem so?
Soames olhou para os lados.
- Que casal?
- Aquele ali, no v? Esto agora a andar para l. Eles conhecem-no?
- No - respondeu Soames. -  um engano, minha querida.
- Que lindo rosto! E que andar! Elle est trs distingue! Soames olhou ento. Dentro da sua vida, fora da sua vida.
ela sempre caminhara assim, deslizando erctil, distante, inatingvel, evitando at mesmo o contacto da sua alma! E afastou abruptamente aquela insidiosa viso do 
passado.
-  melhor prestar ateno. O cortejo est a chegar. Porm, enquanto ficava de p, agarrado ao brao de Annette,
fingindo interesse pelo cortejo, estremecia ante o sentimento de sempre - de que perdera alguma coisa, com o instintivo pesar por no poder reter tudo.
A msica fnebre avanava lentamente, at que, em silncio, a longa linha atingiu o porto do parque. Ouviu Anmette murmurar: "Como  triste e bonito!" Sentiu a 
presso da mo dela, que se alava nas pontas dos ps, e a emoo da multido possuiu-o tambm. L estava - o caixo da rainha, o sarcfago da sua Era passando lentamente! 
E ao mesmo tempo subia um gemido da longa fila de todos que haviam estado  espera, um som como Soames jamais escutara, to inconsciente, to primitivo, to profundo 
e selvagem que nem ele nem ningum poderia saber como se formara. Estranho som, realmente! Tributo de uma poca  sua prpria morte!
A garra presa  vida soltara-se... Aquilo que parecera eterno ia-se embora! A rainha! Que Deus a abenoe!
E, acompanhando a marcha do cortejo, aquele mesmo gemido,

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ia caminhando, como o fogo que anda por sobre as ervas secas, tomava p e caminhava ao longo das densas multides, inumano, emergindo da subcOnscincia animal, pelo 
ntimo conhecimento da morte e da mudana universal. Nenhum de ns - nenhum de ns pode durar sempre!
Houve depois um pequeno silncio - um rpido silncio -, e, passado esse silncio, todos recomearam a falar, ansiosos por recuperar o interesse pelo espectculo. 
Soames esperou ainda um pouco, para satisfazer Annette, depois levou-a para fora do parque, indo ambos almoar em casa do pai, em Park Lane.
James passara a manh debruado  janela do seu quarto de dormir. O ltimo espectculo a que ele podia assistir - ltimo, depois de tantos! Ora, pois, l morrera 
a rainha! Na verdade, j estava a ficar bastante velha. Swithin e ele tinham-lhe visto a coroao - quando ela ainda era uma garota, mais nova que Imogen! Mais tarde, 
ela engordara muito. Jolyon assistira ao seu casamento com o tal alemo,  verdade que ele se corrigira completamente, antes de morrer, mas deixara-o com aquele 
filho.. E recordava as vrias noites em que ele e os irmos haviam meneado a cabea, aps o vinho e as nozes, ante os destemperos juvenis do prncipe. Agora ele 
subia ao trono. Diziam que j assentara o juzo... Mas James no sabia... no podia dizer! Ainda deitava dinheiro fora, na certa. Quanta gente na rua! Parecia no 
ter passado muito tempo desde que ele e Swithin se tinham juntado  multido, ao lado da Abadia de Westminster, no dia da coroao: depois Swithin levara-o a Cremorne 
- sujeito espantoso, Swithin! No, no parecia tambm muito distante o ano do jubileu, quando ele e Roger haviam alugado uma varanda em Piccadilly. Jolyon, Swithin, 
Roger, todos j se tinham ido, e ele prprio completaria noventa anos em Agosto! E agora Soames estava casado com aquela francesinha. Francesas so gente esquisita, 
mas do boas mes, segundo diziam por a. As coisas mudam! Diziam que o imperador da Alemanha estava presente no funerall. No entanto, o seu telegrama ao velho Krger 
fora de pssimo gosto. E no se admiraria se, mais tarde, aquele camarada armasse alguma complicao. Mudanas! Hum! Bem, cada um que cuidasse de si depois de ele 
se ter ido embora! Ele  que no sabia o que seria feito de si,

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E hoje Emily tinha convidado Dartie para o almoo, com Winifred e Imogen, a fim de se encontrarem com a mulher de Soames - Emily estava sempre a fazer qualquer coisa. 
E Irene vivia com jolyon, diziam. Decerto ele iria casar com ela agora.
"Meu irmo Jolyon", pensou de sbito James, "que diria ele disto tudo?" E a absoluta impossibilidade de saber o que diria o irmo, com um nico olhar para aquilo 
tudo, perturbou de tal modo James que ele abandonou a sua cadeira junto  janela e ps-se a passear, .lentamente, debilmente, atravs da sala.
"Ela tambm era uma lindeza", cismava ele. "Eu gostava muito dela. Talvez Soames no a tenha compreendido. No sei... no posso dizer... Ns nunca tivemos nenhuma 
complicao com as nossas mulheres. As mulheres mudaram - tudo mudou! E agora a rainha morreu - bem, l vem!" Um movimento na multido trouxe-o  janela, e ele ficou 
de p, com o nariz encostado  vidraa, embaciando-a com o seu sopro. Tinham ido at Hyde Park Corner, e agora estavam a passar. Porque no vinha Emily olhar tambm, 
agora que podia ver tudo, em vez de estar a agitar-se com aquele almoo? Sentia falta dela naquele momento - sentia falta! Atravs dos ramos nus dos pltanos, podia 
ver o cortejo, podia ver os chapus que o povo ia tirando da cabea - boa poro deles ia constipar-se, na certa! Uma voz por trs dele disse:
- Voc daqui v tudo, James!
- Ento voc est aqui! - resmungou James. - Porque no veio antes? Podia ter perdido isto! - E ficou silencioso, mantendo-se de p, com todas as suas foras. - 
Que barulho  esse? - perguntou subitamente.
- No ouo barulho - replicou Emily. - Em que  que voc est a pensar? No iriam dar vivas.
- Estou a ouvir barulho.
- Tolice, James!
Nenhum som penetrava atravs das janelas duplas, e o que james ouvia era o gemido do seu prprio corao  vista da Era que passava.
- Nunca me digam onde  que devo ser enterrado - disse ele de sbito. - No desejo saber.
E voltou-se da janela. L se ia a velha rainha:

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devia ter passado por muitas angstias ultimamente, e ele era capaz de jurar que, na certa, ela estava satisfeita por se ter libertado. Emily trouxe as escovas de 
cabelo.
- Temos exactamente o tempo bastante para lhe escovar os cabelos antes que eles cheguem - disse ela. - Voc deve apresentar-se do melhor modo possvel, James.
- Ah! - murmurou James. - Dizem que ela  bonita.
O encontro com a nova nora realizou-se na sala de jantar. James estava sentado junto ao fogo quando ela entrou. Ps as mos nos braos da cadeira e ergueu-se lentamente. 
Rgido e imaculado dentro do seu casaco, magro como uma linha de Euclides. segurou a mo de Annette nas suas. E os olhos ansiosos, no rosto rodeado pelas suas, 
j sem cor, prenderam-se nela. Um leve calor subiu-lhe do rosto at s faces, como um reflexo da rapariga em flor.
- Como vai? - perguntou ele. - Foram ver a rainha, no? Fizeram uma boa travessia?
Era aquela a sua maneira de lhe dizer que lhe agradecia pelas esperanas que lhe dava de um neto que usasse o seu nome.
Olhando para o sogro, to velho, to magro, to imaculado na sua alvura, Annette murmurou qualquer coisa em francs, que James no compreendeu.
- Sim, sim - disse ele. - Voc quer o seu almoo, suponho. Soames, toque a campainha. No vamos esperar pelo tal Dartie.
Mas exactamente nesse momento eles chegaram. Dartie recusara-se a desviar-se do seu caminho para ver a "boa velha". Depois de um cocktail matinal, fora dar uma olhadela 
 sala de fumo do Iseeum, de forma que Winifred e Imogen haviam sido obrigadas a voltar do parque at l, para o trazerem. Os seus olhos castanhos demoraram-se em 
Annette com uma expresso de quase espantada satisfao. A segunda beleza que Soames descobria. Que era que as mulheres descobriam nele? Bem, na certa aquela iria 
fazer-lhe as mesmas tretas que a outra. Mas, enquanto no o fazia, que diabo de sorte ele tinha! E retorceu o bigode, pois, em nove meses de domesticidade em Green 
Street, j recuperara quase todo o antigo corpo e a sua habitual ostentao. A despeito, porm, dos maternais esforos de Emily, da compostura de Winifred, da amigvel 
curiosidade de Imogen, das exibies de Dartie e da solicitude de James a respeito do que ela comia,

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Soames sentiu que aquele primeiro almoo da mulher em casa dos pais no fora um xito. E levou-a embora muito cedo.
- Aquele Monsieur Dartie - disse Annette quando subiram para o cab -, je n'aim pas ce type-l!
- No. cos diabos! - exclamou Soames.
- A sua irm  muito amvel, a garota  bonita, o seu pai  muito velho, creio que a sua me tem muito trabalho com ele. No gostaria de estar no lugar dela.
Soames balanou a cabea, satisfeito com a perspiccia de Annette. mas aquilo inquietava-o um pouco. E, alm disso, um pensamento sbito o feriu: "Quando eu tiver 
oitenta anos, ela ter apenas cinquenta e cinco, e ter trabalho comigo!"
- Ainda h uma casa de parentes meus onde tenho de a levar - disse ele. - Voc talvez ache o ambiente esquisito, mas a visita ser rpida. Depois jantaremos e iremos 
ao teatro.
Preparava-a para uma visita a casa de Timothy. Mas l foi diferente. Elas estavam "encantadas" por verem o caro Soames depois de tanto tempo. E ento aquela era 
Annette!
- Voc  to linda, minha querida, quase bonita e jovem de mais para o caro Soames, no ? Mas ele  muito atencioso e gentil, to bom marido... - A tia Juley refreou-se 
e encostou os lbios bem em baixo dos olhos de Annette. E descreveu-os depois a Francie, que s chegou mais tarde: "De um azul centurea: tive de os beijar. Posso 
afirmar que o nosso caro Soames  um perfeito connoisseur.  moda francesa - e ela no  francesa de mais -, pode-se dizer que  linda, embora no to distinta, 
to sedutora como... Irene. Porque ela era sedutora, no era? Com aquela pele branca, os olhos escuros e os cabelos couleur de... de qu? Eu esqueo-me sempre.
- Feuille morte - acudiu Fraude.
- Isso mesmo, folhas mortas.,,  to estranho. Lembro-me de que quando eu era criana, antes de virmos para Londres, tnhamos um cachorrinho raposeira, tinha uma 
mancha vermelha na cabea. o focinho branco, uns olhos escuros lindos... era uma cachorrinha.
- Sim, tia - disse Fraude. - Mas no vejo a conexo.
- Oh - replicou a tia Juley, inteiramente rubra -, era to
linda, com aqueles olhos, e o plo. - E calou-se, como se se surpreendesse a cometer uma indelicadeza. - Feuille morte - acrescentou subitamente. - Hester, voc 
lembra-se?
Houvera um considervel debate entre as duas irms para decidir se Timothy deveria ou no ser intimado a vir ver Annette.
- Oh, no o incomodem - disse Soames.
- No, no  incmodo. O caso  que Annette, sendo francesa, pode abal-lo um pouco. Ele esteve to incomodado por causa de Fachoda. Creio que talvez o melhor  
no corrermos o risco, Hester.  um encanto t-la s para ns, no ? E voc como vai, Soames? J liquidou completamente o seu...
Hester interps apressadamente:
- Que  que voc acha de Londres, Annette?
Soames, inquieto, esperava a resposta. E a resposta veio, delicada, serena:
- Oh, eu conhecia Londres. J a tinha visitado antes.
Ele nunca se arriscara a falar-lhe a respeito do restaurante. Os Franceses tm noes diferentes no que se refere  respeitabilidade, e o facto de ele se incomodar 
com aquilo poderia parecer ridculo a Annette. Deixara para falar depois do casamento, e agora via que no seria preciso.
- E que parte voc conhece melhor?
- Soho - disse simplesmente Annette.
- Soho - repetiu a tia Juley. - Soho?
"Isto vai dar a volta inteira da famlia", pensou Soames.
-  um bairro francs, muito interessante - disse ele.
- Sim - murmurou a tia Juley -, o seu tio Roger tinha vrias casas por l. E tinha sempre de mandar embora os locatrios, lembro-me bem.
Soames mudou o assunto para Mapledurham.
- Naturalmente - disse a tia Juley. - Vocs devem tratar de se instalar l quanto antes. Ns estamos todos  espera do momento em que Annette nos dar um pequenino...
- Juley - gritou desesperadamente a tia Hester -. toque para
o ch!
Soames no ousou esperar pelo ch e saiu com Annette. - Se eu fosse voc, no me referia ao Soho - disse ele depois de estarem no cab.

300 - 301

-  uma parte mal afamada de Londres. E agora voc j no tem mais nada com aquele negcio do restaurante. Quero dizer - acrescentou -, quero que voc se d com 
gente fina, e os Ingleses so horrivelmente snobs.
Os claros olhos de Annette abriram-se e um pequeno sorriso afloroulhe os lbios.
- Sim? - perguntou ela.
"Hum!", pensou Soames. "Isto  para mim!" E olhou asperamente para ela. "Tenho de faz-la compreender isso de uma vez por todas."
- Olhe, Annette - disse ele. -  muito simples para quem quer entender. As nossas classes profissionais e abastadas julgam-se vrios graus acima da classe comercial, 
excepto, naturalmente, os que so muito ricos. Pode ser estpido, mas  assim mesmo. No  aconselhvel, na Inglaterra, deixar que saibam que a gente possuiu um 
restaurante, ou uma loja, ou qualquer espcie de negcio desse gnero. Pode ser extremamente rendoso, mas pe nas pessoas uma espcie de estigma. Voc no se divertir 
tanto, nem se dar com gente fina...  isso.
- Compreendo - respondeu Annette. - Na Frana  a mesma coisa.
- Oh! - murmurou Soames, ao mesmo tempo aliviado e abatido. - Naturalmente, as classes so as mesmas, em toda a parte.
- Sim - disse Annette. - Comme vous tes sage.
"Muito bem", pensou Soames, fitando-lhe os lbios. "Ela  quase cnica." E, rodeando-a com o brao, murmurou com esforo:
- Et vous tes ma belle femme. Annette soltou uma gargalhada.
- Oh, non! Oh, non, ne parlez pas Franais, Soames. De que  que aquela senhora velha, a sua tia, disse que estava  espera.
Soames apertou os lbios.
- Deus o sabe! - disse ele. - Ela est sempre a dizer qualquer coisa.
Mas ele sabia melhor que Deus.

302


CAPTULO XI

ANIMAO SUSPENSA


A guerra prosseguia. Nicholas dizia por toda a parte que aquilo iria custar trezentos milhes. O imposto sobre a renda estava seriamente ameaado.  verdade que 
haveria a posse definitiva da frica do Sul para compensar os gastos, e, embora o instinto de propriedade se sentisse dolorosamente alarmado nas viglias, s trs 
da madrugada, ele melhorava,  hora do pequeno-almoo, ante o pensamento de que no se pode obter nada grtis neste planeta. E toda a gente ia tratando dos seus 
negcios, como se no houvesse guerra, nem campos de concentrao, nem a opinio do Continente, nem nada desagradvel. A atitude da nao estava exemplificada pelo 
mapa de Timothy, cuja animao fora suspensa, porque o dono j no lhe movia as bandeiras, nem elas se podiam movimentar por si prprias, para trs e para diante, 
como deveriam ter feito.
E essa suspenso de nimo continuou, invadiu a Bolsa dos Forsyte e produziu uma incerteza geral a respeito do que estava para acontecer. A notcia, sada na coluna 
social do Times, "Casamento de Jolyon Forsyte e Irene, filha nica do falecido professor Heron", ocasionou dvidas, pois no sabiam se a referncia a Irene estava 
correcta.. No entanto, sentiram alvio por Irene no ter sido mencionada como "ex-esposa" ou "esposa divorciada" de Soames Forsyte. Ao mesmo tempo, foi quase sublime 
a atitude que a famlia assumiu, desde o incio, a respeito desse assunto.

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Exactamente como James dissera: "Est tudo feito! No adianta fazer barulho!" Nada de admitir que aquilo era um "caso srdido", segundo a fraseologia actual.
Porm, que iria acontecer agora, j que Soames e Jolyon estavam de novo casados? Era realmente intrigante. Sabia-se que George apostara seis contra cinco, com Eustace, 
como um pequeno Jolyon apareceria antes de um pequeno Soames. George era to engraado! Murmurava-se tambm que ele apostara com Dartie como James atingiria a idade 
dos noventa. S no se sabia em quanto estava cotado James.
No comeo de Maio, Winifred informou que Val fora ferido numa perna por uma bala perdida e tinha sido licenciado. A mulher estava a tratar dele - ficaria a coxear 
um pouco -, mas no valia a pena falar nisso. Queria que o av lhe comprasse uma fazenda por l, onde pretendia criar cavalos. O pai de Holly estava a dar-lhe oitocentas 
libras por ano, de forma que eles podiam viver com conforto, pois o av de Val dar-lhe-ia quinhentas, mas quanto  fazenda ele no sabia... no poderia dizer... 
no desejava que Val lhe deitasse fora o dinheiro.
- Mas vocs vem - disse Winifred. - Ele tem de se ocupar em alguma coisa.
A tia Hester considerava que talvez o caro av de Val tivesse razo, porque, se ele no pudesse comprar a fazenda, no haveria pretexto para as coisas correrem mal.
- Mas Val gosta de cavalos - disse Winifred. - Seria uma excelente ocupao para ele.
A tia Juley pensava que cavalos eram um negcio muito incerto. Montague no o considerava assim?
- Val  diferente - disse ainda Winifred. - Saiu a mim.
A tia Juley tinha a certeza de que o caro Val era muito capaz.
- Sempre me lembro - contou ela - quando ele deu o penny falso a um mendigo. O av dele achou tanta graa. Achou que ele mostrava muita presena de esprito. Lembro-me 
de que ele dizia que o menino deveria entrar para a Marinha.
A tia Hester perguntou:
- Winifred, no acha que era muito melhor que a gente nova estivesse a seguro, sem correr riscos?

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- Bem - respondeu Winifred -, se eles estivessem em Londres, talvez, em Londres  divertido no fazer nada. Porm, longe daqui, deve ser mortalmente aborrecido.
A tia Hester achava que deveria ser muito agradvel para Val trabalhar, se ele estava certo de no se prejudicar com isso. No seria a mesma coisa se eles no possussem 
dinheiro. Timothy, naturalmente, fizera muito bem em retirar-se. E a tia Juley gostaria de saber qual era a opinio de Montague acerca do assunto.
Winifred no lhe contou essa opinio, porque Montague observara apenas:
- Espere at que o velho morra.
Nesse momento anunciaram Francie. Os olhos dela estavam luzentes de riso.
- Bem - disse a moa - que  que vocs pensam disso?
- De qu, minha querida?
- Do Times, hoje de manh.
- Ns ainda no o vimos, s lemos o jornal depois do jantar. Timothy fica com ele at essa hora.
Francie rolava os olhos.
- Voc acha que pode dizer-nos? - perguntou a tia Juley. - Que foi?
- Irene teve um filho, em Robin Hill. A tia Juley suspendeu a respirao.
- Mas - disse ela -, eles casaram-se em Maro!
- Sim, tia. No  interessante?
- Bem - disse Winifred. - Estou satisfeita. Tive muita pena quando Jolyon perdeu o filho. Poderia ter sido Val.
A tia Juley parecia mergulhar numa espcie de devaneio.
- Gostaria de saber - murmurou ela - o que  que o caro Soames diz disso. Ele desejou tanto um filho! Um passarinho sempre me disse isso.
- Bem - declarou Winifred -, ele tambm est cheio de esperanas.
A alegria luziu nos olhos da tia Juley.
- Que felicidade! Para quando?
- Novembro.

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Que ms feliz! Mas ela desejaria que a coisa fosse mais cedo. Era muito tempo para James esperar na idade em que estava!
Esperar! Receavam-no para James, mas elas prprias estavam muito habituadas a esperar. Realmente, aquela era a sua maior distraco. Esperar! Esperar pelo Times, 
para ler, por um ou outro dos sobrinhos que as viesse alegrar um pouco, por notcias da sade de Nicholas, pela deciso de Christopher a respeito da sua entrada 
no teatro, por informaes concernentes  mina do sobrinho de Mrs. Mac Anders, pelo mdico, que vinha dar a sua opinio acerca da mania que Hester tinha de se levantar 
cedo de mais pela manh, pelos livros da biblioteca, que sempre estavam por fora, que Timothy se constipasse, por um dia bonito e tpido, nem frio nem quente de 
mais, que lhes permitisse dar uma volta por Kensington Gardens. Esperar, cada uma num dos cantos da sala de estar, que o relgio, posto ao meio, batesse as horas, 
as mos magras, riscadas de veias, nodosas, movendo agulhas de tricot e de croch, com os cabelos cujas ondas, como as ondas de Canuto, no tinham ordem para sofrer 
qualquer mudana de cor. Esperar, nos seus cetins negros, que a Corte desse licena, findo o luto pela rainha, para que Hester pudesse usar o seu vestido verde-escuro 
e Juley o castanho mais escuro. Esperar, revolvendo nos seus velhos espritos as pequenas alegrias e tristezas, os acontecimentos e esperanas do pequeno mundo familiar, 
como vacas que ruminam pacientemente no pasto habitual. Soames sempre fora o predilecto, com o seu costume de lhes fazer presentes de quadros, as suas visitas quase 
semanais, que, se rareavam, lhes faziam tanta falta, e a necessidade do carinho delas que ele mostrava depois do fracasso do seu primeiro casamento. E aquele novo 
acontecimento - o nascimento do herdeiro de Soames - era to importante para ele, e para o pai dele tambm, que James no poderia morrer sem levar uma certeza concreta 
a esse respeito. James detestava a incerteza e no podia realmente morrer satisfeito deixando apenas netos filhos do Montague Dartie! Afinal, o nome tem muita importncia! 
E, como o nonagsimo aniversrio de James se aproximava, elas perguntavam entre si que precaues estaria ele a tomar. Seria o primeiro dos Forsyte a atingir essa 
idade, e batera portanto um novo record. E elas consideravam aquilo importantssimo,

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na idade em que estavam - oitenta e cinco e oitenta e sete anos -, embora no gostassem de pensar em si mesmas quando tinham Timothy para cuidar. E Timothy tinha 
apenas oitenta e dois. L no Alm, naturalmente, haveria um mundo melhor. "Na casa do meu Pai h muitas manses", era um dos ditos favoritos da tia Juley. E aquilo 
sempre a animara, era uma sugesto de casa e propriedade - factores da fortuna do caro Roger. A Bblia era, com efeito, um grande recurso, e aos domingos de muito 
bom tempo elas iam  igreja, pela manh: muitas vezes Juley introduzira-se furtivamente no escritrio de Timothy - quando tinha a certeza de que ele no estava l 
- e punha como casualmente, entre os livros da mesa, um Novo Testamento aberto - pois ele era um grande ledor, o que era natural, tendo sido editor de profisso. 
Porm, notara que, sempre, depois dessas suas expedies, Timothy se mostrava mal-humorado ao jantar. E Smither dissera-lhe que, mais de uma vez, apanhara do cho 
os livros, ao arrumar o quarto. E assim, depois de tudo isso, elas tinham a impresso de que o Cu no deveria ser realmente to confortvel como as salas onde elas 
e Timothy esperavam h tanto tempo. A tia Hester, especialmente, no podia suportar o pensamento da mudana. Qualquer mudana - ou apenas a ideia de uma mudana, 
porque ali nunca houvera nenhuma - sempre a abalava muitssimo. A tia Juley, que tinha mais vivacidade, pensava s vezes que a coisa talvez fosse "excitante". Ela 
gostara tanto da visita que fizera a Brighton, no ano em que morrera a cara Susan. Mas todos sabiam que Brighton era adorvel, enquanto o Cu era to difcil de 
dizer com que se pareceria! De forma que, afinal, ela preferia ficar  espera.
Na manh do aniversrio de James, a 5 de Agosto, ambas se sentiram extraordinariamente animadas e trocaram vrios bilhetes entre si, por intermdio de Smither, enquanto 
tomavam o pequeno-almoo na cama. Smither teve de sair, levando as lembranas carinhosas delas e pequenos presentes para Mr. James. Devia indagar ainda como ia ele 
passando, se dormira bem a noite, com toda aquela excitao. No caminho de volta, Smither deveria passar por Green Street - era um pouco desviado, mas ela podia 
apanhar depois o nibus em Bond Street...

307

seria at uma diverso agradvel - e pedir notcias da cara Mrs. Dartie antes que ela sasse para a cidade.
Tudo isso Smither fez - uma criada insubstituvel, habituada anos atrs sob as ordens da tia Ann, de perfeio j hoje inatingvel. Mr. James, segundo disse Mrs. 
James, passara uma noite excelente e mandava-lhes muitas saudades. Mrs. James contara que ele estivera muito engraado e queixara-se de no compreender porque faziam 
tanto barulho com aquilo. Oh! E Mrs. Dartie tambm lhes mandara saudades e viria tomar ch.
A tia Juley e a tia Hester, quase ofendidas porque no houvera nenhuma meno aos seus presentes - esqueciam, todos os anos, que James no suportava receber presentes, 
"estragando dinheiro com ele", como dizia sempre-, ficaram "encantadas": isso provava que James estava com boa disposio, o que era to importante para a sade 
dele. E comearam a esperar por Winifred. Ela veio s quatro, trazendo Imogen e Maud, que acabava de chegar da escola e "estava a ficar tambm uma mocinha linda"-de 
modo que foi extremamente difcil pedir notcias do estado de Annette. No entanto, a tia Juley reuniu coragem suficiente para perguntar a Winifred se ela soubera 
de alguma coisa ou se Soames estava inquieto.
- O tio Soames est sempre inquieto - interrompeu Imogen. - Ele no ser feliz enquanto no conquistar aquilo!
As palavras soaram familiarmente aos ouvidos da tia Juley. .Ah, sim! Aquele engraado desenho de George que no lhe tinham mostrado! Mas que quereria dizer Imogen? 
Que o tio' sempre desejava o que no podia ter? No era bonito pensar assim.
A voz de Imogen ergueu-se, clara e cortante:
- Imagine! Annette  apenas dois anos mais velha que eu. Deve ser horrvel para ela ser casada com o tio Soames!
A tia Juley ergueu as mos, horrorizada.
- Minha querida - disse ela-, voc no sabe o que est a dizer. O seu tio Soames  um bom casamento para qualquer pessoa. Ele  um homem muito inteligente, bem apessoado 
e rico, muito atencioso e bom, e no  absolutamente velho, se levarmos tudo isso em conta. - Imogen, volvendo o seu olhar luminoso para as duas velhotas, apenas 
sorriu. - Espero - continuou severamente
a tia Juley - que voc encontre um homem to bom como ele.
- No quero casar com nenhum homem bom, tia - murmurou Imogen. - So todos muito estpidos.
- Se voc continua assim - disse a tia Juley, ainda muito abalada -, acaba por no casar com ningum. Mas  melhor que mudemos de assunto. - E, voltando-se para 
Winifred, perguntou:
- Como vai Montague?
E naquela noite, enquanto estavam  espera do jantar, a velha murmurou:
- Eu disse a Smither que trouxesse meia garrafa de champanhe, Hester. Creio que devemos beber  sade do caro James e  sade da mulher de Soames. Podemos entretanto 
fazer essa sade em segredo. Eu direi apenas: "Ao que voc sabe, Hester!-. e beberemos. De contrrio, poderia abalar Timothy.
-  mais provvel que nos abale a ns - disse a tia Hester
- Mas creio que o devemos fazer, num momento como este.
- Sim - disse a tia Juley impulsivamente. - Que momento! Imagine se for um menino para usar o nome da famlia! Acho que isso  importantssimo, agora, principalmente 
depois que Irene teve um filho. Winifred disse que George est a chamar a Jolyon "Trs Pavimentos", por causa das trs famlias. George  engraado. E imagine! Afinal, 
Irene foi viver na casa que Soames construiu para eles dois. Deve ser duro, para Soames, suportar isso, ele que sempre foi to bem comportado.
Naquela noite, na cama, excitada e ainda um pouco corada pelo copo de vinho e pelo segredo do segundo brinde, a tia Juley ficou deitada, com o livro de oraes aberto, 
o olhar fixo no tecto amarelado pela luz da sua lmpada de cabeceira. Criancinhas! Eram to lindas! E ela sentir-se-ia to feliz vendo o querido Soames feliz! Mas 
 claro que ele j se devia sentir feliz agora, a despeito do que dizia Imogen. Tinha tudo o que poderia desejar: propriedades, mulher, filhos! E haveria de viver 
at uma avanada idade, como o seu querido pai. e esquecer tudo o que se referisse a Irene e quele pavoroso caso. Se ao menos ela ainda estivesse neste mundo para 
comprar o primeiro cavalo de posta para o filho de Soames! Smither procuraria um pelas lojas, bonito e malhado Ah, como Roger gostava de balan-la no cavalo at 
v-la cair!

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H quanto tempo isso j fora! Enfim! "Na casa do meu Pai h muitas manses." Um pequeno rumor chegou-lhe ao ouvido. "No h-de ser um rato!", pensou ela mecanicamente. 
O barulho aumentou. A est! Era um rato! Aquela louca Smither dizia que no havia ratos. E eles iam roer o forro antes que os descobrissem, e ento seria preciso 
chamar operrios para o consertarem. Bichos destruidores! E ficou deitada, mal movendo os olhos, seguindo em esprito aquele leve som e esperando dormir para se 
livrar dele.

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CAPTULO XII

NASCIMENTO DE UM FORSYTE


SOAMES atravessou a porta do jardim, ultrapassou o relvado e parou no caminho junto ao rio, girou depois nos calcanhares, voltou  porta do jardim, sem compreender 
bem por onde caminhara. O som de rodas na estrada convenceu-o de que o tempo passara e o mdico j se fora embora. Que dissera ele exactamente?
- O caso  este, Mr. Forsyte. Quase posso garantir a vida dela, se operar, mas a criana nascer morta. Se no operarmos, a criana provavelmente nascer viva, porm 
a me corre risco - um grande risco. De qualquer forma, no creio que a sua senhora possa ter mais filhos. No estado em que est, dificilmente pode decidir por si 
prpria, e no podemos esperar pela me dela. Enquanto o senhor toma uma deciso, eu vou buscar tudo o que  preciso para a interveno. Estarei de volta dentro 
de uma hora.
Uma deciso! Que deciso? No havia tempo para trazer um especialista de fora. No havia tempo para nada!
O som das rodas morreu, mas Soames ainda estava de p, procurando ouvi-lo, depois cobriu subitamente os ouvidos e voltou para junto do rio. Ah, vir assim, antes 
de tempo, sem probabilidade de escolher nada, nem mesmo esperar a chegada da me dela! Cabia  me decidir, e Madame Lamotte no podia chegar de Paris antes da noite.

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Se ao menos pudesse compreender o palavreado do mdico, aquelas idiotices cientficas, de modo a estar
certo de que pesava as probabilidades com segurana. Mas o que ele dizia soava como grego aos seus ouvidos - tal como um problema jurdico a um leigo. E, assim mesmo, 
tinha de decidir! Retirou a mo da testa hmida, embora o ar estivesse fresco. Aqueles sons que vinham do quarto de Annette! Voltar para l apenas tornaria as coisas 
mais difceis. Ele precisava de estar calmo, lcido. Numa das mos tinha, quase com toda a certeza, a vida da sua jovem mulher e a morte quase certa do filho - e 
nunca mais viriam outros filhos! Na outra, a possvel morte da mulher e, praticamente, a certeza da vida do filho - e tambm nunca mais viriam outros filhos. Como 
escolher?
Chovera naquela ltima quinzena, o rio estava muito cheio e na gua, represada pelo desembarcadouro, boiavam as folhas arrancadas pela ventania das rvores em redor.
Folhas mortas, vidas perdidas! Morte! Decidir a respeito da morte! E ningum para o ajudar. Uma vida, quando perdida estava perdida para sempre, e no se deve deixar 
ir embora nada que se possa prender. Porque a vida que se vai nunca mais volta. Deixa-nos nus, como aquelas rvores que perderam as folhas, nus. cada vez mais nus, 
at que chega a hora de irmos embora tambm
E, num estranho sobressalto, pareceu-lhe ver, estendida na cama, por trs daquela janela onde o sol luzia, no Annette, mas Irene, no seu quarto de Montpellier Square 
- como poderia muito bem ter acontecido dezasseis anos atrs. Teria ele hesitado ento: Nem um momento! Operar, operar! Garantir a vida dela! No haveria deciso 
- apenas um grito instintivo de socorro, a despeito de todo o seu conhecimento de que ela no o amava! Mas agora No havia nada de absoluto no seu sentimento por 
Annette, Muitas vezes, naqueles ltimos meses, especialmente quando ela se ia mostrando mais assustada, ele detivera-se a observ-la. Ela tinha vontade prpria, 
era egosta,  sua maneira francesa. No entanto, era to bonita! Seria que ela escolheria... correr o risco? "Sei que Annette deseja um filho", pensou ele. "Se nascer 
morto, e no houver mais probabilidades futuras, isso h de abal-la terrivelmente..." No mais probabilidades! Tudo para nada! Ficar casado com aquela mulher, anos 
e anos, sem esperanas de um filho "Sem nada para a reter! Ela  jovem de mais. Nada a preocup-la,
a interess-la - nem a ela, nem a mim! Nem a mim!" Apertou as mos contra o peito. Porque no poderia ele pensar sem colocar os seus prprios interesses de permeio, 
porque no procurava pr-se fora da questo e ver apenas o que deveria fazer? O pensamento atingiu-o, feriu-o, depois perdeu o fio. como se se houvesse amolgado 
contra uma couraa de ferro. Esquecer-se de si - impossvel! Era como caminhar num espao surdo, inodoro, intocvel, invisvel! A prpria ideia era irrisria, ftil. 
E, atingindo a o cho firme da realidade, o cerne do seu esprito de Forsyte, Soames descansou um pouco.
Olhou o relgio. Dentro de meia hora o mdico estaria de volta. E ele tinha de decidir! E se se decidisse contra a operao, e Annette morresse, como afrontaria 
depois o olhar da me dela e do mdico? Como afrontar a sua prpria conscincia? Era o seu filho que ela trazia dentro de si e, se se decidisse pela operao, condenava-se 
 impossibilidade de filhos futuros. E por que razo casara ele com ela seno para ter herdeiros legais? E seu pai, s portas da morte,  espera de notcias! " 
cruel!", pensou ele. "Eu nunca deveria ter nas minhas mos uma coisa destas a resolver!  cruel!" Caminhou em direco  casa. Havia uma maneira simples de decidir! 
Meteu a mo no bolso, tirou uma moeda. Mas tornou a guard-la, pois sabia que no se submeteria de modo algum  deciso da "cara ou coroa".
Foi at  sala de jantar, bem longe daquele quarto donde vinham os gemidos. O mdico dissera que havia uma probabilidade E ali aquela probabilidade parecia maior. 
O rio no corria, as folhas no caam. Havia um fogo aceso. Soames abriu o armrio das bebidas. Raramente lhes tocava, mas daquela vez ps num copo uma dose de whisky 
e bebeu-a de um trago, ansioso por um pouco mais de calor no sangue. "Aquele sujeito, Jolyon", pensou ele. "j tem um filho. Ele  que possui a mulher a quem realmente 
amei, e agora ela deu-lhe um filho! E eu - pedem-me que destrua o meu prprio filho! Annette no pode morrer. No  possvel! Ela  forte!"
Estava taciturnamente encostado ao aparador, quando ouviu a carruagem do mdico, e caminhou ao encontro dele. Teve de o esperar no andar de baixo.

312 - 313

- Ento, doutor?
- A situao  a mesma. O senhor j resolveu?
- J - disse Soames. - No opere!
- No? O senhor compreende... o risco que corre? Na face de Soames nada se movia alm dos lbios.
- O senhor no disse que havia uma probabilidade?
- Uma probabilidade, sim... mas apenas isso.
- O senhor no disse que, se operar, a criana nascer morta?
- Sim.
- O senhor pensa realmente que em caso algum ela poder ter outros filhos, mais tarde?
- Ningum pode estar absolutamente certo, mas  inteiramente improvvel.
- Ela  forte - disse Soames. - Vamos correr o risco. O mdico fitou-o severamente.
- Fica por sua conta - disse ele. - Se se tratasse de minha mulher, eu no o ousaria.
O queixo de Soames ergueu-se, como se algum lhe houvesse batido.
- Sou de alguma utilidade l? - perguntou.
- No...
- Estarei na minha galeria de pintura, ento. O senhor sabe onde ?
O doutor acenou que sim e foi para o andar de cima.
Soames continuou de p, escutando. "Amanh, por esta hora", pensou ele, "talvez eu tenha a morte dela nos meus ombros. No.  desumano, monstruoso, encarar as coisas 
por este prisma!" Outra onda sombria o possuiu, e ele encaminhou-se para a galeria. Parou junto a uma janela. O vento soprava do norte, estava frio, claro, o cu 
muito azul, pesadamente riscado de nuvens que iam para c e para l, o rio tambm estava azul, e atravs da cortina de rvores douradas os bosques mostravam-se com 
um colorido rico, ardente, queimado - as primeiras tintas do Outono. Se se tratasse da sua prpria vida, ousaria ele correr esse risco? "Mas ela preferiria correr 
o risco de me perder, do que perder o filho! Ela, na verdade, no pode amar-me!" Que  que se pode esperar de uma rapariga to nova - e francesa? A nica coisa vital 
para
ambos, vital para o casamento e o futuro dos dois, era um filho! Atravessei um horror de coisas para isso", pensava ele. "E tenho de o possuir - tenho de o possuir. 
H uma probabilidade de ficar com os dois., uma probabilidade! Basta aceitar as coisas como elas se apresentam... aceit-las como naturalmente se apresentam!" Ps-se 
a caminhar em torno da galeria. Fizera ultimamente uma aquisio que sabia conter em si uma fortuna e parou diante do quadro - uma rapariga com uma cabeleira dourada 
que parecia feita de filamentos de metal, olhando para um pequeno monstro de ouro que tinha na mo. Mesmo naquele momento de tortura ele pde sentir a extraordinria 
qualidade da compra que fizera - admirar a composio da mesa, do cho, da cadeira, do corpo da rapariga, a absorta expresso do rosto dela, os espessos filamentos 
dourados do cabelo, o ouro brilhante do pequeno monstro. Coleccionador de quadros, ficando cada dia mais rico, mais rico! E para qu, se... Abruptamente, virou as 
costas ao quadro e voltou  janela. Alguns dos pombos haviam sado dos ninhos e exercitavam as asas voando em torno do pombal. E, na clara luz do sol, a brancura 
deles quase cintilava. Voavam para longe, traando complicados hierglifos pelo cu. Annette gostava de dar comida aos pombos e era um belo espectculo v-la entregue 
a essa ocupao. Os pssaros iam bicar-lhe na mo, conheciam-na. Uma sensao de choque bateu-lhe no peito. Ela no podia - no devia morrer! Era muito sensvel, 
mas era forte, realmente forte, tal como a me, a despeito da sua frgil beleza!
J estava quase escuro quando ele por fim abriu a porta e ps-se  escuta. Nem um som! Uma meia luz leitosa vinha l de cima. J voltara novamente as costas, quando 
o seu ouvido percebeu um rudo. Espreitando, viu um vulto negro a mover-se, e o seu corao quase parou. Que seria? A morte? A sombra da morte atravessando a porta? 
No! Apenas a criada, que tirara o avental branco. Ela chegou at ao p da escada e disse quase sem flego:
- O doutor deseja v-lo, sir.
Soames correu para cima. Ela encostara-se  parede, para o deixar passar, e acrescentou:
- Oh. sir, j est tudo findo.

314 - 315

- Findo? - perguntou Soames, com uma espcie de ameaa.
- Que  que voc quer dizer?
- A criana nasceu, sir.
Ele pulou os quatro degraus que ainda lhe estavam  frente e caiu subitamente sobre o mdico, na estreita passagem. O homem enxugava a testa.
- E ento? - disse. - Depressa!
- Ambos esto vivos. Est tudo bem. creio eu. Soames ficou imvel, cobrindo os olhos.
- Felicito-o - ouviu o mdico dizer. - Foi uma sorte rara. Soames deixou cair a mo que lhe cobria o rosto.
- Obrigado - disse ele -. muito obrigado.  menino ou menina?
- Menina. Um menino t-la-ia matado. A cabea... "Uma filha!", pensou Soames.
-  preciso ter o mximo cuidado com ambos - ouviu ainda o mdico dizer -, e poderemos salv-los. Quando chega a me dela?
- Esta noite, entre as nove e as dez, segundo espero.
- Ainda estarei aqui. O senhor quer ver a sua esposa?
- Agora no - disse Soames. - Depois de o senhor sair. Vou mandar que lhe sirvam o jantar.
E desceu a escada.
Que alvio inexprimvel, e no entanto - uma filha! Aquilo parecia-lhe injusto. Correr tal risco, atravessar toda aquela agonia
- que agonia! - por uma filha! E ficou de p diante do fogo de toros no fogo do hall, tocando na lenha com a ponta do p, procurando reequilibrar-se intimamente. 
"Meu pai!", pensou ele. "Vai ter um amargo desapontamento. Ningum possui na vida aquilo que quer. E no terei outro filho - ou. se o tiver, no adianta nada!"
Quando ainda estava ali, junto ao fogo, trouxeram-lhe um telegrama:

Venha imediatamente, o seu pai est mal. Emily

Leu-o com uma sensao de choque. Seria de crer que ele no era capaz de sentir nada depois daquelas horas, mas sentiu. Eram
sete e meia, s nove vinha o comboio de Reading, o comboio que traria a me de Annette, se ela o apanhara, chegaria s oito e quarenta, ele iria encontr-la, e partiria. 
Mandou preparar o carro, comeu mecanicamente qualquer coisa e subiu ao andar de cima. O mdico veio-lhe ao encontro.
- Esto ambas a dormir.
- No quero entrar - disse Soames, com alvio. - Meu pai est  morte. Tenho de ir l. Est tudo bem?
O rosto do mdico exprimiu uma espcie de admirao duvidosa: "Se todos fossem assim, incapazes de emoo!", parecia dizer.
- Sim, penso que o senhor pode ir despreocupado. Voltar logo?
- Amanh - disse Soames. - Est aqui o endereo. - O mdico pareceu suspender a sua tendncia para a simpatia. - Boa noite - disse Soames abruptamente.
E saiu, vestindo a pelica. Morte! Era uma coisa arrepiante. Fumou um cigarro no carro - um dos seus rarssimos cigarros. A noite estava ventosa e parecia que vibravam 
asas negras dentro dela. As luzes da carruagem dificilmente abriam caminho. Seu pai - aquele velho, to velho... que noite sombria para se morrer.
O comboio de Londres chegou exactamente quando ele atingiu a estao, e Madame Lamotte, substanciosa, vestida de preto, muito plida  luz da lmpada, caminhava 
em direco  sada com uma maleta na mo.
-  tudo o que a senhora traz? - perguntou-lhe Soames.
- , sim, no tive tempo para nada. Como vai a minha filha?
- Ambas esto bem,  uma menina!
- Uma menina! Que alegria! Eu fiz uma travessia espantosa! O vulto escuro dela, slido, no afectado pela assustadora travessia, subiu para dentro do carro.
- E voc, mon cher?
- Meu pai est a agonizar - disse Soames entre dentes. - Vou at l. D saudades minhas a Annette.
- Tiens! - murmurou Madame Lamotte. - Quel malheur! Soames soergueu o chapu e caminhou para o comboio. "Esses
franceses!", pensava ele.

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CAPTULO XIII

JAMES  INFORMADO


Uma simples constipao, apanhada na sala de janelas duplas, por onde eram filtrados o ar e as pessoas que vinham v-lo - a sala que ele no deixara desde meados 
de Setembro-, e James estava nas vascas da morte.
Uma ligeira constipao, que lhe venceu as fracas resistncias e lhe tomou conta imediatamente dos pulmes. "Ele no deve apanhar frio", explicara o mdico. E, sado 
o mdico, James apanhara frio. Quando sentiu qualquer coisa na garganta, James disse  enfermeira - porque agora tinha uma enfermeira: "Eu sabia que isto ia acontecer, 
com essa mania que vocs tm de arejar o quarto!" Durante um dia inteiro esteve extremamente nervoso a respeito de si e tomou a iniciativa de todas as precaues 
e remdios, respirava com extremo cuidado e tirava a temperatura de hora a hora. Emily no estava alarmada.
Porm, na manh seguinte, quando ela entrou no quarto, a enfermeira sussurrou-lhe:
- Ele no quis tirar a temperatura.
Emily encaminhou-se para junto da cama onde James estava deitado e disse suavemente:
- Como se sente, James? - E entretanto punha-lhe o termmetro nos lbios. James olhou para ela.
- Para que  isso? - murmurou rspidamente. - Eu no quero saber.
Ela ento alarmou-se. James respirava com dificuldade e parecia terrivelmente fraco,

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plido, com leves manchas avermelhadas no rosto. Dera-lhe muito trabalho, Deus o sabia, mas era James.
fora James durante quase cinquenta anos, e ela no podia recordar nem imaginar a vida sem James, James por trs de todas as suas complicaes, o seu pessimismo, 
a sua crosta de rabugice. profundamente afectivo, realmente bom e generoso para toda a famlia!
Durante todo aquele dia e no dia seguinte, James dificilmente articulou uma palavra, mas os seus olhos apercebiam-se de tudo o que se fazia a seu respeito - um olhar 
que mostrava a Emily que ele estava a lutar. E ela no perdeu as esperanas. A prpria imobilidade do velho, o modo como ele poupava cada migalha de energia, mostrava-lhe 
bem a tenacidade da sua luta. E aquilo comovia-a profundamente. Embora o seu rosto se mantivesse composto e animador, quando estava no quarto do doente, as lgrimas 
rolavam-lhe pela face, quando saa de l.
 hora do ch, no terceiro dia - ela acabara de lhe mudar a roupa, tratando-lhe da aparncia, para no o alarmar, pois ele apercebia-se de tudo-, Emily percebeu 
uma diferena. "No adianta mais, estou cansado", estava escrito claramente naquele rosto plido. E, quando a mulher se aproximou mais, ele murmurou:
- Chamem Soames.
- Sim, James - disse Emily animadamente. - Muito bem. imediatamente.
E beijou-lhe a fronte. Uma lgrima caiu, e quando a enxugou viu que os olhos dele a olhavam gratamente. Abaladssima, j sem nenhuma esperana, Emily mandou o telegrama 
a Soames.
Quando o filho chegou, saindo da negra noite de ventania, a grande casa estava parada como um tmulo. A cara larga de Warmson parecia ter-se alongado e tirou-lhe 
a pelica com uma espcie de cuidado redobrado, dizendo:
- Quer tomar um copo de vinho, sir?
Soames abanou a cabea e as suas sobrancelhas ergueram-se interrogadoramente.
Os lbios de Warmson tremeram.
- Ele chamou pelo senhor, sir. - E subitamente assoou o nariz.- J h muito tempo, sir, que estou aqui com Mr. Forsyte - disse ele. - Muito tempo.
Soames deixou-o a pendurar a pelica e comeou a subir a escada. Aquela casa, onde ele nascera, onde se abrigara sempre
nunca lhe parecera to quente, to rica, to confortvel, como na sua ltima peregrinao ao quarto do pai.

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No era certamente uma casa arranjada de acordo com o seu gosto, mas, no seu luxo substancioso, ela representava realmente um smbolo de conforto e segurana. E 
a noite estava to escura e tempestuosa! O tmulo to frio e isolado!
Parou do lado de fora da porta. Nenhum som vinha de dentro. Moveu suavemente o trinco e entrou no quarto antes que o notassem. A luz fora obscurecida. A me e Winifred 
estavam sentadas na ponta da cama, a enfermeira vinha do outro lado do leito, onde estava uma cadeira vazia. "Para mim!", pensou Soames. Quando ele se afastou da 
porta, a me e a irm ergueram-se, mas ele acenou-lhes com a mo e elas sentaram-se novamente. Dirigiu-se para a cadeira, e ficou de p, olhando o pai. A respirao 
de James era como se estivessem a estrangul-lo, tinha os olhos fechados. E, ao ver o pai to fraco, to plido, to devassado, ao ouvir-lhe o sopro estrangulado, 
subiu ao corao de Soames uma apaixonada onda de dio contra a Natureza, cruel, inexorvel Natureza, esmagando com o joelho aquele frangalho de corpo, tirando-lhe 
lentamente a respirao, espremendo a vida do ente que at ento representara para Soames a coisa mais querida do mundo. O pai, mais que qualquer outro homem, levara 
uma existncia prudente, moderada, abstmia, e ali estava a sua recompensa - sentir a vida arrebatada lentamente, penosamente. E, sem saber o que dizia, Soames murmurou:
-  cruel!
Viu a me cobrir os olhos e Winifred inclinar a face para a cama. Mulheres! Atravessam as coisas muito melhor que os homens. Deu um passo mais para junto do pai.
Havia trs dias que James no era barbeado, e o queixo e os lbios estavam cobertos de uma barba to nevada como a fronte. E aquilo amaciava-lhe o rosto, dava-lhe 
um aspecto que realmente j no parecia deste mundo. Abriu os olhos. Soames aproximou-se mais e inclinou-se. Os lbios do velho moveram-se.
- Estou aqui, pap.
- Hum... que... que notcias? Elas nunca me dizem...
A voz morreu, e uma onda de emoo apoderou-se de Soames,

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no o deixando falar. Dizer-lhe... sim. Mas o qu? Fez um grande esforo, humedeceu os lbios e disse:
- Boas notcias, pap. Annette teve um filho.
- Ah!
Era um som estranho, sinistro, de alvio, de piedade, de triunfo, semelhante ao som que uma criancinha emite quando lhe do o que deseja. Os olhos fecharam-se e 
a respirao estrangulada recomeou. Soames voltou  cadeira e ficou sentado, imvel como uma pedra. A mentira que dissera, baseada como era num instinto profundo 
que lhe dizia que James no conheceria a verdade depois de morto, tirara-lhe todo o poder de sentir naquele momento. O brao roou em alguma coisa. Era o p nu do 
pai. Na luta para respirar, ele tirara-o de sob as cobertas. Soames tomou-o nas mos - um p frio, leve e magro, branco... muito frio. Que adiantava p-lo de novo 
sob os cobertores, enrol-lo, se dentro em pouco ia ficar mais frio ainda! E aquecia-o mecanicamente com a mo, escutando o penoso respirar do pai, enquanto a capacidade 
de sentir tornava a crescer dentro dele. Winifred soltou um pequeno soluo, logo abafado, mas a me continuava sentada, imvel, com os olhos fixos em James. Soames 
fez um sinal para a enfermeira.
- Onde est o mdico? - sussurrou.
- Foi-se embora.
- A senhora no pode fazer nada para ajud-lo a respirar?
- Posso dar uma injeco. Mas depois ele no poder resistir. O mdico disse que enquanto ele estiver a lutar...
- Ele no est a lutar - disse Soames. - Est a ser esmagado lentamente.  terrvel.
James agitava-se penosamente, como se percebesse o que os outros estavam a dizer. Soames ergueu-se e inclinou-se sobre o pai. James agitou fracamente as mos, e 
Soames segurou-as.
- Ele quer que o levantem - murmurou a enfermeira. Soames levantou-o. Pensava que o movia suavemente, mas
um olhar quase de clera passou pelo rosto do doente. A enfermeira soergueu os travesseiros. Soames afastou as mos e inclinou-se, beijando a fronte do pai. Quando 
levantava o busto, os olhos de James pousaram nele, com um olhar que parecia vir das profundezas onde o velho estava a entrar.

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"Estou vencido, meu filho", procurava dizer aquele olhar. "Cuide deles, cuide de si, cuide... deixo tudo ao seu cuidado."
- Sim, sim -murmurou Soames. - Sim, sim. L atrs, a enfermeira fez ele no soube o qu, porque o pai teve um ligeiro movimento de repulsa, como se o incomodasse 
aquela interferncia. Quase imediatamente, a respirao arquejante sossegou, quase silenciosa, e o velho ficou completamente imvel. A expresso de luta do seu rosto 
passou, substituda por uma estranha e calma tranquilidade. Os clios pararam, descansados, e o rosto inteiro descansou. Apenas pelo leve soprar dos lbios se poderia 
dizer que ainda respirava. Soames deixou-se cair na cadeira e sentiu de novo o contacto com o p que tentara aquecer. Ouvia a enfermeira a chorar discretamente junto 
do fogo. Era curioso que, sendo uma estranha, fosse ela a nica a chorar ali! E ele ouvia a discreta vibrao das chamas a lamberem a lenha. Mais um dos velhos 
Forsyte que caminhava para o seu repouso. Eram admirveis! Era admirvel o modo como se agarravam  vida! Sua me e Winifred inclinavam-se, com o olhar suspenso 
nos lbios, mas Soames dobrou-se sobre os ps do pai, tentando aquec-los. Traziam-lhe alguma consolao, frios, cada vez mais frios.. De sbito Soames ergueu-se: 
um som, um som terrvel, como ele nunca ouvira igual, saa por entre os lbios do pai, como o arquejo intenso de um corao ferido, despedaado. Que corao forte, 
capaz de emitir aquele adeus! Parou. Soames olhou o rosto do pai. No havia movimento - no respirava. Subiu as escadas at ao seu quarto, o seu velho quarto, e 
na cama caiu em soluos, que procurava abafar nos travesseiros.
Um pouco mais tarde, desceu a escada e entrou no quarto. James estava deitado, s, maravilhosamente calmo, livre de sombras e de ansiedade, com a gravidade que a 
idade extrema dava aos seus traos devastados, a gasta e preciosa gravidade das moedas antigas.
Soames olhou longamente para aquele rosto, para o fogo, para o quarto todo, cujas janelas estavam largamente abertas sobre a noite de Londres.
- Adeus! - suspirou ele. E saiu.

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CAPTULO XIV

SUA


Tinha muito de que cuidar, naquela noite e no dia seguinte. Pela manh, um telegrama tranquilizou-o acerca de Annette, e s apanhou o ltimo comboio para Reading, 
levando na testa um beijo de Emily e no ouvido aquelas suas palavras:
- No sei o que teria sido feito de mim sem voc, meu filho. Chegou a casa  meia-noite. O tempo mudara, suavizara, como se, depois de terminado o seu trabalho, 
depois de ter prestado a um Forsyte as ltimas honras, ele repousasse. Um segundo telegrama, recebido  hora do jantar, confirmara as boas notcias de Annette, e, 
em vez de se encaminhar para casa, Soames atravessou o jardim, sob o luar, e caminhou para a casa dos barcos. Poderia dormir l muito bem. Amargamente fatigado, 
atirou-se sobre o sof, ainda com a pelica, e caiu no sono. Acordou bastante antes de amanhecer e caminhou para o cais. Encostou-se  balaustrada, olhando para o 
ponto onde o rio se dobrava numa ampla curva e penetrava num bosque. Em Soames, a apreciao das belezas da Natureza era curiosamente idntica  dos seus antepassados 
camponeses - um sentimento de mgoa que se aguara e decerto se civilizara graas s suas pesquisas atravs de pinturas de paisagens. Mas a aurora tem o poder de 
animar a mais materialista das vises, e ele sentia-se impressionado. Havia um outro mundo por trs daquele rio - por trs daquela luz longnqua e fria -, um mundo 
dentro do qual o homem nunca penetrara, um mundo irreal, semelhante a uma estranha praia nunca descoberta. A sua cor no era a cor convencional, quase no era uma 
cor realmente. As suas sombras agitavam-se ainda distintamente, o seu silncio entontecia.

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No tinha nenhum cheiro. Por que razo aquilo o comovia, ele no poderia diz-lo - seno que se sentia to s dentro de tal mundo, afastado de toda a sua famlia 
e de tudo o que possua. E era dentro daquele mundo que seu pai devia agora viajar, apesar de todas as semelhanas que pudesse ter com o mundo que deixara. E Soames 
refugiou-se contra aquilo, indagando a si mesmo que pintor poderia fazer-lhe justia. A gua branco-acinzentada era como... como o ventre de um peixe! Era possvel 
que aquele mundo para o qual ele olhava fosse todo propriedade privada-excepto a gua, que, mesmo assim, era canalizada! No havia ali uma rvore, nem mesmo uma 
hastezinha de relva, nem um pssaro, nem um animal, nem mesmo um peixe, que no tivesse dono. Algum dia, muito tempo atrs, aquilo teria sido floresta, pntano, 
gua, e criaturas felizes vagueavam e brincavam por ali, sem um ente humano que as conhecesse e lhes desse nomes. E uma vegetao desordenada e luxuriante ocupava 
o lugar daqueles bosques altos e cuidadosamente plantados que iam at  gua e o vermelho dos pntanos do outro lado cobrira todas as pastagens de agora. Pois bem! 
Os homens tinham ido at ali, vencido tudo, rotulado, registado nos escritrios dos notrios! E tinham feito muito bem! No entanto, uma vez ou outra, tal como agora, 
um fantasma do passado surgia e sussurrava ao ouvido do ente humano que se arriscasse a ficar desperto: "Vocs todos voltaro  minha solido, onde no h donos, 
e algum dia ser voc prprio que vir."
E Soames, que sentia o arrepio e o medo daquele mundo - novo para si e entretanto to velho, o murado impossudo visitando a cena do passado remoto -, dirigiu-se 
para casa e fez ch num pequeno fogareiro a lcool. Quando o bebeu, agarrou os utenslios de escrever e grafou dois pargrafos:

No dia 20 do corrente, na sua residncia em Park lane, faleceu James Forsyte, aos noventa e um anos de idade. O funeral ser ao meio-dia do dia 24, em Highgate. 
Pede-se que no tragam flores.

No dia 20 do corrente, no Shelter, em Mapledurham, Annette, esposa de Soames Forsyte, deu  luz uma filha.

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E sobre o mata-borro traou a palavra "filho".
Eram oito horas, num mundo vulgar de Outono, quando atravessou o jardim em direco a casa. As moitas perto do rio emergiam, brilhantes, por entre uma bruma leitosa, 
o fumo da chamin erguia-se no cu, azul e sinuoso, e os pombos arrulhavam, sacudindo as penas ao sol.
Entrou furtivamente no seu quarto de dormir, banhou-se, barbeou-se, mudou a roupa branca e vestiu um fato preto.
Madame Lamotte iniciava o pequeno-allmoo quando ele desceu.
Ela olhou-lhe para o fato e disse:
- No me diga! - E apertou-lhe a mo. - Annette est muito bem, mas o mdico disse-me que ela nunca mais poder ter filhos. J sabia disso? - Soames acenou que sim. 
-  uma tristeza. Mais la petite est adorable. Du caf?
Soames fugiu da sogra to depressa quanto pde. Ela ofendia-o - solada, serena, rpida, limpa... francesa. No podia suportar as vogais dela, os "rr", ressentia-se 
da maneira como ela o olhara. como se fosse por culpa dele que Annette no teria mais filhos. Culpa dele! E at se ressentia por aquela adorao da av pela filha 
que ainda no vira).
Era curioso como ele fugia de se avistar com a mulher e a filha!
Algum talvez pensasse que ele deveria ter corrido para junto delas no primeiro momento. Pelo contrrio, sentia uma espcie de retraimento fsico ante isso - complicado 
proprietrio que era Tinha medo do que Annette pensaria do marido, autor das suas agonias, tinha medo de olhar a criana, tinha medo de mostrar o seu desapontamento 
ante o presente - e ante o futuro.
Gastou uma hora a passear de um lado para o outro, na sala de estar, antes de arranjar coragem, subir a escada e bater  porta do quarto do casal.
Madame Lamotte abriu-a.
- Ah! Finalmente veio! Elle vous attend,
Deixou-o passar, e Soames avanou com o seu passo silencioso, o queixo firmemente erguido, os olhos furtivos.
Annette estava muito plida e muito linda, deitada no leito. A criana estava escondida em algum lugar. Ele caminhou para a cama,

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e, com uma emoo sbita, inclinou-se e beijou a testa de Annette.
- C est voc ento, Soames - disse ela. - Agora j no sofro. Mas sofri terrivelmente, terrivelmente. Alegra-me saber que no terei outros. Oh, como sofri!
Soames ficou em silncio, apertando-lhe a mo. No lhe ocorria absolutamente qualquer palavra de estmulo, de simpatia. S lhe vinha o pensamento: "Uma rapariga 
inglesa no diria isto!" E certamente naquele momento compreendeu que nunca poderia estar prximo dela em esprito e verdade, nem ela prxima dele. Trouxera-a para 
casa - e era s isso! E as palavras de Jolyon ocorreram-lhe em tropel: "Quero crer que voc bem gostaria de tirar o pescoo do n da Justia!" Bem, ele enfiara o 
pescoo! Ainda o teria l?
- Ns vamos cuidar muito bem de si - disse ele. - Bem depressa estar forte.
- No quer ver o beb, Soames? Est a dormir.
Ele saiu de junto da cama, foi at ao outro lado e ficou de p, a olhar. No primeiro momento, era exactamente o que esperava ver - uma criana. Mas enquanto olhava, 
o beb respirou e fez alguns leves movimentos no seu sono, alterou as feies e pareceu assumir um aspecto individual, crescer, igual a um quadro, a uma coisa que 
ele ainda tinha de conhecer. No era repulsiva, antes, pelo contrrio, comovente, com qualquer coisa de flor. Tinha os cabelos escuros. Tocou-a com o dedo e desejou 
ver-lhe os olhos. Abriram-se, eram escuros - no poderia dizer se azuis ou castanhos. Os olhos piscaram, pararam-e havia uma espcie de profundo adormecimento neles. 
E de sbito o corao de Soames sentiu-se estranho, aquecido, como que liberto.
- Ma petite fleur! - disse docemente Annette.
- Fleur - repetiu Soames. - Fleur! Vamos chamar-lhe assim. O sentimento do triunfo, da possesso recuperada, penetrou-o. Por Deus! Aquilo - aquela coisa era sua!

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O DESPERTAR


Atravs da clarabia que iluminava o hall, em Robin Hill, a luz da tarde banhava a ampla escadaria, e dentro dessa brilhante onda de luz estava de p o pequeno Jon 
Forsyte, vestido num fato de linho azul. O cabelo do garoto luzia, assim como os olhos sob o cenho franzido - porque ele considerava gravemente como desceria a escada 
pela centsima vez antes que o carro trouxesse de volta a casa o pai e a me. Quatro degraus de uma vez, e cinco no fim? J estava a tornar-se aborrecido! Pelo corrimo? 
Mas de que modo? Com os ps ou com a cabea  frente? Tambm j comeara a ficar cansado! Ou com a cara para o corrimo e a cabea para baixo, de uma maneira que 
ningum mais conhecia seno ele? Era esse o motivo do cenho franzido no rosto iluminado do pequeno Jon.
Naquele Vero de 1909, as almas singelas que sempre desejaram uma simplificao da lngua inglesa no tinham, naturalmente, nenhum conhecimento da existncia do 
pequeno Jon, pois t-lo-iam reclamado como discpulo. Mas ningum pode ser to simples assim neste mundo - e a verdade  que o nome real do garoto era Jolyon, e 
se lhe chamavam Jon era porque o seu pai vivo e o irmo morto j lhe haviam usurpado os outros diminutivos, Jo e Jolly. At mesmo o pequeno Jon fez o que pde para 
se conformar s convenes e escreveu o seu nome primeiro Jhon, depois John, e s depois de o pai lhe haver explicado que isso no tinha qualquer justificao ele 
passou a usar simplesmente o Jon.
At agora aquele pai fora o dono da parte do corao

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que sobrara a Jon depois do muito que ele dera ao groom Bob - que tocava to bem concertina - e  sua ama Da - que aos domingos se vestia de roxo e gozava o luzido 
nome de Spraggins nessa vida privada que todos tm, at mesmo as criadas. Quanto  me, sempre lhe aparecera quase como em sonhos, deliciosamente perfumada. acariciando-lhe 
a fronte at que ele dormisse, e s vezes penteando-lhe os cabelos de um castanho dourado. Quando ele partiu a cabea contra o guarda-fogo da nursery, foi ela que 
o socorreu e lhe estancou o sangue, e, quando tinha pesadelos, ela sentava-se na caminha do filho e abrigava-lhe a cabea no colo. Ela era preciosa, mas longnqua, 
porque Da estava sempre to prxima, e, na verdade, no h lugar bastante para duas mulheres ao mesmo tempo no corao de um homem. Com o pai, entretanto, ele tinha 
naturalmente laos especiais, porque o pequeno Jon tambm pensava em tornar-se pintor, quando fosse homem. Havia apenas uma leve diferena: o pai pintava quadros 
e Jon tencionava pintar tectos e paredes, de p numa escada de cavalete, metido num avental sujo de tinta e com um adorvel cheiro de cal. O pai tambm o levava 
a passear a cavalo em Richmond Park, no seu pnei chamado Mouse, pois tinha exactamente a cor de um rato.
O pequeno Jon nascera reallmente com uma colher de prata na boca - colher grande e rica. Nunca ouvira o pai ou a me falar em voz zangada, nem um com o outro, nem 
com qualquer outra pessoa, o groom Bob, Cook, Jane, Bella e todos os criados,, at mesmo Da - que era a nica a impor-lhe algumas restries - tinham uma voz especial 
para falar ao rapazinho. De maneira que ele vivia na crena de que o mundo  um local de perfeita e perptua gentileza e liberdade.
Nascido em 1901, comeara a crescer quando o seu pas, aps aquele forte acesso de escarlatina que fora a guerra dos Boers, estava a preparar-se para o renascimento 
liberal de 1906. A coero era impopular, e os pais tinham ideias exaltadas acerca de condescendncia com a prole. Destruam as palmatrias, poupavam os filhos e 
esperavam, entusiasmados, os resultados dessa poltica.
O pequeno Jon, alm do mais, agira com largueza de vistas e sabedoria, pois escolhera como pai um cavalheiro amvel, de cinquenta e dois anos, que j perdera um 
filho nico,

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e para me uma senhora de trinta e oito anos, cujo nico filho era ele. O que o salvara de se tornar um estpido animalzinho, mistura de cozinho de colo com porquinho 
de engorda, fora a adorao do pai pela me, porque, embora pequenino como era, Jon podia ver muito bem que ela no era apenas sua me e que ele ocupava um segundo 
lugar no corao do pai.
O lugar que tinha no corao da me, isso Jon no sabia. Quanto  "tia June", sua meia-irm - mas to velha que fora promovida na escala do parentesco -, ele amava-a, 
naturalmente, mas ela era brusca de mais. A sua devotada Da tambm tinha algumas ideias espartanas: dava-lhe banhos frios, mantinha-lhe os joelhos nus e nunca o 
estimulava a ter muito d de si prprio. Quanto  delicada questo da sua educao, o pequeno Jon participava da teoria que afirma que as crianas no devem ser 
foradas. Gostava da mademoiselle que vinha diariamente, durante duas horas, dar-lhe lies de lnguas, junto com histria, geografia e tabuada, e no lhe desagradavam 
as lies de piano que a me lhe ministrava, porque ela possua uma maneira prpria de o atrair de tom para tom, sem nunca o fazer estudar nada que no lhe desse 
prazer, de forma que ele rapidamente conseguiu transformar os seus dez inbeis dedos em dedos de pianista. Com o pai, aprendia a desenhar porquinhos e outros bichos. 
Na verdade, no era um rapaz muito bem-educado, mas deve-se confessar que a colher de prata no o estragara, embora Da dissesse algumas vezes que a companhia de 
outros meninos lhe faria um bem enorme.
Foi portanto uma grande desiluso quando pela primeira vez - tinha ento quase sete anos - ela o ps de castigo, voltado para a parede, porque o pequeno Jon queria 
fazer algo sob a evidente desaprovao de Da. Essa primeira interferncia contrria ao livre individualismo de um Forsyte quase enfureceu o pequeno Jon. Havia qualquer 
coisa de espantoso no desamparo daquela situao e uma absoluta incerteza sobre se aquilo teria um limite. Imagine-se se ela nunca mais o viesse voltar! Sofreu torturas, 
ao mesmo tempo que erguia a voz o mais alto que podia durante cinquenta segundos. Pior do que isso era a compreenso de que Da empregava todo esse tempo para se 
convencer de que ele estava realmente numa agonia de pavor. E assim, assustadoramente,

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foi-lhe revelada a falta de imaginao do ente humano! Quando o castigo terminou, estava convencido de que Da fizera uma coisa abominvel. E, embora no quisesse 
acus-la, viu-se obrigado, com medo de uma repetio, a procurar a me e dizer-lhe:
- Mam, no deixe que a Da volte a pr-me voltado para a parede.
A me, com as mos erguidas para a cabea, e dentro delas duas madeixas de cabelo couleur de feuille morte - como o pequeno Jon ainda no aprendera a dizer-, olhara-o 
com olhos que pareciam retalhos da sua tnica de veludo castanho e respondera:
- No, querido, no deixo mais.
E, como la participava da natureza de uma deusa, o pequeno Jon ficou satisfeito, especialmente quando, ao pequeno-almoo do dia seguinte, estando ele escondido 
sob a mesa, onde esperava apanhar um cogumelo, a ouviu dizer ao pai:
- Ento vai falar com Da, ou falo eu? Ela  to dedicada ao pequeno!
E a resposta do pai:
- Bem. no  dessa maneira que ela pode mostrar a sua dedicao. Eu sei exactamente o que se sente quando se  posto voltado para a parede. Nenhum Forsyte poderia 
suport-lo durante um minuto.
Consciente de que ignoravam a sua presena sob a mesa, Jon foi possudo por um novo sentimento, o embarao, mas permaneceu onde estava, possudo pelo desejo do cogumelo.
Foi esse o seu primeiro mergulho nos sombrios abismos da existncia. E nada de muito importante lhe foi revelado depois, at que um dia, quando se dirigia ao estbulo 
para tomar o seu copo de leite cru, ordenhado por Garrai, viu que o bezerrinho da vaca Clover estava morto. Inconsolvel, seguido por Garrai, abaladssimo, chamara 
Da. Porm, compreendendo subitamente que ela no seria a pessoa indicada, correu em busca do pai e caiu nos braos da me.
- O bezerro de Clover morreu! Oh! Era to mansinho! A me abraou-o.
- Sim, meu querido, ento, ento!
E aquilo parara-lhe os soluos. Porm, se o bezerro de Clover podia morrer, tudo o mais tambm podia - e no s as abelhas, as moscas, escaravelhos e pintos... tanta 
coisa! Era assustador - e foi rapidamente esquecido!
O acontecimento seguinte verificou-se quando Jon se sentou em cima de uma vespa - pungente experincia que a me compreendeu muito melhor que Da. E nada mais de 
vital importncia sucedeu at que o ano acabasse. Ento, depois de um dia de extrema misria fsica, ele gozou de uma doena, composta de pequenas consideraes, 
cama, mel numa colher e tangerinas. Foi a, ento, que o mundo todo floresceu, e foi a "tia June" que lhe propiciou essa Primavera, pois, logo que soube que o pequeno 
Jon estava doente, veio a toda a pressa de Londres,, trazendo consigo os livros que lhe haviam nutrido o seu prprio esprito curioso, nascido no notvel ano de 
1869. Livros velhos e de vrias cores, recheados das mais formidveis faanhas, E ela leu-as para o pequeno Jon, at que ele fosse capaz de ler sozinho. Logo depois, 
June voltou para Londres, deixando ao pequeno os livros em monto. E a leitura de tal modo lhe acendeu a imaginao que ele j s pensava em marinheiros e piratas, 
jangadas, compradores de sndalo, cavalos de ferro, tubares, batalhas, trtaros, peles-vermelhas, bales, gelos do Plo Norte e outras extravagantes delcias. No 
momento em que pde levantar-se, equipou a cama da popa  proa, desceu dela num rpido mergulho nos verdes mares do tapete, em direco a uma rocha a que subiu escalando 
os degraus de mogno da cmoda, a fim de varrer o horizonte com um copo colado ao olho,  procura de velas fugitivas. Arranjou uma jangada com uma toalha, os travesseiros 
e a bandeja do ch. Guardou a calda das suas ameixas francesas, engarrafou-a num frasco de remdio e aprovisionou a jangada com o rum indispensvel, arranjou carne 
seca com restos de galinha torrados  lareira e fez sumo de limo, para combater o escorbuto, com um pouco de sumo das suas tangerinas. Certa manh, improvisou um 
Plo Norte com todos os lenis da cama, excepto o almofado, e atingiu-o numa canoa de casca de rvore - que na vida privada era o guarda-fogo-, depois de um terrvel 
encontro com um urso polar arranjado com o supracitado almofado

332 - 333

e quatro varas de skittle (1) vestidas com a camisola de Da. Depois disso, o pai, querendo refrear-lhe a imaginao, trouxe-lhe Ivanhoe, Bevis, Um livro do Rei Artur 
e o Tom Brown. Ele leu o primeiro, e durante trs dias ergueu,, defendeu e demoliu o castelo de Front de Boeuf, desempenhando todos os papis do drama, excepto os 
de Rebecca e Rowena. Soltava gritos penetrantes, "En avant. De Bracy", e pelejava duras lides. Depois de ler o livro do Rei Artur, transformou-se quase exclusivamente 
em Sir Lamorac de Gallis, porque, a despeito de se falar pouco em tal paladino, Jon preferia o seu nome ao de todos os outros cavaleiros. Levou  morte o seu velho 
cavalo de rodas, armado com um tango bambu. Bevis pareceu-lhe inspido. Alm disso, exigia bosques, animais, coisas de que no dispunha na nursery, excepto os dois 
gatos, Fitz e Tuck, que no lhe permitiam liberdades. Para Tom Brown, ainda era jovem de mais. E foi grande o alvio em casa, quando, depois da quarta semana, lhe 
foi permitido sair para o jardim.
Como se estava no ms de Maro, as rvores pareciam-se extraordinariamente com mastros nus de navios, e para o pequeno Jon aquilo era uma maravilhosa Primavera, 
extremamente dura para os seus joelhos e fundilhos, assim como para a pacincia de Da, a quem cabia a lavagem e a reparao das roupas do garoto. Todas as manhs, 
depois do pequeno-almoo. o pai e a me, cujas janelas davam para aquele lado, podiam v-lo sair de casa,, atravessar o terrao e trepar ao carvalho, com a cara 
resoluta e os cabelos luzentes. Comeava o dia assim porque no havia tempo de ir para longe antes da aula. A velha rvore numca o cansava, tinha mastros grandes, 
vergas, gveas, e ele podia sempre descer pelos cabos - as cordas do balouo. Depois da aula, que acabava s onze, ia  cozinha, em busca de uma pequena fatia de 
queijo, um biscoito e duas ameixas - provises suficientes para uma baleeira e que seriam comidas apenas em imaginao. Depois, armado at aos dentes com revlveres, 
pistolas e espadas, iniciava as severas aventuras da manh, encontrando no seu caminho negreiros, ndios, piratas, leopardos e ursos.
Era visto frequentemente, a essa hora do dia, com um punhal entre os dentes

*1. Skittle - jogo de bola com nove paus. (N. da T.)

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- tal como Dick Needham - passando atravs da rpida exploso das balas inimigas. E muitos eram os jardineiros que ele punha em fuga com as pedras atiradas pelo 
seu revlver. Vivia uma vida da mais violenta aco.
- Jon - disse o pai para a mulher, sob o carvalho -  terrvel. Tenho medo de que d um marinheiro, ou qualquer outra coisa assim, desesperada. J o viu dar a menor 
mostra de apreciar a beleza?
- No, nenhuma.
- Pelo menos, graas a Deus, no lhe interessam rodas nem mquinas. Posso suportar tudo, menos isso. Mas gostaria de que ele tomasse mais interesse pela Natureza.
- Ele  imaginativo, Jolyon.
- Sim, de uma maneira sanguinria. Ser que, at hoje, ele gostou de algum?
- No. Apenas gosta de tudo. Nunca houve ningum mais amoroso e mais amvel do que Jon.
-  seu filho, Irene.
Nesse momento, o pequeno Jon, que se estirava num grande ramo acima deles, chamou-lhes a ateno atirando-lhes dois caroos. E aquele fragmento de conversa gravou-se 
no seu minsculo corao. Amoroso, amvel, imaginativo, sanguinrio!
As folhas j estavam a ficar grandes e ia-se aproximando a poca do seu aniversrio, que, ocorrendo todos os anos a 12 de Maio, era tambm memorvel pelo jantar 
especial com rim de vitela,, cogumelos, bolos de amndoas e cerveja de gengibre.
Porm, entre esse oitavo aniversrio e a tarde em que ele estava de p no alto da escada, sob a luz do sol de Junho que atravessava a clarabia, vrias coisas importantes 
aconteceram.
Da, cansada de lhe lavar os joelhos, ou movida pelo misterioso instinto que sempre fora as amas a abandonar os filhos de criao, deixou-o, no dia seguinte ao seu 
aniversrio, numa onda de pranto, para casar - imagine-se! - com "um homem".
O pequeno Jon, o principal prejudicado, mostrou-se inconsolvel durante a tarde inteira. No tinham o direito de lhe fazer aquilo! Duas grandes caixas de soldados, 
alguma artilharia e mais Os Jovens Corneteiros - que faziam parte dos seus presentes de aniversrio

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- cooperaram, juntamente com o seu desgosto, numa espcie de converso, e, em vez de procurar aventuras pessoalmente, a prpria vida,, comeou a realizar batalhas 
imaginrias, nas quais arriscando a prpria vida, comeou a realizar batalhas imaginrias, nas quais arriscava vidas sem conta de soldadinhos, berlindes, pedras 
e feijes. E, empregando essa espcie de "carne para canho", de que possua infindveis reservas, refez a Guerra Peninsular, a dos Sete Anos, a dos Trinta Anos 
e outras guerras acerca das quais andava ultimamente a ler numa grande Histria da Europa que pertencera ao av.  verdade que as alterava - para obedecer ao seu 
gnio guerreiro - e empreendia-as todas no soalho da nursery, de forma que ningum podia entrar l, sob risco de perturbar Gustavo Adolfo, rei da Sucia, ou pr 
em perigo um exrcito de austracos. Porque lhes adorava o nome, Jon era apaixonadamente dedicado aos austracos, e, descobrindo que havia poucas batalhas de que 
eles tivessem sado vitoriosos, inventava-lhes vitrias nas suas lutas. Os seus generais favoritos eram o prncipe Eugnio, o arquiduque Charles e Wallenstein. Tilly 
e Mack - o pai chamara-lhes um dia "guerreiros de cabar" ou o que quer que isso significasse -, esses, embora austracos, ningum poderia admir-los. Por motivos 
eufnicos, Jon igualmente adoptou Turenne.
Essa fase, que causou inquietao aos pais, pois mantinha-o dentro de casa quando deveria estar ao ar livre, durou todo o ms de Maio e metade de Junho, sendo liquidada 
pelo pai, que lhe trouxe Tom Sawyer e Hucklberry Finn. Quando o rapaz leu esses livros, qualquer coisa lhe aconteceu,, e saiu pela porta fora, na apaixonada procura 
de um rio. Como no havia rio nenhum nos arredores de Robin Hill, foi transformado em rio o lago, que, felizmente, tinha lrios-d'gua, moscardos, mosquitos, juncos 
e trs pequenos salgueiros. Nesse lago, depois de uma conveniente sondagem feita pelo pai e por Garrai, durante a qual se verificou que o fundo era slido e no 
tinha mais de meio metro de profundidade, Jon ps a vogar uma pequena canoa na qual navegava horas e horas, escondido das vistas do ndio Joe e outros inimigos. 
Nas margens do lago, ele prprio construiu uma cabana de um metro quadrado, feita de velhas caixas de biscoitos, coberta com ramos. E nessa cabana pretendia ele 
acender pequenas fogueiras, onde assaria os pssaros que ainda no matara com a sua espingarda, caando no bosque e no relvado, ou o peixe que ainda no pescara 
no lago, porque no havia l nenhum. Isso ocupou o resto de Junho e aquele comeo de Julho, quando o pai e a me estavam fora, na Irlanda. O pequeno levou uma vida 
solitria de vagabundo durante todas aquelas cinco semanas de Vero, com a espingarda, a cabana, o lago e a canoa. E, embora s raramente o seu crebrozinho activo 
se interessasse pela beleza das coisas, ela penetrava durante um segundo, aqui e alm, pousando na asa de uma liblula, deslizando nos lrios-d'gua ou lavando-lhe 
os olhos com o azul do cu, quando ele estava deitado de costas na canoa, emboscado.
A "tia June", que ficara encarregada dele, tinha "gente grande" dentro de casa - um homem que tossia quase constantemente -, de forma que raramente vinha v-lo no 
lago. Certo dia, no entanto, ela trouxe consigo duas outras "pessoas grandes". Jon, que pintara o torso nu com riscas azuis e amarelas, usando a caixa de aguarelas 
do pai, e pusera algumas penas de pato no cabelo, viu-os chegar
- e emboscou-se por trs dos salgueiros. Como previra, dirigiram-se primeiro  cabana e ajoelharam para olharem para dentro, de forma que lhe teria sido faclimo 
escalpelar a "tia June" e a outra moa antes que elas o beijassem. Os nomes das duas pessoas recm-chegadas eram "tia" Holly e "tio" Val, que tinha a cara queimada 
de sol, coxeava um pouco e riu terrivelmente dele. Simpatizou com a "tia" Holly, que, segundo diziam, era tambm sua irm, mas ambos se foram embora naquela mesma 
tarde, e ele no os viu mais. Trs dias antes da chegada do pai e da me, a "tia June" tambm saiu, numa grande pressa, levando com ela o homem que tossia. E a mademoiselle 
disse:
- Pobre homem, est muito doente. Est proibido de entrar no quarto dele, Jon.
Jon, que raramente gostava de infringir proibies, dominou o seu desejo de l ir, embora estivesse aborrecido e solitrio. Na verdade, a fase do lago j passara, 
e ele sentia-se cheio, at ao mago da sua alma, de uma inquietao, de uma falta de qualquer coisa
- no de uma rvore, no de uma espingarda, mas de uma coisa macia. Aqueles dois ltimos dias tinham-lhe parecido dois meses, a despeito do Perdidos no Mar, que 
estava a ler agora,

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onde se contava a histria da Velha Lee e das suas terrveis fogueiras que causavam naufrgios. Subira e descera a escada uma centena de vezes durante aqueles dois 
dias, e muitas vezes fugia do seu quarto para o quarto da me, olhando tudo, sem tocar em nada. Entrou uma vez no quarto de vestir, e, erguido num p s, junto  
banheira, fez misteriosamente a invocao mgica de Slingsby, para ter sorte. Depois deslizou at ao guarda-roupa da me, abriu a porta e aspirou longamente o cheiro 
que vinha de l e que parecia aproxim-lo no sabia bem de qu.
Ocupara-se nessas coisas at ao momento em que ficara de p. no alto da escada, pensando de que maneira a desceria. Todas as maneiras lhe pareciam tolas, e, numa 
sbita languidez, ps-se a descer os degraus um a um. Durante aquela descida, pde lembrar-se distintamente do pai - a curta barba grisalha, os olhos profundos a 
piscar, o sulco que havia entre eles, o sorriso engraado, o magro vulto que sempre parecera to alto ao pequeno Jon. No entanto, no conseguia evocar a me. Tudo 
o que a representava era algo fugitivo, com dois olhos escuros a fit-lo, e o cheiro do guarda roupa.
Bella estava no hall, ocupada em abrir as grandes cortinas e a porta da frente.
Jon chamou num tom amvel:
- Bella!
- Que , Masterjon?
- Sirva o ch debaixo do carvalho, quando eles chegarem. Sei que preferem tomar l o ch.
- Isto , voc  que prefere. O pequeno Jon considerou:
- No, eles preferem, para me agradar. Bella sorriu.
- Bem, sirvo l o ch se ficar sossegado e no fizer nenhuma travessura at eles chegarem.
Jon sentou-se no ltimo degrau e acenou que sim. Bella aproximou-se e olhou-o de cima para baixo.
- Levante-se! - disse ela.
O pequeno Jon ergueu-se e ela examinou-o todo. No estava plido e os joelhos pareciam limpos.
- Muito bem! -disse ela. - Valha-me Deus! Como est queimado! D c um beijo!
E o pequeno Jon consentiu que ela lhe beijasse os cabelos
- Qual  a geleia? - perguntou ele. - Estou to cansado de esperar!
- Groselha e morango. Hum! Eram as suas favoritas!
Quando ela saiu, ficou sentado e quieto durante um minuto. O grande hall que dava para o nascente estava muito silencioso e podia-se ver uma das rvores, que parecia 
um brigue a vogar lentamente atravs do prado alto. No outro hall, as sombras j se inclinavam atravs dos pilares. O pequeno Jon ergueu-se, pulou por sobre uma 
delas e caminhou em torno dos macios de ris que enchiam a piscina de mrmore acinzentado do meio do hall. As flores eram bonitas, mas cheiravam muito pouco. Parou 
junto  porta de entrada, toda aberta, e olhou para fora. "Suponha - suponha que eles no vm!" Esperara tanto que no podia mais suportar aquilo, e a sua ateno 
distraiu-se uma vez daquela tenso para as rstias de poeira luminosa que brilhavam na luz que descia dos vidros do tecto. Erguendo a mo, procurou apanhar alguma. 
Bella devia ter espanado aquela zona da sala! Mas talvez aquilo no fosse poeira - fosse apenas aquilo de que era feita a luz do sol -, e ele olhou para fora, para 
ver se a luz do sol, ao ar livre, era a mesma coisa. No era. Prometera ficar sossegado no hall, mas no podia suportar mais aquela imobilidade. E, atravessando 
a calada lajeada, estirou-se no relvado. Apanhando seis malmequeres, baptizou-os, respectivamente, com os nomes de Sir Lamorac, Sir Tristan, Sir Lancelot, Sir Palimedes, 
Sir Boors, Sir Gawain, e, arranjando-os aos pares, p-los a lutar, em breve, s quem ainda tinha a cabea era Sir Lamorac, que Jon seleccionara com um caule especialmente 
forte. Mas, depois de trs encontros, at mesmo o valente campeo parecia gasto e exausto. Um escaravelho caminhava lentamente pela relva, que j estava a precisar 
de ser aparada. E cada caule maior representava uma rvore, em redor de cujo tronco o escaravelho era obrigado a deslizar. Jon agarrou Sir Lamorac e com os ps do 
heri tangeu para longe o bicho, que se ps a fugir miseravelmente. O pequeno jon riu,

338 - 339

depois perdeu o interesse e suspirou. O corao parecia-lhe vazio. Voltou-se e ficou deitado de costas. Vinha um cheiro de mel das limeiras em flor, o azul do cu 
era lindo, com pequenas nuvens que tinham o aspecto e - quem sabe - o gosto de sorvete de limo. Dali, ouviu Bob a tocar na sua concertina o Vamos Subir o Rio Suwanme. 
E aquilo tornava-o mais triste - embora fosse bonito. Voltou-se outra vez e encostou o ouvido ao cho - os ndios escutam assim as coisas que caminham muito longe 
-, mas no ouviu nada alm da concertina. E quase instantaneamente ouviu um chiar de rodas, um trote. Sim, era um carro vindo - vindo! Ps-se em p de um salto. 
Devia esper-los no prtico, ou subir a escada, e, quando eles fossem a entrar, "Olhem!", e escorregar pelo corrimo com a cabea para a frente? Que faria? O carro 
j dera a volta na lea ensaibrada. Era tarde de mais! E contentou-se em esperar, saltando de excitamento. O carro chegou rapidamente, rangeu, parou. O pai saltou, 
exactamente como fazia dantes. Curvou-se e o pequeno Jon saltou-lhe para cima, O pai disse:
- Valha-me Deus! Eh, meu velho, voc est um ndio! - exactamente como Jon desejara que ele dissesse.
Mas uma impresso de expectativa - de algo desejado - ardia inextinguivelmente no pequeno Jon. Ento, num longo e tmido olhar, descobriu a me, com um vestido azul 
e um pequeno vu de viagem cobrindo-lhe o gorro e os cabelos. Sorria. Ele pulou mais alto do que nunca pulara, cruzou as pernas nas costas dela e abraou-a fortemente. 
Ouviu-a arfar e sentiu que ela o abraava tambm com fora. Os olhos dele, de um azul muito escuro, fitaram ento os olhos da me, de um castanho mais escuro ainda, 
at que os lbios dela lhe fecharam as plpebras, e, apertando-a com quanta fora tinha, ouviu-a rir, sufocada:
- Voc  lorte, Jon!
Ouvindo aquilo, Jon deslizou para o cho e atirou-se para o hall, arrastando-a pela mo.
Quando estava a comer a geleia debaixo do carvalho, reparou que havia na me algumas coisas que nunca notara: as faces dela, por exemplo, pareciam leite, havia fios 
de prata nos seus cabelos dourados, o colo no tinha nenhum n, como o de Bella, e subia
e descia levemente com a respirao. Notou tambm uns leves traos que lhe marcavam o canto dos olhos e uma zona levemente escura sob eles. Ela era sempre linda, 
muito mais bonita que Da. ou mademoiselle, ou a "tia June", ou mesmo a "tia" Holly, com quem Jon simpatizara. At mesmo mais bonita que Bella, que tinha faces rosadas 
e aparecia to subitamente em toda a parte. Aquela nova beleza da me assumia uma importncia particular, e comeu menos do que esperara.
Quando o ch acabou, o pai convidou-o para dar uma volta pelos jardins. E Jon teve uma longa conversa com o pai acerca das coisas em geral, evitando aludir  sua 
vida privada - Sir Lamorac, os austracos, o vazio que sentira nesses ltimos trs dias, a sensao de plenitude que o possua agora. O pai falou-lhe de um lugar 
chamado Glensonfantrim, onde ele e a me haviam estado, e das criaturinhas minsculas que l existem e que emergem do cho quando tudo est a dormir. O pequeno Jon 
fez alto, com os calcanhares afastados.
- Acredita realmente nisso, pap?
- No, Jon, mas acho que voc deve acreditar.
- Porqu?
- Voc  mais novo que eu... e isso so contos de fadas. O pequeno Jon mostrou a cova voluntariosa do queixo.
- No acredito em histrias de fadas. Nunca vi nenhuma fada.
- Ah! - exclamou o pai.
- A mam acredita?
O pai sorriu com o seu sorriso engraado.
- No. Ela apenas v Pan.
- Quem  Pan?
- O deus de p de cabra que vive nos lugares selvagens e bonitos.
- Ele estava em Glensonfantrim.'
- A sua me diz que sim.
O pequeno Jon ps-se a andar.
- O pap viu-o?
- No. Eu apenas vi Vnus Anadiomene.
Jon reflectiu. Vnus aparecia no seu livro que falava a respeito dos Gregos e dos Troianos.

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Ento Ana era o seu nome e Diomene o sobrenome?
Porm, segundo compreendeu quando o perguntou, tudo era uma nica palavra e significa "a que nascia das ondas".
- Ela nascia das ondas, em Glensonfantrim?
- Sim. todos os dias.
- Com quem se parece ela, pap?
- Com sua me.
- Oh, ento ela deve ser... - Mas calou-se ao dizer aquilo, arremeteu contra um muro, trepou nele e depois, rapidamente, saltou para o cho. A descoberta da beleza 
da me parecia-lhe um assunto rigorosamente privado. No entanto, o charuto do pai demorava tanto a sair-lhe da boca que ele se sentiu compelido a dizer: - Estou 
com vontade de ver o que foi que a mam trouxe da viagem, Importa-se, pap?
Aproveitou aquele pretexto como desculpa da sua falta de masculinidade e sentiu-se um pouco desconcertado quando o pai, olhando-o bem de frente, deu um grande suspiro 
e respondeu:
- Est bem, meu velho, v adorar a sua me.
Ele partiu, simulando vagar, e logo adiante ps-se a correr. Entrou no quarto da me atravs do seu prprio quarto, pois a porta de comunicao estava aberta. Ela 
estava ajoelhada defronte de uma mala, e ele parou junto dela e ficou imvel.
Irene ergueu-se e disse:
- E ento, Jon?
- Pensei que podia vir para c olhar.
Depois de lhe dar e receber novo abrao, trepou para a janela e, erguendo as pernas acima da cabea, ps-se a v-la desfazer as malas. Aquele espectculo dava-lhe 
um prazer at ento desconhecido, parte porque ela estava a tirar da mala coisas curiosas, parte porque gostava de a olhar. A me movia-se de uma maneira diferente 
de toda a gente, especialmente de Bella. Era, indiscutivelmente, a criatura mais refinada que j conhecera. Acabou finalmente de desfazer a mala e ajoelhou-se em 
frente do filho.
- Teve saudades de ns, Jon?
O pequeno Jon fez sinal que sim - e, depois de confessar dessa maneira os seus sentimentos, continuou a acenar com a cabea.

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- Mas no tinha a tia June?
- Oh! Ela tinha um homem que tossia. - O rosto da me alterou-se e mostrou-se quase zangado. Ele acrescentou rapidamente: - Era um pobre coitado, mam, tossia horrivelmente. 
Eu... eu gostava dele.
A me ps-lhe uma mo no peito.
- Voc gosta de toda a gente, Jon?
- At certo ponto - disse ele. - A tia June levou-me  igreja num domingo.
-  igreja! Oh!
- Ela queria ver se me afectava.
- E afectou?
- Sim. Comecei a sentir-me esquisito, e ela trouxe-me para casa a toda a pressa. Mas eu no estava doente. Fui para a cama, bebi brandy quente com gua e li Os Rapazes 
de Beechwood.  formidvel.
A me mordeu o lbio.
- Quando foi isso?
- Oh! Foi... j h muito tempo. Quis que ela me levasse de novo, mas ela no quis. A mam e o pap nunca vo  igreja,, pois no?
- No, no vamos.
- Porqu?
A me sorriu.
- No sei, meu querido. Ns amos quando ramos pequenos. Talvez fssemos pequenos de mais.
- Eu sei - disse Jon. -  perigoso.
- Voc resolver por si mesmo acerca de todas essas coisas quando for grande.
O pequeno Jon respondeu de um modo calculado.
- No quero crescer, mam. No quero ir para o colgio. - E um sbito desejo de dizer algo mais, de dizer o que realmente sentia, f-lo corar.- Quero ficar consigo 
e ser seu namorado, mam. - Depois, com um instinto que o levava a tirar partido da situao, acrescentou rapidamente: - Esta noite no quero ir para a cama, j 
estou muito enjoado de ir todas as noites para a cama.

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- Teve algum pesadelo?
- S um, Posso deixar a minha porta aberta para o seu quarto esta noite, mam?
- Sim, um pouquinho.
O pequeno Jon soltou um suspiro de satisfao. -Que foi que voc viu em Glensonfantrim?
- S coisas bonitas, meu querido.
- A que  que chama coisas bonitas?
- A que  que eu chamo? Oh, Jon, isso  uma pergunta difcil:
- Eu, por exemplo, tambm posso ver coisas bonitas? A me ergueu-se e sentou-se ao lado dele.
- Voc v-as todos os dias. O cu  bonito, as estrelas, as noites de luar... os pssaros, as florestas, as rvores., tudo  bonito. Olhe pela janela... tudo isso 
no so coisas bonitas, Jon?
- Ah, sim. isso  a vista. E  s isso?
- S? No. O mar  maravilhosamente bonito, e as ondas, com a espuma a boiar sobre elas.
- Vocs levantavam-se cedo todos os dias para verem isso, mam?
A me sorriu.
- Sim, ns tomvamos banho.
O pequeno Jon aproximou-se subitamente e apertou-lhe o pescoo entre os braos.
- Eu sei - disse ele misteriosamente. - A coisa bonita era voc, e tudo o mais era imitao.
Ela suspirou e riu.
O pequeno Jon disse criticamente:
- Voc acha Bella bonita, por exemplo? Eu no acho.
- Bella  jovem. E isso j  muito.
- Pois a mam ainda parece mais jovem que ela. Ao p de si, a Bella tem de se esconder. Quando penso em Da, tambm no acho que ela seja bonita. E a mademoiselle 
 horrvel.
- A mademoiselle tem um rosto muito simptico.
- Oh. sim... simptico. Gosto dessas suas pequenas rugas. mama.
- Rugas?
O pequeno Jon ps um dedo no canto do olho dela.

344

- Oh, estas? Mas so uma marca da idade.
- Aparecem quando sorri.
- Mas marcam o rosto.
- Oh, gosto delas. Gosta de mim, mam:
- Eu? Gosto, gosto de voc, meu querido.
- Deveras?
- Deveras.
- Mais do que eu penso que voc gosta?
- Mais... muito mais.
- Eu tambm. Ento estamos iguais. - Consciente de que jamais na vida se entregara tanto, Jon sentiu uma sbita reaco viril de Sir Lamorac, Dick Needham, Huck 
Finn e outros heris. - Posso mostrar-lhe uma coisa? - disse ele, E, deslizando dos braos dela, ps-se de cabea para baixo. E ento, deslumbrado pela inequvoca 
admirao da me, foi at  cama, ergueu-se sobre a cabea, com os ps dobrados at s costas, sem tocar em nada com as mos. Fez isso vrias vezes.
Naquela noite, depois de inspeccionar o que eles haviam trazido, Jon sentou-se entre os dois ao jantar na mesa pequena que era usada quando estavam s os trs em 
casa. O pequeno sentia-se extremamente excitado. A me vestia um vestido francs, de seda cinzenta, com pequenas rosas de renda creme em torno do pescoo - que estava 
to moreno como a renda. E ps-se a olh-la, at que o curioso sorriso do pai o fez voltar-se, subitamente atento  sua fatia de anans. Nunca ficara acordado at 
to tarde, quando foram para a cama, A me subiu com ele. e jon despiu-se vagarosamente, para a reter junto de si. Quando finalmente j estava com o pijama vestido, 
disse:
- Prometa que s sai daqui depois de eu rezar.
- Prometo.
Ajoelhando e enterrando o rosto nos lenis, o pequeno Jon rezava rapidamente, abrindo de vez em quando um olho para a espiar e v-la de p. com um sorriso no rosto. 
"Padre Nosso - rezava ele. "que estais no Cu, santificada seja a mam, venha a ns o reino da mam - na Terra como no Cu -, mam nossa de cada dia nos dai hoje 
- perdoai as nossas dvidas, assim como ns perdoamos os nossos devedores... Ma-men! Pronto!"

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Ergueu-se de um pulo e por um longo minuto ficou nos braos dela. Depois, j deitado, continuou a segurar-lhe a mo.
- No vai fechar a porta mais do que est, pois no? No demora a vir dormir, mam?
- Vou um pouco l para baixo, tocar para o pap.
- Est bem, daqui eu ouo.
- No fique a ouvir.  melhor que durma.
- Posso dormir qualquer outra noite.
- Mas esta  uma noite igual s outras.
- Oh. no.  uma noite extra-especial.
- Nas noites extra-especiais a gente sempre dorme melhor.
- Porm, se eu dormir, mam, no posso ouvir quando subir a escada.
- Bem, quando eu subir, venho dar-lhe um beijo. Se no estiver a dormir, v-me, e, se estiver, de qualquer modo h-de saber que eu o beijei.
O pequeno Jon suspirou.
- Est bem - disse ele. - Mam?
- Sim?
- Como  o nome daquela mulher em que o pap acredita? Vnus Ana Diomedes?
- Oh, meu anjo! Vnus Anadiomene.
- Sim. Mas eu gosto mais do nome que lhe chamo.
- Qual  o nome que voc me chama, Jon? Jon respondeu timidamente:
- Guinevere!  a da Tvola Redonda! J tinha pensado muito nisso., mas ela usava o cabelo solto.
Os olhos da me, olhando para alm dele, pareciam flutuar em lgrimas.
- No se esquece de vir, mam?
- No esqueo, se voc dormir.
- Ento est fechado o negcio. - E o pequeno Jon cerrou os olhos.
Sentiu os lbios dela pousarem na sua testa, ouviu-lhe os passos, abriu os olhos para a ver deslizar atravs da porta aberta, e, suspirando, fechou de novo os olhos.
Ento o Tempo comeou.
I
Durante uns dez minutos, tentou lealmente dormir, contando todo um rebanho de ovelhas imaginrias - velha receita de Da para trazer o sono. Parecia-lhe que contava 
j havia horas. E pensava que j deveria ser tempo para ela subir de volta. Empurrou os lenis. "Estou com calor!", disse ele. E a sua voz soou engraada na escurido, 
como se fosse a voz de outra pessoa. Porque no subia ela? Sentou-se. Precisava de ver porqu. Levantou-se da cama, foi at  janela e empurrou a cortina para um 
lado. No estava escuro, e no poderia dizer se aquilo era luz do dia ou da Lua, que, alis, estava muito grande. E tinha uma cara cmica e m, e ele no queria 
olh-la. Depois, lembrando-se de que a me lhe dissera que as noites de luar so bonitas, continuou a olhar para tudo, indiscriminadamente. As rvores lanavam longas 
sombras, o campo parecia feito de leite derramado, e podia ver um grande e imenso caminho l muito longe, que parecia cobrir tudo - e tudo parecia diferente e flutuante.
Havia tambm um cheiro bom, que vinha atravs da janela aberta.
"Eu queria ter uma pomba, como No!", pensou ele.
The moon was round and bright
it shone and shone and made it light (1).
Depois desses versos, que lhe ocorreram de sbito, sentiu a presena da' msica - muito suave, linda! Era a mam a tocar! Apanhou um macaroon (2) que escondera numa 
das gavetas da cmoda, e, mordendo-o, voltou  janela. Trepou ao parapeito, ora mastigando, ora detendo as maxilas para escutar melhor. Da gostava de contar que 
os anjos tocam harpa no Cu. Porm, no haveria de ser nem metade to bonito como a mam a tocar na noite de luar, enquanto ele comia o seu macaroon. Um bicho zumbiu, 
uma mariposa roou-lhe o rosto. A msica parou, e o pequeno Jon ergueu a cabea para a noite. Ela j devia estar de volta. E ele no queria que ela o encontrasse 
desperto.

*1 A Lua era redonda e fulgente,
Brilhando, brilhando, tornava tudo luzente.
2. Macaroon - bolinho feito de farinha, ovos, amndoas e acar, (N. da T.)

346 - 347

Voltou para a cama e puxou os lenis at  cabea,embora continuando a ver uma rstia de luar que entrava no quarto. Caa atravs do soalho, junto aos ps da cama. 
e o pequeno espiava-a, caminhando lentamente em sua direco, como se estivesse viva. A msica recomeou, mas ele mal a ouvia, msica que embalava, linda, que embalava... 
linda... embal...
E adormeceu, enquanto a msica aumentava, caa, parava. O raio de luar subiu at ao seu rosto. O pequeno Jon virou-se e ficou deitado de costas, com o punho moreno 
ainda segurando o lenol. Os cantos dos seus olhos tremeram - comeara a sonhar. Sonhava que estava a beber leite de um vaso que era a Lua, defronte de um grande 
gato preto de sorriso engraado, semelhante ao seu pai. E ouvia-o sussurrar: "No beba de mais!" O leite era do gato.  claro, e ele estendeu amigavelmente a mo, 
para acariciar o bicho. Porm, aquilo no durou muito: o vaso transformou-se na cama em que estava deitado, e quando queria descer no conseguia encontrar o fim 
do colcho. No conseguia encontrar - no podia descer! Era vaporoso!
Choramingou, a dormir. A cama tambm comeara a rodar. girava por dentro, girava por fora. Girando, girando loucamente era a Velha Lee, sada do Perdidos no Mar, 
que o impulsionava! Oh! Como ela era horrorosa! Mais depressa, cada vez mais depressa! At que ele, a cama, a Velha Lee, a Lua e o gato formaram uma nica roda. 
girando, girando mais depressa, mais depressa - medonho - medonho - medonho!
Gritou.
Uma voz que dizia "Meu querido, meu querido" penetrou atravs da roda. e ele acordou, sentou-se na cama, com os olhos muito abertos.
Era a me, com os cabelos como a rainha Guinevere. E, agarrando-se a ela., Jon escondeu a face entre eles.
- Oh, oh!
- Est tudo bem, meu amor. Agora j acordou. Ento, ento' No foi nada!
Mas o pequeno Jon continuava a exclamar:
- Oh, oh!
E a voz dela elevou-se, aveludada, aos ouvidos do filho:

348

- Era o luar, queridinho... uma rstia de luar que subiu para o seu rosto.
O pequeno Jon segurou-a pela camisola.
- E disse que o luar era bonito... Oh!
- No para dormir dentro dele, Jon. Quem o deixou entrar? Foi voc que puxou as cortinas?
- Queria ver a noite. Eu... eu olhei para fora. . eu, mam. Comi o meu Macaroon... - Mas ia-se sentindo suavemente consolado, e o instinto de desculpar o seu medo 
reviveu dentro dele. - A Velha Lee veio para junto de mim e ps tudo a andar  roda - murmurou.
- Mas, Jon, que  que voc pode esperar seno isso, se vai comer macaroons depois de estar na cama?
- Foi s um, mam. E fez a msica ficar to bonita. Eu estava  sua espera. J estava a pensar que era de manh.
- Meu tontnho, so apenas onze horas.
O pequeno Jon ficou calado, enfiando o nariz no pescoo dela.
- Mam, o pap est no seu quarto?
- Esta noite no.
- Posso ir para l?
- Se quiser, meu amor.
Ainda pouco senhor de si, o pequeno Jon recuou.
- A mam est diferente. Est mais jovem.
-  porque estou com o cabelo solto, meu querido.
O pequeno Jon segurou aquela massa pesada, toda de ouro, com alguns fios de prata aqui e alm.
- Gosto de si assim. Gosto mais de si assim que de qualquer outra maneira.
E, segurando-lhe a mo, ps-se a pux-la atravs da porta. Quando a atravessaram, fechou-a com um suspiro de alvio.
- Qual  o lado da cama que prefere, mam?
- O lado esquerdo.
- Est bem.
Sem perder tempo, sem lhe dar uma oportunidade de mudar de ideia, o pequeno Jon pulou para a cama, que lhe parecia muito mais macia que a sua. Soltou novo suspiro, 
enterrou a cabea no Travesseiro, e ficou a ver a batalha de carros de guerra,

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espadas e lanas que a gente sempre descobre na superfcie dos cobertores quando os plos do tecido ficam contra a luz.
- No era nada de verdade, pois no? - perguntou.
Defronte do espelho, a me respondeu:
- NO! S o luar e a sua imaginao. No devia ser to excitvel, Jon.
Porm, sem estar ainda inteiramente de posse dos seus nervos, o pequeno Jon respondeu jactanciosamente:
- Eu no tive medo de verdade,  claro! - E continuou a espiar as lanas e os carros de guerra. A espera estava a parecer-lhe muito longa. - Oh, mam, venha depressa.
- Meu querido, tenho de entranar o cabelo.
- Oh, no esta noite. Amanh tem de destran-lo outra vez. Estou com sono agora. Se no vier, daqui a pouco estou sem sono.
A me ergueu-se e a sua imagem branca e linda reflectiu-se de p nos espelhos do toucador. Ele podia ver trs imagens dela. com o pescoo voltado, os cabelos a brilhar 
sob a luz, os olhos escuros sorrindo. Mas aquilo era desnecessrio, e ele insistiu:
- Venha, mam. Estou  espera.
- Est bem, meu amor. j vou.
O pequeno Jon fechou os olhos. Tudo estava a tornar-se mais satisfatrio, bastava apenas que ela se apressasse! Sentiu a cama ranger: ela deitava-se. E, ainda de 
olhos fechados, ele disse, sonolento:
- Est bem, no est?
Ouviu a voz da me dizer qualquer coisa, sentiu os seus lbios tocarem-lhe o nariz e, enroscando-se ao lado dela, que estava acordada e pensava amorosamente nele, 
caiu num sono sem sonhos, que o curava do sono anterior.


FIM DO SEGUNDO VOLUME


O nome de John Galsworthy era j mundialmente clebre e entre as suas obras j conhecidas figura, precisamente, A Famlia Forsyte, editada em todo o mundo como um 
"best-seller". O seu autor, galardoado com o Prmio Nobel, , pois, uma glria indiscutvel na literatura mundial, e a base do seu talento, na apreciao de Joseph 
Conrad, "est no seu poder de introspeco irnica, combinada com um olhar extremamente penetrante e fiel para todos os fenmenos da vida externa das suas personagens. 
Esses so os poderes da sua imaginao, cujo servo  um estilo claro, directo, so, iluminado por uma sinceridade inteiramente despida de afectao.  o estilo de 
um homem cuja simpatia pelo gnero humano  por de mais genuna para lhe permitir qualquer complacncia com a prpria vaidade,  custa dos seus semelhantes... e 
suficientemente aguado para levar bem fundo a sua ironia impiedosa, e grave bastante para representar o digno veculo da sua profunda compaixo".
Estes ingredientes bastariam para celebrizar um romancista, e por isso Joseph Conrad o assinalou. Mas, como se isso no bastasse, a televiso veio apropriar-se dessa 
obra e apresent-la em novos parmetros.
Crnica familiar intensamente dramtica, A Famlia Forsyte constitui um xito sem precedentes nos pases em que foi adaptada para a televiso: nada menos que 55! 
Na Inglaterra, Frana, Espanha, Itlia e Rssia, por cinco vezes esteve presente no vdeo para empolgar milhes de telespectadores. Em Portugal, ser igualmente 
apresentada na Radioteleviso Portuguesa, e certamente ir empolgar tambm o pblico portugus. O seu valor literrio, porm, nem por isso  menor: pelo contrrio, 
o confronto permite fazer ressaltar os mltiplos valores que impem este romance  admirao universal.


Data da Digitalizao


Amadora, Julho de 2005
